{"id":17409,"date":"2018-11-29T06:43:16","date_gmt":"2018-11-29T09:43:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=17409"},"modified":"2018-11-29T07:46:25","modified_gmt":"2018-11-29T10:46:25","slug":"querido-esquerdomacho-va-se-tratar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/querido-esquerdomacho-va-se-tratar\/","title":{"rendered":"Querido &#8216;esquerdomacho&#8217;, v\u00e1 se tratar!"},"content":{"rendered":"<p>Eles se acham desconstru\u00eddos. Falam aos quatro ventos que s\u00e3o defensores dos direitos humanos e que respeitam as mulheres. Usam camisas de l\u00edderes de revolu\u00e7\u00f5es socialistas e bebem cerveja no gargalo. No debate sempre v\u00e3o fazer coro aos direitos femininos.\u00a0 Dizem que s\u00e3o a favor do aborto e at\u00e9 repetem a frase &#8216;meu corpo, minhas regras&#8217;. Mas, basta sua companheira botar uma &#8216;saia curta&#8217; que &#8216;a coisa muda de figura&#8217;. Nessa hora, o desconstruid\u00e3o vira o cl\u00e1ssico macho alfa, machista e escroto.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o licen\u00e7a \u00e0s mulheres para escrever esse texto, mas nos \u00faltimos tempos tenho observado de perto o comportamento dessas &#8216;esp\u00e9cies de homens&#8217;. A justificativa para a desordem mental de achar que s\u00e3o os donos das mulheres vem sempre disfar\u00e7ada de prote\u00e7\u00e3o: &#8216;Eu n\u00e3o penso assim, mas os caras da rua pensam&#8230;.T\u00f4 falando para o seu bem&#8217;, dizem.<\/p>\n<p>Comecei a fazer um &#8216;Me Salte feat Globo Rep\u00f3rter&#8217; e fui investigar o que esses seres de pouca luz pensam.\u00a0Conversando com uma amiga hetero que est\u00e1 solteira, ela foi assertiva na identifica\u00e7\u00e3o desses machos. &#8220;Tudo isso esconde a fragilidade do homem hetero. Por mais desconstru\u00eddo que esse homem possa demonstrar se isso n\u00e3o \u00e9 algo que ele pensa de verdade n\u00e3o adianta. Os comportamentos n\u00e3o conseguem sair do discurso e na pr\u00e1tica vira tudo a mesma coisa&#8221;.<\/p>\n<p>Presenciei, na semana retrasada, uma a\u00e7\u00e3o de um &#8216;esquerdomacho&#8217; desses com ela. \u00c9 assustador ver de perto algo que parece t\u00e3o inalcan\u00e7\u00e1vel. O boy &#8211; que foi encontrar com ela vestindo a camisa de Che Guevara &#8211; era o encanto em pessoa. Amava Chico Buarque, militava pelos movimentos sociais e defendia a Reforma Agr\u00e1ria. Aborto? &#8216;Totalmente a favor se for um desejo da mulher&#8217;, dizia.\u00a0Sexo no primeiro encontro? &#8216;Claro, se a mulher quiser&#8217;, vociferou o boy na mesa do bar. E por a\u00ed foi&#8230;s\u00f3 argumentos s\u00f3lidos de algu\u00e9m com pensamento bem longe dos padr\u00f5es conservadores.<\/p>\n<p>Massssssssssssss n\u00e3o demorou muito para o castelo de areia cair! Toda desconstru\u00e7\u00e3o virou o cl\u00e1ssico do macho alfa ac\u00e9falo que acha que pode ser o dono da mulher. Bastaram cinco encontros para ele mostrar as garras. Minha amiga botou um decote, saia acima do joelho, salt\u00e3o e batom vermelho. Ouviu a frase: &#8216;voc\u00ea n\u00e3o acha de est\u00e1 um pouco exagerado? Eu n\u00e3o vejo problema, mas como vamos para um lugar com muito homem voc\u00ea pode se sentir constrangida&#8221;.<\/p>\n<p>Eu estava do lado dela na hora que ela ouviu a frase. O pr\u00edncipe virou um sapo fedorento e goguento. No primeiro momento, ela me olhou at\u00f4nita. Afinal, hav\u00edamos conversado e ach\u00e1vamos que ele n\u00e3o era um &#8216;esquerdomacho&#8217;. Estava bem disfar\u00e7ado, mas era. Obviamente que ela n\u00e3o trocou de roupa. Bateu boca, discutiu e fomos sozinhos para a festa. O crush dela caiu no limbo do esquecimento.<\/p>\n<p>Um amigo carioca &#8211; que \u00e9 hetero, mas n\u00e3o no padr\u00e3o esquerdomacho &#8211; foi categ\u00f3rico: &#8220;Esses caras ficam assim, agem assim, mas n\u00e3o duram muito tempo. A mulher logo percebe que \u00e9 fake news. Ou melhor: fake macho&#8221;.<\/p>\n<p>Infelizmente nem todas t\u00eam a mesma sorte dessa minha primeira amiga. Outra amiga minha de longa data (dos tempos em que o Orkut ainda reinava na humanidade) encontrou seu atual marido justamente na famigerada rede social das comunidades. Pode at\u00e9 rir, mas eles se conheceram na comunidade &#8216;eu abaixo a tampa da privada&#8217;. Para ela, que vivia numa casa cheia de homens (pai e 4 irm\u00e3os), ter um boy que sabia o valor de baixar uma tampa era um o\u00e1sis.