{"id":22298,"date":"2021-02-16T23:04:08","date_gmt":"2021-02-17T02:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=22298"},"modified":"2021-02-16T23:05:25","modified_gmt":"2021-02-17T02:05:25","slug":"ativista-trans-sofre-reacoes-adversas-apos-uso-de-silicone-industrial-medo-de-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/ativista-trans-sofre-reacoes-adversas-apos-uso-de-silicone-industrial-medo-de-morrer\/","title":{"rendered":"Ativista trans sofre rea\u00e7\u00f5es adversas ap\u00f3s uso de silicone industrial: \u2018Medo de morrer\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Gabriel Moura, especial para o Me Salte<br><\/strong><br>Era um dia comum para a ativista social Ariane Senna, 29 anos. Ela estava em casa quando sua colega de quarto, mulher trans igual a ela, recebeu a visita de uma bombadeira &#8211; nome dado \u00e0 cirurgi\u00e3s clandestinas que aplicam silicone. Ao chegar e fazer o procedimento na amiga, a aplicadora come\u00e7ou a tentar convencer Ariane a fazer o mesmo. \u201cEst\u00e1 vendo essas manchas a\u00ed em seu bumbum? Eu tiro rapidinho. Ele tamb\u00e9m est\u00e1 pequeno e ca\u00eddo. A gente precisa botar ele para cima\u201d, dizia. Ap\u00f3s press\u00e3o e coment\u00e1rios negativos sobre seu corpo, a ativista cedeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Este epis\u00f3dio aconteceu no dia 12 de janeiro deste ano. Desde ent\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 as manchas seguiram, como tamb\u00e9m apareceram ferimentos, deforma\u00e7\u00f5es, vermelhid\u00e3o e, principalmente, uma ard\u00eancia forte na regi\u00e3o. \u201cN\u00e3o estou conseguindo nem sentar de tanta dor\u201d, relata a ativista em entrevista ao Me Salte.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que, al\u00e9m do procedimento n\u00e3o ter sido feito por uma profissional capacitada e sem condi\u00e7\u00f5es ideais de higiene, foi implantado silicone industrial, cuja aplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recomendada para uso est\u00e9tico. Sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) e pode causar deforma\u00e7\u00f5es, dores, dificuldades para caminhar, infec\u00e7\u00e3o generalizada, embolia pulmonar e, em casos mais graves, a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ariane sabia dos riscos. Inclusive as tais manchas nos gl\u00fateos eram resultado de uma aplica\u00e7\u00e3o mal sucedida em 2018. Ela \u00e9 militante conhecida pela causa das mulheres trans e travestis, inclusive saindo como candidata \u00e0 vereadora de Salvador nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 formada em psicologia, est\u00e1 estudando o mestrado e possui diversas leituras sobre o tema. Nada disso a impediu de ser v\u00edtima da press\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>\u201cTodas sabem dos riscos ao aplicar. Por\u00e9m a aceita\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea de uma mulher trans j\u00e1 \u00e9 um processo complicado, de se enxergar no espelho e se ver pertencendo \u00e0quele corpo. E existe o padr\u00e3o que n\u00f3s precisamos ser bombadas, com peito grande e bunda grande. Por isso digo que a quest\u00e3o do silicone industrial e das bombadeiras precisa ser vista n\u00e3o s\u00f3 como uma quest\u00e3o est\u00e9tica, mas sim um problema de sa\u00fade f\u00edsica e mental. \u00c9 uma quest\u00e3o de auto-aceita\u00e7\u00e3o\u201d, defende Ariane.<br><\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Aplica\u00e7\u00e3o equivocada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da subst\u00e2ncia naturalmente fazer mal e n\u00e3o ser indicada para pessoas, ela foi aplicada de forma errada no corpo de Adriane. O silicone precisa ser injetado no m\u00fasculo, mas no caso dela foi colocado embaixo da pele.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso alguns calombos foram formados, deixando o bumbum reto, pois o silicone n\u00e3o seguiu o formato arredondado do gl\u00fateo. Durante esse mais de um m\u00eas de aplica\u00e7\u00e3o, Ariane fez, todos os dias, massagem no local para corrigir a imperfei\u00e7\u00e3o, mas o problema apenas diminuiu, n\u00e3o cessou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSemana passada uma amiga me disse que ap\u00f3s um m\u00eas o silicone j\u00e1 endureceu e n\u00e3o tem mais jeito. Me desesperei. Durante todo esse tempo estou em contato com a bombadeira, que fica dizendo que \u00e9 normal, que vai passar. A\u00ed ela passa alguns rem\u00e9dios para aliviar a dor. Atualmente eu estou vivendo \u00e0 base de cortic\u00f3ide\u201d, relata Ariane.