{"id":17045,"date":"2018-09-28T04:11:52","date_gmt":"2018-09-28T07:11:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=17045"},"modified":"2018-09-28T10:35:34","modified_gmt":"2018-09-28T13:35:34","slug":"nu-reconvexo-cafe-muller-de-pina-bausch-por-felipe-ferreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/nu-reconvexo-cafe-muller-de-pina-bausch-por-felipe-ferreira\/","title":{"rendered":"Nu Reconvexo \u2018Caf\u00e9 Muller\u2019 de Pina Bausch por Felipe Ferreira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>dissipo no<\/em><br \/>\n<em> es-pa<\/em><br \/>\n<em> \u00e7o<\/em><br \/>\n<em> borro a mat\u00e9ria<\/em><\/p>\n<p><strong>|| Corpo &#8211; Hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p>O manto maculador que oprime as met\u00e1foras e os significados do corpo em seu estado bruto, \u00e9 tecido na r\u00e9dea normativa de um adestramento hist\u00f3rico que sufoca desejos e castra liberdade. O t\u00edtulo da pe\u00e7a de Nelson Rodrigues ainda \u00e9 aplicado de forma fidedigna e se faz atemporal ao sintetizar a dissimula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e comportamental que determina o que \u00e9 certo e errado numa senten\u00e7a moral de falsos pudores e arcaicas hipocrisias.<\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia nossa rela\u00e7\u00e3o com o corpo \u00e9 moldada por uma s\u00e9rie de limita\u00e7\u00f5es e isolamentos. Esse c\u00e1rcere territorial iniciado com zelo e sutileza, ganha morda\u00e7as mais consistentes com o passar dos anos. Nascemos nus para imediatamente vestirmos dia ap\u00f3s dia, muito mais que a reles carca\u00e7a. No distanciamento do apertar de m\u00e3os, na frieza do abra\u00e7o ou no toque de carinho inexistente, as rela\u00e7\u00f5es afetivas sensoriais e imagin\u00e1rias criadas com o outro e com n\u00f3s mesmos, \u00e9 fatalmente atravessada por uma nuvem de puritanismo que transforma mastubar\u00e7\u00e3o em pecado, nu art\u00edstico em pornografia, a cena de sexo de um filme em atentado violento ao pudor, prazer em pervers\u00e3o.<\/p>\n<p>No teatro, aprendi que \u201cum corpo \u00e9 s\u00f3 um corpo\u201d. E para isso, precisamos abandonar o sentido reducionista da frase e nos lan\u00e7armos na pot\u00eancia vulc\u00e2nica que ele representa no cais de cada hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>reage no<\/em><br \/>\n<em> es<\/em><br \/>\n<em> pas-mo<\/em><br \/>\n<em> de um sofrer l\u00edrico e profundo<\/em><\/p>\n<p><strong>|| Um Corpo, Mil Olhares.<\/strong><\/p>\n<p>Do passado, os corpos encarcerados perambulam cegos na trincheira de \u00e1vidos olhares. Piadas infames, gargalhadas hist\u00e9ricas nas aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, as n\u00e3o idas \u00e0 praia, o ass\u00e9dio moral e c\u00edvico constrangedor do alistamento militar. A sociedade cultua a perfei\u00e7\u00e3o e demarca cada corpo num ferrete seletivo de preconceitos e fobias.<\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato implosivo e a estetyka dos padr\u00f5es s\u00f3 vira escombro quando nos permitimos enxergar as subst\u00e2ncias que constituem nosso ser por um prisma de subjetiva excentricidade. Ao quebrarmos esse espelho que aprisiona nossa imagem no falsete ilus\u00f3rio de uma proje\u00e7\u00e3o idealizada, descolonizamos tudo que nos silencia e nos impede de flutuar na et\u00e9rea divindade de sermos aquilo que somos.<\/p>\n<p>Solto na gravidade inexata.<br \/>\nSalto meu corpo no mundo.<\/p>\n<p>Em abril do ano passado, fui convidado para assinar a mat\u00e9ria de <a href=\"https:\/\/issuu.com\/revistapontoart\/docs\/revista_ponto_art_-_6___edi____o-_i\/1?ff&amp;e=25919971\/51542849\" target=\"_blank\">capa da 6\u00ba edi\u00e7\u00e3o da Revista Digital do Coletivo Ponto Art<\/a> . Fiquei euf\u00f3rico com a possibilidade das minhas palavras capitanearam o tema principal de uma revista transgressora e de forte identidade local. Sem sequer saber o tema, aceitei o desafio que &#8211; na verdade &#8211; ainda estava por vir. A proposta era acompanhar uma viv\u00eancia com atores e performances da cena art\u00edstica soteropolitana que traziam no corpo o poder questionador dos seus discursos.<\/p>\n<p>De peito, cora\u00e7\u00e3o e alma arreganhados, cheguei na Casa Preta disposto a sentir da forma mais org\u00e2nica poss\u00edvel a verdade que cada trabalho expelia. Entre p\u00eanis, vaginas, peitos, bundas, pentelhos, m\u00fasculos e tr\u00eamulas carnes, observava reconvexo in(transe) baile cada provoca\u00e7\u00e3o no seu microcosmo e no universo sensorial que, juntos, conseguiam orquestrar.