{"id":21600,"date":"2020-08-09T10:11:30","date_gmt":"2020-08-09T13:11:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=21600"},"modified":"2020-08-09T10:13:50","modified_gmt":"2020-08-09T13:13:50","slug":"adocao-por-familias-e-pessoas-lgbtis-nao-ha-diferencas-no-desenvolvimento-de-criancas-criadas-por-homossexuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/adocao-por-familias-e-pessoas-lgbtis-nao-ha-diferencas-no-desenvolvimento-de-criancas-criadas-por-homossexuais\/","title":{"rendered":"Ado\u00e7\u00e3o por fam\u00edlias e pessoas LGBTIs: &#8216;n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7as no desenvolvimento de crian\u00e7as criadas por homossexuais&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Washington Luan Gon\u00e7alves de Oliveira, especial para o Me Salte*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cisheteronormatividade estrutural existente no Brasil afeta significativamente a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o LGBTI. A essa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 enviado o discurso de \u00f3dio e desvalor a partir de diversos n\u00facleos que afirmam que pessoas LGBTIs n\u00e3o s\u00e3o capazes de construir e manter fam\u00edlias. Essa vis\u00e3o tem origem no perfil familiar nuclear e monog\u00e2mico, que \u00e9 sistematizado a partir da uni\u00e3o entre pessoas\/casais heterossexuais. Tudo que destoa dessa \u201cnorma\u201d segue sofrendo preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p> Esses n\u00facleos afirmam que as configura\u00e7\u00f5es que aqui chamarei de \u201cfam\u00edlia tradicional\u201d s\u00e3o o \u00fanico modelo a ser seguido, em uma l\u00f3gica apontada como reprodutiva. Vale destacar que no nosso modelo colonizador essa fam\u00edlia nunca existiu, sendo que os portugueses e senhores tinham as popula\u00e7\u00f5es colonizadas (negras e ind\u00edgenas) como propriedades. <\/p>\n\n\n\n<p>Nessa l\u00f3gica de tutela\/propriedade sobre esses corpos, a escravid\u00e3o tamb\u00e9m se sustentava pela modo de viol\u00eancia sexual, que possui efeitos psicol\u00f3gicos at\u00e9 os dias atuais com reprodu\u00e7\u00e3o de normas sobre g\u00eanero, ra\u00e7a e sexualidades. <br><\/p>\n\n\n\n<p>Com a discuss\u00e3o e efetiva\u00e7\u00e3o de direitos legais conquistados pela comunidade LGBTI (uni\u00e3o est\u00e1vel, ado\u00e7\u00e3o, casamento civil, etc), s\u00e3o conquistados alguns avan\u00e7os, como o de construir novas configura\u00e7\u00f5es familiares. E com esses direitos volta \u00e0 tona a discuss\u00e3o do que \u00e9 fam\u00edlia, fruto de um comparativo acerca do modelo fam\u00edlia tradicional que nunca existiu.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Todo homem assumidamente gay j\u00e1 ouviu de familiares e pessoas pr\u00f3ximas a reprodu\u00e7\u00e3o do discurso de que, por ele ser gay, n\u00e3o poder\u00e1 ser pai. Contudo, esses modelos est\u00e3o sendo ampliados a partir do pr\u00f3prio olhar das pessoas LGBTIs, que formam novos arranjos familiares e diversas formas de reprodu\u00e7\u00e3o\/ado\u00e7\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Casais formados por pessoas trans tem gerado um desconforto social acerca dos perfis de parentalidade e conjugalidade. Cabe a discuss\u00e3o que, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, mais de 150 milh\u00f5es de crian\u00e7as vivem em situa\u00e7\u00e3o de rua no mundo e em extrema pobreza. No que diz respeito \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes institucionalizadas\/os, o Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) nos traz que, no Brasil, 47 mil crian\u00e7as e adolescentes vivem em abrigos. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mesmo conselho aponta que 5,5 milh\u00f5es de crian\u00e7as n\u00e3o possuem o nome do pai no registro de nascimento, sendo que essas m\u00e3es configuram fam\u00edlias monoparentais (onde, mais uma vez, isso \u00e9 diferente da fam\u00edlia tradicional). Criamos socialmente uma norma adoecedora que n\u00e3o pode ser seguida pelas pr\u00f3prias pessoas que a criam e alimentam.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso acontece de forma desastrosa no nosso pa\u00eds, pessoas vivem a proliferar discursos de \u00f3dio e negativos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTI que formam novas fam\u00edlias, adotam ou passam por processos de reprodu\u00e7\u00e3o tradicionais ou assistidas. Isso \u00e9 reflexo da cisheteronormatividade, e cabe \u00e0 Psicologia, enquanto ci\u00eancia e profiss\u00e3o, lutar contra toda e qualquer forma de opress\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Nos princ\u00edpios fundamentais do C\u00f3digo de \u00c9tica Profissional da\/o Psic\u00f3loga\/o, temos que \u201ca\/o psic\u00f3loga\/o trabalhar\u00e1 visando promover a sa\u00fade e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuir\u00e1 para a elimina\u00e7\u00e3o de quaisquer formas de neglig\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, crueldade e opress\u00e3o\u201d. N\u00e3o cabe \u00e0 Psicologia, portanto, se omitir diante de situa\u00e7\u00f5es discriminat\u00f3rias que gerem crueldades singulares ou coletivas. <\/p>\n\n\n\n<p> As pessoas LGBTIs diariamente seguem politizando as feridas que s\u00e3o cravadas nas suas subjetividades, fruto da LGBTIfobia estrutural. Ser LGBTI n\u00e3o \u00e9 ser doente, mas estar em uma sociedade LGBTIf\u00f3bica como a nossa \u00e9 altamente adoecedor, isso pelo motivo de ser normatizada pelo modelo heteronormativo balizador que deseja controlar corpos que n\u00e3o s\u00e3o seus.