Edvan Lessa (edvan.lessa@redebahia.com.br)
Dona Aloísia, avó de Railan, segura porta-retrato do neto. Ela não olha mais as fotos do garoto morto
No parto de uma das suas meninas, Marinalva Aparecida da Silva, 38, ficou internada e precisou deixar o filho mais velho dela com a cunhada durante alguns dias. Railan da Silva Santana, à época com 2 anos de idade, já estava acostumado a passar os fins de semana na Rua Rio Ave, em São Marcos, se acostumou com Anatildes Santana, 52, e morou com ela até o 1º ano do ensino médio.
Desde criança, o adolescente foi criado com uma série de regalias. Tinha mais mimos até do que outros irmãos mais novos. Não que tivesse dado a sorte de nascer nos áureos tempos da família, bastante humilde. Mas é que o fato de morar com a tia que não tinha filhos – e podia dar quase de tudo para ele – e transitar entre as casas da avó materna, mãe biológica e tios - todos moradores de Pau da Lima - era uma vantagem que ele podia gozar, diferente até do que muitos de seus parentes de sangue. Ficou muito mimado.
Quem não se lembra do dia que Rai chorou por nojo de pôr pé na areia da praia quando criança? E da vez que viajou para Serra Preta, Centro-Norte do estado, a 155 quilômetros de Salvador, sem deitar no recosto do ônibus para não chegar com a camisa amarrotada no interior? Tinha asco de fígado e corria para a casa mais próxima quando esse era o cardápio na casa “oficial” – a da tia. Era como se tivesse crescido em vários lares e tudo que fazia estava atrelado a alguém da família.
Eleitor, pardo, 70 e poucos quilos e bigode ralo, o adolescente tinha 17 anos, mas aparentava ter 13 quando estava sentado. Nessa mesma posição foi encontrado morto, dentro da Faculdade Área 1, no dia 21 de outubro. A Polícia Civil tem indícios de que o primo paterno, William Souza Santana, 24, ofereceu R$ 2.000 para Railan roubar a moto de um policial militar. William cursa Direito na Faculdade Ruy Barbosa e estuda do lado da instituição onde esteve com Railan no dia da morte do mais novo.
“Se a gente soubesse, teríamos evitado a tragédia”
O garoto provavelmente achava que tinha todo o tempo do mundo. Se soubesse que adiaria para sempre o sonho de realizar a tão sonhada festa de 18 anos, não teria se levantado antes das 11h, como de costume, naquela terça-feira, para visitar uma namorada cuja existência inventou para despistar os familiares. "No dia, ele não saiu com um estranho, saiu com o primo. Mas, se a gente soubesse, teríamos evitado essa tragédia. Já sabíamos da fama de William", diz o padrasto, Sidnei de Oliveira, 30.
Ele se refere às suspeitas que a própria polícia já tem de que William é reincidente na prática de roubo de motos, apesar de não ter registros em delegacias. Segundo a delegada Andréa Ribeiro, titular da 1ª Delegacia de Homicídios, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), há informações de que Willian seja suspeito de envolvimento em outros assaltos praticados na companhia do primo Raimar Santana Souza, assassinado em abril, no bairro de Itapuã. Ele também era primo de Railan.
Nenhum parente de William, ou ele próprio, foram localizados para comentar sobre o assunto. A família materna de Railan acredita que o estudante do 7º semestre teria motivos para executar o adolescente numa espécie de queima de arquivo. Ainda não se sabe quem deflagrou três tiros, do total de cinco, contra Railan. Se confirmada tal versão, ainda não considerada pela polícia, o crime assume outra face macabra, já que William teria velado a própria vítima durante no sepultamento, no cemitério Bosque da Paz.
O dono da moto CB-600F Hornet, Jorge Figueiredo Miranda, que alegou legítima defesa, é graduando de Engenharia Civil. No depoimento à polícia, admitiu ter atirado duas vezes contra o adolescente, mas disse não saber se os disparos acertaram o rapaz.
Câmera não registra traços infantis
Pouco dos traços infantis de Railan da Silva Santana ficaram na memória das câmeras que o captaram em frente à Área 1, visivelmente ansioso, sob o olhar do primo que lhe apontou o dono da moto. Não há indícios contundentes de que ele tenha dado voz de assalto ao policial que o matou ou que estivesse portando alguma arma. Tampouco de que maneira William premeditou o delito e em que momento exato ele cooptou Railan.
Em depoimento à polícia, o suspeito negou qualquer envolvimento no assalto, apesar de estar no dia e hora da maior tragédia da vida de Dona Nalva. Dona de casa, ela ainda se lembra que o médico precisou de fórceps por causa do tamanho avantajado de Railan. À época, precisou ficar dopada e o filho veio com bastante esforço dela.
"Eu paro, olho a foto e pergunto por quê. Por que ele foi para lá naquele dia? Eu só continuo vivendo mesmo porque tenho outros filhos", diz. Segundo ela, Railan era monitorado pelos familiares e, quando não estava na casa dela, ia visitar a avó, os tios ou primos. “Se ele chegasse às 9h e eu tivesse dormindo, ele me acordava e dizia: ‘vai trabalhar, mainha, para ajudar seu marido a sustentar a casa’”.
