{"id":17980,"date":"2019-01-25T11:48:23","date_gmt":"2019-01-25T14:48:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=17980"},"modified":"2019-01-25T21:25:43","modified_gmt":"2019-01-26T00:25:43","slug":"seremos-sementes-jean-wyllys","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/seremos-sementes-jean-wyllys\/","title":{"rendered":"Seremos sementes, Jean Wyllys!"},"content":{"rendered":"<p>Meu cora\u00e7\u00e3o ficou travado. A boca amarga. As pernas bambas. Foi dif\u00edcil digerir e entender a decis\u00e3o do ativista LGBTQIA+ e deputado federal Jean Wyllys, 44 anos, <a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/apos-ameacas-de-morte-jean-wyllys-desiste-de-mandato-e-deixa-brasil\/\" target=\"_blank\">de abrir m\u00e3o do seu mandato e sair do Brasil por medo de morrer. <\/a>Quando li o relato que ele fez nas redes sociais e em entrevista \u00e0 Folha de S. Paulo percebi que o medo que ele sentia n\u00e3o era de agora. \u00c9 a ang\u00fastia de uma vida inteira.<\/p>\n<p>O ex\u00edlio de Jean, for\u00e7ado pelo crescimento das ondas de conservadorismo em terras brasileiras, reflete os isolamentos que n\u00f3s LGBTQIA+ vivemos nossa vida inteira. Desde a inf\u00e2ncia, a sociedade nos obriga a \u2018esconder\u2019 nossos trejeitos afeminados, nos impede de viver nossa sexualidade e nos obriga a existir atr\u00e1s das m\u00e1scaras da heteronormatividade.<\/p>\n<p>Nosso ex\u00edlio ganha for\u00e7a di\u00e1ria na escola, no trabalho e na rua. N\u00e3o podemos pegar na m\u00e3o da pessoa que amamos em p\u00fablico sem ter na mente o receio de que a qualquer momento sermos alvo de algum tipo de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 o que chamam de \u2018mimimi\u2019. Nos escondemos a vida inteira para sobreviver. Vivi isso na escola quando tive que \u2018me declarar\u2019 apaixonado por uma menina chamada Vanessa, no recreio. Coitada de Vanessa, coitado de mim. Os projetos de machistas escrotos nos seguraram na hora do recreio. Fomos obrigados a nos beijar e eu a dizer que queria namorar com ela. Eles n\u00e3o aceitavam que eu fosse \u2018feminino\u2019 e Vanessa \u2018masculina\u2019. Nos exilaram naquele momento. Passamos o resto do ano escondidos, em fuga no recreio, fingindo sermos namorados para sobreviver em paz \u00e0 6\u00aa s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Ontem, percebi que Jean estava buscando uma Vanessa. Buscando algo em algum lugar que lhe permita sobreviver diante de tanta opress\u00e3o e do risco de sua vida chegar ao fim. Sim, precisamos estar vivos para continuar lutando em tempos sombrios.<\/p>\n<p>Wyllys vive com escolta policial desde que sua colega de partido Marielle Franco foi assassinada, em mar\u00e7o do ano passado. Na entrevista \u00e0 Folha, ele lembra de uma conversa que teve com Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. \u201cO Pepe Mujica, quando soube que eu estava amea\u00e7ado de morte, falou para mim: \u2018Rapaz, se cuide. Os m\u00e1rtires n\u00e3o s\u00e3o her\u00f3is\u2019. E \u00e9 isso: eu n\u00e3o quero me sacrificar\u201d, disse o deputado.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o sangrou quando li essa frase. Afinal, n\u00e3o vivemos num territ\u00f3rio de paz. Apesar de ter havido uma redu\u00e7\u00e3o de 6% na compara\u00e7\u00e3o com 2017, o Brasil segue sendo o pa\u00eds do mundo onde mais ocorreram mortes violentas de pessoas LGBTQIA+. De acordo com dados divulgados nesta sexta-feira (25) pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 20 horas um LGBT morreu em <a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/um-lgbt-foi-morto-a-cada-20-horas-no-brasil-em-2018-bahia-ficou-em-3o-lugar\/\" target=\"_blank\">2018 no pa\u00eds de forma violenta v\u00edtima da LGBTfobia.