{"id":8393,"date":"2016-12-01T09:08:17","date_gmt":"2016-12-01T12:08:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/mesalte\/?p=8393"},"modified":"2016-12-01T09:08:17","modified_gmt":"2016-12-01T12:08:17","slug":"projeto-no-recife-ajuda-transexuais-a-ingressar-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/projeto-no-recife-ajuda-transexuais-a-ingressar-no-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Projeto no Recife ajuda transexuais a ingressar no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Sumaia Villela, correspondente da Ag\u00eancia Brasil<\/em><br \/>\nMesmo escondida em uma cal\u00e7a jeans, camisa e sapato de cortes atribu\u00eddos comummente ao g\u00eanero masculino, Aurora Yett, 19 anos, estava ali. Ainda que vestida\u00c2\u00a0&#8221; de homem&#8221; jovem em busca de trabalho, as unhas feitas, os cabelos e, sobretudo, os movimentos e a voz transpareciam a mulher que ainda estava em forma\u00e7\u00e3o, mas que j\u00e1 se apresentava, em modos t\u00edmidos, naquela entrevista de emprego em uma loja de doces, no Recife, Pernambuco.<\/p>\n<p>Para se desviar do preconceito que poderia surgir com a revela\u00e7\u00e3o da sua transexualidade, Aurora fez uma viol\u00eancia a que muitas pessoas como ela se submetem: escondeu sua identidade como p\u00f4de. Usou seu nome de registro, as roupas e a imagem que a sociedade identifica como masculinas. No curr\u00edculo estava o trabalho como jovem aprendiz em uma distribuidora, al\u00e9m do curso de auxiliar administrativa que fizera durante o est\u00e1gio \u201c todos antes de se perceber\u00c2\u00a0trans. Mas na hora da entrevista ela n\u00e3o p\u00f4de escapar do julgamento.<\/p>\n<p>A gente percebe muito no olhar. Aquela quest\u00e3o de olhar de cima para baixo, e ficar curioso em saber o que voc\u00ea \u00e9, o que est\u00e1 fazendo ali. Porque voc\u00ea n\u00e3o deveria nem estar ali. Porque o meio social n\u00e3o vai te aceitar, ent\u00e3o, n\u00e3o tenho que te colocar na minha empresa porque meus clientes n\u00e3o v\u00e3o gostar. As pessoas te matam com os olhos. Mesmo com voc\u00ea se sobressaindo, mostrando seu conhecimento\u009d, conta Aurora. Ela nunca recebeu um retorno sobre a vaga.<\/p>\n<p><strong>Transexuais e travestis enfrentam dificuldades<br \/>\n<\/strong>A dificuldade de transexuais e travestis em conseguir ingressar no mercado formal de trabalho \u00e9, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), uma das raz\u00f5es de exclus\u00e3o desse segmento \u201c e 90% recorrem \u00e0 \u00a0 prostitui\u00e7\u00e3o para sobreviver, segundo a entidade. Em Pernambuco, tr\u00eas mulheres criaram uma plataforma online para enfrentar essa rejei\u00e7\u00e3o; a Rede Monalisa se prop\u00f5e a unir candidatas trans e travestis a vagas de emprego de companhias dispostas a receb\u00ea-las.<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou a partir de um evento chamado Startup Weekend Recife Comunidades, onde os concorrentes deveriam criar uma startup com impacto social. A ideia inicial de Fernanda Almeida, Mayara Menezes e Ra\u00edssa Ebrahim era trabalhar com a comunidade do Pilar, regi\u00e3o pobre do Recife, mas foram as quatro transexuais que o grupo conheceu no local que mudaram completamente os planos das tr\u00eas mulheres. Em menos de 24 horas elas reescreveram a ideia e apresentaram o conceito. Ficaram em primeiro lugar.At\u00e9 agora, apenas uma candidata j\u00e1 foi ligada a uma vaga de emprego \u201c uma das quatro transexuais da comunidade do Pilar. Perollah Rayssa teve sua hist\u00f3ria contada na internet pela Rede Monalisa, mas \u00e9 avessa a entrevistas.<\/p>\n<p>Ela conquistou uma vaga no grupo Julietto. Segundo quem desenvolve o projeto, foi a not\u00edcia que encorajou o grupo a apostar na iniciativa e buscar financiamento. Ela fazia informalmente cabelo e maquiagem, e agora tem a oportunidade de trabalhar com carteira assinada e todos os direitos\u009d, disse Ra\u00edssa Ebrahim.<\/p>\n<p><strong>Cadastro est\u00e1 aberto para trans e travestis<br \/>\n<\/strong>A vers\u00e3o beta do site foi lan\u00e7ada h\u00e1 menos de um m\u00eas. Por enquanto, o cadastro est\u00e1 aberto para trans e travestis de todo o pa\u00eds, mas o foco \u00e9 Pernambuco, onde as integrantes da equipe possuem mais contatos e condi\u00e7\u00f5es de procurar vagas. Nesse per\u00edodo, o projeto j\u00e1 recebeu 360 cadastros de homens e mulheres.Aurora \u00e9 uma das candidatas. Inicialmente o seu objetivo era trabalhar no meio art\u00edstico, aproveitando a forma\u00e7\u00e3o em um curso t\u00e9cnico de Design Gr\u00e1fico feito recentemente e os trabalhos j\u00e1 realizados com teatro. Depois, ampliou para a \u00e1rea administrativa, onde possui experi\u00eancia. A gente podendo estar l\u00e1 se apresentando com o nome social e como a gente realmente \u00e9, e as empresas te aceitarem como voc\u00ea se apresenta \u00e9 incr\u00edvel\u009d, afirma, elogiando o projeto.<\/p>\n<p>A Monalisa ainda n\u00e3o abriu cadastro para as empresas, mas as idealizadoras j\u00e1 perceberam que essa tarefa ser\u00e1 a mais dif\u00edcil. Alguns estabelecimentos procuraram a rede para disponibilizar vagas, mas a disparidade entre o n\u00famero de candidatos e essas companhias ainda \u00e9 enorme: apenas 5 estabelecimentos se apresentaram.