{"id":19110,"date":"2019-05-13T00:30:09","date_gmt":"2019-05-13T03:30:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=19110"},"modified":"2019-05-10T23:25:41","modified_gmt":"2019-05-11T02:25:41","slug":"heteronormatividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/heteronormatividade\/","title":{"rendered":"Especialistas refletem sobre como a heteronormatividade compromete as rela\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Ela n\u00e3o tinha medo de bolada ou esbarr\u00e3o. Jogava \u2018feito um menino\u2019- diziam. Era chamada de \u2018Moleque Macho\u2019 por n\u00e3o gostar tanto de boneca e n\u00e3o ter um \u2018jeito sens\u00edvel e delicado\u2019. Al\u00e9m de esportes, a comunic\u00f3loga Laiz Mesquita, 30 anos, sempre gostou de luta, skate e de coisas tidas como masculinas.<\/p>\n<p>\u201cQuando quis meu primeiro skate, l\u00e1 pros sete anos de idade, ouvi: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o pode porque \u00e9 menina\u2019. Com carrinho de controle remoto foi a mesma coisa\u201d, conta ela, que \u00e9 heterossexual. Desde cedo, Laiz entendeu como funciona a sociedade: quem n\u00e3o se encaixa nos padr\u00f5es ditos como ideais \u00e9 exclu\u00eddo. \u201cPercebi o quanto isso era ruim ainda na inf\u00e2ncia, quando era proibida de brincar de coisas simplesmente por ser menina\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_19124\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Bemestar_Laiz-Mesquita_credito-Arquivo-Pessoal.jpg\" rel=\"attachment wp-att-19124\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19124\" class=\"wp-image-19124 size-full\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Bemestar_Laiz-Mesquita_credito-Arquivo-Pessoal.jpg\" alt=\"09052019_VIDA_Bemestar_Laiz Mesquita_credito Arquivo Pessoal\" width=\"600\" height=\"3000\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19124\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Laiz Mesquita<\/strong> (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p><\/div>\n<p>Ela n\u00e3o fazia ideia na \u00e9poca, mas todas essas regras sociais s\u00e3o fruto do sistema heteronormativo. E, ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, afeta n\u00e3o s\u00f3 homossexuais. \u201cHeteronormatividade tem a ver com uma idealiza\u00e7\u00e3o de express\u00e3o de g\u00eanero. \u00c9 essa obriga\u00e7\u00e3o de que todos se comportem como heterossexuais, tendo ou n\u00e3o pr\u00e1ticas heterossexuais. Nessa ordem social, entende-se que homem tem que ser m\u00e1sculo, viril e a mulher tem que ser feminina. Quem foge do padr\u00e3o \u00e9 marcado\u201d, explica o psic\u00f3logo Gilmaro Nogueira, que pesquisa Cultura e Sexualidade pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).<\/p>\n<p>No sistema, os comportamentos associados a cada g\u00eanero s\u00e3o postos como a \u00fanica op\u00e7\u00e3o v\u00e1lida e normal aceita pela sociedade, pontua Nogueira. \u201cPrecisamos nos desfazer dessas ideais de g\u00eanero. De que tal corpo \u00e9 natural e os outros s\u00e3o desviantes\u201d, acrescenta.<\/p>\n<div id=\"attachment_19125\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV.jpg\" rel=\"attachment wp-att-19125\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19125\" class=\"size-full wp-image-19125\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV.jpg\" alt=\"Psic\u00f3logo Gilmaro Nogueira (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Twitter)\" width=\"640\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV.jpg 640w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV-246x300.jpg 246w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV-119x146.jpg 119w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV-41x50.jpg 41w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/DaHs4j2XkAAyiLV-61x75.jpg 61w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19125\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Psic\u00f3logo Gilmaro Nogueira<\/strong> (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Twitter)<\/p><\/div>\n<p>Essas normas tamb\u00e9m refletem na sexualidade. A comunic\u00f3loga Laiz, por exemplo, chegou a pensar que era l\u00e9sbica &#8211; o que n\u00e3o seria um problema &#8211; por conta de tantas imposi\u00e7\u00f5es. \u201cTinha uma amiga muito pr\u00f3xima, fiquei pensando sobre esse sentimento e