{"id":20172,"date":"2019-09-24T23:41:03","date_gmt":"2019-09-25T02:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=20172"},"modified":"2019-09-24T23:51:07","modified_gmt":"2019-09-25T02:51:07","slug":"artigo-a-verdadeira-parada-lgbt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/artigo-a-verdadeira-parada-lgbt\/","title":{"rendered":"[Artigo] A verdadeira &#8216;Parada&#8217; LGBT"},"content":{"rendered":"\n<p>Alan di Assis* <\/p>\n\n\n\n<p>O tom era de festa. Acredito que LGBTs que vivem no pa\u00eds que mais mata os seus iguais podem comemorar as suas vidas, mas devem reivindicar as suas mortes. Hoje, temos mais a chorar do que a sorrir.&nbsp;Apoiar a milit\u00e2ncia LGBT vai muito al\u00e9m de endossar tudo o que \u00e9 feito. \u00c9 necess\u00e1rio estimular a autoan\u00e1lise e promover a autocr\u00edtica\u2026 <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/parada-gay-de-salvador-pede-respeito-e-celebra-a-amazonia\/\">A 18\u00aa Parada LGBT da Bahia, que aconteceu no \u00faltimo domingo (22),<\/a> traz \u00e0 tona a necessidade de uma reflex\u00e3o mais profunda sobre o cen\u00e1rio do ativismo LGBT na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No dicion\u00e1rio, \u201cparada\u201d \u00e9 um \u201cdesfile de tropas\u201d, e \u00e9 importante evocar este significado para ressaltar o car\u00e1ter militante que um ato como este deve assumir, principalmente quando se tem os \u201c50 anos de Stonewall\u201d \u2013 revolta que deu origem \u00e0s paradas ao redor do mundo \u2013 como uma das tem\u00e1ticas do evento. A primeira reflex\u00e3o \u00e9: conhecemos a nossa hist\u00f3ria? Nos importamos e aprendemos com ela?<\/p>\n\n\n\n<p>Num dos momentos mais delicados da Hist\u00f3ria do Brasil, a Parada de Salvador aconteceu como se fosse s\u00f3 mais uma, como se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos vivendo num cen\u00e1rio de horror e obscurantismo que p\u00f5e nossas vidas em risco, sem despertar uma real consci\u00eancia da conjuntura sociopol\u00edtica que enfrentamos. H\u00e1 uma semana, livros com tem\u00e1tica LGBT eram censurados na Bienal, no Rio de Janeiro\u2026 <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o seria, por exemplo, uma oportunidade para que a organiza\u00e7\u00e3o pedisse para que quem fosse \u00e0s ruas levasse um livro? Os discursos religiosos extremistas e inflamados que apontam os LGBTs como inimigos a serem combatidos tem ganhado ades\u00e3o at\u00e9 daqueles ignorantes que n\u00e3o s\u00e3o religiosos\u2026 N\u00e3o seria importante realizar uma performance como a da atriz Viviany Beleboni, transexual que desfilou \u201ccrucificada\u201d na 19\u00aa Parada LGBT de S\u00e3o Paulo, em 2015? E eis mais uma reflex\u00e3o: como temos nos organizado e nos posicionado diante dos ataques? Nossas manifesta\u00e7\u00f5es tem levantado debates e pautado discuss\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>A parada deveria se parecer mais com as manifesta\u00e7\u00f5es do #EleN\u00e3o \u2013 de setembro de 2018 \u2013, com gritos de ordem, cartazes, discursos e, mesmo as m\u00fasicas, com mensagens coerentes, que reforcem o intuito da marcha. No entanto, o que se p\u00f4de ver no domingo foram diversos carros tocando forr\u00f3, sertanejo, arrocha, funk, pagode e uma massa que seguia estes carros sem uma causa evidente que os movesse. Neste ponto, pode ser levantada uma problem\u00e1tica sobre as m\u00fasicas que embalavam a caminhada. Existe, sim, uma cultura LGBT, da qual fazem parte ritmos e performances espec\u00edficas e que estavam pouco representadas na Parada deste ano em Salvador. <\/p>\n\n\n\n<p>Hinos de Madonna, Beyonc\u00e9 s\u00e3o importantes, mas principalmente as can\u00e7\u00f5es de Pabllo Vittar, Gloria Groove, de Majur, Liniker, Linn da Quebrada, As Baianas e a Cozinha Mineira, N\u00e3o Recomendados (e tantos mais, todos LGBTs) eram exponencialmente mais necess\u00e1rias de serem tocadas do que qualquer &#8220;te amo e voc\u00ea nem &#8216;tchum'&#8221; e afins. <\/p>\n\n\n\n<p>Cada detalhe faz diferen\u00e7a numa a\u00e7\u00e3o t\u00e3o representativa (e que precisa representar a todxs), e a m\u00fasica\/trilha (a arte de forma geral) \u00e9 parte pulsante disto. Como estamos valorizando e apoiando a arte e o trabalho dos nossos? Como tem sido aplicado o nosso &#8220;pink