{"id":16277,"date":"2018-07-24T17:42:30","date_gmt":"2018-07-24T20:42:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=16277"},"modified":"2018-07-25T16:31:32","modified_gmt":"2018-07-25T19:31:32","slug":"cu-e-lindo-me-faz-sair-do-pecado-diz-autor-de-polemica-exposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/cu-e-lindo-me-faz-sair-do-pecado-diz-autor-de-polemica-exposicao\/","title":{"rendered":"&#8216;Cu \u00e9 lindo me faz sair do pecado&#8217;, diz autor de pol\u00eamica exposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u201cCu \u00e9 lindo\u201d, assinada por Kleper Reis, \u00e9 destaque dentro da mostra \u201cDevires\u201d, <a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/o-que-eu-vi-na-polemica-exposicao-cu-e-lindo\/\" target=\"_blank\">projeto art\u00edstico que prop\u00f5e um exerc\u00edcio de desnaturaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre sexo<\/a>, g\u00eanero, visualidade, ra\u00e7a e poder.\u00a0 Em sua primeira edi\u00e7\u00e3o, a mostra teve in\u00edcio no dia 12 de julho e segue com diversas atividades em Salvador at\u00e9 o dia 12 de agosto, das 9h \u00e0s 19h, com entrada gratuita e com classifica\u00e7\u00e3o de 18 anos. Desde o \u00faltimo final de semana aumentaram as cr\u00edticas sobre a exposi\u00e7\u00e3o e o espa\u00e7o chegou a ser fechado. O Me Salte visitou a exposi\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m conversou com o artista que explicou seus processos e procedimentos.<\/p>\n<p><strong>Veja entrevista completa:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como surgiu a exposi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA ideia de uma exposi\u00e7\u00e3o contando minhas hist\u00f3rias afetivas surgiu h\u00e1 muitos anos. Ela nasceu em meados de 2006. Neste per\u00edodo, eu j\u00e1 estava realizando performances, estava iniciando, e tinha uma projeto chamado \u201cInc\u00f4modos: fragmentos reunidos de plat\u00e3o a mim!\u201d (plat\u00e3o \u00e9 em min\u00fasculo mesmo. O min\u00fasculo tinha valor simb\u00f3lico para mim descolonial, queria questionar isso tamb\u00e9m).<\/p>\n<p>Nesta passagem de minha vida na arte, eu morava em Salvador. Eu sentia uma forte necessidade de falar, mas para mim ainda era muito dif\u00edcil. Tanto no processo pessoal da capacidade de acreditar em mim e ter valentia, como na possibilidade de ter espa\u00e7o, reconhecimento e recursos disponibilizados para realizar este trabalho. Esta for\u00e7a criativa foi se desdobrando, pulsando e re-existindo at\u00e9 nascer aqui na Mostra Devires.<\/p>\n<p><strong>Vi que foi resultado de uma jornada de\u00a0sete anos. Por que demorou tanto tempo?<\/strong><br \/>\nNa verdade verdadeira, tem mais de 10 anos, mas seria dif\u00edcil demais explicar, por isso sete anos. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d \u00e9 um processo de artecura inacabado, ainda n\u00e3o chegou ao final. A exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 finalizada. Faz parte de um tr\u00edptico de tr\u00eas trilogias em tr\u00eas movimentos que por medo n\u00e3o irei mencionar ainda publicamente o nome.<\/p>\n<p>Estou me curando e esta dimens\u00e3o n\u00e3o se desenvolve no tempo capital da produtividade ou na necessidade egoica e mesquinha de disputar espa\u00e7os e narrativas, me distancio radicalmente disso. Meu trabalho de CUranderio de mim, de artes\u00e3o, de agricultor e de artista vive em outro tempo, o acolhimento e o cuidado s\u00e3o as molas mais importantes.