{"id":17040,"date":"2018-09-27T08:44:32","date_gmt":"2018-09-27T11:44:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=17040"},"modified":"2018-09-27T17:22:34","modified_gmt":"2018-09-27T20:22:34","slug":"daniela-mercury-por-favor-nao-se-canse-e-nao-se-cale","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/daniela-mercury-por-favor-nao-se-canse-e-nao-se-cale\/","title":{"rendered":"Daniela Mercury, por favor, n\u00e3o se canse e n\u00e3o se cale"},"content":{"rendered":"<p>Dani,<\/p>\n<p>Me permita te chamar assim. N\u00e3o pelos diversos contatos que j\u00e1 tivemos por causa das nossas profiss\u00f5es, como artista e jornalista, mas pela intimidade que tenho com sua arte ao longo desses 21 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quando comecei a gostar de voc\u00ea, ou de sua m\u00fasica. Minha mem\u00f3ria mais antiga vem de um encarte da Som Livre para comprarmos CD\u2019s que receb\u00edamos em casa. O encarte veio junto com o moderno toca-discos t\u00edpico da d\u00e9cada de 90. L\u00e1 em casa, cada um teve o direito de escolher um CD. Meus irm\u00e3os ficaram com Netinho e com Claudinho e Buchecha. Eu escolhi voc\u00ea, com o \u201cFeij\u00e3o com Arroz\u201d. O ano era 1997. E foi ali, naquele momento, que senti pela primeira vez o peso do preconceito. Lembro de ouvir \u201cvoc\u00ea tem certeza\u201d, \u201chum\u2026 sei n\u00e3o\u201d, \u201clogo Daniela?\u201d&#8230; Hoje, infelizmente, entendo o motivo.<\/p>\n<p>Lembro tamb\u00e9m da primeira pergunta que te fiz como jornalista, muitos anos depois de comprar esse disco. Estava no come\u00e7o de minha carreira. T\u00e3o no come\u00e7o que, veja s\u00f3, o gravador n\u00e3o estava ligado. A resposta ficou apenas na minha mem\u00f3ria. Perguntei qual foi o momento em que voc\u00ea decidiu que seria cantora.<\/p>\n<p>Minhas palavras jamais v\u00e3o conseguir repetir a emo\u00e7\u00e3o daquela resposta. Talvez tenha sido a \u00fanica vez, em entrevista, que voc\u00ea tenha dado essa declara\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea disse estar no teatro, sentada na beira da cadeira, com as m\u00e3os cerradas no bra\u00e7o da poltrona.\u201cEu vi a for\u00e7a daquela mulher, e era algo sobrenatural. Foi ali que eu defini minha vida\u201d. A mulher era Elis Regina e o espet\u00e1culo Transversal do Tempo.<\/p>\n<p>Elis morreu em 1982. Eu nasci em 89. Mas vi essa mesma for\u00e7a no Camarote da Rainha, em 2013. Eu estava na varanda quando voc\u00ea chegou, de repente, e cantou \u201cOy\u00e1 Por N\u00f3s\u201d com o olhar fixo pro c\u00e9u. Foi naquela \u00e9poca que surgiram os primeiros rumores sobre seu relacionamento com Malu. E ali, seu canto era reza.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, mas era comum que muitos foli\u00f5es do Crocodilo jogassem o abad\u00e1 fora na dispers\u00e3o. O medo da agress\u00e3o na volta pra casa. O medo da fam\u00edlia ver aquele s\u00edmbolo. O medo do preconceito. Eu sempre te acompanhei na pipoca (assim podia fingir acaso se me encontrassem na corda do bloco), mas tudo mudou quando ganhei o abad\u00e1 do Crocodilo de um foli\u00e3o no meio do desfile. Vestir aquela camisa ali foi t\u00e3o simb\u00f3lico que, na volta pra casa, lavei aquele peda\u00e7o de pano e guardei no fundo do meu arm\u00e1rio, real e imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 ouvindo agora o Feij\u00e3o com Arroz, 21 anos depois, que escrevo para dizer \u2018muito obrigado\u2019. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser vidra\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil sofrer preconceito. Ouvi na minha adolesc\u00eancia conselhos dizendo para ficar longe do Crocodilo, \u201cque ali s\u00f3 tinha viado\u201d. Ouvi, j\u00e1 adulto, mais uma vez pessoas dizendo para ficar longe do seu bloco \u201cque s\u00f3 tinha bicha p\u00e3o com ovo\u201d. E ou\u00e7o agora o sil\u00eancio profundo de quem p\u00f4de colher o fruto de todas essas agress\u00f5es e se mant\u00e9m im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Ano passado eu estava vivendo a Parada do Orgulho Mundial, em Madrid. E enquanto via uma cidade inteira aberta \u00e0 diversidade, acompanhei uma entrevista sua ao lado de Malu em que voc\u00ea desabafava sobre o peso dessa luta. Um desabafo t\u00e3o necess\u00e1rio quanto o feito durante o Festival de Garanhuns neste ano.<\/p>\n<p>\u201cNenhuma porta se abriu. Eu s\u00f3 arrumei uma causa que n\u00e3o \u00e9 nem um pouco confort\u00e1vel de se falar todo dia. \u00c9 desgastante. \u00c9 muito desagrad\u00e1vel. Todas as vezes que eu e Malu sa\u00edmos de casa para falar desse assunto a gente pensa se a gente est\u00e1 realmente disposta a falar disso. \u00c9 muito cansativo emocionalmente\u201d.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 nessa mesma entrevista que voc\u00ea diz que ser gay foi a ferramenta mais extraordin\u00e1ria para mudar o mundo depois da m\u00fasica. Ent\u00e3o, Dani&#8230; Por favor, n\u00e3o se canse. E nem se cale.<\/p>\n<p>Assim como Elza, voc\u00ea deixa na Avenida sua pele preta e a sua voz; sua fala e sua opini\u00e3o. E na chuva de confetes deixe sua dor e essa solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Seja a mulher do fim do mundo. Cante at\u00e9 o fim<\/p>\n<p>Com amor, Bruno Brasil*<\/p>\n<p>*<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/BrunoAlBrasil\" target=\"_blank\">Bruno Brasil<\/a> \u00e9 jornalista e escreveu esse texto gentilmente\u00a0para o Me Salte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dani, Me permita te chamar assim. 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