{"id":18688,"date":"2019-03-28T17:07:19","date_gmt":"2019-03-28T20:07:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=18688"},"modified":"2019-03-28T17:19:14","modified_gmt":"2019-03-28T20:19:14","slug":"artigo-em-meio-as-transfobias-nossas-de-cada-dia-o-que-dizer-da-escolinha-maria-felipa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/artigo-em-meio-as-transfobias-nossas-de-cada-dia-o-que-dizer-da-escolinha-maria-felipa\/","title":{"rendered":"[artigo] Em meio \u00e0s transfobias nossas de cada dia, o que dizer da Escolinha Maria Felipa?"},"content":{"rendered":"<p>A Escolinha Maria Felipa, de Salvador, publicou nas redes sociais o trecho de uma conversa entre a institui\u00e7\u00e3o de ensino e outra pessoa n\u00e3o identificada. No di\u00e1logo, a Escolinha Maria Felipa \u00e9 questionada sobre ter um\u00a0 homem trans professor e\u00a0a resposta repercutiu nas redes sociais.\u00a0\u201cVoc\u00eas t\u00eam um professor trans na escola, n\u00e9?\u201d, pergunta a pessoa Ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o da escola, dizendo que o educador \u00e9 um \u201cexcelente profissional\u201d, o interlocutor segue com outra pergunta.\u00a0\u201cN\u00e3o que eu concorde, mas voc\u00ea n\u00e3o acha que isso pode ter diminu\u00eddo o n\u00famero de matr\u00edculas de voc\u00eas?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p>A resposta da escola, depois de publicada nas redes sociais, chamou aten\u00e7\u00e3o: \u201cQuem acha que uma pessoa trans, apenas por ser trans, n\u00e3o pode educar seu filho n\u00e3o merece a nossa escola\u201d. O professor trans contratado pela escola \u00e9 Bruno Santana, primeira pessoa trans formada em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).<a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/diversidade-camara-de-vereadores-de-salvador-tem-segundo-assessor-trans-em-470-anos-de-historia\/\" target=\"_blank\"> Ele tamb\u00e9m \u00e9 segundo homem trans a assessorar um parlamentar da C\u00e2mara Municipal de Salvador nos 470 anos de funda\u00e7\u00e3o da casa.<\/a><\/p>\n<p>Bruno \u00e9 ativista e membro do Coletivo de Transs pra\u00a0Frente e da Transbatukada. Professor, licenciado em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica pela UEFS, ele \u00e9 pesquisador na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o, G\u00eanero, Ra\u00e7a , Direitos humanos e Transmasculinidades.\u00a0A pedido do Me Salte,\u00a0Bruno Santana faltou sobre a repercuss\u00e3o do caso &#8211; que viralizou internacionalmente -, transgenereidade, educa\u00e7\u00e3o e combate ao preconceito:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que a educa\u00e7\u00e3o TransFormadora jamais se vender\u00e1 ao capital. Jamais venderemos nossos sonhos!!! Jamais desistiremos do projeto de sociedade que acreditamos!!!\u00a0A Pedagogia que n\u00e3o inclui todas as pessoas jamais ser\u00e1 Educativa.\u00a0Eu tinha plena certeza que a escola seria assertiva na resposta.\u00a0\u00a0O projeto de sociedade que a Maria Felipa defende jamais permitiria qualquer tipo de opress\u00e3o. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Eu nem perguntei o nome da pessoa que fez esse coment\u00e1rio transf\u00f3bico. N\u00e3o \u00e9 culpabilizando o sujeito que reproduz a opress\u00e3o que irei combat\u00ea-la. \u00c9 preciso destruir as estruturas desse Cis-tema LGBTf\u00f3bico respons\u00e1vel por todo exterm\u00ednio e viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00e3o LGBTQI +. E isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel atrav\u00e9s da Educa\u00e7\u00e3o. E assim tenho feito!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A transgeneridade nunca ser\u00e1 um problema para as crian\u00e7as. As pessoas adultas que perdem tempo disseminando preconceitos. As crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o preocupadas se seu professor \u00e9 um homem trans. Elas s\u00e3o inteligentes e entendem que a identidade de g\u00eanero \u00e9 apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo. O mais importante nesse processo de ensino- aprendizagem \u00e9 possibilitar que elas vivenciem experi\u00eancias pedag\u00f3gicas que garantam o seu desenvolvimento humano. Que sigam sendo pessoas comprometidas na constru\u00e7\u00e3o de um mundo que inclua todas as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dou aula de capoeira e pr\u00e1ticas corporais para as crian\u00e7as do grupo 2 ao 5. Meu trabalho \u00e9 dentro de uma perspectiva interseccional e isso inclui os debates sobre g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, sexualidade e territorialidade. N\u00e3o consigo pensar uma educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o leve em considera\u00e7\u00e3o esses fatores. E \u00e9 justamente por falta de debates como