{"id":15521,"date":"2018-05-17T14:19:28","date_gmt":"2018-05-17T17:19:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/?p=15521"},"modified":"2018-05-17T14:20:17","modified_gmt":"2018-05-17T17:20:17","slug":"bota-do-sertanejo-a-noel-rosa-machismo-que-atinge-as-mulheres-na-musica-nao-e-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/bota-do-sertanejo-a-noel-rosa-machismo-que-atinge-as-mulheres-na-musica-nao-e-de-hoje\/","title":{"rendered":"Do sertanejo a Noel Rosa: machismo que atinge as mulheres na m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 de hoje"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13793\" src=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro.jpg\" alt=\"topo_meSalte_cheiroCouro\" width=\"940\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro.jpg 940w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro-300x32.jpg 300w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro-768x82.jpg 768w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro-260x28.jpg 260w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro-50x5.jpg 50w, https:\/\/blogs.correio24h.com.br\/mesalte\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/topo_meSalte_cheiroCouro-150x16.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por Clarissa Pacheco<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ontem mesmo, ouvi falar de Am\u00e9lia. Fazia tantos anos que eu n\u00e3o me lembrava da \u201cmulher de verdade\u201d que, imediatamente, vi meus neur\u00f4nios conversando com esse texto da<a href=\"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/precisamos-falar-sobre-o-machismo-nas-musicas-sertanejas\/\" target=\"_blank\"> minha amiga e colega Amanda Palma, publicado aqui no Me Salte<\/a> . Am\u00e9lia, a mulher de verdade, n\u00e3o tinha a menor vaidade, passava fome e achava bonito n\u00e3o ter o que comer. A composi\u00e7\u00e3o de 1942, uma parceria entre M\u00e1rio Lago e Ataulfo Alves, \u00e9 um dos maiores sucessos do cancioneiro popular brasileiro e eu desafio algu\u00e9m que desconhe\u00e7a pelo menos o refr\u00e3o da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas vem c\u00e1, e as mulheres de mentira, est\u00e3o onde? Pintando o rosto, passando batom, trabalhando, vivendo, lutando para viver em um mundo em que suas fun\u00e7\u00f5es n\u00e3o se resumam a lavar a lou\u00e7a, preparar o caf\u00e9, limpar o fog\u00e3o? Ou, talvez, por um mundo em que levar pancada n\u00e3o seja algo t\u00e3o natural? N\u00e3o sei como andam as coisas do lado de l\u00e1 do balc\u00e3o, mas atesto, de c\u00e1 do meu lugar de fala de mulher, que por aqui t\u00e1 bem puxado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ontem \u00e0 noite, compartilhei no meu perfil pessoal do Facebook o texto escrito por Amanda. E qual a minha surpresa (surpresa?) ao ver que coment\u00e1rios que discordavam do texto o faziam desqualificando o inc\u00f4modo que \u00e9 para n\u00f3s, mulheres, vermos o machismo se disseminar em letras de m\u00fasicas que colam na cabe\u00e7a das pessoas, que s\u00e3o cantadas com tanta naturalidade por homens, mulheres e at\u00e9 por crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A nossa gera\u00e7\u00e3o \u2013 c\u00e1 estou eu, aos 28 anos \u2013 \u00e9 taxada de gera\u00e7\u00e3o mimimi. Me pergunto \u00e9 se as gera\u00e7\u00f5es passadas tamb\u00e9m n\u00e3o questionariam a objetifica\u00e7\u00e3o da mulher em letras que se tornaram patrim\u00f4nio, caso tivessem acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es que temos hoje. Deixo para que elas mesmas respondam, mas acho que Elza Soares, em \u2018Maria de Vila Matilde\u2019, composi\u00e7\u00e3o de Douglas Germano, j\u00e1 d\u00e1 uma pista:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cCad\u00ea meu celular?<br \/>\nEu vou ligar pro 180<br \/>\n(&#8230;) Voc\u00ea vai se arrepender de levantar a m\u00e3o pra mim\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 por isso que, de prop\u00f3sito, comecei esse texto por Am\u00e9lia, a mo\u00e7a que n\u00e3o tinha vaidade, o mais \u2018leve\u2019 dos exemplos que catei por aqui sobre como o machismo entra nos nossos ouvidos sem que, muitas vezes, a gente nem perceba. E como esse sexismo bizarro afeta, a n\u00f3s mulheres, de forma cruel. Naquele mesmo ano de 1942, quando \u2018Ai, que saudade da Am\u00e9lia\u2019 foi escrita, Wilson Batista e Haroldo Lobo lan\u00e7aram \u2018Em\u00edlia\u2019. Vejam s\u00f3:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cQuero uma mulher que saiba lavar e cozinhar<br \/>\nQue de manh\u00e3 cedo me acorde na hora de trabalhar<br \/>\nS\u00f3 existe uma<br \/>\nE sem ela eu n\u00e3o vivo em paz<br \/>\nEm\u00edlia, Em\u00edlia, Em\u00edlia<br \/>\nN\u00e3o posso mais<br \/>\n(&#8230;) N\u00e3o desfazendo das outras, Em\u00edlia \u00e9 mulher\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Passaram-se 71 anos e, em 2013, P\u00e9ricles lan\u00e7ou \u2018Se eu largar o freio\u2019:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cA