{"id":9255,"date":"2017-01-27T17:06:09","date_gmt":"2017-01-27T20:06:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/?p=9255"},"modified":"2017-01-28T12:58:41","modified_gmt":"2017-01-28T15:58:41","slug":"martinha-60-anos-e-a-rara-terceira-idade-das-travestis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/martinha-60-anos-e-a-rara-terceira-idade-das-travestis\/","title":{"rendered":"Martinha: 60 anos e a rara terceira idade das travestis"},"content":{"rendered":"<p>Com olhos atentos e lacrimejados Marta Maria de S\u00e1, travesti soteropolitana de 60 anos, contemplava do alto do Pelourinho as ru\u00ednas do antigo casar\u00e3o onde morava. Al\u00e9m de um espa\u00e7o acolhedor, onde pretendia descansar das mazelas que rodearam sua vida, Martinha perdeu tamb\u00e9m um sonho que foi constru\u00eddo com muitas dores e frustra\u00e7\u00f5es, e junto com ele a esperan\u00e7a de um dia ser plenamente feliz.<\/p>\n<p>Nascida em 1956, em uma casa na Pra\u00e7a Jos\u00e9 de Alencar, no Pelourinho, a estadia de Martinha perto de sua fam\u00edlia n\u00e3o durou muito. Aos 7 anos de idade, ela vestia-se com trajes femininos e aproveitava seu cabelo liso para simular franjas e toc\u00e1-lo delicadamente, como as mulheres faziam. Enquanto a pr\u00e1tica era entendida pelo pai de forma indiferente, na m\u00e3e despertava uma f\u00faria intensa: Prefiro ter filho bandido a ter filho pederasta\u009d, ela dizia.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o n\u00e3o se restringia ao ambiente familiar, na escola, sofria com as palavras violentas ditas pelos colegas de classe: Sai daqui, viadinho\u009d,  Sua bicha\u009d, Vai, baitola!\u009d. Al\u00e9m disso, a dire\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o permitia que um garoto com comportamento t\u00e3o feminino permanecesse frequentando as aulas, seria uma influ\u00eancia negativa. Com esse argumento, Marta foi expulsa do Col\u00e9gio Azevedo Fernandes, tamb\u00e9m no Pelourinho, e n\u00e3o desejou nunca mais estar em um lugar onde n\u00e3o poderia ser ela mesma.<\/p>\n<p>Os terrores de casa ficavam mais intensos, as ofensas se transformavam em amea\u00e7as cru\u00e9is. A jovem Martinha dormia com medo de ser atacada por uma inje\u00e7\u00e3o de estricnina (veneno para rato), como sua m\u00e3e lhe prometia repetidamente. A ang\u00fastia do ambiente dom\u00e9stico fez com que aos 12 anos Marta sa\u00edsse de casa e fosse tentar a vida nas ruas. Sem ter o que comer e onde dormir, sentava nas escadarias do Terreiro de Jesus e chorava aguardando por ajuda, que raramente aparecia.<\/p>\n<p>Sem op\u00e7\u00e3o, procurou emprego em casas de fam\u00edlia, mas a humilha\u00e7\u00e3o parecia lhe perseguir. Era obrigada a levantar de madrugada para preparar o caf\u00e9 sendo o tempo inteiro desmoralizada pela sua condi\u00e7\u00e3o de travesti, tudo isso por um prato de comida ao dia e um canto para dormir. Revoltada, Marta retornou para as ruas a procura de algum destino.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi encontrada nos prost\u00edbulos da Ladeira do Mijo, no Centro Hist\u00f3rico. L\u00e1 ela se abrigava junto a outras travestis e foi introduzida na atividade da prostitui\u00e7\u00e3o. O primeiro cliente era um doutor muito rico que atendia no \u00faltimo andar do edif\u00edcio A Tarde. Sem vergonha ou qualquer apreens\u00e3o, Martinha entrou na sala que ficava em um dos \u00faltimos andares do pr\u00e9dio. Foi tratada como uma convidada, os dois se olharam intensamente, e at\u00e9 conversaram sobre o dia a dia, Como voc\u00ea est\u00e1? \u009d, ele perguntou. Marta respondeu dizendo que estava bem, mas sabia que n\u00e3o estava ali para conversar. Sem querer perder tempo, se aproximou daquele corpo que aparentava ter cerca de 40 anos e fez o seu trabalho. Recebeu 500 cruzeiros com tanta felicidade que at\u00e9 riu ao contar, <strong>Na primeira vez \u00e9 tudo muito bom n\u00e9? Eu n\u00e3o tive medo da dor nem de ser maltratada, estava precisando muito e ele parecia ter bastante dinheiro. Ocorreu tudo bem, eu fiz minha parte, e ele fez a dele, mas n\u00e3o imaginei que nem sempre seria assim<\/strong>\u009d, declarou.