esse que temos um pa\u00eds Racista, Machista, Mis\u00f3gino, LGBTF\u00d3BICO que legitima e permite que a cada 11 minutos uma mulher cis seja estuprada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A escola Maria Felipa abriu esse ano. Ent\u00e3o essa esse \u00e9 meu primeiro emprego depois de formado. J\u00e1 dei aula na Creche da Uefs (onde atuei como professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica atrav\u00e9s de bolsa acad\u00eamica) l\u00e1 trabalhei com crian\u00e7as do ber\u00e7\u00e1rio at\u00e9 o grupo 3. Foi uma experi\u00eancia incr\u00edvel que ficou marcada e registrada em minha monografia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O Brasil \u00e9 pa\u00eds que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Nossa expectativa de vida \u00e9 de apenas 35 anos. Outro dado vergonhoso \u00e9 que apenas 0,02% da popula\u00e7\u00e3o trans e travesti est\u00e1 nas universidades.\u00a0 \u00c9 esse mesmo pa\u00eds que assiste de camarote o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra e que tem feito de tudo pra silenciar e invisibilizar as dissid\u00eancias sexuais e de g\u00eanero. Acredito que a postagem viralizou justamente por conta das que resistem. Das pessoas que seguem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao contr\u00e1rio do que pensam , somos maioria e tem muita gente que assim como eu, acredita no poder Transformador da Educa\u00e7\u00e3o.Que apoia e luta por uma educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital , dos retrocessos e dos fascismos. Pessoas que existem e resistem em meio a todos os descasos e retiradas de direitos e que por mais dif\u00edcil que a conjuntura possa parecer, seguiremos de m\u00e3os dadas na luta por um mundo que seja capaz de contemplar todas as pessoas. A Escolinha Maria Felipa faz hist\u00f3ria e servir\u00e1 de exemplo, se colocando como aliada na luta contra a Lgbtfobia , demonstrando o real sentido e significado da Educa\u00e7\u00e3o inclusiva e TRANSformadora. Em meio a tempos de fascismos e perdas de direitos posicionamentos como esses nos mostra que estamos no caminho .<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sou a primeira pessoa trans a formar na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Foi muito dif\u00edcil estar em uma universidade. O mais dif\u00edcil foi estar entre praticamente 18 mil estudantes e ser a \u00fanica pessoa trans da Uefs. Foi um percurso muito solit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Muitas pessoas trans e travestis tiveram que morrer para que eu pudesse chegar at\u00e9 aqui. Quando uma pessoa trans ocupa qualquer espa\u00e7o na sociedade ela leva consigo toda uma hist\u00f3ria de luta e resist\u00eancia, que servir\u00e1 de incentivo para todas as outras que vir\u00e3o. Isso \u00e9 motivo de muito orgulho. Essa conquista \u00e9 coletiva e envolve muitas redes de afeto e acolhimento.\u00a0 Minha primeira luta foi para que eu pudesse ter o meu nome reconhecido, porque a primeira coisa que a gente tem, que legitima nossa exist\u00eancia nessa sociedade , \u00e9 o nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Na minha \u00e9poca, a Uefes\u00a0ainda n\u00e3o fazia uso do nome social e eu fui a primeira pessoa a reivindicar esse direito. Eu tive que travar essa luta junto com outras pessoas da universidade, militantes, pessoas LGBT\u2019s que eram minhas amigas e amigos e tive a sorte de contar com alguns professores que me acolheram nesse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Todo semestre tinha que enviar e-mails falando que era uma pessoa trans e que gostaria de usar meu nome social, que gostaria que eles me chamassem pelo nome que me representava. E a\u00ed, a maioria dos professores tinham dificuldades de compreender. Muitos fingiam que estavam respeitando, mas eu era exposto a todo momento nas aulas. Tinham professores que na minha frente respeitava, mas por tr\u00e1s, com outros colegas e \u00e0s vezes com outros professores, eles diziam que iam sempre me tratar pelo g\u00eanero que eu nasci, que eu nunca ia ser homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essas s\u00e3o algumas barreiras que a gente encontra, que mostram a lacuna na forma\u00e7\u00e3o desses professores. Eles n\u00e3o s\u00e3o preparados e n\u00e3o t\u00eam disciplinas que os ensine a lidar com as diversidades de g\u00eanero, com as identidades de g\u00eanero, e tantas outras pluralidades dentro da perspectiva de g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Eu passava o dia todo na universidade. Muitas vezes eu fiquei o dia inteiro sem urinar. Eu ficava ali aguentando porque eu n\u00e3o conseguia entrar no banheiro feminino, n\u00e3o me sentia confort\u00e1vel por n\u00e3o me identificar com o g\u00eanero feminino. Tamb\u00e9m n\u00e3o entrava no [banheiro] masculino porque naquele momento, no meu processo inicial de transi\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o tinha uma leitura social masculina, o que fazia com que as pessoas n\u00e3o me respeitassem como homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pensado o corpo trans dentro desses processos. Isso contribui para a evas\u00e3o. Para que pessoas trans e travestis n\u00e3o consigam concluir o Ensino M\u00e9dio. Para que elas n\u00e3o consigam, inclusive, permanecer na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica.\u00a0A partir do momento em que eu falei que era um homem trans, que meu nome era Bruno, as pessoas tentaram me acolher da melhor forma poss\u00edvel. Eu constru\u00ed uma rela\u00e7\u00e3o muito linda com meus colegas de curso. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que eu fui escolhido o orador da turma.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Com certeza, se eu tivesse transicionado antes de entrar na universidade era bem prov\u00e1vel que eu n\u00e3o conseguisse entrar. Primeiro, pelo pr\u00f3prio processo de acesso \u00e0 universidade, que \u00e9 a prova de vestibular, que n\u00e3o tem nome social. Isso acaba excluindo pessoas trans e travestis, que almejam entrar em um processo seletivo desse.\u00a0Durante o processo de transi\u00e7\u00e3o, eu percebi o meu corpo mudando, com barba, com caracter\u00edsticas que faziam com que eu tivesse uma leitura masculina social, fazendo com que as pessoas olhassem para mim e me lessem como homem. Quanto mais essas coisas foram acontecendo e esses processos foram avan\u00e7ando, as pessoas da universidade come\u00e7aram a se adaptar, a se acostumar com a minha figura transitando ali dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A nossa luta, enquanto movimento de pessoas trans \u00e9 pela despatologiza\u00e7\u00e3o das nossas identidades, para que a gente possa ter uma vida normal, que a gente consiga transitar, que a gente consiga existir na sociedade sem ser violentado, sem ser exterminado, como tem acontecido com a gente, por conta desse conservadorismo e dessa transfobia, n\u00e3o s\u00f3 institucional, mas social. Queremos ter nossa humanidade reconhecida. Concluir essa gradua\u00e7\u00e3o significou abrir portas e janelas para que outras de n\u00f3s passem a ocupar o que \u00e9 nosso por direito.\u00a0Eu retifiquei nome e g\u00eanero j\u00e1 tem quatro anos . A minha vontade de fazer esse enfrentamento foi para deixar esse legado, para que outras pessoas trans pudessem usufruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>\u201cEu relatei na minha monografia todo esse processo autobiogr\u00e1fico falando da minha trajet\u00f3ria enquanto homem trans em um curso de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, problematizando a forma\u00e7\u00e3o docente e apontando caminhos poss\u00edveis entre a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e a transgeneridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Existe um processo de patologiza\u00e7\u00e3o das identidades trans e travestis, e por conta dele temos nossas identidades deslegitimadas, invisibilizadas e marginalizadas socialmente.\u00a0Os dados revelam que o Brasil est\u00e1 em 1\u00b0 lugar no assassinato de pessoas Trans no\u00a0mundo, em 2\u00ba lugar est\u00e1 o M\u00e9xico, que mata 4 vezes menos, segundo o\u00a0Transgender Europe.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em tempo:\u00a0\u00a0<\/strong>A escolinha Maria Felipa desde que foi concebida, dentro da perspectiva Ubuntu \u201ceu sou porque n\u00f3s somos\u201d, vem recebendo incentivos coletivos de afeto, admira\u00e7\u00e3o, compartilhamento nas redes socais de divulga\u00e7\u00e3o, predisposi\u00e7\u00e3o das pessoas em ajudar de diversas formas (trabalho volunt\u00e1rio, doa\u00e7\u00e3o financeira) e, assim, todo esse ciclo vem dialogando com o nosso vi\u00e9s ideol\u00f3gico de aquilombamento. Em 28 de janeiro de 2019,\u00a0 a escola come\u00e7ou a campanha \u201cAdote umx educandx Maria Felipa\u201d, que visa ampliar o nosso n\u00famero de bolsas integrais destinadas \u00e0s crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade socioecon\u00f4mica. <a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/adote_umx_educandx_maria_felipa_ae78?ref=facebook&amp;utm_source=facebook.com&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=project_share_insights\" target=\"_blank\">Para contribuir basta acessar o link da vaquinha virtual.\u00a0<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Escolinha Maria Felipa, de Salvador, publicou nas redes sociais o trecho de uma conversa entre a institui\u00e7\u00e3o de ensino e outra pessoa n\u00e3o identificada. 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