<\/p>\n<p>O que acontece comigo \u00e9 muito importante e valorizado, bem como as rela\u00e7\u00f5es com a vida vivida, as minhas comunidades e as pr\u00e1ticas pol\u00edticas. Tamb\u00e9m tem o tempo da inflama\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, das noites selvagens e dos atentados contra mim. Importante dizer que, durante todo este tempo, a falta de acolhimento, seja na oportunidade de espa\u00e7o para realizar o trabalho, como de apoio financeiro para realizar meus processos art\u00edsticos, foi fator importante neste processo. Leio estas faltas como dimens\u00e3o da censura que sempre senti na pele durante toda a minha trajet\u00f3ria art\u00edstica.<\/p>\n<blockquote><p>Sou um corpo homossexual, silencioso, descendente dos povos origin\u00e1rios desta terra, com sotaque nordestino, sempre estive em uma fronteira de invisibilidade e desprezo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Eucorpo sempre foi lido de diversas formas e usado e jogado no esquecimento, assim sinto, dif\u00edcil traduzir. Devo ser cuidadoso nesta revela\u00e7\u00e3o de minhas intimidades. Durante estes anos, poucos espa\u00e7os se abriram para mim. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d \u00e9 um processo que sofreu muitas interrup\u00e7\u00f5es. Iniciei minha pesquisa sobre o cu em 2011 e, no final deste mesmo ano, o assombro da viol\u00eancia e a for\u00e7a das mem\u00f3rias afetivas fez nascer a imagem simb\u00f3lica \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2012, sofri uma viol\u00eancia brutal, eu e tr\u00eas amigos, neste momento eu ainda estava forte e resisti bem. For\u00e7a que me fez realizar no dia 7 de setembro de 2012 uma performance pertencente a este processo chama de CU \u00c9 LINDO, CAP\u00cdTULO 3: A CURA GAY, VERS\u00cdCULO 14: O HASTEAMENTO DA BANDEIRA OU VER\u00c1S QUE UM FILHO SEU N\u00c3O FOGE \u00c0 LUTA. Depois deste trabalho, sofri nova agress\u00e3o que me devastou e entrei em isolamento interior. \u00c9 dif\u00edcil traduzir esta passagem de minha vida ainda. Depois disso, criei uma s\u00e9rie de imagens e performances que, na sua grande maioria, encontram-se n\u00e3o realizadas, n\u00e3o tenho recursos e nem espa\u00e7o dispon\u00edvel para atuar. Meu trabalho se desenvolveu, salvo raros momento, na rua. A rua era o \u00fanico lugar poss\u00edvel, hoje nem mais a rua \u00e9 uma possibilidade, sinto muito medo. Depois disso, s\u00f3 voltei a me apresentar uma vez no ano de 2013 e depois s\u00f3 em 2015.<\/p>\n<p>Foi um momento dif\u00edcil. Perdi-me de mim. Esqueci quem eu era. Neguei muitas coisas, pois me transformei em um outro partido e estranho a mim mesmo. Neste per\u00edodo de adoecimentos, muitas tristezas aconteceram e situa\u00e7\u00f5es que me devastaram ainda mais. Fiquei em estado de calamidade e quase morri, ali\u00e1s, morri de verdade. A morte simb\u00f3lica como rito de passagem. Perdi minha organiza\u00e7\u00e3o interior e minha consci\u00eancia foi tomada pelos fantasmas. Neste per\u00edodo, tamb\u00e9m fui saqueado artisticamente. Pessoas se sentiram no direito de se apropriar do meu trabalho e me jogar no esquecimento. Foram v\u00e1rias pessoas. Isso me matou mais uma vez.<\/p>\n<p>Eu estava terrivelmente destru\u00eddo. Gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a de meu marido e de alguns amigues e afetos criativos e pol\u00edticos, ainda consegui resistir e aparecer no II Semin\u00e1rio Internacional Desfazendo G\u00eanero\\UFBA\\BA\\2015 e no BEM ME CUIR\\UERJ\\RJ\\2015. Momento que foi uma gl\u00f3ria e um inferno. Depois do Desfazendo, fui perseguido e amea\u00e7ado e entrei novamente em isolamento. Em 2017, participei de uma exposi\u00e7\u00e3o coletiva Os corpos s\u00e3o as obras\\Despina\\RJ\\2017. Depois desta apari\u00e7\u00e3o, acontecimentos terr\u00edveis voltaram a acontecer, n\u00e3o quero ainda falar sobre isso. A vida \u00e9 muito delicada.