percebi que era s\u00f3 amizade. Muitas vezes teve burburinhos na escola e na faculdade. \u00c9 louco como as pessoas est\u00e3o se preocupando com a sexualidade de uma pessoa que n\u00e3o tem nada a ver com a vida delas e ainda insistem como se tivessem plena certeza sobre aquilo\u201d, destaca ela, que foi muito cerceada na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo porque, al\u00e9m de ter praticado esportes radicais e lutas \u2013 como capoeira, jud\u00f4, krav mag\u00e1, entre outras \u2013 Laiz fala palavr\u00e3o, expressa suas opini\u00f5es e se imp\u00f5e. \u201cEsse posicionamento de n\u00e3o abaixar a cabe\u00e7a pra tudo \u00e9 visto como \u2018de menino\u2019, o que \u00e9 bizarro. Tomo a frente para defender meus amigos. Esse lugar da prote\u00e7\u00e3o, da seguran\u00e7a, \u00e9 socialmente visto como um \u2018lugar de homens\u2019\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Apesar de ter sofrido bastante, a pesquisadora tenta desconstruir padr\u00f5es heteronormativos com os sobrinhos, atrav\u00e9s de presentes, brincadeiras e a\u00e7\u00f5es di\u00e1rias.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMe sinto mulher, n\u00e3o tenho quest\u00f5es com meu g\u00eanero e nem com a sexualidade. Mas determinadas coisas era complicado ouvir porque s\u00f3 eu sei como sou e como me sinto. N\u00e3o temos que provar nada para ningu\u00e9m. N\u00e3o preciso provar minha feminilidade. Minhas atitudes e gostos n\u00e3o v\u00e3o me tornar mais ou menos mulher\u201d, defende Laiz.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quem tamb\u00e9m sofreu com esses padr\u00f5es de g\u00eanero ainda na inf\u00e2ncia foi o diretor de cinema Klaus Hastenreiter, 27, que sempre teve refer\u00eancias muito femininas. \u201cDetesto futebol. E quando eu falava isso com orgulho na inf\u00e2ncia perguntavam se eu era gay. Nunca chegou a me incomodar, por eu sempre entender n\u00e3o ser algo pejorativo, mas me parecia um preconceito t\u00e3o bobo que s\u00f3 fez eu me afastar mais dos meninos da escola. E \u00e9 t\u00e3o engra\u00e7ado ver hoje essas mudan\u00e7as de consci\u00eancia e conseguir ver todos eles percebendo um a um os erros que a heteronormatividade levavam eles a pensar. At\u00e9 quando eu decidi me tornar ator fizeram muitos coment\u00e1rios sobre sexualidade\u201d, comenta ele, que \u00e9 h\u00e9tero.<\/p>\n<div id=\"attachment_19126\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Especial-LGBT-O-QU\u00ca_Klaus-Hastenreiter_Credito-Arquivo-Pessoal.png\" rel=\"attachment wp-att-19126\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19126\" class=\"wp-image-19126 size-full\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Especial-LGBT-O-QU\u00ca_Klaus-Hastenreiter_Credito-Arquivo-Pessoal.png\" alt=\"09052019_VIDA_Especial LGBT O QU\u00ca_Klaus Hastenreiter_Credito Arquivo Pessoal\" width=\"600\" height=\"2563\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19126\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Klaus Hastenreiter<\/strong> (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p><\/div>\n<p>Uma vez, em uma pe\u00e7a da escola, Klaus quis fazer um papel feminino e foi de vestido para o ensaio. Seus pais foram chamados na escola e, na sala da dire\u00e7\u00e3o, ele teve que se explicar. \u201cMeu pai lembra dessa hist\u00f3ria com muito orgulho, quando eu respondi na frente da diretora que queria fazer um papel de mulher. Eu n\u00e3o sou ator, ora?\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Hoje, Klaus tenta desconstruir estere\u00f3tipos diariamente. Ele, inclusive, \u00e9 diretor do curta-metragem O Sorriso de Felicia, que fala sobre a rela\u00e7\u00e3o opressiva da heteronormatividade em festas sob uma \u00f3tica de terror musical com uma protagonista l\u00e9sbica.\u00a0O\u00a0filme foi selecionado para o Transforma &#8211; Festival de Cinema da Diversidade, em Florian\u00f3polis.<\/p>\n<p><center><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yoF56imb0u4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/center>\u201cA heteronormatividade \u00e9 p\u00e9ssima para sociedade porque apresenta um modelo de vida considerado como normal, marginalizando qualquer tipo de pensamento que discorde do status quo. Quem n\u00e3o segue, n\u00e3o pertence\u201d, opina.