{"id":23693,"date":"2023-01-20T09:07:39","date_gmt":"2023-01-20T12:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=23693"},"modified":"2023-01-20T09:07:42","modified_gmt":"2023-01-20T12:07:42","slug":"mais-de-duas-mortes-violentas-de-pessoas-lgbtqia-sao-registradas-por-mes-na-bahia-estado-lidera-ranking-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/mais-de-duas-mortes-violentas-de-pessoas-lgbtqia-sao-registradas-por-mes-na-bahia-estado-lidera-ranking-no-brasil\/","title":{"rendered":"Mais de duas mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ s\u00e3o registradas por m\u00eas na Bahia; Estado lidera ranking no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Wendel de Novais<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estava no \u00f4nibus, perto de saltar. Um cara me olhou de cima a baixo e disse: &#8216;nem sei se isso \u00e9 homem ou mulher&#8217;. Ele tentou me empurrar e eu revidei. Foi a\u00ed que ele me deu um soco e me jogou com toda a for\u00e7a para fora, quando a porta abriu. Fiquei toda machucada&#8221;, lembra Juliana Botelho, 26 anos, que sofreu a agress\u00e3o em Salvador, quando voltava do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>O ataque motivado por preconceito e que poderia ter resultado na morte de Juliana, na Bahia, infelizmente, n\u00e3o provoca surpresa. Isso porque, de acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), o estado \u00e9 o que mais acumulou mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ em 2022. &nbsp;Ao todo, foram 27 casos, o que representa 10,5% dos casos notificados no pa\u00eds no ano passado. Ou seja, por aqui, cada m\u00eas registra uma m\u00e9dia de mais de duas mortes por lgbtfobia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros da Bahia superam estados com um quantitativo populacional tr\u00eas vezes maior, como S\u00e3o Paulo, que teve 25 mortes e fica em segundo lugar no indesejado ranking. Pernambuco, com 20 mortes violentas, fica em terceiro e \u00e9 seguido por Minas Gerais, que fechou o ano passado com 18 crimes. Maranh\u00e3o e Par\u00e1 tiveram15 registros, cada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a Bahia ocupa esse lugar em rela\u00e7\u00e3o aos outros estados. Em v\u00e1rios outros anos na \u00faltima d\u00e9cada, a Bahia estava em primeiro ou segundo lugar. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o sociol\u00f3gica clara que permita dizer os motivos dos n\u00fameros mais elevados&#8221;, pontua Luiz Mott, professor aposentado de Antropologia na Ufba e fundador do GGB.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao comentar as estat\u00edsticas locais, por\u00e9m, Kleber Sim\u00f5es, historiador e pesquisador de temas LGBTQIA+, afirma que os \u00edndices baianos s\u00e3o t\u00e3o altos por falta de pol\u00edticas p\u00fablicas que, de fato, reduzam a viol\u00eancia contra essa popula\u00e7\u00e3o, principalmente quando a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 o preconceito [homofobia, lesbofobia, transfobia].<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao longo dos anos, os governos negligenciaram a pauta LGBT+, com suas demandas e quest\u00f5es. Inclusive, a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da vida desta popula\u00e7\u00e3o, o que aumenta e deixa persistente a vulnerabilidade das pessoas LGBTs&#8221;, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda de acordo com Kleber, o que se v\u00ea na pol\u00edtica \u00e9 que as demandas dessa popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o negociadas dentro da pauta p\u00fablica. &#8220;Ao mesmo tempo que voc\u00ea n\u00e3o tem uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica que envolva a produ\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os espec\u00edficos para a den\u00fancia, coleta de dados e de puni\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia fatal, n\u00e3o se tem resposta a outros tipos de viol\u00eancia como a patrimonial, a moral e a sexual&#8221;, enumera.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador acrescenta, ainda, que os n\u00fameros se ampliam porque n\u00e3o h\u00e1 um \u00f3rg\u00e3o espec\u00edfico para tratar da quest\u00e3o. Procurada para responder sobre isso, a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado da Bahia (SSP-BA) n\u00e3o respondeu sobre o assunto e nem deu detalhes de pol\u00edticas de seguran\u00e7a voltadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT+ do estado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conviv\u00eancia com o medo<\/strong><br>Em n\u00fameros relativos, a Bahia tamb\u00e9m tem \u00edndices elevados de viol\u00eancia fatal contra pessoas LGBTQIA+. Enquanto a m\u00e9dia de mortes dessa popula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 de 0,13 a cada 100 mil habitantes, o estado registra 0,18. Esses dados, por