<\/p>\n<p><strong>Qual mensagem voc\u00ea quer passar com ela?<\/strong><br \/>\nDesejo um outro mundo, uma outra forma de se relacionar com as pessoas, de ser reconhecido e de reconhecer. Quero pode falar sem medo de ser destru\u00eddo, de ser roubado, de ser mal-entendido. Quero perdoar e ser perdoado. Quero fortalecer amizades e construir novas alian\u00e7as para edificar um novo tempo nesta vida, o balan\u00e7o necess\u00e1rio para a metamorfose que constr\u00f3i o novo. Quero voltar a viver sem medo. Quero poder ser quem eu sou sem medo de ser censurado e\\ou constrangido. Quero que parem de me amea\u00e7ar. Quero recuperar o que perdi de mim. Quero n\u00e3o ter mais vergonha de mim. Quero que meu processo art\u00edstico seja reconhecido, porque at\u00e9 hoje tenho que provar que sou artista.<\/p>\n<blockquote><p>Por que isso? Por qu\u00ea? Quais s\u00e3o os recortes que precisamos fazer para compreender uma vida que tenta desesperadamente sobreviver e se realizar. Quero ressuscitar. Minha mensagem \u00e9 de ressurei\u00e7\u00e3o. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d ME FAZ SAIR DO PECADO. PORQUE SE PECAR \u00c9 ANDAR NO CAMINHO ERRADO, N\u00c3O AMAR \u201cOS HOMENS\u201d \u00c9 MEU MAIOR PECADO. N\u00c3O LIBERTAR MINHA FEMINILIDADE \u00c9 ESTAR NO PECADO.<\/p><\/blockquote>\n<p>A religi\u00e3o crist\u00e3 em muitas dimens\u00f5es sempre me obrigou a andar no caminho errado, ela sempre foi a manifesta\u00e7\u00e3o da tenta\u00e7\u00e3o do pecado de me fazer negar o que existe de mais profundo, lindo e verdadeiro em mim. KLEPER \u00c9 LINDO. AFETO HOMOSSEXUAL \u00c9 LINDO. TRANSEXUAIS S\u00c3O LINDAS. L\u00c9SBICAS S\u00c3O LINDAS. A \u00c1FRICA E TODOS OS SEUS POVOS E RELIGIOSIDADE S\u00c3O LINDOS. O XAMANISMO \u00c9 LINDO. OS POVOS IND\u00cdGENAS S\u00c3O LINDOS&#8230; \u00c9 UMA LISTA DE AFETOS GIGANTE QUE A CULTURA DO \u00d3DIO TENTA EXTERMINAR. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d \u00e9 a prova de minha inoc\u00eancia. Parem de nos matar!<\/p>\n<p><strong>Qual sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos posicionamentos do MBL (vi que est\u00e3o criticando o fato de ser financiada por dinheiro p\u00fablico e fazendo uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es)?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o desejo falar sobre eles. N\u00e3o devo explica\u00e7\u00f5es a eles! O fascismo \u00e9 uma for\u00e7a que vai contra a vida, \u00e9 uma for\u00e7a assassina que retira o direito \u00e0 vida e \u00e0 exist\u00eancia. Olha o que est\u00e1 acontecendo com a Renata Carvalho, essa grande artista, ela, sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, est\u00e1 sendo censurada! Olha o que aconteceu com a Marielle Franco e com a Matheusa Passareli. Olhemos para o mapa da viol\u00eancia no Brasil! O fascismo \u00e9 a for\u00e7a que usa das estrat\u00e9gias mais odientas e mentirosas para se sustentar. Tenho medo.<\/p>\n<p>Quanto ao financiamento, \u00e9 importante falar que a Mostra Devires \u00e9 realizada por uma equipe de profissionais da mais alta compet\u00eancia e responsabilidade. Pessoas fortes e lindas que t\u00eam a minha mais profunda admira\u00e7\u00e3o e respeito. Nossa&#8230; fico emocionado de falar sobre a Giro, as curadoras e o Goethe. Elas e eles s\u00e3o algo intraduz\u00edvel, dados o respeito e cuidado que tiveram por mim e por Devires, e por meu processo de cura e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Goethe e sua hist\u00f3ria e o atual diretor tamb\u00e9m s\u00e3o de uma for\u00e7a e acolhimento intraduz\u00edvel. M\u00e1ximo respeito, m\u00e1ximo apoio. No meu maior eco de express\u00e3o, grito GRATID\u00c3O, AMO VOC\u00caS!!! N\u00e3o me sinto s\u00f3. N\u00f3s temos todo o direito de ter acesso a este recurso do Estado da Bahia e do Estado Brasileiro!