{"id":21349,"date":"2020-06-12T18:48:32","date_gmt":"2020-06-12T21:48:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=21349"},"modified":"2020-06-12T21:40:05","modified_gmt":"2020-06-13T00:40:05","slug":"vivencias-afeminadas-pensando-corpos-generos-e-sexualidades-dissidentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/vivencias-afeminadas-pensando-corpos-generos-e-sexualidades-dissidentes\/","title":{"rendered":"Viv\u00eancias Afeminadas: pensando corpos, g\u00eaneros e sexualidades dissidentes"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por Murillo Nonato, especial para o Me Salte <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\">Tainan* caminhava pelas ruas vazias de Nazar\u00e9, bairro de Salvador, quando percebeu dois homens se aproximando na garupa de uma moto. Amedrontado, temendo  ser assaltado, segurou sua bolsa com for\u00e7a e aguardou os motoqueiros fazerem a  abordagem. <\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do que imaginava, os motoqueiros, ao o alcan\u00e7arem, iniciaram  uma s\u00e9rie de ataques verbais em torno da sua apar\u00eancia feminina e em rela\u00e7\u00e3o a sua suposta sexualidade, mas se foram sem levar nada. Alex, por sua vez, se encontrava em  um ponto de \u00f4nibus quando notou um homem em um ve\u00edculo fazendo movimentos espalhafatosos com as m\u00e3os enquanto ria junto aos seus amigos. Logo percebeu que os rapazes ridicularizavam sua apar\u00eancia feminina.<\/p>\n\n\n\n<p> As hist\u00f3rias acima descritas s\u00e3o fragmentos retirados do meu livro <strong>\u201cViv\u00eancias  Afeminadas: pensando corpos, g\u00eaneros e sexualidades dissidentes\u201d<\/strong> e ilustram rea\u00e7\u00f5es comuns das pessoas diante de corpos afeminados. <\/p>\n\n\n\n<p>O livro parte da an\u00e1lise da narrativas de vida de sujeitos que se consideram pessoas afeminadas para dissertar sobre suas  formas de apresenta\u00e7\u00e3o em termos de g\u00eanero, sua rela\u00e7\u00e3o com a homossexualidade e o impacto que as leituras dos seus corpos geram socialmente e em suas pr\u00f3prias  viv\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p> No livro, as pessoas afeminadas s\u00e3o compreendidas como sujeitos lidos como homens no momento do nascimento, por\u00e9m mesclam o masculino e o feminino em seus corpos tornando a sua apar\u00eancia amb\u00edgua. Estes corpos se configuram como uma  esp\u00e9cie de colcha de retalhos que se materializa na medida em que uma delicada agulha perpassa os c\u00f3digos de g\u00eanero, costurando-os at\u00e9 formar a sua extensa malha.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse rompimento com as normas tem por efeito impossibilitar seu reconhecimento dentro do bin\u00e1rio de g\u00eanero (oposi\u00e7\u00e3o entre homem x mulher\/ masculino x feminino). Defendo que essas diverg\u00eancias \u00e0s normas possuem a pot\u00eancia de desestabilizar os discursos cisheteronormativos que organizam as rela\u00e7\u00f5es sociais dos sujeitos revelando o car\u00e1ter questionador destes corpos afeminados.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"693\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-693x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21351\" srcset=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-693x1024.jpg 693w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-203x300.jpg 203w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-768x1134.jpg 768w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-99x146.jpg 99w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-34x50.jpg 34w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw.jpg 1200w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Viv\u00eancias-Afeminadas-Capaw-51x75.jpg 51w\" sizes=\"auto, (max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por meio desse texto busco oferecer ferramentas que nos possibilitem<br>compreender os discursos formados em torno da sexualidade e do g\u00eanero, que d\u00e3o forma a nossa vis\u00e3o de mundo, e as maneiras com que as pessoas afeminadas constituem seus corpos e sua performance de g\u00eanero como um marcador social da diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa diferen\u00e7a \u00e9 perpassada pela viol\u00eancia que funciona como um constante lembrete de que  as normas n\u00e3o foram incorporadas adequadamente pelas pessoas afeminadas. <\/p>\n\n\n\n<p> A forma e o conte\u00fado dessas viol\u00eancias exp\u00f5em que, apesar de estarem ligadas tamb\u00e9m a sexualidade, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o complexa com o desvio de g\u00eanero que marca de forma mais intensa a sua narrativa. <\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o contexto social em que vivem as pessoas afeminadas hoje, no primeiro cap\u00edtulo, \u201cFeminilidades masculinas, patologiza\u00e7\u00e3o e sua rela\u00e7\u00e3o com o  conceito de homossexualidade\u201d, discuto