{"id":19366,"date":"2019-05-29T07:39:44","date_gmt":"2019-05-29T10:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=19366"},"modified":"2019-05-29T07:49:31","modified_gmt":"2019-05-29T10:49:31","slug":"estudo-do-iscufba-discute-saude-de-homens-trans-em-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/estudo-do-iscufba-discute-saude-de-homens-trans-em-salvador\/","title":{"rendered":"Estudo do ISC\/UFBA discute sa\u00fade de homens trans em Salvador"},"content":{"rendered":"<p>Desde 2010, o pesquisador Diogo Sousa, 31 anos,\u00a0 do Instituto de Sa\u00fade Coletiva da UFBA, tem\u00a0discutido o tema das masculinidades e da sa\u00fade dos homens. Recentemente, ele concluiu estudo\u00a0que discute a sa\u00fade de homens trans na cidade de Salvador. O trabalho, resultado de uma tese de disserta\u00e7\u00e3o h\u00e1 dois anos, foi apresentado na \u00faltima sexta-feira (17), no Dia Internacional contra a Homofobia, no audit\u00f3rio do ISC\/UFBA.<\/p>\n<p>Sousa destaca que esse \u00e9 um tema que lhe despertou interesse por &#8216;considerar a masculinidade uma pauta fundamental para pensar sistemas de opress\u00f5es, seja o machismo, o racismo ou a LGBTfobia&#8217;. &#8220;Atualmente, discutindo sa\u00fade dos homens negros no Brasil, sei como a transfobia e o racismo articulam cen\u00e1rios de grande risco para os homens trans negros. Creio que tal discuss\u00e3o precisa considerar a identidade de g\u00eanero para uma an\u00e1lise profunda do tema em investiga\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o pesquisador que \u00e9 psic\u00f3logo e\u00a0doutorando em Sa\u00fade P\u00fablica pelo Instituto de Sa\u00fade Coletiva da Universidade Federal da Bahia.<\/p>\n<p>A pesquisa destaca diversas quest\u00f5es que envolvem o universo da transexualidade, desde a dificuldade de reconhecimento da pr\u00f3pria identidade de g\u00eanero, at\u00e9 os principais dilemas dessas pessoas na busca pelos servi\u00e7os de sa\u00fade na capital baiana. Confira entrevista com Diogo sobre o assunto:<\/p>\n<p><strong>&#8212;&gt;&gt; Nos acessos aos servi\u00e7os de sa\u00fade a popula\u00e7\u00e3o trans sofre bastante preconceito. Dentro da sua pesquisa o que voc\u00ea identificou nesse sentido com rela\u00e7\u00e3o aos homens trans?<\/strong><\/p>\n<p><em>A transfobia, em seu car\u00e1ter multifacetado, organiza as quest\u00f5es de sa\u00fade dos homens trans. Ela se expressa na barreira que produz \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de conhecimento qualificado sobre as identidades de g\u00eanero, as transmasculinidades especificamente, em como pensar o cuidado que alcance as realidades de vida dos homens trans e como pautar esse cuidado a partir de uma perspectiva que n\u00e3o pense as pessoas trans tomando como refer\u00eancia as pessoas cis. Isso n\u00e3o significa dividir a sociedade entre trans e cis, mas garantir que essas identidades (e tantas outras mais que sequer discutimos) tenham possibilidades de se expressar e condi\u00e7\u00f5es para viver dignamente. <\/em><\/p>\n<p><em>A falta de informa\u00e7\u00e3o qualificada, de conhecimento sobre as transmasculinidades, implica tanto em barreiras para que os homens trans possam se identificar como tais, assim como tem formado profissionais que negam atendimento sob a justificativa de n\u00e3o terem aprendido sobre esse tema ao longo da sua forma\u00e7\u00e3o. Houve muitos relatos sobre profissionais de sa\u00fade que utilizam desse espa\u00e7o para impor a sua religiosidade, seja negando atendimento aos homens trans ou buscando realizar uma esp\u00e9cie de &#8220;convers\u00e3o da identidade de g\u00eanero&#8221;, informando que eles deveriam voltar a ser &#8220;boas mulheres&#8221; e que havia um prop\u00f3sito divino para as suas vidas. Al\u00e9m disso, devemos lembrar da intersec\u00e7\u00e3o que o racismo, a homofobia, a classe e o g\u00eanero manifestam na condi\u00e7\u00e3o de vida das pessoas trans.<\/em><\/p>\n<p><em> Homens trans negros relataram mais neglig\u00eancia no atendimento em servi\u00e7os de sa\u00fade em rela\u00e7\u00e3o aos homens trans brancos. Em uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, Tom, um homem trans negro participante da pesquisa, relatou ter o seu atendimento negado enquanto um homem trans branco que estava com ele havia conseguido apresentar e ter suas demandas atendidas. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso ressaltar que a viv\u00eancia de g\u00eanero precisa estar a par do que chamamos de masculinidade hegem\u00f4nica, com um corpo musculoso, barba, roupas e comportamentos lidos como viris e fortes. Quando n\u00e3o se constroem e se comportam dessa forma, sofrem retalia\u00e7\u00f5es e, quando lidos como gays, sofrem homofobia. Por fim, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter renda para suprir as necessidades de adquirir horm\u00f4nios, construir o seu repert\u00f3rio visual com roupas e para a realiza\u00e7\u00e3o de cirurgias, caso optem, e nem todos disp\u00f5em de condi\u00e7\u00f5es suficientes para dar conta dessas demandas.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8212;&gt;&gt; Qual o maior dificultador do acesso dos homens trans aos servi\u00e7os de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p><em>Primeiro, buscar qualquer tipo de atendimento nos servi\u00e7os de sa\u00fade perpassa uma s\u00e9rie de sensa\u00e7\u00f5es de ansiedade e medo. Os homens trans relataram ficar ansiosos, incomodados e apreensivos com a possibilidade de sofrerem viol\u00eancias nos servi\u00e7os de sa\u00fade. Em especial, quando precisam fazer algum tipo de consulta cl\u00ednica do aparelho genital, v\u00e3o acompanhados por amigas, namoradas ou familiares. Isso porque, quando um homem trans \u00e9 chamado pelo nome de registro, \u00e9 a pessoa que lhe acompanha que segue com ele, como se ele fosse um acompanhante. <\/em><\/p>\n<p><em>No consult\u00f3rio, ambos explicam a situa\u00e7\u00e3o e esperam n\u00e3o sofrerem retalia\u00e7\u00f5es da\/o profissional. Nesse sentido, considerando aqueles que j\u00e1 realizaram a retifica\u00e7\u00e3o documental, \u00e9 preciso que a gente amplie informa\u00e7\u00f5es sobre as transmasculinidades para que tanto a popula\u00e7\u00e3o quanto a equipe profissional de um servi\u00e7o reconhe\u00e7am os homens trans em suas demandas de serem assistidos nesses locais. Este \u00e9 um exemplo e, quando falamos sobre ele, estamos falando sobre viol\u00eancia contra as pessoas trans, ou seja, transfobia. A transfobia tem muitas formas de se manifestar. Creio que uma das mais violentas seja a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma pessoa.<\/em><\/p>\n<p><em> Isto acontece com pessoas negras, mulheres e LGBT de modo geral. Buscar um servi\u00e7o e ter suas necessidades ou demandas de sa\u00fade negligenciadas por desconhecimento ou falta de forma\u00e7\u00e3o, justificativas comuns entre profissionais de sa\u00fade, em especial, da medicina e psicologia, n\u00e3o diz necessariamente da falta de qualifica\u00e7\u00e3o profissional, mas da negativa de usar o seu conhecimento e transform\u00e1-lo para alcan\u00e7ar a realidade da vida dos homens trans. Creio que a psicologia nos ajuda refletir algo muito b\u00e1sico para o que fazer quando n\u00e3o se sabe: ouvir a pessoa e sua demanda. Construir, juntas, um modo de pensar como construir estrat\u00e9gias de cuidado que permitam o seu bem-estar.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8212;&gt;&gt; Acredita que faltam pol\u00edticas p\u00fablicas em sa\u00fade para auxiliar homens trans nos momentos, por exemplo, de reconhecimento da identidade de g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p><em>Acredito que falta a amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de sa\u00fade, de mudan\u00e7as culturais, pol\u00edticas e sociais que fa\u00e7am com o que o SUS esteja forte o suficiente para cumprir o seu compromisso com a popula\u00e7\u00e3o, em especial, de torn\u00e1-la protagonista na constru\u00e7\u00e3o das l\u00f3gicas de cuidado e garantir que nenhuma pessoa trans tenha o seu direito \u00e0 sa\u00fade aviltado em qualquer canto desse pa\u00eds. Precisamos trazer para dentro da compreens\u00e3o de sa\u00fade os saberes produzidos por intelectuais e ativistas trans e construir com estes grupos as estrat\u00e9gias de cuidado necess\u00e1rias de serem implementadas. <\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, \u00e9 preciso ler Viviane Vergueiro, Jaqueline Gomes de Jesus, C\u00e9u Cavalcanti, Guilherme Almeida, Fran Dem\u00e9trio, dentre outras\/os, para ampliar a no\u00e7\u00e3o de cuidado e assist\u00eancia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trans. Al\u00e9m disso, as quest\u00f5es trans n\u00e3o s\u00e3o exclusivas do setor sa\u00fade e demandam cuidados intersetoriais. Como dito anteriormente, a transfobia organiza as quest\u00f5es de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o trans. Ela n\u00e3o \u00e9 exclusivamente uma quest\u00e3o de sa\u00fade, portanto, demanda que esta junto \u00e0 assist\u00eancia social, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao sistema de justi\u00e7a caminhem juntos para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas antitransf\u00f3bicas. Deste modo, podemos considerar o reconhecimento da identidade de g\u00eanero e o cuidado transversal \u00e0s pessoas trans.