<\/p>\n<p>A Mostra Devires ganhou este pr\u00eamio e todos n\u00f3s trabalhadores deste processo recebemos cada um uma parte deste recurso para desenvolver seus processos de trabalho e cria\u00e7\u00e3o. Somos muitos! \u00c9 mentira afirmar que a Exposi\u00e7\u00e3o \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d recebeu sozinha o que est\u00e3o dizendo que recebeu.<\/p>\n<p>O que me cabe neste or\u00e7amento \u00e9 0,7% do or\u00e7amento total. Estas pessoas que falam sobre a exposi\u00e7\u00e3o e questionam os recursos est\u00e3o inventando mentiras, porque de fato n\u00e3o existe nada poss\u00edvel de ser questionado. Eles fazem cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o! Eles \u00e9 que s\u00e3o os criminosos.<\/p>\n<p><strong>Em tempos de ondas conservadoras, qual a import\u00e2ncia da Expo continuar em cartaz?<\/strong><br \/>\nA exposi\u00e7\u00e3o \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d traduz e condensa algumas dimens\u00f5es do esp\u00edrito de luta de nosso tempo. As for\u00e7as fundamentais de continuarmos vivos porque n\u00f3s existimos e temos o direito de existir nas mais amplas e vibrantes manifesta\u00e7\u00f5es de estar no mundo. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d nasce do desejo de cura e liberdade criativa e se desabrocha no espa\u00e7o da intercess\u00e3o que celebra a vitalidade que fortifica a pot\u00eancia, que todos possam existir de acordo com suas orienta\u00e7\u00f5es interiores, singularidades. \u00c9 uma ode \u00e0 cultura da vida, do direito \u00e0 vida e da dignidade da pessoa humana.<\/p>\n<p>\u00c9 um grande culto da fertilidade. \u00c9 a energia de Pu\u2019iito, Makunaima, Omolu, Iemanj\u00e1, Sankofa, Kundalini Shakti, Tantra Yoga, Kali e Hanuman. \u00c9 um libelo em favor da vida. Falo em nome pr\u00f3prio e percebo que muitos sofrem de quest\u00f5es muito parecidas ou iguais \u00e0s minhas. Cabe ao Estado Brasileiro fomentar e proteger as mais diversas e plurais manifesta\u00e7\u00f5es da sociedade. \u00c9 importante para mostrar que o Brasil luta por todos os seus filhos. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que tem uma diversidade de culturas e l\u00ednguas e isso deve ser respeitado, valorizado e fomentado.<\/p>\n<p><strong>Por que vc acha que o \u00e2nus\/cu \u00e9 t\u00e3o tabu na nossa sociedade?<\/strong><br \/>\nO Cu situa-se na regi\u00e3o do Muladhara Chakra. \u00c9 o Chakra raiz. B\u00e1sico! O Brasil tem um forte problema de base, problema estrutural, e n\u00e3o consegue reconhecer plenamente isso. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que mata desde seu primeiro sopro de vida! Brasil? \u00c0s vezes falar Brasil me soa estranho. Essa terra n\u00e3o se chama Brasil. Nossa raiz \u00e9 uma hist\u00f3ria de sangue, de saques, de um grande genoc\u00eddio material e imaterial.<\/p>\n<p>O processo de coloniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 matando at\u00e9 hoje e roubando. Os povos ind\u00edgenas continuam sendo roubados e assassinados. S\u00e3o 500 e tantos anos de crimes impunes. O homem branco colonizador segue seus crimes impunemente e na certeza da impunidade. O tabu do Cu atravessa isso. Falamos de problemas e crimes que se iniciam na invas\u00e3o destas terras! Falamos de feridas que continuam sangrando.