Em um cômodo apertado da casa onde Dona Nalva mora com os outros cinco filhos, o porta-retrato de Railan é exibido na estante como uma espécie de troféu. A mais de um mês da morte dele – e nenhuma conclusão dos laudos -, nem a mãe biológica, o padrasto, os colegas de trabalho, vizinhos, amigos de infância e professores conseguem abafar o insuportável mau cheiro que emana das notícias que mostraram Railan como algoz.
O seu perfil se insere em um cenário de vítima do que alguns especialistas chamam de “genocídio” contra jovens em todo mundo, mas que se acentua em Salvador: adolescente, negro, morador da periferia. Entretanto, Railan é um ponto fora da curva. Enquanto a maioria das vítimas está sob a estrutura manca da sociedade, do estado ou da família, normalmente envolvido com o tráfico de drogas, o filho de dona Marinalva era paparicado, querido, tinha até mais de uma mãe e recebia presentes do tio, que vez em quando viajava para o exterior e trazia roupas para o garoto. Semanas antes de sua morte, inclusive, ele voltara de Miami com um par de tênis para o sobrinho.
“Trabalhe para ter o seu”, ensinava Railan
"Por causa da comoção que a morte dele causou aqui na escola, eu disse para os alunos que não vamos deixar de gostar dele, nem julgá-lo. Mas eu me senti traída", disse Ana Maria Magalhães, vice-diretora do colégio Augusto Comte, de Pau da Lima, escola particular onde Railan estudava até ano passado, quando a tia o transferiu, como “castigo”, depois que ele perdeu o 1º ano. Hoje, o áspero silêncio do rapaz que acolheu ainda alfabetização incomoda mais do que as brincadeiras que ele fazia no ensino médio para minimizar as broncas.
No colégio Colégio Estadual Deputado Manoel Novaes, no Canela, onde ele ingressou depois da transferência, o perfil de Railan também não se confundia com os dos 2.140 alunos do ensino médio. Os professores ainda se lembram do seu jeito caloroso, especialmente com as garotas. “O olhar dele não era de bandido”, afirmou uma funcionário que não se identificou.
Um pouco de Railan também oscila nos olhos e na voz de Maria da Glória Sena Souza, 52, caixa na padaria onde o rapaz estagiou no ano passado. "Dois dias antes da morte, ele passou aqui e abraçou a patroa. Onde a gente se encontrava ele falava", diz a amiga da família, ainda incrédula.
Mesmo com a mesada dos tios, que somava R$ 170, e de usufruir das roupas de marca e da melhor educação entre os irmãos, Railan fazia bicos para ter o próprio dinheiro. O mais recente foi em agosto, como garçom, e teve uma remuneração de R$ 60. “Ele reclamava, dizia que queria trabalhar na frente de um computador, com ar-condicionado, tendo que segurar apenas a caneta, mas também lavava carro comigo”, lembra o padrasto.
Das ideias do rapaz lembradas pelos primos Adriane e Bruno Sousa, de 18 e 19 anos, está justamente: “trabalhe para ter o seu”. Apesar de lavar carro e armar móveis, Railan não gostava de pegar no pesado. Uma vez feriu o canto do dedo e colocou a mãe para fazer o bico que já tinha aceito num sábado, só para não perder o dinheiro.
Segundo a ex-professora da 5ª série Zélia Souza, 67, em setembro Railan a procurou para conseguir trabalho. "Nas eleições, ele me acompanhou porque eu tenho artrose. Eu ia conseguir algo para ele no começo do ano que vem", diz, sobre o cadastro que fez em uma instituição que direciona estagiários para o mercado.
Railan também comentou sobre trabalho com a prima Adriane. Inclusive, ela tatuou “Railan” no antebraço em letras “semicursivas”, e provavelmente foi a pessoa que mais expressou pesar pela morte do primo nas redes sociais. No perfil do Whatsapp dela, alterou a foto em homenagem ao primo no dia do próprio aniversário. Faz isso pelo menos uma vez por semana. A marca em sua pele, entretanto, ainda é insuficiente para eternizar a esperança que toda a família depositava em Railan.
Não há indício ou laudo pericial equivalente à fé no caráter do neto que ainda pedia a benção. Para a avó materna, Aloísia dos Santos Sousa, só Anatildes – que preferiu não conversar com a imprensa – quis apagar a imagem de Railan ao entregar a Dona Marinalva todos os pertences do garoto que estavam com ela.
A memória do rapaz que não pôde se impor à vida hoje se mostra sem forma sobre o guarda roupa em um saco plástico, no boletim escolar que não vale a pena exibir a estranhos, nas mensagens enviadas do aparelho de celular, no sonho de realizar uma festa, apesar do saldo de R$ 0,52 na conta e na certeza de que dignidade é ter o nome limpo - e dizem que ele prezava muito por isso. Nesse universo, a pergunta de Dona Nalva talvez ecoe para sempre: Por quê?