<\/p>\n<p><strong>Machismo estrutural<\/strong><br \/>\nE, se Klaus e Laiz sofreram com as press\u00f5es dessas normas, imagina quem n\u00e3o \u00e9 h\u00e9tero? \u201cN\u00e3o \u00e9 uma olimp\u00edada de sofrimento, mas isso atinge heterossexuais e homossexuais de forma diferente. Os h\u00e9teros podem se expressar em p\u00fablico. Quem \u00e9 gay precisa socialmente se comportar como h\u00e9tero\u201d, afirma Nogueira, que \u00e9 gay.<\/p>\n<p>Heteronormatividade, para ele, tem a ver com a materialidade do corpo, com o parecer ser. \u201cPrecisamos humanizar corpos diferentes. A sociedade valoriza muito a materialidade do corpo. A heteronormatividade atinge a todos. Mas as bichas afeminadas, por exemplo, s\u00e3o as que mais morrem. Um homem gay que \u00e9 bem masculino nunca vai ser alvo de inj\u00faria. J\u00e1 uma bicha afeminada&#8230; A heteronormatividade pune quem desobedece. E funciona como amea\u00e7a\u201d, acredita o especialista.<\/p>\n<p>Apesar de entender que essas imposi\u00e7\u00f5es afetam h\u00e9teros, gays e bissexuais, independente de g\u00eanero, a especialista em pol\u00edticas p\u00fablicas e justi\u00e7a de g\u00eanero Bruna Santiago Franchini acredita que as mulheres \u2013 principalmente l\u00e9sbicas &#8211; s\u00e3o as mais afetadas por essas normas. \u201cTodas as mulheres vivenciam a heterossexualidade compuls\u00f3ria ao longo de toda sua vida por terem sua sexualidade n\u00e3o s\u00f3 apagada e deslegitimada, como instrumentalizada e at\u00e9 erotizada\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_19127\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Bemestar-Bruna-Santiago_Credito-Arquivo-pessoal.jpeg\" rel=\"attachment wp-att-19127\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19127\" class=\"wp-image-19127 size-full\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/09052019_VIDA_Bemestar-Bruna-Santiago_Credito-Arquivo-pessoal.jpeg\" alt=\"09052019_VIDA_Bemestar Bruna Santiago_Credito Arquivo pessoal\" width=\"600\" height=\"8888\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19127\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Bruna Santiago Franchini<\/strong> (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p><\/div>\n<p>Apesar de similar, o conceito de heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e9 anterior \u00e0 ideia de heteronormatividade. Tem a ver com uma an\u00e1lise das estruturas de poder que criam e se beneficiam da heterossexualidade enquanto institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, enquanto ferramenta de manuten\u00e7\u00e3o de determinada ordem social. \u201cA heterossexualidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma orienta\u00e7\u00e3o sexual, mas uma ferramenta de controle, uma forma de manter a supremacia masculina. Por meio da romantiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es heterossexuais &#8211; tanto afetivas, amorosas, quanto sexuais &#8211; a mulher \u00e9 levada a construir toda a sua vida em torno de homens\u201d, explica a bacharel em Direito.<\/p>\n<p>Elas tamb\u00e9m s\u00e3o ensinadas a rejeitar rela\u00e7\u00f5es com mulheres, acredita Bruna: \u201cFaz parte da tanto a no\u00e7\u00e3o de que a heterossexualidade \u00e9 normal e a homossexualidade\/a lesbianidade s\u00e3o desviantes, quanto a constru\u00e7\u00e3o de que \u2018amizade entre mulheres n\u00e3o existe\u2019, \u2018mulheres s\u00e3o naturalmente competitivas\u2019&#8230; Tudo feito para minar as potencialidades de rela\u00e7\u00f5es entre mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, acrescenta Bruna, tantos homossexuais acabam por se descobrir mais tarde, alguns at\u00e9 depois de terem vivenciado rela\u00e7\u00f5es heterossexuais, como foi o caso da youtuber Alexandra Gurgel, 30, que se entendeu l\u00e9sbica aos 29 anos. \u201cOlhando pra tr\u00e1s, percebi que sempre fui sapat\u00e3o. N\u00e3o foi f\u00e1cil\u201d, conta ela em um v\u00eddeo no seu canal do YouTube.<\/p>\n<p><center><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OxB3l0LUGcA\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/center>Alexandra lembra que tinha uma necessidade de se reafirmar como h\u00e9tero a todo momento e procurava a valida\u00e7\u00e3o de um homem. \u201cQueria ser aceita de alguma forma. E a\u00ed percebi que a gente cresce assim. Desde pequena aprendi que tinha que ser bonita para agradar ao homem. A menina tem que conquistar um menino. Ela vai ser a princesa, fofa, delicada, maternal e sens\u00edvel. E o menino vai ser esperto, inteligente, viril e provedor da casa. Quando me entendi mulher l\u00e9sbica percebi que tolhia a minha sexualidade desde pequena\u201d, acredita Alexandra.