{"id":20898,"date":"2020-03-08T00:33:18","date_gmt":"2020-03-08T03:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=20898"},"modified":"2020-03-07T10:39:23","modified_gmt":"2020-03-07T13:39:23","slug":"uma-vida-de-naos-enfermeira-trans-precisa-trabalhar-como-ambulante-para-sobreviver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/uma-vida-de-naos-enfermeira-trans-precisa-trabalhar-como-ambulante-para-sobreviver\/","title":{"rendered":"Uma vida de n\u00e3os: enfermeira trans precisa trabalhar como ambulante para sobreviver"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Fernanda Santana<\/p>\n\n\n\n<p>Lorrane recebeu o primeiro n\u00e3o quando ainda estava na barriga da m\u00e3e, Maria Helena Carolina. O pai abandonou ela, a m\u00e3e e um irm\u00e3o. Depois, recebeu outros n\u00e3os: por ser pobre, por ser negra e por ser transexual. Por isso, a enfermeira Lorrane Manthele, 38 anos, formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) &#8211; e tamb\u00e9m em Hotelaria, pelo Instituto Federal da Bahia (Ifba) &#8211; trabalha como vendedora ambulante, no bairro do Uruguai, para se manter.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vizinha\u00e7a, Lorrane monta uma barraca onde vende artigos como blusas de times de futebol. &#8220;Como pode uma enfermeira trabalhar como ambulante?&#8221;, questionou uma outra vendedora \u00e0 reportagem, na Festa de Iemanj\u00e1, quando encontramos Lorrane. Ela trabalha em festas populares desde 2016. &#8220;Tem gente que n\u00e3o acredita&#8221;, completou a enfermeira, naquele 2 de fevereiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lorrane \u00e9 a segunda dos quatro filhos de Maria Helena Carolina, 61, que trabalhou por 30 anos num abatedouro na Baixa do Fiscal, para manter a si mesma e&nbsp;as crian\u00e7as. Frequentemente, Helena, conhecida no bairro como M\u00e3ezinha, se refere \u00e0 filha no masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na fam\u00edlia, a maioria de Testemunhas de Jeov\u00e1, a transfobia tamb\u00e9m existe. As portas de casa j\u00e1 foram fechadas para Lorrane. Quando tinha 18 anos, foi expulsa de casa pelo pai,&nbsp;o mesmo que abandonou a fam\u00edlia com a esposa gr\u00e1vida e&nbsp;retornou para casa quando ela tinha 11 anos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ouvir a hist\u00f3ria, perguntei \u00e0 m\u00e3e de Lorrane:&nbsp;\u201cPor que a senhora deixou ele voltar?\u201d. Ao que ela retrucou: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 se apaixonou, &nbsp;filha?\u201d. \u201cJ\u00e1\u201d, respondi. \u201cEnt\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 tem a resposta\u201d, continuou. Mas, a paix\u00e3o teve custos para Lorrane.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando come\u00e7a a luta dela para ser a mulher que \u00e9 e sempre sentiu que fosse, apesar de todos os n\u00e3os. &nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Portas trancadas<\/strong><br>\u00c0 1h da madrugada, expulsa de casa pelo n\u00e3o da fam\u00edlia, Lorrane buscou abrigo na casa de um amigo. Precisou come\u00e7ar a traficar para sobreviver. Logo depois, veio a prostitui\u00e7\u00e3o, quando passava madrugadas&nbsp;nas orlas de Patamares e Pituba ou no bairro da Cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&nbsp;<strong>&#8220;Se as portas est\u00e3o fechadas para algumas pessoas, para as transexuais, elas est\u00e3o trancadas&#8221;<\/strong>, afirma Lorrane.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Foi quando come\u00e7ou a tomar horm\u00f4nios femininos por conta pr\u00f3pria. Em 2004, uma amiga injetou cinco litros de silicone industrial nos seus seios. O corpo rejeitou e ela desenvolveu uma infec\u00e7\u00e3o. Ficou tr\u00eas anos sem andar.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma cirurgia&nbsp;para retirar o silicone, conseguiu se recuperar. Em 2008, como vendedora ambulante de frutas e verduras, retornou \u00e0 casa de onde foi enxotada.