{"id":9590,"date":"2017-01-28T11:06:50","date_gmt":"2017-01-28T14:06:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/?p=9590"},"modified":"2017-01-30T14:49:51","modified_gmt":"2017-01-30T17:49:51","slug":"eu-nao-me-sentia-nem-homem-e-nem-mulher-diz-ceu-rocha-pessoa-nao-binaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/eu-nao-me-sentia-nem-homem-e-nem-mulher-diz-ceu-rocha-pessoa-nao-binaria\/","title":{"rendered":"&#8220;Eu n\u00e3o me sentia nem homem e nem mulher&#8221;, diz C\u00e9u Rocha, pessoa n\u00e3o-bin\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>*Por C\u00e9u Rocha<\/p>\n<p>Bom\u00a6 foi dif\u00edcil escrever esse texto.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que falo sobre isso abertamente, muitos amigos v\u00e3o ficar sabendo atrav\u00e9s dessa publica\u00e7\u00e3o. Eu t\u00f4 muito nervosa. Quando eu escrevi n\u00e3o sabia nem como come\u00e7ar. Exitei muito antes de postar, mas sinto que est\u00e1 mais que na hora.<\/p>\n<p>Eu gostaria de falar sobre minha identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a, imaginava que quando eu crescesse seria uma menina. Eu me imaginava com seios, cabelo grande, vestindo roupas lindas (consideradas femininas) e com uma linda maquiagem. Eu at\u00e9 imaginava como seria meu nome de menina\u009d.<\/p>\n<p>Mas nessa mesma \u00e9poca, eu ouvia coisas horr\u00edveis sobre essas pessoas, pessoas que nasciam meninos mas se transformavam em meninas, assim era como eu entendia. Travecos\u009d, era isso que me diziam que essas pessoas eram, logo em seguida vinham as associa\u00e7\u00f5es com prostitui\u00e7\u00e3o, promiscuidade e outras coisas consideradas abomin\u00e1veis pela sociedade.<\/p>\n<p>Eu fui crescendo e com o passar do tempo fui esquecendo esses pensamentos. Eu n\u00e3o pensava mais que seria uma menina quando eu crescesse.<\/p>\n<p>Me envolvi com o cristianismo e me afundei em um mar de ignor\u00e2ncia, perdendo-me, esquecendo de me conhecer. Para mim, naquela \u00e9poca, n\u00e3o tinha porqu\u00ea me conhecer j\u00e1 que havia um livro que dizia tudo que eu era.<\/p>\n<p>Depois de anos em total escurid\u00e3o, achando que estava em luz, eu consegui aceitar uma parte de mim. Eu me reconheci como gay.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, come\u00e7ou o meu processo de desconstru\u00e7\u00e3o, de me conhecer e de me aprofundar na milit\u00e2ncia LGBT+. Depois de 18 anos, eu comecei a me reconhecer. 18 longos anos de inaceita\u00e7\u00e3o, ofensas, l\u00e1grimas e outras coisas horr\u00edveis.<\/p>\n<p>Eu comecei a aprender que aquele desejo de usar coisas femininas e performar feminilidade n\u00e3o era algo \u00fanico das mulheres, existiam homens que tamb\u00e9m faziam isso, e eles podiam fazer isso, pois feminilidade n\u00e3o pode ser associada apenas \u00e0 \u00a0 mulher, assim como masculinidade n\u00e3o deve ser associada apenas ao homem.<\/p>\n<p>Eu entendi que n\u00e3o precisava ser uma mulher para usar e fazer coisas contidas na caixinha das meninas\u009d. Comecei a pensar que era um homem feminino, durante muito tempo achei isso e me afirmei dessa maneira. At\u00e9 ent\u00e3o me sentia contemplado por essa concep\u00e7\u00e3o. Estava convicto.<\/p>\n<p>Mas, por dentro, eu ainda me sentia incomodado com isso. Eu n\u00e3o entendia o porqu\u00ea, mas sempre me incomodei em ser chamado de homem, em ser visto como homem. Eu n\u00e3o conseguia me identificar com esse g\u00eanero que me impuseram assim que eu dei o primeiro choro ao sair da barriga da minha m\u00e3e. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o era mulher. Eu n\u00e3o conseguia me enxergar dentro desse g\u00eanero. N\u00e3o tinha vontade nenhuma de me hormonizar ou transicionar para me assemelhar ao corpo feminino, apesar de que n\u00e3o acredito que ser mulher se resuma a isso. Eu estava bem com o meu corpo.<\/p>\n<p>Me sentia completo quanto \u00e0 \u00a0 minha sexualidade, mas n\u00e3o me sentia completo quanto ao meu g\u00eanero. Minha vontade era de gritar.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, eu conheci a n\u00e3o-binaridade. Pra quem n\u00e3o conhece essa identidade de g\u00eanero, n\u00e3o-bin\u00e1rias s\u00e3o as pessoas que n\u00e3o se identificam com os g\u00eaneros bin\u00e1rios constru\u00eddos socialmente, o t\u00e3o conhecido homem\u009d e mulher\u009d. Por\u00e9m, existem outras in\u00fameras performances dentro dessa identidade, cada pessoa NB tem a sua viv\u00eancia singular, n\u00e3o existe um padr\u00e3o. Convido \u00e0 \u00a0queles que desejam se aprofundar, a conhecerem a Teoria Queer, que prop\u00f5e esse debate de forma mais incisiva.