money&#8221;? Este \u00e9 outro ponto a se refletir\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Para este ano, a proposta era uma parada diferente. Pela primeira vez no Dique do Toror\u00f3, com minitrios, o novo formato propunha mais proximidade com o p\u00fablico, aproveitando a presen\u00e7a das fam\u00edlias no circuito e incluindo-as na manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha todo potencial para ser mais politizado, no entanto, serviu para promover uma sensa\u00e7\u00e3o de \u201cbaixar a guarda\u201d. Parecia muito mais uma festa preocupada em atrair e incluir os heterossexuais como aliados, sem choc\u00e1-los ou deix\u00e1-los desconfort\u00e1veis, do que com o protagonismo LGBT em si. Essa ret\u00f3rica de que &#8220;somos todos iguais&#8221; precisa ser repensada, uma vez que, na verdade, somos todos diferentes e a Parada do Orgulho LGBT tem (ou deveria ter) o intuito de celebrar, justamente, a diversidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Vale a an\u00e1lise: ser\u00e1 que estamos incorporando o discurso do \u201cchaveirinho de hetero\u201d, diminuindo e mascarando nossas demandas para nos encaixarmos no padr\u00e3o de &#8220;LGBT pass\u00e1vel&#8221; &#8211; aquele que n\u00e3o incomoda e por isso \u00e9 aceito? Estamos com medo?<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos LGBTs tem desistido da parada com o argumento de que, cada vez mais, se assemelha a um carnaval fora de \u00e9poca que n\u00e3o foca na luta pelos direitos e se tornou s\u00f3 mais uma festa. Ainda que haja raz\u00e3o nessa perspectiva, n\u00e3o se pode negar que o simples fato de milhares de LGTBS lotarem as ruas para sinalizarem a sua exist\u00eancia \u00e9 relevante. Cada pessoa que leva a luta a s\u00e9rio e desiste do movimento n\u00e3o soma, mas subtrai \u00e0 causa. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma forma de resist\u00eancia se mostra defasada, precisa-se pensar outras formas de resistir, mas nunca desistir. Nossas opini\u00f5es e posicionamentos tem agregado ou desunido a nossa comunidade? Seria v\u00e1lido ceder por uma bandeira maior?<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um lado o p\u00fablico n\u00e3o pode abandonar e fugir de sua responsabilidade, a organiza\u00e7\u00e3o da Parada n\u00e3o pode se acomodar. Essa desuni\u00e3o ego\u00edca que nos acomete precisa se dissipar ou, pelo menos, entender o limite da emerg\u00eancia para deixar de lado as diferen\u00e7as e buscar emitir uma voz un\u00edssona. Se n\u00e3o conseguirmos nos organizar enquanto grupo, nossas vozes dissonantes causar\u00e3o confus\u00e3o; n\u00e3o seremos ouvidos ou, quando ouvidos, a desarmonia de nossas vozes far\u00e1 nossas demandas inaud\u00edveis. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 responsabilidade nossa a viol\u00eancia que sofremos, mas \u00e9 nosso dever apoiarmos-nos. \u00c9 realmente necess\u00e1rio apontar culpados e eleger her\u00f3is? N\u00e3o podemos conquistar juntos?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Efeito de parar&#8221; \u00e9 mais um dos significados do dicion\u00e1rio para &#8220;parada&#8221;, e essa foi a nossa verdadeira Parada LGBT de 2019. Precisamos urgentemente voltar a nos movimentar, de maneira organizada e unida, mover as estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>* Alan di Assis escreveu esse texto de forma colaborativa para o Me Salte. Ele \u00e9 jornalista, militante, pesquisador e produtor de conte\u00fado das rela\u00e7\u00f5es entre homoafetividade e protestantismo\/evangelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alan di Assis* O tom era de festa. Acredito que LGBTs que vivem no pa\u00eds que mais mata os seus iguais podem comemorar as suas vidas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20173,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80,9],"tags":[1930,43,350],"class_list":["post-20172","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-me-orgulho","tag-dique","tag-lgbt","tag-parada-gay"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20172"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20175,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20172\/revisions\/20175"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20173"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}