{"id":8627,"date":"2016-12-15T11:14:06","date_gmt":"2016-12-15T14:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/?p=8627"},"modified":"2016-12-15T11:15:13","modified_gmt":"2016-12-15T14:15:13","slug":"artigo-uma-agenda-minima-comum-entre-lgbts","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/artigo-uma-agenda-minima-comum-entre-lgbts\/","title":{"rendered":"[Artigo Marcelo Cerqueira] Uma agenda m\u00ednima comum entre LGBTs"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto:\u00c2\u00a0Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o existem pesquisas geogr\u00e1ficas que consigam expressar o tamanho da popula\u00e7\u00e3o de gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edsticas (IBGE) realizou um estudo em 2010, publicado em 17 de outubro de 2012, e constatou 60 mil casais LGBT no Brasil. Salvador ficou em terceiro lugar com 1.595 uni\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do movimento LGBT nacional, acreditamos que 10% da popula\u00e7\u00e3o seja constitu\u00edda por homossexuais, de acordo com o relat\u00f3rio sobre sexualidade masculina publicado nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, em 1948, pelo m\u00e9dico pesquisador Alfred Kinsey, (Sexual Behavior in the Human Male).<\/p>\n<p>Este estudo \u00e9 revelador de que somos milh\u00f5es, estamos em todos os lugares, ocupamos profiss\u00f5es diferentes, vivemos de maneira diferente, permeamos todos os tecidos sociais, classes, cor de pele, somos iguais e ao mesmo tempo somos muito diferentes um dos outros.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil colocar pessoas ou comportamentos em caixinhas, porque s\u00f3 a pessoa pode entender-se como ela \u00e9, vive e se relaciona com a sua sexualidade. Mas vamos fazer um esfor\u00e7o aqui. Somos gays, l\u00e9sbicas, sapatona, trasvestis, homem e mulher trans e intersexuais.<\/p><\/blockquote>\n<p>Dentro dessas categorias encontramos os grupos de negros, negras, pobres, ricos, magros, gordos, ativos, passivos, suburbanos, favelados, conservadores, liberais, anarquistas, malhados, transformistas, gays cisg\u00eanero com identidade masculina, mulher l\u00e9sbica cisg\u00eanero, homem trans cisg\u00eanero, idosos, novinhos, bichas, andr\u00f3ginas, bofinhas, catadores, sem-terra, sem teto, ativistas, n\u00e3o ativistas, e tantas outras categorias existentes nas sombras e nas luzes das cidades, que se relacionam com fun\u00e7\u00f5es, sistemas, elementos f\u00edsicos, lingu\u00edsticos, mentais desenvolveram estrutura de realidade independente. Compreender esse universo \u00e9 necess\u00e1rio olhar por dentro para perceber caracter\u00edsticas desses sistemas e os seus est\u00edmulos junto aos homossexuais no mundo moderno, na rapidez que as coisas acontecem nas metr\u00f3poles.<br \/>\nA p\u00f3s-modernidade trouxe consigo as novas tecnologias avan\u00e7adas de comunica\u00e7\u00e3o de massa como a internet. Antes, o indiv\u00edduo vivia ap\u00e1tico, isolado, n\u00e3o conhecia outras culturas modernas, n\u00e3o havia meios eficientes para a troca de experi\u00eancias culturais. A representa\u00e7\u00e3o social e a rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo sociedade se transformou em meio \u00e0 \u00a0 crise das institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, trabalho, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, os indiv\u00edduos tinham de interagir. Assim, cada um passa a representar-se sem a necessidade de outorgar um poder simb\u00f3lico a uma pessoa, partido pol\u00edtico, ou pol\u00edticos, entidade ou mesmo \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico.<br \/>\nA internet para os LGBT est\u00e1 como a corda para o pau do berimbau: esse universo de informa\u00e7\u00f5es, imagens e conceitos mudou o estilo de vida, considerando que ap\u00f3s tantos s\u00e9culos sem poder falar, se posicionar, interferir reivindicaram para si a sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o social, cultural e pol\u00edtica de forma intensa.