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8212;&gt;&gt; A legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante restritiva com rela\u00e7\u00e3o aos processos de uso de horm\u00f4nios o que acaba levando as pessoas para usos n\u00e3o autorizados. Qual impacto isso tem na sa\u00fade dos homens trans?<\/strong><\/p>\n<p><em>Atualmente, o horm\u00f4nio utilizado por homens trans, a testosterona, \u00e9 um medicamento controlado, que necessita de guia m\u00e9dica para a sua obten\u00e7\u00e3o em farm\u00e1cias. Al\u00e9m da necessidade de recurso financeiro para alcan\u00e7ar essa medica\u00e7\u00e3o, a barreira mais apresentada pelos homens trans foi a recusa m\u00e9dica no fornecimento da guia m\u00e9dica e de assist\u00eancia nesse processo. O efeito dessa pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 evitar que os homens trans se hormonizem, mas que o fa\u00e7am de forma arriscada. Primeiro, porque, como n\u00e3o conseguem obter os horm\u00f4nios nas farm\u00e1cias, buscam em outros locais, geralmente, academias. <\/em><\/p>\n<p><em>Por vezes, adquirem subst\u00e2ncias vindas de outros pa\u00edses que n\u00e3o passaram pelo controle da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, e que podem trazer s\u00e9rios riscos \u00e0 sua sa\u00fade. Quando conseguem articular formas de conseguir o medicamento nas farm\u00e1cias, o tr\u00e2nsito do medicamento at\u00e9 chegar em suas m\u00e3os oscila o valor em at\u00e9 quatro vezes mais. Muitas vezes, isso dificulta a periodicidade com que a aplica\u00e7\u00e3o deve ser feita, n\u00e3o alcan\u00e7ando os resultados desejados. Vale destacar que o Brasil ainda n\u00e3o possui uma normativa de hormoniza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para a popula\u00e7\u00e3o trans, situa\u00e7\u00e3o comumente utilizada para negar tal demanda \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. A literatura internacional indica que a hormonioterapia \u00e9 segura a curto prazo e garante os efeitos desejados, mas \u00e9 preciso compor um plano terap\u00eautico seguro com a pessoa demandante.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8212;&gt;&gt; Quais resultados da sua pesquisa voc\u00ea acredita que s\u00e3o mais importantes de destacar?<\/strong><\/p>\n<p><em>A transfobia em sua dimens\u00e3o interseccional \u00e9 um dos principais achados. Ela n\u00e3o se exerce s\u00f3, mas \u00e9 uma dimens\u00e3o estrutural que se organiza com o racismo, o sexismo e a homolesbobifobia. Isso significa que a estrutura da transfobia demanda de outras estruturas de domina\u00e7\u00e3o, bem como n\u00e3o \u00e9 somente ela que organiza a vida dos homens trans, sendo que cada outro marcador que opera vulnerabilidades intensifica sofrimentos e quest\u00f5es de sa\u00fade. No artigo intitulado \u201c\u2018Viver dignamente\u2019: necessidades e demandas de sa\u00fade de homens trans em Salvador, Bahia, Brasil\u201d,\u00a0destaco que a transfobia \u00e9 uma faceta da antidemocracia, pois opera a exclus\u00e3o de um grupo populacional. <\/em><\/p>\n<p><em>Al\u00e9m disso, as quest\u00f5es de sa\u00fade mais presentes nas falas dos homens trans (hormoniza\u00e7\u00e3o e cirurgias) n\u00e3o s\u00e3o demandas solicitadas por todos e existem press\u00f5es de diversas ordens que acabam por produzir sofrimentos. Creio que ter ouvido os homens trans enquanto pesquisador confirmou a import\u00e2ncia da escuta e da valoriza\u00e7\u00e3o do saber como forma de construir cuidados efetivos \u00e0 sua sa\u00fade. Sem que sejam protagonistas do seu processo de cuidado, as estrat\u00e9gias propostas que n\u00e3o alcan\u00e7am suas necessidades e demandas, al\u00e9m de poderem operar viol\u00eancias.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2010, o pesquisador Diogo Sousa, 31 anos,\u00a0 do Instituto de Sa\u00fade Coletiva da UFBA, tem\u00a0discutido o tema das masculinidades e da sa\u00fade dos homens. 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