<\/p>\n<p>Em marcas e traumas que ainda n\u00e3o est\u00e3o nem perto pr\u00f3ximos de serem curados. Trabalho com a imagens simb\u00f3lica do CU como sendo: CU \u00c9 LINDO, CAP\u00cdTULO 1: GEN\u00caSIS, VERS\u00cdCULO 3: O INT\u00d3CAVEL. Minha forma\u00e7\u00e3o em Yoga me permitiu acessar a cultura indiana e sua hist\u00f3ria. Me identifiquei com os intoc\u00e1veis. \u00c9 dif\u00edcil ser um p\u00e1ria. \u00c9 importante ter a dimens\u00e3o e respeitar a luta e as possibilidades de sobreviv\u00eancia desta popula\u00e7\u00e3o que vive na \u00cdndia. Minha pesquisa \u00e9 afetiva e fundada nas minhas experi\u00eancias de vida e conjunto de significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O cu \u00e9 um p\u00e1ria. N\u00f3s, \u201cas minorias\u201d, os invis\u00edveis e os intoc\u00e1veis nas mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es e dimens\u00f5es de sofrimento e luta, temos nossa hist\u00f3ria marcada pela impossibilidade de existir plenamente, de exercer a liberdade de transitar socialmente, de morrer feito nada e de sentir medo cotidianamente. N\u00f3s continuamos sendo assassinades. O Cu como s\u00edmbolo de transforma\u00e7\u00e3o apresenta uma gama grande de significados, logo o tabu do Cu, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Outro importante fato\u00a0a ser mencionado \u00e9 que quando sa\u00ed de casa e fui morar em outra cidade, Salvador, para me assumir e viver mais pr\u00f3ximo de mim, viver minha sexualidade plenamente, encontrei a poesia \u201cObjeto de amor\u201d, l\u00e1 pelos anos de 2003. Ningu\u00e9m tem no\u00e7\u00e3o da for\u00e7a deste acontecimento. Era um momento dif\u00edcil, mas foi em um dia, quando comprei um livro de poesias reunidas da Ad\u00e9lia Prado, que, pela primeira vez em minha vida, ouvi uma narrativa positiva sobre o Cu. Sobre esta parte de mim t\u00e3o querida e desejada.<\/p>\n<p>Sobre esta dimens\u00e3o de mim t\u00e3o interditada e imposs\u00edvel. A cultura patriarcal, machismo, em alguma dimens\u00e3o associa o cu \u00e0 vagina, assim toda a atividade sexual do Cu deve ser abjetada. Onde quer que a mulher apare\u00e7a ela \u00e9 massacrada e menosprezada, e se for uma mulher preta pior ainda. S\u00e3o muitas densidades de observa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Nunca tive a oportunidade de agradecer a Ad\u00e9lia por isso. Foi mais importante do que todos os anos de terapia que fiz. Gratid\u00e3o, Ad\u00e9lia, voc\u00ea ajudou demais no meu processo de aceita\u00e7\u00e3o de mim mesmo. Voc\u00ea \u00e9 parte fundamental deste processo de cura! as\u00e9<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 bem pessoal e vi que voc\u00ea sofreu muitas viol\u00eancias; acha que a exposi\u00e7\u00e3o faz parte do seu processo de cura?<br \/>\nA exposi\u00e7\u00e3o sou eu. \u00c9 uma expans\u00e3o de mim. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de meu processo de cura. Sem esse processo, certamente eu estaria morto. Esse trabalho me salva de mim mesmo, me desacata, me sopra a vida futura. Ela me embriaga de vida. Quando os fantasmas me invadem e me fazem de ref\u00e9m, \u00e9 ela que me salva, me liberta. Trabalhar com as imagens sem moralismo me cura. Sem esse trabalho art\u00edstico, eu j\u00e1 teria feito algo tr\u00e1gico, j\u00e1 tentei, estou aqui, ainda, existindo e resistindo e re-existindo. \u201cCU \u00c9 LINDO\u201d \u00c9 O SIMBOLO DA CURA GAY. DA MINHA CURA. E CONTINUAR\u00c1 SENDO POR MUITO TEMPO AINDA. \u00c9 TRABALHO INACABADO.<\/p>\n<p><strong>Uma das fotos que mais me marcou foi a da espada. Qual a mensagem dela? Tem algo a ver com virilidade?