Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home3/correiodb/correio24horas.com.br/blogs/tempoperdido/wp-content/themes/flair/ebor_framework/metabox/init.php on line 724

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home3/correiodb/correio24horas.com.br/blogs/tempoperdido/wp-content/themes/flair/ebor_framework/metabox/init.php on line 724

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home3/correiodb/correio24horas.com.br/blogs/tempoperdido/wp-content/themes/flair/ebor_framework/metabox/init.php on line 724

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home3/correiodb/correio24horas.com.br/blogs/tempoperdido/wp-content/themes/flair/ebor_framework/metabox/init.php on line 724

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home3/correiodb/correio24horas.com.br/blogs/tempoperdido/wp-content/themes/flair/ebor_framework/metabox/init.php on line 724
“EU SAÍ”: A VIDA PÓS-CASE | Tempo Perdido

“EU SAÍ”: A VIDA PÓS-CASE

Alexandre Lyrio (alexandre.lyrio@redebahia.com.br)

macario

Álvaro Macário assassinou um homem em 2009, foi para a Case, e conseguiu se ressocializar com a ajuda dos familiares (Foto: Marina Silva)

As clientes adoram o garçom boa pinta. O pessoal das mesas elogia a agilidade e simpatia. Funcionário de uma das barracas do Imbuí, só não passa despercebido porque presta serviço diferenciado. No mais, ninguém imagina do que Álvaro Macário de Oliveira Júnior, 21, já foi capaz.

O ano é 2009 e um clarão se abriu na multidão que tomava a praça central de Catu, a 80 quilômetros de Salvador. Era São João e a banda Limão com Mel parou de tocar na hora. Antes do expediente, sentado em uma das mesas que serve diariamente, as palavras de Álvaro ao descrever o momento do crime são de embrulhar o estômago.

“Eu me aproximei do cara, encostei a arma na cabeça dele e atirei”. O adolescente Álvaro tinha acabado de completar 16 anos. Um desafeto o tinha agredido com uma pedrada um mês antes. Quem agride um soldado do tráfico não fica impune. Álvaro o jurou de morte. E cumpriu a promessa na primeira oportunidade que teve. “Aquele som do Limão com Mel não me sai da cabeça”.

Enquanto serve a mesa 35 com água com gás, Álvaro lembra do que o empurrou para aquela vida. O pai, um lutador de boxe conhecido na cidade, faleceu quando tinha 9 anos. Álvaro tem 20 irmãos. Isso mesmo: 20. Da mesma mãe são dois. Mas Dona Maria Luiza não dava conta, já que tinha que trabalhar. Aos 14 anos, começou a usar maconha e pó. Passou a revender parte do que consumia.

A droga lhe rendia muita grana em pouco tempo. “Você começa a se achar o cara. Tinha dinheiro e andava armado. As mulheres não se davam com o negão!”. Foram muitas noitadas de festas, tiros e brigas. “Só ia para a festa para brigar e dar tiro”. Um dia, a polícia entrava na boca já atirando. No outro, era o grupo do morro rival. Passou de morrer diversas vezes.

Mas, antes disso, matou. E escolheu a praça, em pleno São João. Talvez ter sido detido tenha sido um milagre. Seu primeiro milagre. Apreendido em flagrante, foi sentenciado a cumprir três anos de medida socioeducativa em regime fechado. Com seis meses na Comunidade de Acolhimento Socioeducativo (Case) do CIA, agrediu o coordenador-geral e educadores. Foi transferido para a Case de Simões Filho e, depois, para a Case de Feira de Santana.

“Por outro lado, eu era bastante participativo nos cursos de teatro, percussão e serigrafia. As oficinas são ótimas. Mas alguns educadores precisam aprender a saber lidar com os adolescentes. São incapacitados, mal humorados. Querem oprimir e bater”, denuncia Álvaro, que com o tempo melhorou o comportamento. “Se eu tivesse outro tratamento, minha recuperação seria mais rápida”, acredita.

Com o tempo, passou a cumprir medida em semiliberdade. Amadureceu. Botou a cabeça no lugar. Teve outro grande milagre na vida. Uma namorada que conheceu antes do crime. Junto com a mãe dele – talvez o maior dos milagres –, a moça nunca faltou um dia de visita. No final das contas, foi a família que transformou Álvaro em um homem de bem. Entendeu que só o amor conhece o que é verdade.