<\/p>\n<p>O mundo das meretrizes estava longe de ser o que Martinha tinha idealizado. Os clientes n\u00e3o pagavam t\u00e3o bem e nem sempre havia espa\u00e7o para todas. Em cada ponto das ruas, havia uma cafetina diferente, que organizava a distribui\u00e7\u00e3o das prostitutas no espa\u00e7o. Era necess\u00e1rio pagar uma taxa a elas para permanecer no local. Quando o pagamento n\u00e3o acontecia, tinha de se retirar rapidamente do ponto, pois corria risco de tomar doce\u009d (espancamento feito por v\u00e1rias pessoas). V\u00e1rias vezes alguns clientes se recusavam a pagar, quando cobrados faziam amea\u00e7as de morte. Mesmo com essas dificuldades, com muita perseveran\u00e7a ela permaneceu no ramo durante anos, entregando seu corpo para homens carinhosos, homens violentos, ladr\u00f5es e uma enorme variedade de \u00edndoles e personalidades. O importante era ter dinheiro para se sustentar.<\/p>\n<p>Com a queda de Jo\u00e3o Goulart e institui\u00e7\u00e3o do regime militar em 1964, a l\u00f3gica policial passava a ser pautada no que era considerado como bons costumes sociais. Nem as travestis, nem a prostitui\u00e7\u00e3o encontravam-se enquadradas nisso. Durante o per\u00edodo da ditadura militar, uma onda de ca\u00e7a \u00e0 \u00a0s travestis tinha sido iniciada. Marta e suas colegas de trabalho fugiam da pol\u00edcia quase todas as noites, mas quando n\u00e3o eram r\u00e1pidas o suficiente, acabavam sendo levadas para um casar\u00e3o abandonado no bairro de Stella Maris, onde eram espancadas, abusadas sexualmente e humilhadas.<\/p>\n<blockquote><p><strong> Marta afirma que foi presa mais de 200 vezes durante o regime. Era levada para a Delegacia de Jogos e Costumes, no Centro Hist\u00f3rico. A delegacia era respons\u00e1vel por punir todas as pessoas que praticavam atividades consideradas como ofensivas aos valores da fam\u00edlia tradicional. Praticantes de candombl\u00e9 e umbanda, por exemplo, eram constantemente aprisionados l\u00e1.\u00c2\u00a0<\/strong><strong>Quando pega pol\u00edcia, al\u00e9m de apanhar, Marta era obrigada a fazer servi\u00e7os de limpeza nas celas, tirar toda a maquiagem, remover o esmalte das unhas com tampinhas de cerveja long-neck e voltar para casa feito homem. Muitas vezes, mesmo sem estar trabalhando nas ruas, a casa de Marta era invadida pelos militares durante a madrugada e a levavam para fazer faxinas na cadeia.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Com hematomas na cabe\u00e7a e na perna, o corpo de Martinha guarda at\u00e9 hoje as cicatrizes da tortura policial. Nos pulsos, as marcas de cortes relembram os momentos de quando era esquecida nas celas por dias, sem alimento, e precisava se cortar com as giletes que escondiam na boca. As giletes eram utilizadas como um instrumento de defesa contra clientes agressivos. O objetivo da automutila\u00e7\u00e3o era chamar a aten\u00e7\u00e3o dos policiais e ser transferida a um posto de emerg\u00eancia, de l\u00e1, ela finalmente conseguiria retornar para casa. As palavras proclamadas ainda soam em nos ouvidos de Martinha: Voc\u00ea \u00e9 viado! J\u00e1 viu viado ter vez? Voc\u00eas levantam falsa bandeira!\u009d, gritavam os militares.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/amigas-fazem-bolao-para-ajudar-mulher-a-fazer-cirurgia-na-tailandia\/#sthash.znc4FoJe.dpuf\" target=\"_blank\">Confira o especial Identidade Trans e saiba mais sobre pessoas transexuais e travestis\u00c2\u00a0<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o final da ditadura, o sol da democracia n\u00e3o brilhou t\u00e3o forte para o p\u00fablico LGBT. O in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 estava marcado pela descoberta da AIDS, que no momento era conhecida como peste gay. Martinha relata que n\u00e3o podia andar tranquilamente nos lugares p\u00fablicos sem que as pessoas come\u00e7assem a gritar AIDS\u009d histericamente e rissem dela. Nos \u00f4nibus, ela sentava nos bancos mais discretos, durante o percurso permanecia de cabe\u00e7a baixa para que n\u00e3o fosse identificada como travesti e logo em seguida expulsa do coletivo, como normalmente acontecia.