como, ao longo do espa\u00e7o-tempo, as  masculinidades femininas passaram por processos de transmuta\u00e7\u00e3o em seus significados. <\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo da discuss\u00e3o \u00e9 apontar que o significado atribu\u00eddo a feminilidade masculina n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtico, mas flu\u00eddo. Esse breve passeio pela hist\u00f3ria,<br> que nos levar\u00e1 da Gr\u00e9cia e Roma antiga at\u00e9 a atualidade, nos mostrar\u00e1 que a  feminilidade masculina j\u00e1 foi associada explicitamente a uma forma de desvio de g\u00eanero  e at\u00e9 mesmo a uma esp\u00e9cie de excesso de desejo heterossexual, completamente  desassociada do desejo pelas pessoas do mesmo sexo\/g\u00eanero, interpreta\u00e7\u00e3o corrente na atualidade &#8211; inaugurada a partir da inven\u00e7\u00e3o da categoria de homossexualidade e da sua<br> patologiza\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p> No segundo cap\u00edtulo, \u201cPerformatividade das Pessoas afeminadas: corpo, abje\u00e7\u00e3o e dissid\u00eancia\u201d, discuto a matriz cultural do g\u00eanero desenhada por Judith Butler em \u201cProblemas de G\u00eanero\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A referida matriz exp\u00f5e que h\u00e1 uma s\u00e9rie de mecanismos sociais que coagem os sujeitos a criem rela\u00e7\u00f5es de continuidade entre sexo, g\u00eanero, desejo e pr\u00e1tica sexual para que conquistem inteligibilidade no seio social, se legitimem como \u201csujeitos normais\u201d e mantenham intacta a estrutura social vigente. Traduzindo em mi\u00fados, a referida matriz revela que o sujeito, caso nas\u00e7a com um p\u00eanis, por exemplo, precisa se entender e se apresentar na sociedade como homem e se engajar afetivo e sexualmente com outras pessoas do sexo\/g\u00eanero oposto. <\/p>\n\n\n\n<p>A partir do delineio dessa matriz disserto sobre as formas com que as pessoas afeminadas se distanciam desse modelo criando um corpo amb\u00edguo a partir do embaralhamento dos c\u00f3digos de g\u00eanero e tamb\u00e9m ao apresentar sexualidades m\u00faltiplas \u2013 n\u00e3o limitadas a homossexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p> Exponho atrav\u00e9s da minha argumenta\u00e7\u00e3o que as experi\u00eancias corporais e sexuais dissidentes das pessoas afeminadas revelam possibilidades outras de identifica\u00e7\u00e3o quanto ao g\u00eanero e a sexualidade que nos permitem complexificar e questionar a seguran\u00e7a ontol\u00f3gica que fundamenta a experi\u00eancia dos sujeitos, visto que ela foi constitu\u00edda a partir de um processo de naturaliza\u00e7\u00e3o das formas de ser homem e de ser mulher refletido na matriz cultural do g\u00eanero que essas experi\u00eancias mostram ser<br> constitu\u00eddas socialmente e historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\">\n\nNo terceiro e \u00faltimo cap\u00edtulo, \u201cCorporalidades afeminadas, viol\u00eancias e as<br>possibilidades de resistir e existir nas e pelas feminilidades\u201d, proponho uma compreens\u00e3o das performances das pessoas afeminadas a partir da perspectiva do fracasso desenhada por Halberstam em seu livro \u201cA Arte Queer do Fracasso\u201d.\n\n<\/p>\n\n\n\n<p>A pessoa fracassada, na perspectiva desse autor, \u00e9 aquela que carrega em si o peso da marginalidade, da exclus\u00e3o, mas que tamb\u00e9m carrega, contraditoriamente, a pot\u00eancia da rebeldia, do confronto com as normas e do gozo a partir dessa marginalidade.<\/p>\n\n\n\n<p> Partindo dessa asser\u00e7\u00e3o e das an\u00e1lises das narrativas coletadas aponto que as pessoas afeminadas, por meio de suas performances falhas\/fracassadas, incorporam o erro como constitui\u00e7\u00e3o de si mesmas e ressignificam o fracasso o tornando em algo prazeroso, em novas possibilidades de constituir corpos, desejos, subjetividades inquietantes e de ser\/existir em uma cultura cisheteronormativa. <\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><em>Nomes fict\u00edcios para proteger a identidade das pessoas colaboradoras da pesquisa.<\/em><a href=\"https:\/\/www.queerlivros.com.br\/vivencias-  afeminadas-pensando-corpos-generos-e-sexualidades-dissidentes\"><br> Link para comprar o livro na pr\u00e9-venda<\/a><\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Murillo Nonato, especial para o Me Salte Tainan* caminhava pelas ruas vazias de Nazar\u00e9, bairro de Salvador, quando percebeu dois homens se aproximando na garupa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80,11],"tags":[],"class_list":["post-21349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-me-informo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21349"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21356,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21349\/revisions\/21356"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}