{"id":9463,"date":"2017-01-27T22:08:18","date_gmt":"2017-01-28T01:08:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/?p=9463"},"modified":"2024-11-04T08:58:35","modified_gmt":"2024-11-04T11:58:35","slug":"meu-filho-e-trans-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/meu-filho-e-trans-e-agora\/","title":{"rendered":"Meu filho \u00e9 trans: e agora?"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e3e, pai, n\u00e3o tem motivo pra se desesperar. Primeiro porque ser trans n\u00e3o \u00e9 algo ruim: o problema \u00e9 a disforia de g\u00eanero, que \u00e9 o sofrimento\u00c2\u00a0com o corpo e a identidade atribu\u00edda no nascimento.\u00c2\u00a0Ainda de acordo com o m\u00e9dico Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulat\u00f3rio de Transtorno de Identidade de G\u00eanero e Orienta\u00e7\u00e3o Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), outra quest\u00e3o \u00e9 n\u00e3o se precipitar. &#8220;N\u00e3o d\u00e1 pra falar que crian\u00e7as s\u00e3o trans. D\u00e1 para dizer que elas t\u00eam uma quest\u00e3o de g\u00eanero ou, se n\u00e3o for isso, que elas vivem uma fantasia. Temos que ter cuidado para n\u00e3o fazer diagn\u00f3stico precoce inadequado. As coisas devem ocorrer no tempo da crian\u00e7a, e n\u00e3o no dos pais&#8221;, afirma o psiquiatra.<\/p>\n<div id=\"attachment_9490\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9490\" class=\"wp-image-9490 size-large\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-1024x683.jpg\" alt=\"IMG_5871\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-219x146.jpg 219w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-50x33.jpg 50w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_5871-113x75.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-9490\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Gabriel\u00c2\u00a0Rocha, menino trans de 13 anos: a m\u00e3e, Joana, apoia a felicidade do filho<\/strong>\u00c2\u00a0(foto: Car\u00f3 Dire\u00e7\u00e3o de Arte)<\/p><\/div>\n<p>Foi o\u00c2\u00a0caso de Joana Rocha*, 35, m\u00e3e de Gabriel* de 13. &#8220;Num belo dia de\u00c2\u00a0janeiro do ano passado eu recebi\u00c2\u00a0uma carta, na qual ele me contava que n\u00e3o era quem todo mundo pensava: que \u00e9 um menino. Ele estava se apresentando pra mim. Eu n\u00e3o desconfiava de nada. Pra mim, era uma garota normal, ativa, que gostava tanto de coisas ditas masculinas quanto das ditas femininas. Depois passou um filme em minha cabe\u00e7a e tentei rememorar coisas, tentar ver o que eu n\u00e3o havia enxergado. A gente fica tentando reconstituir, mas n\u00e3o tem o que reconstituir: \u00e9 a hist\u00f3ria do sujeito&#8221;, pontua Joana.<\/p>\n<p>Uma vez detectada essa quest\u00e3o, o neg\u00f3cio \u00e9 orientar, principalmente a fam\u00edlia. &#8220;Os pais\u00c2\u00a0n\u00e3o s\u00e3o culpados de nada, pois simplesmente n\u00e3o h\u00e1 do que ter culpa. Ningu\u00e9m fez nada de errado com aquela crian\u00e7a: aquilo \u00e9 da base biol\u00f3gica dela e ela precisa ter aquela viv\u00eancia em seu desenvolvimento. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de escolha, tampouco moda&#8221;, diz Alexandre. Segundo ele, entre os 2 e os 6 anos, o diagn\u00f3stico \u00e9 bem dif\u00edcil, por ser um per\u00edodo de fantasia e experimenta\u00e7\u00e3o do universo. Dos 6 aos 9, a crian\u00e7a come\u00e7a a ter mais contato com as repress\u00f5es do ambiente, da escola, dos pais, das outras crian\u00e7as&#8230; De 10 a 12 anos vem\u00c2\u00a0a preocupa\u00e7\u00e3o com a altera\u00e7\u00e3o\u00c2\u00a0corporal por conta da chegada da puberdade e das mudan\u00e7as nos corpos dos amigos. &#8220;A\u00ed come\u00e7a uma viv\u00eancia realmente muito conflituosa para quem tem uma quest\u00e3o de g\u00eanero. Dos adolescentes que buscam o ambulat\u00f3rio, mais de\u00c2\u00a090% realmente s\u00e3o transexuais e mant\u00eam o diagn\u00f3stico inicial&#8221;, conta o psiquiatra.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/para-ser-uma-pessoa-trans-ou-travesti-precisa-fazer-cirurgia\/#sthash.Spt36nol.dpuf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Acesse o conte\u00fado completo do especial Identidade Trans<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Nem todas as pessoas trans t\u00eam a sorte de encontrar uma m\u00e3e como Joana, que\u00c2\u00a0cursa Psicologia, trabalhou 10 anos com psican\u00e1lise e \u00e9 cantora. Sens\u00edvel\u00c2\u00a0e preocupada com a felicidade do filho, quando solicitado que escrevesse um artigo para nossa s\u00e9rie, ela respondeu com um pequeno poema, elaborado alguns dias antes. &#8220;Por nove meses eu disse: quero \u00e9 que venha com sa\u00fade. Por minha vida eu digo: eu quero \u00e9 que viva com sa\u00fade&#8221;, <a href=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/por-9-meses-eu-disse-quero-e-que-venha-com-saude-por-minha-vida-eu-digo-eu-quero-e-que-viva-com-saude-diz-mae-de-menino-trans-de-13-anos\/\">escreveu ela<\/a>.