<\/p>\n<p>Eu comecei a perceber que me sentia contemplado por essa identidade, pois eu n\u00e3o me sentia nem homem e nem mulher. Eu me sentia muito mais que isso. Eu sentia como se eu transcendesse esses dois g\u00eaneros. O que me fez entender os meus pensamentos de crian\u00e7a (a vontade de performar feminilidade), a minha estranheza \u00e0 \u00a0 associa\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero masculino e a minha n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero feminino. Era como se uma luz tivesse me mostrado a dire\u00e7\u00e3o certa, sabe.<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil pra mim chegar a essa conclus\u00e3o, eu lutei muito comigo mesmo.<\/p>\n<p>Antes de entender isso, eu relutei bastante, cheguei at\u00e9 a rejeitar a Teoria Queer, a zombar de pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, a brincar com a linguagem neutra como se isso fosse o cumulo do absurdo.<\/p>\n<p>Julguei o Queer como academicista, e s\u00f3 depois entendi que se quest\u00f5es b\u00e1sicas de sexualidade e g\u00eanero n\u00e3o eram debatidas nas escolas e n\u00e3o eram conhecidas pela popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem acesso ao ambiente acad\u00eamico, imagina quest\u00f5es mais complexas como a n\u00e3o-binaridade que mexe com uma estrutura constru\u00edda e mantida firme h\u00e1 mil\u00eanios. G\u00eanero e sexualidade continuar\u00e3o sendo um tabu at\u00e9 que cheguem na base da sociedade.<\/p>\n<p>Achava que n\u00e3o-binaridade era algo fict\u00edcio, que s\u00f3 existia na cabe\u00e7a das pessoas, mas cada vez que via uma pessoa n\u00e3o-bin\u00e1ria coexistindo ao meu lado ou atr\u00e1s de uma tela digital compartilhando sua viv\u00eancia comigo, questionava esses pensamentos.<\/p>\n<p>Cada vez que eu olhava pra dentro de mim e pensava Meu Deus, o que eu sou?\u009d, questionava todos esses pensamentos. Foi muito complicado aceitar que eu poderia ser uma pessoa n\u00e3o-bin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Comecei a pensar que todos ririam de mim se eu afirmasse isso, que as pessoas iriam me julgar porque passei tanto tempo me afirmando como homem, pensava que at\u00e9 mesmo meus melhores amigos iriam me julgar.<\/p>\n<p>Pensei na possibilidade das pessoas acharem que eu estava seguindo uma modinha ou que estava me identificando como n\u00e3o-bin\u00e1rie porque gostava de usar saia e passar batom \u201c definitivamente, n\u00e3o. Identidade de g\u00eanero \u00e9 o que h\u00e1 dentro de mim, como me identifico e n\u00e3o as roupas que visto ou como performo meu g\u00eanero, as duas coisas est\u00e3o associadas sim, mas n\u00e3o se resumem a isso. Express\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 diferente de identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Tudo isso e muito mais veio \u00e0 \u00a0 minha mente. Um turbilh\u00e3o de pensamentos.<\/p>\n<p>At\u00e9 que eu decidi que n\u00e3o ia mais ficar lutando contra algo que eu sou, me anulando porque X pessoas poderiam me julgar, porque X pessoas acham que meu g\u00eanero n\u00e3o existe e n\u00e3o passa de uma modinha com o objetivo de ganhar likes nas redes sociais e pagar de pica da desconstru\u00e7\u00e3o. Se eu fizesse isso, s\u00f3 estaria repetindo algo que fiz durante meus 18 anos, s\u00f3 que agora com minha identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Eu prefiro ser feliz comigo mesmo, me entender e saber que eu existo junto com outras milhares de pessoas, do que ficar a minha vida toda afirmando ser algo que n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>A minha busca pelo autoconhecimento n\u00e3o para por aqui, como sempre digo, eu evoluo a cada hora, a cada novo aprendizado. Seria lindo se todos fossem assim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Termino esse texto desejando que todas as manas n\u00e3o-bin\u00e1rias possam ser respeitadas, aceitas e vistas como pessoas que existem.<\/p>\n<p>Vivemos em um mundo t\u00e3o agressivo que a cada minuto mata pessoas que n\u00e3o se encaixam nos padr\u00f5es estabelecidos por ele. Que pelo menos a comunidade LGBT+ seja um ref\u00fagio seguro para todes.<\/p>\n<p>Obrigado por ler tudinho. Um beijo no cora\u00e7\u00e3o. \u00e2\u009d\u00a4<\/p>\n<p>E antes que me perguntem, n\u00e3o me importo com pronomes de tratamento, o importante mesmo \u00e9 o respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*C\u00e9u Rocha \u00e9 estudante de jornalismo, tem 19 anos, \u00e9 n\u00e3o-bin\u00e1rio e escreve no blog <a href=\"http:\/\/19 anos, n\u00e3o-bin\u00e1rio, pansexual, soteropolitano, estudante de Jornalismo, adora sorvete de chocolate e \u00e9 apaixonado por piadinhas sem gra\u00e7a (t\u00edpico de quem tem lua em sagit\u00e1rio).\">N\u00e3o Fale Grosso<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por C\u00e9u Rocha Bom\u00a6 foi dif\u00edcil escrever esse texto. \u00c9 a primeira vez que falo sobre isso abertamente, muitos amigos v\u00e3o ficar sabendo atrav\u00e9s dessa publica\u00e7\u00e3o. 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