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atendimento m\u00e9dico<\/strong><br>Com todas as rea\u00e7\u00f5es negativas, tudo que Ariane quer agora \u00e9 retirar a pr\u00f3tese. A\u00ed surge um outro problema: a falta de atendimento m\u00e9dico. A ativista chegou a procurar um enfermeiro, que disse n\u00e3o saber como atend\u00ea-la. Ir a um hospital p\u00fablico de Salvador tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma alternativa neste momento.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodos sabem como a gente \u00e9 tratada nesses locais. Quando n\u00e3o mandam a gente para casa tomar uma pilha de rem\u00e9dios, fazem uma cirurgia e tiram de qualquer jeito. Temendo uma infec\u00e7\u00e3o hospitalar, que poderia at\u00e9 mesmo me matar, preferi seguir com a automedica\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisando na internet e conversando com amigas ela chegou a encontrar alguns profissionais que sabem como realizar o tratamento, por\u00e9m todos particulares. Ela, como boa parte das v\u00edtimas desta pr\u00e1tica, n\u00e3o possuem planos de sa\u00fade ou dinheiro para bancar a consulta.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s n\u00e3o temos solu\u00e7\u00e3o para isso. Por\u00e9m precisamos pautar esse assunto, falar sobre, para quando dar uma merda, como deu comigo, ter tratamento. Tem m\u00e9dico que n\u00e3o quer mexer, que diz que n\u00e3o sabe como atuar. Enquanto os profissionais de sa\u00fade n\u00e3o estudarem esse tema, as travestis v\u00e3o seguir se automedicando, se bombando e correndo riscos ao construir nossas identidades corporais de forma clandestina\u201d, defende.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/strong><br>Segundo a secretaria de Sa\u00fade da Bahia (Sesab), desde 2017 apenas 5 pessoas foram internadas por complica\u00e7\u00f5es com implantes mam\u00e1rios na Bahia. Por\u00e9m, o problema \u00e9 bem maior. Como a maior parte das aplica\u00e7\u00f5es \u00e9 feita de forma clandestina e a maioria das v\u00edtimas n\u00e3o busca atendimento, os n\u00fameros ficam distantes da realidade.<br><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 na pr\u00f3pria academia e nos debates que Ariane participa o tema \u00e9 tabu. Muitos tratam essa quest\u00e3o do silicone como algo do passado, da d\u00e9cada de 70, que n\u00e3o \u00e9 mais visto hoje em dia. Para desmentir isso, a ativista cita o caso de uma amiga dela de 22 anos que realizou o procedimento. No caso desta jovem o implante desceu e foi parar nas pernas, causando uma deformidade no local.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Ela atribui essa falta de di\u00e1logo sobre o assunto a dois pontos: primeiro que a maioria das garotas que realizam o procedimento n\u00e3o querem admitir o enxerto, mesmo com uma imperfei\u00e7\u00e3o vis\u00edvel. E tamb\u00e9m ao fato de ser algo ilegal, pois a pr\u00e1tica ilegal da medicina por parte das bombadeiras \u00e9 crime.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDemorou muito para eu ter coragem e vir aqui falar com voc\u00ea, ter coragem de denunciar essa pr\u00e1tica. As minhas pr\u00f3prias amigas trans e travestis me diziam para n\u00e3o falar. Mas eu percebi que contando a minha experi\u00eancia posso fazer com que alguma menina n\u00e3o passe pelo que eu passei\u201d, reflete.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTudo passa pela tamb\u00e9m por onde cada uma veio. Eu fui expulsa de casa aos 13 anos e desde ent\u00e3o minha viv\u00eancia foi com as travestis na rua. Elas diziam que eu precisava ganhar corpo, pois se n\u00e3o seria apenas um \u2018viadinho\u2019. Ent\u00e3o fiz implantes nos seios e gl\u00fateos para me adequar \u00e0quele padr\u00e3o, e isso causa reflexos em mim at\u00e9 hoje. Mas parte das meninas trans de hoje j\u00e1 est\u00e1 com a consci\u00eancia que n\u00e3o precisa fazer altera\u00e7\u00f5es bruscas em seu corpo por press\u00e3o est\u00e9tica &#8211; apenas tomar horm\u00f4nio, ou nem isso, ficando de barba mesmo -, para ser mulher. N\u00e3o \u00e9 nossa apar\u00eancia que define nosso g\u00eanero\u201d, defende Ariane.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajude Ariane: Se voc\u00ea tiver como ajudar Ariane entre em contato pelo e-mail: contatocomarianesenna@gmail.com <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Moura, especial para o Me SalteEra um dia comum para a ativista social Ariane Senna, 29 anos. 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