“Comecei a ver que minha mãe estava sofrendo demais. Ela emagreceu demais. Lembrei de meu pai, que sempre foi um cara íntegro. Decidi dar um basta”, lembra Álvaro, libertado em janeiro de 2012, depois de dois anos e oito meses. “A medida ajuda, mas o que salva é a família”.

tempoperdidomacario

Uma surpresa: Álvaro Macário já havia sido entrevistado para reportagem do Correio sobre a oferta de vagas em cursos do senac (Foto: Reprodução)

Ao sair, Álvaro não quis seguir nenhuma das profissões que aprendeu na Case. Preferiu o treinamento de garçom do Senac. Durante a edição desta reportagem, aliás, uma surpresa. Descobrimos que Álvaro foi uma de nossas fontes em outra matéria sobre o Senac, em junho de 2012, cinco meses depois de ter ganhado a liberdade. E evidentemente, a repórter na época nem soube que ele era um ex-interno da Case. Após cumprir o período de medida, um educador ligou para Álvaro oferecendo uma oportunidade de jovem aprendiz do restaurante A Porteira. Depois, trabalhou no bar Devassa e no Moema. “Agora, vou correr atrás do meu 2º grau. Só falta o 3º ano. Daí é um passo para a faculdade”.

Regenerado, ninguém nunca desconfiou de sua história. “Aqui em Salvador, ninguém sabe disso”, contou, para em seguida emendar, sorrindo: “Não sabia até agora”. Algum receio de sofrer preconceito daqui pra frente? Que nada. "Quero servir de exemplo para os jovens que estão dentro do crime ou para aqueles que querem entrar". Em nome do pequeno João Vitor, seu quarto milagre e primeiro filho, que tinha quatro dias de nascido quando Álvaro nos concedeu entrevista, ele pede. “Não me julguem pelo meu passado”.

Gilberto sete vidas: ‘o caminho é o sol’
“Você é meu exemplo de menino. Meu orgulho!”. O elogio parte da assistente social Liana Arantes, da Fundação da Criança e do Adolescente (Fundac). Gilberto Marinho das Virgens, 21 anos, fica sem graça. Liana trabalha na Coordenação de Apoio à Família e ao Egresso (Café) do sistema socioeducativo, do qual Gilberto foi figurinha repetida por muitos anos. Depois de praticar assaltos, virar traficante e quase morrer diversas vezes, a vida lhe deu uma nova chance. E ele aproveitou.

tempoperdido (1)

Gilberto Marinho das Virgens, 21 anos, traficou, roubou e diz que não sabe se matou. Hoje é mecânico (Foto: Mauro Akin Nassor)

O que o levou a praticar crimes? O mesmo que leva a maioria dos jovens. A família de Gilberto, como de quase todo adolescente infrator, era destroçada. A mãe engravidou e o pai não quis assumir. Foi morar na casa de uma conhecida. Com 7 ou 8 anos, passou a sofrer maus tratos. “Tudo bem que eu era uma peste, mas ela me espancava. Não se educa uma criança assim”, analisa.

Com uns 10 anos, voltou a morar com a mãe, em uma localidade conhecida como Babilônia, na Mata Escura. Aos 15 ou 16 anos, conta, conheceu “umas amizades estranhas”. “Minha mãe me trancava em casa e saía para trabalhar. Eu arrombava a porta. Gostava de ficar solto no mundo”. Começou a praticar roubos. Aos domingos, ia para a Barra assaltar turistas. “Era nosso foco. Eu não estudava, não trabalhava, queria tirar dinheiro dos outros”, conta.

Mas sua primeira entrada na 2ª Vara da Infância e Juventude foi após uma briga em que se meteu em uma tarde de assaltos. Até que alguém lhe disse: “Gilberto, a onda não é roubar. A onda é traficar”. Cooptado, passou a andar com um revólver 38. Fumava maconha e cheirava cocaína. Vendia pelo dobro do preço que comprava. “Comprador não faltava. Aparecia de tudo. Era patricinha, playboy, pastor de igreja..., elenca.