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era s\u00f3 isso. Nos anos de namoro, ele sempre foi um primor. Companheiro para todos os momentos. Mas a\u00ed ela pariu e o cristal quebrou. No primeiro momento ela quis abortar. Estava insegura em ser m\u00e3e t\u00e3o jovem e no come\u00e7o da carreira. Mas ele era firme no apoio. Deixava claro que a decis\u00e3o era dela, mas que se ela aceitasse manter a gesta\u00e7\u00e3o poderiam criar uma fam\u00edlia linda e feliz digna de um comercial de margarina. Assim aconteceu. A crian\u00e7a nasceu, mas a margarina nunca esteve na mesa.<\/p>\n<p>O macho lindo e maravilhoso se mostrou um escroto. Da cr\u00edtica ao fato dela amamentar em p\u00fablico ao descuido com a cria\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a tudo foi perdido. Passou a se colocar na posi\u00e7\u00e3o de &#8216;dono da casa e dela&#8217;. O tempo que ela ficou em casa de licen\u00e7a maternidade foi o \u00e1pice do machismo dele que parece que ficou acumulado sendo maturado por uma d\u00e9cada. A margarina derreteu de vez,\u00a0 a tampa do vaso passou a ficar levantada e o div\u00f3rcio foi o destino.<\/p>\n<p>Acha que acabou? Claro que n\u00e3o. No primeiro namorado que ela teve depois da separa\u00e7\u00e3o, o calv\u00e1rio dela s\u00f3 foi intensificado. N\u00e3o tenho nem coragem de escrever os termos que ele usou para ser referir a ela, mas ainda usando a m\u00e1scara de desconstruid\u00e3o: &#8216;Fa\u00e7a isso, mas fa\u00e7a escondido. O que v\u00e3o pensar de voc\u00ea na rua?&#8217;.<\/p>\n<p>Quando esses &#8216;esquerdomachos&#8217; est\u00e3o em bando esses comportamentos ganham ainda mais for\u00e7a. Fica ainda pior. \u00c9 mais cruel. Parece que h\u00e1 uma contamina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida por um g\u00e1s letal que priva os sentidos. Esses machos n\u00e3o conseguem ver uma mulher passar sem come\u00e7ar a agir como se estivessem num a\u00e7ougue. Come\u00e7am a botar julgamentos na roupa, peito, bunda e afins&#8230;<\/p>\n<p>Se s\u00e3o casados ou solteiros pouco importa. O que eles querem \u00e9 julgar e objetificar a mulher. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 flerte. \u00c9 imbecilidade mesmo. O que dizer de um cara que viaja e diz que a mulher n\u00e3o reclamou porque ele deixou R$ 1 mil para ela comprar umas coisas e na volta ainda vai levar um &#8216;bom presente&#8217;. Chega d\u00f3i na alma ouvir isso. O ser que falou isso ainda largou a cl\u00e1ssica frase quando soube que eu era gay: &#8216;ah, n\u00e3o tenho nenhum preconceito. Tenho at\u00e9 v\u00e1rios amigos gays&#8217;.\u00a0Obviamente que na primeira oportunidade que teve deu um show de homofobia&#8230;mas a\u00ed \u00e9 prosa para outro texto.<\/p>\n<p>Ah, esse comportamento\u00a0 n\u00e3o \u00e9 exclusividade das rela\u00e7\u00f5es heteronormativas. Tem muito gay que tem esse mesmo padr\u00e3o de comportamento com seus parceiros. Sim, tem &#8216;esquerdomacho&#8217; gay. A crueldade de comportamento segue a mesma linha de achar que \u00e9 dono do outro. O conceito de &#8216;ser dono&#8217; de algu\u00e9m \u00e9 muito complexo e passa por a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o e viol\u00eancias verbais. Os homens gays que se colocam na fun\u00e7\u00e3o de provedor financeiro do relacionamento s\u00e3o os mais propensos a repetir esse comportamento que \u00e9 mais evidente entre os heteros. H\u00e1 ainda os que oprimem de forma agressiva as manas afeminadas. Tudo, obviamente, camuflado no discurso de &#8216;prote\u00e7\u00e3o&#8217;.<\/p>\n<p>Um detalhe \u00e9 importante nisso &#8211; para gays e heteros: prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tarefa da pessoa que est\u00e1 com voc\u00ea. Se voc\u00ea se preocupa com a pessoa que est\u00e1 ao seu lado, voc\u00ea deve praticar a empatia e n\u00e3o tentar dizer o que ela deve ou n\u00e3o fazer com a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Parece dif\u00edcil? Talvez. Mas, como bem disse uma outra amiga, para tudo nessa vida tem jeito. Basta se tratar. Sim, buscar ajuda. Assumir sua personalidade, suas a\u00e7\u00f5es e refletir sobre as consequ\u00eancias dos seus atos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se esconda atr\u00e1s de m\u00e1scaras do que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o tem fantasia que dure para sempre.<\/p>\n<p>Se liga, fake macho!<\/p>\n<p><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o: Morgana Miranda\/CORREIO<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles se acham desconstru\u00eddos. Falam aos quatro ventos que s\u00e3o defensores dos direitos humanos e que respeitam as mulheres. 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