<br> Essas viol\u00eancias s\u00e3o destinadas tamb\u00e9m \u00e0s configura\u00e7\u00f5es familiares constru\u00eddas a partir de filhos trazidos de outros relacionamentos anteriores, de ado\u00e7\u00e3o e de outras maneiras reprodutivas. <\/p>\n\n\n\n<p>Vale destacar que existem estudos cient\u00edficos nos quais demonstram inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o entre a orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero dos pais e das m\u00e3es com a das\/os filhas\/os, e nem diferen\u00e7as no desenvolvimento de crian\u00e7as criadas por pais e m\u00e3es homossexuais e\/ou heterossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho importante frisar que filhos LGBTIs foram criados por pais heterossexuais que reproduziram a cisheteronormalidade como modelo, mesmo assim, s\u00e3o as\/os filhas\/os s\u00e3o pessoas LGBTIs. <\/p>\n\n\n\n<p>O que um homem ou mulher trans traz de amea\u00e7a ao seu modelo de cisheterossexualidade? A fam\u00edlia hoje \u00e9 diversa, a vida \u00e9 diversa e requer representa\u00e7\u00f5es diversas dos modelos de parentalidade e conjugalidade inclusive nas m\u00eddias. <\/p>\n\n\n\n<p>Cobran\u00e7as sociais como essas fazem a popula\u00e7\u00e3o LGBTI  terem altas taxas de ansiedade, depress\u00e3o e at\u00e9 mesmo suic\u00eddio a partir do que a sociedade direciona como modelo e julgamento. O medo, o preconceito, as viol\u00eancias geram esses gatilhos de alerta, nos quais estudos como o da Universidade Federal de Minas Gerais (2020) nos trazem que pessoas LGBTIs possuem mais que o dobro de chances de terem problemas ligadas \u00e0 depress\u00e3o, ansiedade ou suic\u00eddio. Refor\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 por ser LGBTI, mas por conviverem em uma sociedade LGBTIf\u00f3bica.<\/p>\n\n\n\n<p> A import\u00e2ncia de fam\u00edlias\/casais LGBTIs estarem na m\u00eddia e em propagandas se d\u00e1 pela repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de todo negativo destinado a esses modelos de afetos. O que define uma fam\u00edlia \u00e9 o amor e a conviv\u00eancia fraterna. O que define a identidade de g\u00eanero de algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sexo biol\u00f3gico designado ao nascimento. G\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social embasada por padr\u00f5es do que \u00e9 masculino e\/ou feminino. <\/p>\n\n\n\n<p> O Conselho Federal de Psicologia possui a resolu\u00e7\u00e3o 01\/2018 que estabelece diretrizes a partir de uma legisla\u00e7\u00e3o federal que traz o termo express\u00f5es de g\u00eanero, utilizado para representar a forma como cada sujeito apresenta-se a partir do que a cultura estabelece como sendo da ordem do feminino, do masculino ou de outros g\u00eaneros, vale destacar que \u201cas psic\u00f3logas e os psic\u00f3logos, no exerc\u00edcio profissional, n\u00e3o ser\u00e3o coniventes e nem se omitir\u00e3o perante a discrimina\u00e7\u00e3o de pessoas transexuais e travestis\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p> O mito existente na sociedade \u00e9 o de que, caso se fale\/oriente pessoas LGBTIs, elas v\u00e3o deixar de serem elas mesmas; e se crian\u00e7as e adolescentes que v\u00eaem pessoas LGBTIs acabam tornando-se por influ\u00eancia.  Pessoas LGBTIs n\u00e3o deixar\u00e3o de ser LGBTIs, pois n\u00e3o h\u00e1 cura para o que n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 corre\u00e7\u00e3o para o que n\u00e3o \u00e9 desvio. Agora o preconceito possui cura, atualize-se, reflita o quanto sua LGBTIfobia contribui para essas viol\u00eancias e saiba reconhecer a necessidade de mudan\u00e7a de comportamento\/sentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas LGBTIs. Se voc\u00ea \u00e9 LGBTI, orgulhe-se. Por ser voc\u00ea, por ser LGBTI.<\/p>\n\n\n\n<p><br><em><strong> *Washington Luan Gon\u00e7alves de Oliveira \u00e9 psic\u00f3logo (CRP-03\/18055), conselheiro no Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03) e no Conselho Municipal de Direitos Humanos de Salvador, coordena a Comiss\u00e3o de Direitos Humanos no CRP-03 e \u00e9 mestrando no Programa de Mestrado Profissional em Sa\u00fade de Popula\u00e7\u00e3o Negra e Ind\u00edgena da UFRB.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Washington Luan Gon\u00e7alves de Oliveira, especial para o Me Salte* A cisheteronormatividade estrutural existente no Brasil afeta significativamente a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o LGBTI. 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