{"id":19115,"date":"2019-05-13T01:30:26","date_gmt":"2019-05-13T04:30:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=19115"},"modified":"2019-05-10T23:24:12","modified_gmt":"2019-05-11T02:24:12","slug":"artigotheomeireles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/artigotheomeireles\/","title":{"rendered":"Th\u00e9o Meireles: &#8216;Homem trans h\u00e9tero com orgulho&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><em>*Por Th\u00e9o Meireles<\/em><\/p>\n<p>Eu nasci mulher e cresci nesse contexto hegem\u00f4nico. Ao longo da minha vida, a medida que os desejos e prefer\u00eancias se revelavam, a sexualidade se tornava um paradigma da mais alta complexidade para mim que, por conta disso, muito evitava a chegada da maturidade. Renunciei a realidade e me reservei a viver as fantasias da minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Fiz da inf\u00e2ncia uma redoma para me esconder e relutei, sobretudo, em assumir a adolesc\u00eancia que me batia \u00e0 porta. No entanto, foi inevit\u00e1vel a chegada avassaladora das mudan\u00e7as. Com muita clareza e lucidez, eu poderia me declarar heterossexual. O desafio era: como legitimar que uma imagem feminina, que queria se relacionar com mulheres, se configuraria no \u00e2mbito da heteronormatividade? Ausente de respostas, me tornei uma pessoa sem identidade, reclusa, calada, triste.<\/p>\n<p>Se eu n\u00e3o podia ser quem eu era, se n\u00e3o tinha nome essa coisa de viver por dentro e existir por fora, eu n\u00e3o tinha o direito de me manifestar. Por muito tempo, conhecer os prazeres da liberdade de ser quem se \u00e9 parecia uma realidade inalcan\u00e7\u00e1vel para mim. Mas, como um aut\u00eantico sagitariano curioso e aventureiro, adentrei \u00e0 clandestinidade dessas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Completamente rendido, me despreocupei em esconder a fa\u00e7anha a qual me submeti e inevitavelmente fui descoberto. Carregado de expectativas, veio o ultimato: &#8216;Voc\u00ea l\u00e9sbica? &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o sou. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou uma mulher h\u00e9tero&#8217;.<\/p>\n<p>Sem argumentos e sem direito a um r\u00f3tulo que me tirasse daquele enquadramento, me sabotei: sou l\u00e9sbica, gosto de mulheres. O sentimento era de frustra\u00e7\u00e3o e de que aquela conversa com minha m\u00e3e ainda n\u00e3o tinha terminado, era apenas uma forma de ceder j\u00e1 que ela precisava de uma resposta e eu precisava de espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Na busca por algu\u00e9m que me entendesse e me ajudasse a colocar as coisas em seus devidos lugares para que eu encontrar um caminho no meio da bagun\u00e7a de meus sentimentos, depositei muita esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00f5es sem perspectiva alguma de dar certo. Nunca me conformei e, por um lado, isso fortaleceu uma resist\u00eancia em compreender o universo l\u00e9sbico e fortaleceu tamb\u00e9m o machismo cultural enraizado em mim &#8211; eu que me sentia homem, me percebia homem, tinha que me enturmar com homens.<\/p>\n<p>Involuntariamente a resposta chegou quando conheci a transgeneridade. Num bate papo casual em frente \u00e0 faculdade, uma pessoa que admirava muito me lan\u00e7ou a provoca\u00e7\u00e3o de pesquisar e entender a viv\u00eancia trans. No primeiro artigo fui abra\u00e7ado, me senti inclu\u00eddo, legitimado e a partir de ent\u00e3o, fui implac\u00e1vel na determina\u00e7\u00e3o e na coragem de encarar todos os desafios desta travessia.<\/p>\n<p>Eu, homem trans h\u00e9tero, conduzo com muito amor a responsabilidade pessoal e o compromisso social de levantar essa bandeira. Tive muito apoio, tive alicerce, tive incentivo e isso foi determinante para que as expectativas que frustrei um dia se transformassem no orgulho da minha trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tenho um passado que, apesar do sofrimento, me trouxe at\u00e9 aqui e n\u00e3o merece ser anulado. Hoje sou pai, marido, filho e, sobretudo, livre do clausuro de quem n\u00e3o se permite ir al\u00e9m dos padr\u00f5es nos entope limites e nos doutrina. Hoje sou gratid\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia das personalidades trans que, ao longo da hist\u00f3ria, nos deixaram um legado de coragem como inspira\u00e7\u00e3o desta caminhada.<\/p>\n<p><em>*Jornalista e ativista trans<\/em><\/p>\n<p><strong>Gostou? Acompanhe, todas as segundas-feiras de maio, novas mat\u00e9rias sobre o tema aqui no Me Salte no especial LGBT O QU\u00ca?.\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/LGBTOQUE\/\">Clique aqui.<\/a>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Th\u00e9o Meireles Eu nasci mulher e cresci nesse contexto hegem\u00f4nico. 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