<\/p>\n<p>Para Bruna, a heterossexualidade compuls\u00f3ria n\u00e3o dita s\u00f3 que o &#8216;normal&#8217; \u00e9 a atra\u00e7\u00e3o pelo sexo oposto, mas pelos pap\u00e9is sociais que cada\u00a0g\u00eanero desempenha. \u201cN\u00e3o basta uma mulher gostar de um homem e se relacionar com ele: \u00e9 necess\u00e1rio que cada um desempenhe determinado papel nessa din\u00e2mica. Por tr\u00e1s da compulsoriedade da heterossexualidade est\u00e1 a necessidade de manuten\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is sociais de g\u00eanero porque tais pap\u00e9is s\u00e3o essenciais para manuten\u00e7\u00e3o da ordem social patriarcal\u201d, explica.<\/p>\n<p>Enquanto mulher h\u00e9tero, a especialista Bruna conta que tamb\u00e9m sofreu com essas normas no limite do que uma mulher heterossexual pode sofrer. Teve relacionamentos abusivos e chegou a aceitar determinados comportamentos de parceiros para agrad\u00e1-los. \u201cFazendo um balan\u00e7o, eu vejo o quanto me submeti a relacionamentos muito abusivos por conta dessa ideia de que \u2018mulheres t\u00eam que lutar pelo relacionamento\u2019, \u2018mulheres t\u00eam que ensinar homens como se relacionar\u2019, \u2018tem que ter paci\u00eancia\u2019, \u2018homem \u00e9 assim mesmo\u2019. Eu fui ensinada a colocar meu amor pr\u00f3prio, meu orgulho, minha autoestima e meus limites de lado para agradar homens. Fui ensinada a mudar minha apar\u00eancia e minha personalidade pra ficar mais agrad\u00e1vel pra homens\u201d, relembra.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPassei muitos anos da minha vida me fazendo de burra e de desentendida para que o cara pudesse se sentir \u2018grande\u2019 do meu lado. Acho que isso foi o que mais me marcou\u201d, acrescenta. A heterossexualidade compuls\u00f3ria e o sistema heteronormativo afetaram, inclusive, a rela\u00e7\u00e3o de Bruna com mulheres. \u201cAprendermos que mulheres n\u00e3o s\u00e3o amigas de verdade, que n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis&#8230; Passei anos acreditando nisso e focando em fazer amizades com homens\u201d, conta.<\/p><\/blockquote>\n<p>As coisas s\u00f3 mudaram depois que a pesquisadora come\u00e7ou a estudar teoria feminista radical e mergulhar de cabe\u00e7a no movimento. \u201cPassei a centrar toda a minha vida em torno de mulheres. Reavaliei minhas amizades, minha rela\u00e7\u00e3o com minha m\u00e3e e at\u00e9 quem produzia os produtos que eu consumia. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque entendi o quanto a heterossexualidade compuls\u00f3ria havia deixado marcas profundas na minha vida\u201d, considera.<\/p>\n<h2><strong>Mini-gloss\u00e1rio<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Heterossexualidade compuls\u00f3ria:<\/strong> Express\u00e3o criada pela estadunidense Adrienne Rich compreende a heterossexualidade como uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Com isso, a mulher \u00e9 parte da propriedade emocional e sexual dos homens.<\/p>\n<p><strong>Heteronormatividade:<\/strong> Termo criado em 1991 pelo te\u00f3rico americano Michael Warner busca dar conta de uma nova ordem social. Esse sistema exige que todos indiv\u00edduos &#8211; independente de sexualidade &#8211; organizem suas vidas conforme o modelo da heterossexualidade.<\/p>\n<p><strong>G\u00eanero:<\/strong> A maneira como voc\u00ea se enxerga; o g\u00eanero com que se identifica fazendo parte.<\/p>\n<p><strong>Orienta\u00e7\u00e3o sexual:<\/strong> Indica por quais g\u00eaneros a pessoa sente-se atra\u00edda, seja f\u00edsica, ou emocionalmente. Mostra para qual &#8211; ou quais &#8211; lados a sexualidade est\u00e1 orientada.<\/p>\n<p><strong>Gostou? Acompanhe, todas as segundas-feiras de maio, novas mat\u00e9rias sobre o tema aqui no Me Salte no especial LGBT O QU\u00ca?.\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/LGBTOQUE\/\">Clique aqui.<\/a>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela n\u00e3o tinha medo de bolada ou esbarr\u00e3o. Jogava \u2018feito um menino\u2019- diziam. 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