<\/p>\n<p>O mundo moderno e as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o estimulam uma atitude relacionada \u00e0 \u00a0 cultura, \u00e0 \u00a0s cidades, \u00e0 \u00a0 moda, comportamento, e uma liberdade total ao corpo. Com isso, acesso a tantos conte\u00fados, o que \u00e9 muito bom, o indiv\u00edduo come\u00e7a a perceber que existem outras identidades de g\u00eanero al\u00e9m das homonormativas cl\u00e1ssicas (mulher l\u00e9sbica cisg\u00eanera, casada, classe m\u00e9dia, branca).<br \/>\nAs identidades de g\u00eanero cl\u00e1ssicas s\u00f3lidas convivem nos dias de hoje com as identidades fluidas e l\u00edquidas. Conviv\u00eancia nem t\u00e3o harmoniosa, mas essa fluidez indica que o indiv\u00edduo pode dispor do seu corpo como quiser, assumir uma identidade moment\u00e2nea para algo que em tese n\u00e3o teria tanta import\u00e2ncia, isso talvez seja. \u00c9 como trocar de rouca. Existem mais de trinta identidades de g\u00eanero, muitas reivindicam espa\u00e7o de direito, dentro e fora do universo LGBT.<br \/>\nDiante de uma popula\u00e7\u00e3o absolutamente marcada pelas diferen\u00e7as, qual seria uma agenda comum? Vamos falar dos direitos humanos e de express\u00f5es de viol\u00eancia. Sem d\u00favida, vivemos nesse momento um deserto em direitos e um mar de viol\u00eancia, com requinte de crueldade.<br \/>\nDos crimes praticados contra os LGBTs, muitos revelam brutalidade sem precedentes. Na Bahia, de janeiro at\u00e9 novembro, s\u00e3o mais de trinta homic\u00eddios. A sociedade ainda rejeita os LGBTs, e observa tudo isso com indiferen\u00e7a, seja por dificuldade de compreender tantas identidades ou por pregui\u00e7a mental. Mesmo com os avan\u00e7os sociais, as restri\u00e7\u00f5es ao afeto LGBT em p\u00fablico s\u00e3o muito reincidentes, as vezes seguida de viol\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>Esse aspecto que seria, em tese, o mais consider\u00e1vel para uma agenda m\u00ednima com a popula\u00e7\u00e3o LGBT em geral, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Isso porque o impacto da viol\u00eancia e alijamento de direitos fundamentais sofrido por um homossexual morador do Bairro do Calabar n\u00e3o chega com o mesmo impacto ao homem gay cisg\u00eanero, branco, classe m\u00e9dia, casado morador do Morro do Gato.<\/p>\n<p>O gay negro, pobre morador do Calabar, n\u00e3o possui os mesmos direitos que o outro que desce a ladeira de carro fechado com ar condicionado e olha com aquele olhar de desprezo de Mary Strip, personificando Miranda, em O diabo veste Prada\u009d.<br \/>\nO gay com tra\u00e7os feminino do Calabar acredita que n\u00e3o tem direitos porque n\u00e3o lhe d\u00e3o o direito sequer de existir. Se ele n\u00e3o existe, n\u00e3o \u00e9 portador de direitos. Para ter direitos, \u00e9 preciso dar direitos a essas pessoas LGBT que vivem em condi\u00e7\u00f5es desumanas e miser\u00e1veis na cidade de Salvador. Mas o que seria um ponto da agenda? Talvez o direito \u00e0 \u00a0 vida e a ter direitos de verdade, sim.<\/p>\n<p>Quando pensamos em vida, pensamos em viver. Isso possui v\u00e1rios significados: viver, existir e transitar com liberdade sem passar por constrangimentos por expressar uma forma de amor. Desse modo, uma agenda comum \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos da cidade com dignidade. \u00c9 na cidade que as identidades s\u00e3o constru\u00eddas e vividas. Ocupar os espa\u00e7os p\u00fablicos em momentos especiais como as Paradas \u00e9 um momento que a cidade percebe a exist\u00eancia dessa variada popula\u00e7\u00e3o que de forma diferente sofre impacto das intoler\u00e2ncias. Mas, mesmo diante desse momento dionis\u00edaco, aquele gay que citei acima, n\u00e3o frequenta, ainda faz dessa recusa motivo de conversa entre os seus pares.<br \/>\n<strong><br \/>\nOpini\u00f5es e conceitos expressos nos artigos s\u00e3o de responsabilidade exclusiva dos autores<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto:\u00c2\u00a0Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia N\u00e3o existem pesquisas geogr\u00e1ficas que consigam expressar o tamanho da popula\u00e7\u00e3o de gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais. 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