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o*, 24, viveu situa\u00e7\u00f5es mais tensas. &#8220;Foi bem dif\u00edcil. Meu pai disse que tinha vergonha de mim. Depois disso, n\u00e3o nos falamos mais, n\u00e3o existe mais uma rela\u00e7\u00e3o. Minha m\u00e3e tem depress\u00e3o e iniciou uma crise grave. Mas hoje est\u00e1 mais tranquila&#8221;, relembra o historiador.<\/p>\n<p>O apoio da m\u00e3e foi de grande import\u00e2ncia na vida de Gabriel na escola. &#8220;A parte mais complicada foi garantir os direitos dele por l\u00e1. O menino\u00c2\u00a0estava sem\u00c2\u00a0usar o banheiro.\u00c2\u00a0Foi duro ver que os\u00c2\u00a0colegas j\u00e1 conviviam com isso bem, mas que os adultos ainda o chamavam pelo nome antigo. Ainda teve a situa\u00e7\u00e3o de uma orientadora t\u00ea-lo chamado no canto para repreend\u00ea-lo. Escrevi uma autoriza\u00e7\u00e3o para\u00c2\u00a0o nome e exigi que ele pudesse ter acesso ao banheiro.\u00c2\u00a0Tive reuni\u00e3o com diretor, orientador&#8230;&#8221;, conta Joana. De acordo com ela, depois da revela\u00e7\u00e3o, o menino ficou at\u00e9 mais tranquilo. &#8220;Ele era bem agitado. Por anos eu recebi queixas na escola. Sempre tinha muita. Depois\u00c2\u00a0dessa declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teve mais&#8230; Ele foi da \u00e1gua pro vinho. Era uma inquieta\u00e7\u00e3o da pessoa, acho que uma luta&#8221;, pondera ela.<\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico, carinho e\u00c2\u00a0compreens\u00e3o da fam\u00edlia, juntamente com o acompanhamento psicol\u00f3gico, s\u00e3o fundamentais para o bem estar das crian\u00e7as e adolescentes\u00c2\u00a0trans. &#8220;At\u00e9 o in\u00edcio da puberdade, tudo que se pode fazer \u00e9 aten\u00e7\u00e3o dos pais e psicoterapia. O Conselho Federal de Medicina estipula 18 anos como idade m\u00ednima para hormonioterapia e 21 anos pra cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual. H\u00e1 uma nova resolu\u00e7\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o e eu tor\u00e7o para que ela inclua crian\u00e7as e adolescentes&#8221;, declara Alexandre.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da inclus\u00e3o de tratamentos para essa popula\u00e7\u00e3o no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) vai al\u00e9m do \u00f3bvio &#8211; sa\u00fade \u00e9 um direito humano e constitucional &#8211; e leva a uma quest\u00e3o de longo prazo. &#8220;Acompanhar, orientar a fam\u00edlia e a escola evitam que um adulto tenha complica\u00e7\u00f5es como depress\u00e3o, abuso de drogas e transtorno de personalidade, que s\u00e3o enfermidades comuns em cerca de 70% dessa popula\u00e7\u00e3o adulta. Quando h\u00e1\u00c2\u00a0acompanhamento na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, conseguimos\u00c2\u00a0mudar a vida dessas pessoas. Fazer interven\u00e7\u00f5es cab\u00edveis no tempo correto diminui custos, drama e necessidade de grandes interven\u00e7\u00f5es na vida adulta&#8221;, explica o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Se acessar a Justi\u00e7a para obter a retifica\u00e7\u00e3o do nome em documentos s\u00f3 \u00e9\u00c2\u00a0poss\u00edvel quando a pessoa completa 18 anos, h\u00e1 outras medidas para suavizar o sofrimento dos jovens. Um decreto assinado pela ex-presidenta Dilma Rousseff que est\u00e1 em vigor desde o ano passado em todo Brasil determina que a pessoa travesti ou transexual poder\u00e1 requerer, a qualquer tempo, a inclus\u00e3o de seu nome social em documentos oficiais e nos registros dos sistemas de informa\u00e7\u00e3o, de cadastros, de programas, de servi\u00e7os, de fichas, de formul\u00e1rios, de prontu\u00e1rios e cong\u00eaneres dos \u00f3rg\u00e3os e das entidades da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica federal direta, aut\u00e1rquica e fundacional\u009d. Apesar disso, tramita na C\u00e2mara Federal, desde maio do ano passado, um projeto de lei que deseja suspender o direito de transexuais e travestis. A iniciativa leva assinatura de um grupo de 28 deputados, entre eles a baiana Tia Eron e o pastor Marco Feliciano.<\/p>\n<p><em>*Nomes fict\u00edcios de pessoas que preferiram n\u00e3o ser identificadas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e3e, pai, n\u00e3o tem motivo pra se desesperar. 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