pia t\u00e1 cheia de lou\u00e7a<br \/>\nO banheiro parece que \u00e9 de botequim<br \/>\nA roupa toda amarrotada<br \/>\nE voc\u00ea nem parece que gosta de mim<br \/>\nA casa t\u00e1 desarrumada<br \/>\nE nem uma vassoura tu passa no ch\u00e3o<br \/>\nMeus dedos est\u00e3o colando<br \/>\nDe tanta gordura que tem no fog\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vou parar por aqui, antes que ele largue o freio para cima da mulher que n\u00e3o consegue atender a todas as necessidades do provedor da casa&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Gabriel O Pensador \u2013 at\u00e9 tu, cara? \u2013 conseguiu escrever uma letra inteira chamada \u2018L\u00f4rab\u00farra\u2019, em que nada \u2013 absolutamente nada \u2013 se aproveita. Em 1994, quando a m\u00fasica foi lan\u00e7ada, o Pensador disse que n\u00e3o odiava as loiras e que, inclusive, namorava uma. A cr\u00edtica era \u00e0s \u201cplayboyzinhas\u201d. Depois, a m\u00fasica foi retirada do report\u00f3rio:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cO lugar dessas cadelas era mesmo num puteiro<br \/>\nS\u00f3 se preocupam em chamar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o pelas ideias, mas pelo burr\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Piora consideravelmente:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cEu j\u00e1 fui bem claro, mas vou repetir<br \/>\nE pra voc\u00ea me entender vou ser at\u00e9 mais direto<br \/>\nL\u00f4rab\u00farra, c\u00ea n\u00e3o passa de mulher objeto\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para fechar com chave de ouro, a desculpa:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cN\u00e3o sou machista<br \/>\nExigente, talvez\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2018Minha nega na janela\u2019 \u00e9 uma p\u00e9rola de Germano Mathias, gravada tamb\u00e9m por Gilberto Gil no final dos anos 1970. P\u00f4, Gil&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cMinha nega na janela diz que est\u00e1 tirando linha<br \/>\n\u00cata, nega, tu \u00e9 feia que parece macaquinha<br \/>\nOlhei pra ela e disse<br \/>\nVai j\u00e1 pra cozinha<br \/>\nDei um murro nela e joguei ela dentro da pia<br \/>\nQuem foi que disse que essa nega n\u00e3o cabia?\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Noel Rosa tamb\u00e9m n\u00e3o passaria inc\u00f3lume e o problema j\u00e1 come\u00e7a no t\u00edtulo, \u2018Mulher Indigesta\u2019:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cMas que mulher indigesta<br \/>\nMerece um tijolo na testa\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para n\u00e3o dizer que eu sou da gera\u00e7\u00e3o mimimi, mas fiquei no s\u00e9culo passado, \u00e9 bom lembrar que, al\u00e9m dos sambas que tratam a mulher por menos do que ela tem direito, e das composi\u00e7\u00f5es sertanejas que acham bonitinho e rom\u00e2ntico um relacionamento abusivo, est\u00e3o a\u00ed diversos outros ritmos musicais para mostrar que, entra s\u00e9culo, sai s\u00e9culo e a mulher continua sendo vista como objeto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vai desde a \u2018Sem massagem\u2019, Robyss\u00e3o, que resume a hist\u00f3ria mais ou menos assim: voc\u00ea veio na minha casa, abriu minha geladeira e pensa que vai embora? \u201cFica a\u00ed, mulher, vai rolar um bacanal, voc\u00ea veio porque quis\u201d. O complemento disso \u00e9 algo do tipo \u201cSenta, senta, senta, senta, senta&#8230;\u201d Um senta senta sem fim e sem uma gota de respeito.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A extinta New Hit ficaria de fora? Claro que n\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cAs mulher (sic) de hoje precisam aprender<br \/>\nQuatro letras do alfabeto<br \/>\nO.B.D.C\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que dizer, ent\u00e3o, de uma m\u00fasica chamada \u2018Espanca\u2019?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cEmpina o bumbum pra galera<br \/>\nEmpina o bumbum sua donzela<br \/>\nEmpina o bumbum pro Dudu<br \/>\nQue o Justin aqui espanca\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pois \u00e9, t\u00e1 puxado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Clarissa Pacheco Ontem mesmo, ouvi falar de Am\u00e9lia. Fazia tantos anos que eu n\u00e3o me lembrava da \u201cmulher de verdade\u201d que, imediatamente, vi meus neur\u00f4nios [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15525,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,80],"tags":[],"class_list":["post-15521","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-farofa-digital","category-home","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15521"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15521\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15524,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15521\/revisions\/15524"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/mesalte\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}