<\/a><\/p>\n<p>A quem interessaria ver Jean morto? Certamente, haveria festa no covil dos lobos. Jean lutou &#8211; em nome de muitos de n\u00f3s &#8211; com for\u00e7as poderosas. Afrontou, apontou e colocou o dedo na ferida. Sim, as escolhas de Jean o levaram para a situa\u00e7\u00e3o que ele est\u00e1 hoje. Ele deu a cara a tapa e com isso est\u00e1 sofrendo, infelizmente, as consequ\u00eancias de ter levado para o cen\u00e1rio nacional as discuss\u00f5es sobre os Direitos Humanos e quest\u00f5es ligadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+.<\/p>\n<p>Os raivosos que comemoraram a decis\u00e3o de Jean n\u00e3o entendem o que de fato aconteceu. Nas redes sociais, vociferam palavras e xingamentos homof\u00f3bicos para justificar a \u2018fuga de Jean\u2019. Falta empatia. Falta humanidade nessas pessoas. \u00c9 bom mesmo que Jean saia daqui e v\u00e1 oxigenar a mente para voltar mais forte. A diferen\u00e7a \u00e9 que Jean est\u00e1 conseguindo ser maior do que isso. Felizmente, ele teve o tempo que Marielle n\u00e3o teve. Conseguiu perceber que estava sendo amea\u00e7ado nas suas liberdades individuais e decidiu buscar abrigo em seguran\u00e7a. Infelizmente, Marielle n\u00e3o teve a mesma sorte.<\/p>\n<p>Sempre admirei Jean desde a sua simb\u00f3lica participa\u00e7\u00e3o no Big Brother Brasil. No BBB, programa que ganhou, Jean tamb\u00e9m se exilou ao lado de Grazi Massafera, Tatiane Pink e Sammy Ueda. Viveram isolados. Foram acuados, oprimidos, mas venceram. Jean \u00e9 um cara s\u00e1bio. Daquele momento em diante ganhou minha admira\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o. Sim, \u00e0s vezes, o ex\u00edlio \u00e9 uma estrat\u00e9gia maior para conquistar a guerra.<\/p>\n<p>Jean j\u00e1 trabalhou no jornal Correio (quando ainda era Correio da Bahia), \u00e9 jornalista, \u00e9 gay e nordestino. Jean sempre foi para mim um espelho, uma admira\u00e7\u00e3o. Agora, com essa dif\u00edcil decis\u00e3o que tomou, isso s\u00f3 aumentou. A nossa exist\u00eancia incomoda. Ter uma bixa em lugar de destaque incomoda.<br \/>\nQuerem, atrav\u00e9s do medo, apagar nosso brilho, mas isso \u00e9 imposs\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel exilar ideias. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel colocar de volta no arm\u00e1rio centenas de milhares de pessoas que s\u00f3 querem viver sua orienta\u00e7\u00e3o sexual em paz. O ex\u00edlio for\u00e7ado de Jean \u00e9 o maior exemplo disso. Ele saiu de cena estrategicamente e acabou reacendendo a chama da luta.<\/p>\n<p>No Congresso, Jean sai de cena e entra David Miranda, ativista, gay, negro e favelado. Jean virou semente. Assim como Marielle (que poucas pessoas fora do Rio conheciam antes da sua morte) virou ainda mais refer\u00eancia. \u00c9 isso que os algozes de Jean n\u00e3o devem ter calculado. Quando tentam matar Jean, voc\u00eas est\u00e3o dando mais combust\u00edvel para que milh\u00f5es se unam nos prop\u00f3sitos que ele defende.<\/p>\n<p>Pensam que ele, estando fisicamente longe do Brasil, estar\u00e1 sem pegar nas nossas m\u00e3os. Acham que \u2018ele soltou a nossa m\u00e3o\u2019. Ledo engano: para tocar m\u00e3os unidas pelo amor elas n\u00e3o precisam estar juntas. Nossas m\u00e3os se unem em um prop\u00f3sito e s\u00e3o conectadas pelos cora\u00e7\u00f5es das pessoas que s\u00f3 querem o respeito \u00e0 diversidade. Para isso pouco importa se estaremos aqui ou no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Jean, seremos sementes! Um dia, sem d\u00favidas, caminharemos novamente nesse jardim de luz e paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu cora\u00e7\u00e3o ficou travado. A boca amarga. 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