Gilberto passou a dormir na boca de fumo. Ninguém mexia com ele e com os parceiros da Mata Escura. Participou da ação que matou rivais no Manguinho. “Não sei se matei alguém. Só sei que atirei. A gente era dono da Babilônia”. Na retaliação, dias depois, quase morreu. “Os caras chegaram com arma pesada. Fuzil metralhadora, espingarda 12. Entraram na casa da frente achando que era a minha. Passei de morrer assim umas sete vezes”, lembra.

Mesmo nesse período, a mãe nunca desistiu da recuperação do filho. Pediu ajuda ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público. Sem nunca ter sido apreendido por tráfico, Gilberto cumpria medida pela briga. Era chamado a participar das oficinas, mas não comparecia. Foi aí que rixas internas enfraqueceram a quadrilha de que fazia parte. Gilberto arrumou uma namorada. E a mãe sempre no seu pé. “Teve uma hora que ela quase perde a esperança”. Gilberto passou a frequentar as palestras e oficinas “arrastado”. Até que aos 18 anos teve uma filha. Bateu o estalo.

“Pensei: o que estou fazendo da minha vida? Queria cuidar da minha família, da minha filha e da minha mulher. Mudei geral”. Hoje, Gilberto trabalha como mecânico em uma empresa que conserta tratores, teve outra filha há um ano, mora com a família em São Cristóvão e dá o maior orgulho à assistente social que até hoje o acompanha.

Cláudio: suor sagrado de socioeducador
As mães dos vizinhos apostavam: “Esse menino não vai durar muito tempo. Vai arranjar alguém para matar ele rapidinho”. O fim trágico seria de Cláudio Noronha, hoje com 30 anos. Como se vê, ele não só sobreviveu como se tornou um homem de bem. Mais que isso: passou a instruir justamente jovens que cometeram atos infracionais. “Hoje, as mesmas mães me olham admiradas. Muitas delas perderam seus filhos para o crime”.

Nascido e criado no bairro da Boca do Rio, Cláudio sequer conheceu o pai. Ele e os cinco irmãos foram criados pela mãe, que precisava trabalhar. Passou a ir para as ruas, onde muitas vezes dormia. “Teve uma vez que dormi um mês fora de casa”. Cláudio é de um tempo em que não havia crack, mas cola de sapateiro. “Ainda bem que meu organismo não aceitava. Só experimentei cigarro”. O tráfico de drogas ainda não tomava os guetos. O ato infracional de quem vivia da rua eram os assaltos e arrombamentos. “Arrombava mercadinhos, barracas, tudo quanto é tipo de estabelecimento comercial”.

Aos 12 anos, a primeira entrada. Ficou internado várias vezes na antiga CAM (Casa de Acolhimento ao Menor) por períodos de 45 dias, três meses ou seis meses. Era liberado e voltava para a rua. “Não conseguia ficar em casa. Minha mãe saía de madrugada para me procurar. Em uma das internações, dois dias antes de o documento que trazia sua liberação chegar, resolveu fugir.

Passou 20 dias na rua e cometeu novo delito. Teve que passar por mais um ano e dois meses de medida socioeducativa na Comunidade de Acolhimento Socioeducativo (Case) de Brotas em semiliberdade. Ali, passou a estudar, fazer cursos profissionalizantes, tinha acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. “Decidi que só sairia pela porta da frente. Comecei a pensar no meu futuro”.

Saiu da Case de Brotas aos 18 anos, treinado para o mercado de trabalho. Por uma dessas ironias do destino, foi parar justamente em um órgão onde jovens cumprem medidas. Mas, desta vez, como instrutor. O Centro de Cultura e Arte Pelourinho (Cecap), onde está há oito anos, é unidade da própria Fundac e oferece oficinas profissionalizantes para adolescentes. De menor aprendiz, Cláudio passou a instrutor de ofício.

Hoje valoriza o seu suor sagrado. Tanto que arrumou outro emprego. Às sextas, sábados e domingos trabalha como garçom em um bar. “Quando o adolescente comete um ato infracional, pode ter certeza que houve algo de errado na sua formação, seja na família, na escola. Bom seria que todos tivessem a força de vontade que eu tive”, lembra Cláudio.