&nbsp;Vestia uma cal\u00e7a capri e blusa verdes, ums sand\u00e1lia&nbsp;rasteira e tinha um aplique vermelho no cabelo. Novamente, ouviu um n\u00e3o. Uma tia trancou a grade para ela ficar do lado de fora.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>&#8220;As mulheres, \u00e0s vezes, s\u00e3o as mais transf\u00f3bicas. Criam uma competi\u00e7\u00e3o umas com as outras&#8221;<\/strong>, disse Lorrane. &nbsp; &nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o, a m\u00e3e, Helena, confrontou a fam\u00edlia &#8211; inclusive o marido. Quem n\u00e3o estivesse satisfeito com a presen\u00e7a da filha que sa\u00edsse de sua casa. Ela voltou a frequentar o lugar. Sempre de passagem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Me chame pelo meu nome&#8221;<\/strong><br>Na \u00e9poca, Lorrane se formou em Hotelaria pelo Instituto Federal da Bahia (Ifba). J\u00e1 havia deixado o tr\u00e1fico e a prostitui\u00e7\u00e3o. Mas, nunca conseguiu emprego formal. &#8220;J\u00e1 fiz entrevista com pessoas semianalfabetas que foram escolhidas no meu lugar, acredita?&#8221;, contou.&nbsp;Na carteira de trabalho de Lorrane, feita em 2007, n\u00e3o h\u00e1 sequer uma assinatura.<br>&nbsp;<br>De tanto ver as amigas serem maltradas e morrerem, sem assist\u00eancia m\u00e9dica, por aplica\u00e7\u00e3o clandestina&nbsp;de silicone industrial, Lorrane decidiu cursar enfermagem. Passou de primeira, no semestre 2013.1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>&#8220;Todos olhavam para mim, como se eu, o que eu represento, n\u00e3o pudesse estar l\u00e1&#8221;<\/strong>, disse.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um dia, foi ao colegiado da Escola de Enfermagem resolver um problema numa disciplina. A funcion\u00e1ria insistia em cham\u00e1-la pelo seu nome do registro civil. &#8220;Me chame pelo meu nome&#8221;, cobrava a estudante. S\u00f3 no quarto semestre, passou a ser chamada pelo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas sele\u00e7\u00f5es de emprego, Lorrane chega a usar um nome masculino para conseguir fazer a entrevista. &#8220;Quando veem o nome social, alguns nem chamam&#8221;, relatou.&nbsp;<br>&nbsp;<br>Num est\u00e1gio durante a gradua\u00e7\u00e3o, Lorrane ouviu o n\u00e3o da m\u00e3e de um rapaz que, com uma infec\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a, precisava de troca do curativo. &#8220;N\u00e3o toque nele&#8221;, disse a m\u00e3e dele, agarrada ao bra\u00e7o da enfermeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo entre n\u00e3os, Lorrane fez mais de dez cursos de especializa\u00e7\u00e3o. No pr\u00f3ximo semestre, iniciar\u00e1 uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Infectologia, pela Ufba. Hoje, faz uma p\u00f3s numa faculdade privada. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>&#8220;N\u00e3o ter um emprego formal \u00e9 a realidade de maioria das trans, que ficam sujeitas \u00e0 rua, de onde eu vim&#8221;<\/strong>, afirma Millena Passos, coordenadora do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em dezembro do ano passado, Lorrane se formou como enfermeira. Neste m\u00eas, ela foi selecionada para um est\u00e1gio num programa estadual &#8211; mas n\u00e3o para um emprego, mesmo depois de formada. Lorrane buscou empregos em tr\u00eas hospitais. N\u00e3o houve retorno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>&#8220;Estou perseverante. N\u00e3o me lamento, todos aqui me &nbsp;reconhecem&#8221;<\/strong>, contou, animada.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No dia de Iemanj\u00e1, quando o CORREIO conheceu &nbsp;Lorrane, atr\u00e1s de um freezer e vendendo cerveja e \u00e1gua, ela havia acabado de tatuar no antebra\u00e7o direito: &#8220;Que minha coragem seja maior que o meu medo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernanda Santana Lorrane recebeu o primeiro n\u00e3o quando ainda estava na barriga da m\u00e3e, Maria Helena Carolina. 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