<\/p>\n<p>No entanto, o temor do HIV e sua associa\u00e7\u00e3o com as travestis foi utilizado tamb\u00e9m como uma nova forma de prote\u00e7\u00e3o. Toda vez que algu\u00e9m tentava agredir as travestis elas mordiam as giletes e sangravam demasiadamente. O medo do sangue contaminado\u009d desesperava os agressores e fazia com que eles fugissem.<\/p>\n<p>Durante boa parte de sua vida se sustentou ganhando dinheiro, atrav\u00e9s da prostitui\u00e7\u00e3o e morando de aluguel. Ao v\u00ea-se envelhecendo sentiu a necessidade de garantir um lugar para que passasse os \u00faltimos anos de sua vida em paz, o sonho de ter seu pr\u00f3prio casar\u00e3o nascia da vontade de respirar ap\u00f3s uma vida t\u00e3o turbulenta.<\/p>\n<blockquote><p><strong> Para concretizar o desejo da casa pr\u00f3pria, Martinha dobrou seu turno de prostitui\u00e7\u00e3o, trabalhando arduamente do per\u00edodo da manh\u00e3 at\u00e9 a madrugada. Do dinheiro, s\u00f3 era tirado a quantia necess\u00e1ria para comer e pagar a moradia, todo o resto ficava escondido dentro do colch\u00e3o onde dormia. Depois de anos de arrecada\u00e7\u00e3o, Marta viajou para a It\u00e1lia, onde sobreviveu tamb\u00e9m por meio da prostitui\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Martinha faz quest\u00e3o de dizer que se sentiu muito mais respeitada na Europa do que no Brasil, afirma que os homens eram mais doces, e embora o preconceito tamb\u00e9m existisse l\u00e1, dificilmente ganhava uma dimens\u00e3o violenta. A vida na It\u00e1lia permitiu que ela juntasse ainda mais dinheiro dentro do seu colch\u00e3o, somando assim 14 mil reais.<\/p>\n<p>Todo o dinheiro foi empregado na compra de um casar\u00e3o na Baixa dos Sapateiros, onde Martinha viveu tranquilamente por 20 anos e abrigou idosos e outras travestis, um pequeno pensionato. Na noite do dia 9 de setembro de 2013, dois homens estranhos bateram \u00e0 \u00a0 porta do casar\u00e3o de Martinha solicitando um quarto. A postura agressiva dos rapazes a deixou assustada e ela negou o pedido. Inconformados, um dos homens declarou:  N\u00e3o tem vaga, n\u00e3o, viado. Vou te mandar um doce!\u009d.<\/p>\n<p>Logo em seguida, o casar\u00e3o foi atacado com uma bomba molotov (mistura de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas inflam\u00e1veis) que espalhou chamas por todas as partes. Martinha e seus h\u00f3spedes fugiram pela janela. O corpo de bombeiros chegou ao local sem \u00e1gua e solicitou o aux\u00edlio de carro pipa de Lauro de Freitas. A dist\u00e2ncia fez com que o casar\u00e3o fosse consumido pelas chamas por inteiro.<\/p>\n<p>Sem saber para onde ir, Martinha dormiu por semanas nos escombros da sua casa, at\u00e9 que conseguiu um aux\u00edlio moradia atrav\u00e9s do governo. Atualmente vive de aluguel na Fazenda Grande do Retiro, mas sonha com a recupera\u00e7\u00e3o da casa.<br \/>\nOs sonhos de Martinha foram queimados pelas chamas da intoler\u00e2ncia e do preconceito. Hoje, os planos e expectativas para o futuro, s\u00e3o apenas cinzas de conquistas das quais ela nunca conseguiu desfrutar. Marta diz ter perdido a esperan\u00e7a no mundo, se frustra todos os dias com a expectativa de que obter\u00e1 sua casa de volta.<\/p>\n<p>Com uma mente atormentada por pensamentos suicidas e uma vida danificada pela discrimina\u00e7\u00e3o, Marta Maria de S\u00e1 declara em alto e bom som: <strong>Eu n\u00e3o sou nem nunca fui uma cidad\u00e3. Estou apenas vegetando nesse mundo, esperando a morte. Isso \u00e9 o que fizeram comigo<\/strong>\u009d . \ud83d\ude41<\/p>\n<p><em>Texto:\u00c2\u00a0Jordan Dafn\u00e9 participou\u00c2\u00a0da 11\u00aa turma do programa Correio de Futuro<br \/>\nCr\u00e9dito da foto: Heitor Oliveira,\u00c2\u00a0\u00c2\u00a0que participou\u00c2\u00a0da 11\u00aa turma do programa Correio de Futuro<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com olhos atentos e lacrimejados Marta Maria de S\u00e1, travesti soteropolitana de 60 anos, contemplava do alto do Pelourinho as ru\u00ednas do antigo casar\u00e3o onde morava. 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