<\/p>\n<p>Estamos buscando pessoalmente algumas companhias que a gente acha que j\u00e1 t\u00eam um amadurecimento maior nesse assunto para tentar fazer v\u00ednculos e multiplicar cases. Mas n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o f\u00e1cil, \u00e9 bem dif\u00edcil. Tem preconceito, muitos funcion\u00e1rios acham o projeto lindo mas n\u00e3o aceitam dentro da empresa deles\u009d, revela.<\/p>\n<p>Ra\u00edssa explica que a inten\u00e7\u00e3o, no futuro, \u00e9 conseguir gerar renda a partir da Monalisa, mas a prioridade \u00e9 amadurecer o projeto primeiro. Ainda \u00e9 necess\u00e1rio abrir a ades\u00e3o a empresas e montar um sistema automatizado para ligar as oportunidades aos candidatos. Estamos fazendo cruzamento de uma maneira muito manual. Queremos fazer esses links com a ajuda da Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o, com algoritmo e palavra-chave\u009d, explica. Outra ideia \u00e9 criar um selo para reconhecer empresas que incentivem e respeitem a diversidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Empolgada com a Rede Monalisa, Aurora faz um apelo para que as habilidades sejam analisadas no lugar da identidade de g\u00eanero. A gente \u00e9 como qualquer um. Tem racioc\u00ednio, sabe trabalhar. A gente est\u00e1 ali para fazer bem feito. As empresas precisam abrir seus RHs [Recursos Humanos]\u009d, defende.<\/p>\n<p>A seguir, opina sobre o medo da empresa de ser recusada por clientes por ter entre seus funcion\u00e1rios uma pessoa transexual: Se voc\u00ea tem uma empresa, pode us\u00e1-la para combater o racismo, o machismo, essas coisas todas. Querer um p\u00fablico que seja saud\u00e1vel para a empresa e os funcion\u00e1rios, e que isso seja uma troca\u009d.<\/p>\n<p><strong>Qualifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O desafio n\u00e3o para na busca por empresas que aceitem transexuais. Quando finalmente surge a vaga, o problema \u00e9 encontrar uma pessoa qualificada para o cargo.As empresas que nos procuraram s\u00e3o, sobretudo, da \u00e1rea de alimentos. N\u00f3s n\u00e3o conseguimos ainda efetivar a vaga porque n\u00e3o h\u00e1 perfil para o que elas pediam. Tamb\u00e9m fomos procuradas por um marca internacional de roupa com uma vaga de est\u00e1gio universit\u00e1rio em S\u00e3o Paulo. A gente tinha alguns estudantes na plataforma, mas nenhuma pessoa que conseguisse estar de acordo com todos os requisitos pedidos. N\u00e3o por ser trans, mas pela qualifica\u00e7\u00e3o mesmo\u009d, lamenta Ra\u00edssa Ebrahim.<\/p>\n<p>Das pessoas cadastradas at\u00e9 agora no projeto, a maioria \u201c 258, ou cerca de 75% &#8211; estudou at\u00e9 o ensino m\u00e9dio, incluindo os n\u00edveis mais baixos de ensino. Apesar disso, do total de 360, 273 candidatos relataram ter experi\u00eancia profissional pr\u00e9via. A gente tem um problema muito b\u00e1sico, porque essas pessoas saem muito cedo de casa, t\u00eam dificuldade de se inserir na escola\u009d, explica.<\/p>\n<p>Anne Mota, criadora do blog Transtornada, passou por dificuldades para garantir o acesso ao ensino. Ela conta a experi\u00eancia em um v\u00eddeo da campanha Quem Eu Sou, realizada por alunos de publicidade de uma faculdade particular pernambucana. A jovem recorda que demorou tr\u00eas meses para conseguir se matricular depois de retornar de um interc\u00e2mbio nos Estados Unidos (onde assumiu sua transexualidade), porque nenhuma escola particular a aceitava.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou citar os nomes, mas nenhuma me queria. Elas falavam que retornariam amanh\u00e3, e n\u00e3o retornavam nunca. Ou que n\u00e3o havia mais vaga. Foi um per\u00edodo muito dif\u00edcil para mim. Lembro que tinha uma escola em especial, uma muito grande do Recife, onde eu fui me matricular, e o mo\u00e7o falou: voc\u00ea n\u00e3o pensa em fazer um supletivo? Seria bem mais f\u00e1cil para voc\u00ea\u009d. E foi quando minha m\u00e3e me defendeu e eu fiquei muito emocionada. Porque naquele momento eu vi o cara dizendo para mim: voc\u00ea n\u00e3o pode estar em uma escola. Voc\u00ea \u00e9 trans, voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de estar aqui\u009d, disse em seu depoimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sumaia Villela, correspondente da Ag\u00eancia Brasil Mesmo escondida em uma cal\u00e7a jeans, camisa e sapato de cortes atribu\u00eddos comummente ao g\u00eanero masculino, Aurora Yett, 19 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6032,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[80,11,9],"tags":[],"class_list":["post-8393","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-me-informo","category-me-orgulho","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8393"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8394,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8393\/revisions\/8394"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6032"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}