<\/strong><br \/>\nEla nasceu de um sonho em vida. De um desses momentos de luta pela realidade, pela consci\u00eancia. \u00c9 um s\u00edmbolo que me aponta caminhos para a minha reorganiza\u00e7\u00e3o e reconhecimento das origens e voltar a falar a linguagem das pessoas humanas. \u00c9 dif\u00edcil traduzir. Sou um tradutor com caracter\u00edsticas de inventor, manifesto na imagem de Deus, o todo poderoso criador de minha exist\u00eancia. Sou um Deus capaz de ser o contador de minha hist\u00f3ria de vida, de recriar os mitos da cria\u00e7\u00e3o e de criar minha vida, autopoiese. Ela \u00e9 a imagem simb\u00f3lica: CU \u00c9 LINDO, CAP\u00cdTULO 3: A CURA GAY, VERS\u00cdCULO 3: BASTI\u00c3O A HIST\u00d3RIA DE UM CABRA DA PESTE.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 a origem de tudo: \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de meu pecado original, a origem de minhas dores e sofrimento, ter nascido homem e ter sido designado pela sociedade e igreja crist\u00e3 a cumprir o papel de homem. \u00c9 a minha raiz nordestina e a imagem desse cabra da peste com o fac\u00e3o na m\u00e3o. \u00c9 a luta pela sobreviv\u00eancia de minha fam\u00edlia e sua hist\u00f3ria de fome e pobreza. Ela tamb\u00e9m \u00e9 a visualidade da Sant\u00edssima Trindade ou dos Tr\u00eas Movimentos \u2013 Cria\u00e7\u00e3o, Conserva\u00e7\u00e3o e Destrui\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas movimentos s\u00e3o uma for\u00e7a po\u00e9tica-te\u00f3rica-autopoi\u00e9tica que trabalho h\u00e1 muito anos.<\/p>\n<p>Publicamente, manifestei esta elabora\u00e7\u00e3o de mim pela primeira vez em 2009, quando apresentei a segunda parte do primeiro movimento do tr\u00edptico \u2013 Um Acontecimento em Tr\u00eas Movimentos ou Fragmentos de 1 Taquicardia no Rio de Janeiro. Os tr\u00eas movimentos nesta revela\u00e7\u00e3o eram o discurso do g\u00eanero, o discurso do amorpaix\u00e3o e o discurso da carne. Era cruel. Era cru. Era a brutalidade do nascimento de uma vida. A for\u00e7a da dilata\u00e7\u00e3o e o surgimento da cabe\u00e7a da nova vida fora da vagina. A luz ou a consci\u00eancia de um novo Kleper que se ama e ama sem vergonha.<\/p>\n<p>\u00c9 a for\u00e7a simb\u00f3lica da p\u00f3s-escravid\u00e3o manifesta na mitologia do salvador, o anticristo, o anticapital, o antifascista. O anjo de luz que nasce nos cora\u00e7\u00f5es e salva a vida. S\u00f3 ele \u00e9 capaz de nos salvar. Nesta via de sentidos, ela tem algo a ver com virilidade, s\u00f3 no sentido mais potente e acolhedor desta energia. \u00c9 a passagem da carta do Diabo que lembra a fertilidade que d\u00e1 origem a vida. \u00c9 a leitura das masculinidades e da uni\u00e3o dos opostos. \u00c9 meu processo de limpeza do masculino machista que enfiaram em mim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u201cCu \u00e9 lindo\u201d, assinada por Kleper Reis, \u00e9 destaque dentro da mostra \u201cDevires\u201d, projeto art\u00edstico que prop\u00f5e um exerc\u00edcio de desnaturaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":16260,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[80,9],"tags":[1705,1706,1707],"class_list":["post-16277","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-me-orgulho","tag-cu-e-lindo","tag-devires","tag-goethe-institut","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16277"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16277\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16297,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16277\/revisions\/16297"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}