sua vez, se traduzem nas ruas e fazem com que as pessoas que s\u00e3o alvo dessa viol\u00eancia vivam com medo e, em muitos casos, evitem demonstra\u00e7\u00f5es de afeto em p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m fez nada quando ele me agrediu, ningu\u00e9m parou para me ajudar. O motorista, que me viu pelo retrovisor, s\u00f3 fechou a porta e seguiu viagem. A gente vive acuada e com medo. N\u00e3o pode nem responder uma ofensa para n\u00e3o apanhar, como aconteceu comigo&#8221;, reclama Juliana, que prestou queixa da agress\u00e3o em setembro do ano passado. Na \u00e9poca, ela tamb\u00e9m denunciou o caso pelas suas redes sociais<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jubotelhosz\/?utm_source=ig_embed&amp;ig_rid=451bcf43-0dac-4ebd-be22-f39a8fc18d89\">. Veja o v\u00eddeo.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quem n\u00e3o sofreu uma viol\u00eancia f\u00edsica partilha do temor. Emerson Santana, 32, diz que n\u00e3o se preocupa em andar na rua sozinho, mas a coisa muda de figura quando est\u00e1 acompanhado. Ele afirma que os olhares intimidam e sente que, a qualquer momento, pode sofrer agress\u00e3o verbal ou mesmo f\u00edsica por causa de uma demonstra\u00e7\u00e3o de carinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho receio de demonstrar afeto nas ruas. Salvador, que \u00e9 tida como uma cidade grande e mais aberta, tem muita homofobia e eu tinha medo de demonstrar algo quando estava namorando. No interior, \u00e9 pior ainda. N\u00e3o ando de m\u00e3os dadas e procuro ter cautela em saber onde \u00e9 seguro mostrar afeto\u201d, conta Emerson, que \u00e9 de Itapetinga, no sudoeste da Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>Let\u00edcia Paz, 21, tamb\u00e9m escolhe com cautela os locais para onde ir com a namorada. Ela afirma que, por ter ci\u00eancia de casos em que pessoas foram v\u00edtimas de ataques violentos por conta da orienta\u00e7\u00e3o sexual, o medo \u00e9 presen\u00e7a comum quando andam em espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sempre fico com medo antes de sair de casa. Por isso, tentando n\u00e3o sofrer lesbofobia, seleciono bem o lugar. At\u00e9 porque mesmo um olhar \u00e9 carregado de viol\u00eancia. Muda nosso comportamento e chegamos at\u00e9 a soltar as m\u00e3os. Tudo isso por um medo que existe por conta dos in\u00fameros relatos de viol\u00eancia contra pessoas LGBTs&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Subnotifica\u00e7\u00e3o<\/strong><br>Ainda que os n\u00fameros da viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT+ sejam altos, eles podem tamb\u00e9m estar subnotificados. Isso porque o Grupo Gay da Bahia faz o trabalho de coleta dos dados sobre os crimes e as v\u00edtimas atrav\u00e9s do que \u00e9 noticiado na imprensa e n\u00e3o tem acesso, por exemplo, aos registros das delegacias, que poderiam indicar com mais exatid\u00e3o o n\u00famero de mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ no estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador Kleber Sim\u00f5es acrescenta que \u00e9 poss\u00edvel existir uma subnotifica\u00e7\u00e3o ainda maior nos outros estados. &#8220;Por ser da Bahia e ter sido idealizada pelo GGB [a estat\u00edstica anual sobre viol\u00eancia contra lgbts], h\u00e1 uma possibilidade de que eles tenham mais capacidade de captar dados relativos \u00e0 viol\u00eancia contra essa popula\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E a m\u00eddia tamb\u00e9m pode influenciar, j\u00e1 que serve de base para a coleta. O n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 ao tema em um estado pode ser diferente do outro&#8221;, complementa ele, que tamb\u00e9m \u00e9 professor da Uneb.<\/p>\n\n\n\n<p>Advogado civil, Joaquim Magalh\u00e3es explica que os crimes contra pessoas LGBT+ se tratam de &#8220;crimes cometidos contra um determinado grupo social em raz\u00e3o de sua etnia, nacionalidade, religi\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o sexual&#8221;. Ou seja, s\u00e3o enquadrados como crimes de \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Joaquim Magalh\u00e3es lembra que a homofobia foi reconhecida como crime equiparado ao racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em &nbsp;2019, o que fez desses crimes, delitos inafian\u00e7\u00e1veis e imprescrit\u00edveis. &#8220;A dificuldade, contudo, \u00e9 na pr\u00f3pria classifica\u00e7\u00e3o do crime. Posto que, muitas das vezes, se acaba omitindo ou n\u00e3o se reconhecendo que a causa do crime foi a orienta\u00e7\u00e3o sexual [ou a identidade de g\u00eanero] da v\u00edtima&#8221;, complementa o advogado, acenando para mais um motivo que induz \u00e0 subnotifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Wendel de Novais &#8220;Estava no \u00f4nibus, perto de saltar. 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