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Vale tudo pelo sonho

Adônis Matos


Africano que chegou de navio com o objetivo de ser jogador, Mohamed Camara agora faz bico como guia, treina MMA e quer brilhar no UFC

O jovem guineense Mohamed Camara, de 17 anos, cruza o Oceano Atlântico em navio de bandeira italiana para realizar um sonho: ser jogador de futebol. Antes dele, outros três de mesmo nome, origem e destino tentaram o mesmo feito: viajar clandestinamente da Guiné até o Brasil no porão de um navio.
Um foi jogado ao mar no litoral do Espírito Santo e resgatado por pescadores. Dois foram deportados em Pernambuco. Apenas um, conhecido agora como Lamo Mohamed Camara, conseguiu ficar.
Quando chegou a Salvador, a primeira frase que ouviu em português foi “Tudo bem, beleza?”, dita por um policial federal, no dia 14 de fevereiro de 2009. Do Brasil só conhecia Kaká, Ronaldo e Robinho. Também não sabia que aqui era considerado adolescente, pois na Guiné maiores de 13 anos já são adultos.
Quatro dias depois, calçou chuteiras pela primeira vez e foi fazer teste no Bahia. Acabou reprovado: “Falta de habilidade, pouca intimidade com a bola, rigidez e inflexibilidade, nenhuma noção de posicionamento em campo”, relatou Sérgio Moura, então treinador do time sub-20.
Mas havia outros desafios pela frente. Mesmo protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a deportação era iminente. O advogado Arthur Guimarães, considerado por Mohamed hoje a pessoa mais importante da sua vida, foi o representante de Antônio Carlos dos Santos, o ‘Vovô do Ilê’, que tutelou o jovem e garantiu a permanência dele no país como refugiado político.

Lamo Mama África - Após a reprovação no Bahia, Mohamed insistiu no futebol e treinava no time da Associação de Bancários da Bahia (ABB), em Simões Filho. Mas foi assistindo às lutas de UFC com o amigo Vinícius Lima que Mohamed descobriu uma nova paixão. “Amo lutar mais do que futebol”, afirma.
Trocou o gramado pelo futebol em 2011, quando começou a treinar na academia Champion, comandada por Luiz Dórea, ex-treinador de Popó e Júnior Cigano. Causou uma boa impressão: “Assimila as técnicas com facilidade. Nasceu para a luta, é destemido, gosta de desafios. Chegou, aprendeu boxe rápido, passou para o jiu-jítsu, iniciando no MMA, e, quando entrou no octógono, parecia veterano”, avalia Dórea.

Na Champion, Mohamed passou a ser chamado pelos colegas de Lamo Mama África. Os novos ídolos são Júnior Cigano e Anderson Silva. Lamo é um apelido de infância. “Recebi esse apelido por ser muito brigão e arranjar confusão na rua”, explica Mohamed, hoje com 23 anos e vivendo no Brasil há seis.
A estreia como lutador profissional de MMA ainda não aconteceu. Estava prevista para julho, mas, uma semana antes da luta, Mohamed sofreu uma contusão no ombro esquerdo durante um treinamento. O jovem lutador ainda aguarda a cirurgia e continua a sonhar alto. “Eu quero ser campeão, lutar no UFC, ser conhecido em todo o mundo. Quero que olhem e digam: é aquele menino guineense”.

Mesmo muçulmano, namoro começou durante o ramadã

Mohamed é muçulmano, como a maioria da população na Guiné, e diz ter muita fé. A tasbih, espécie de terço muçulmano, está sempre no pescoço. “Eu confio muito em Deus, graças a Ele sempre encontro muitas pessoas boas”.
Lidiane Menezes pode ser considerada uma dessas pessoas. Namorada de Mohamed há cinco meses, ela lembra de como se conheceram através de amigos. “Estávamos no Pelourinho, era São João e alguém falou ‘ele é aquele do navio’".

Eu acompanhei o caso pela TV e na hora me surpreendi”, diz Lidiane. Para Mohamed, ela tomou a iniciativa: “Foi mais ousada”. Lidiane replica: “Quando nós nos conhecemos, foi no mês do ramadã e você quebrou”.
Ramadã é o mês sagrado no qual o muçulmano deve abster-se de comida, bebida e outros prazeres, do levantar ao pôr do sol. “Mas já era noite”, defende-se Mohamed, derretendo-se em elogios. “Passamos muito tempo juntos. Pode-se dizer que moramos juntos, ela é uma pessoa muito carinhosa”.

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