<\/p>\n<p>Aquele domingo despiu meu \u00edntimo da conserva e de qualquer resqu\u00edcio que ousasse enquadrar em uma defini\u00e7\u00e3o cartesiana o que deve ser sentido, ainda que no jogo das apar\u00eancias, pare\u00e7a n\u00e3o ter sentido algum.<\/p>\n<p>o corpo feminino \u00e9 refletido<br \/>\nsimult\u00e2neos,<br \/>\nego\u00edstas,<br \/>\nlibert\u00e1rios e independentes mentes que saciam<br \/>\nno livre arb\u00edtrio do rizo do mar<\/p>\n<div id=\"attachment_17047\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17047\" class=\"size-large wp-image-17047\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-1024x1024.jpg\" alt=\" Hori Leal (@horileal do @estudioaga)\" width=\"1024\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-768x768.jpg 768w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-146x146.jpg 146w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-50x50.jpg 50w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-80x80.jpg 80w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-75x75.jpg 75w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu-85x85.jpg 85w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nu.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-17047\" class=\"wp-caption-text\">Hori Leal (@horileal do @estudioaga)<\/p><\/div>\n<p>Um ano depois, troco a casa pelo ap\u00ea. Das paredes impregnadas de narrativas me vejo diante a infinitude azul do c\u00e9u carioca. Fui selecionado pra ser um dos entrevistados do programa \u201cApartamento 502\u201d, no Canal Brasil. A assinatura do sens\u00edvel e renomado Jorge Bispo me fez encarar o tormento de me despir em pixel, v\u00eddeo e longo alcance como um detalhe cotidiano que n\u00e3o usurparia o protagonismo libert\u00e1rio que aquele ato de desconstru\u00e7\u00e3o representava.<\/p>\n<p>L\u00e1 no alto do 502 olhei pelo reflexo das luzes naturais que invadiam os c\u00f4modos o trajeto que havia feito. Cada escolha, cada apelido, cada arrepio, cada cicatriz, cada transforma\u00e7\u00e3o. Dono de mim! Estar ali totalmente desatado, imerso na ess\u00eancia art\u00edstica do projeto e livre pra falar sobre meu rito de autoconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o foi um viv\u00eancia que lavou minha alma no gozo sublime do ser!<\/p>\n<p><strong>|| Pina: Corpo &#8211; Fluxo &#8211; Frame.<\/strong><\/p>\n<p>Antes disso tudo, como num pr\u00f3logo psicografado na g\u00eanese da criatura, participei de uma Oficina de Cr\u00edtica ministrada pela equipe da Revista Barril. Entre as atividades propostas, estava assistir o v\u00eddeo com a performance de &#8220;Caf\u00e9 M\u00fcller&#8221; de Pina Bausch dispon\u00edvel na \u00edntegra no Youtube. L\u00e1 atr\u00e1s, fomos apresentado por interm\u00e9dio de Almod\u00f3var, no seu filme Fale com Ela (2002). No fragmento da pel\u00edcula nos falamos pela primeira vez e sob o efeito hipn\u00f3tico de cada movimento me deixei cadenci-ar. Agora, nas entranhas do acaso, ap\u00f3s regressar nas suas cores, elucubrei sobre ela como na fuma\u00e7a de uma caf\u00e9 por inteiro.<\/p>\n<p>Contempl\u00e1-la em sua plenitude me fez pensar sobre o corpo que habitamos e como essa ocupa\u00e7\u00e3o obl\u00edqua est\u00e1 diretamente vinculada ao seu conv\u00edvio com a \u00f3rbita ao redor. \u00c0 medida como o compreendemos, consequentemente, aceitamos sua corporeidade com outras vibra\u00e7\u00f5es no infinito vai-vem existencial.<\/p>\n<p>no livre rodopiar de um devaneio noturno caloroso de Shakespeare<br \/>\nolhos fechados,<br \/>\nbra\u00e7os estendidos,<br \/>\na delgada linha entre a recep\u00e7\u00e3o e a entrega<\/p>\n<p>Me ver na tela ser\u00e1 uma experi\u00eancia semelhante ao deslocamento entre o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria. \u00c9 como dormir, sentir aquele organismo invis\u00edvel al\u00e7ar voo, fintar os olhos na sua superf\u00edcie e se reconhecer na fragilidade, na fortaleza, no desprendimento e na aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Continuemos a hablar\u2026<\/p>\n<p><strong>*<\/strong><br \/>\n<strong> Apartamento 502<\/strong><br \/>\n<strong> Estreia, nesta sexta-feira (28), 0h, no Canal Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Cr\u00e9dito da primeira ilustra\u00e7\u00e3o: Lola Fern\u00e1ndez Corral (@lolafdezcorralart)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>dissipo no es-pa \u00e7o borro a mat\u00e9ria || Corpo &#8211; Hist\u00f3ria. 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