As frases que você ouve a cada instante são retiradas de relatos de mulheres estupradas. Gravadas por outras vozes, para preservar a maioria das vítimas, que não quis se identificar, mas são relatos reais. E não, você não tem como interrompê-las. Assim como as vítimas não podem interromper os estupros.


Valentina* repetia, quase que em modo automático que, não, ela não gostava de falar. Olívia* até consegue explicar, colocar para fora, mas prefere não dizer a quase ninguém. Malu* abaixa a cabeça, sorri sem achar graça e fica com vergonha quando alguém lhe pergunta. Com Luísa*, aconteceu há muitos anos, mas a riqueza dos detalhes em sua memória a assombra até hoje. Andrea guardou por quase 20 anos. Andresa resolveu botar a boca no trombone, no Facebook e na vida. Moíra cansou de ficar calada, mas, agora, está até com medo da Justiça.

Cada uma dessas vítimas tem sua história — e cada uma viveu uma violência específica. Mas todas têm em comum a decisão de quebrar o silêncio que lhes foi imposto. A pedido do CORREIO, elas aceitaram falar. Contar o que passaram, porém, não significa estar à vontade com o assunto, principalmente com estranhos. Embora tenham demonstrado força ao relatar suas experiências, a maioria não quer se expor ainda mais, seja por medo, seja por vergonha. Algumas não querem mostrar o rosto, outras sequer publicar o nome.

Há desde aquela que não quer admitir nem para si mesmo, até a que tem medo de sofrer perseguição e ser, literalmente, caçada por seus agressores. Há, ainda, aquelas que temem prejudicar a carreira, machucar alguém, destruir a família. E, por fim, há as que continuam tendo medo simplesmente porque já se acostumaram a viver com ele.

Até o fim desta série, teremos conhecido a história de todas elas.




As sete vítimas passaram por experiências diferentes, mas quase todas as situações têm em comum relações de poder — como a de um parente, companheiro ou mesmo um cliente — que se repetem quase ao nível da naturalização.

Estupro familiar

As estatísticas mostram que oito a cada dez estupros acontecem em ambiente familiar, como aconteceu com Andrea e Valentina: um estupro entre quatro paredes, dentro de casa. Por outro lado, quando as vítimas são muito novas, nem sempre conseguem entender a situação e contar a alguém. Elas se calam porque não sabem — ou não têm certeza — de que há algo errado.

Somente quando não há colaboração dos responsáveis — como a tia de Valentina ou quando uma mãe acoberta o agressor — a criança pode ser retirada de casa. E esse processo ainda pode demorar meses. Nesses casos, segundo a promotora da Infância e da Juventude Ana Bernardete Andrade, é possível que a menina vá morar com algum membro de sua família. Se ninguém for encontrado, ela vai para um abrigo, onde pode ficar por até dois anos. “Além disso, a gente também ingressa com ações de suspensão ou de destituição do poder familiar do pai, se ele for o agressor, e da mãe, se ela for conivente”, explica Ana Bernardete.
A Casa Lar é um desses abrigos. Ligado à Associação das Comunidades Paroquiais da Mata Escura e Calabetão (Acopamec), o espaço acolhe hoje 13 adolescentes vítimas de violência sexual. O mais comum, de acordo com a coordenadora do espaço, Maria del Pilar, é que aquelas que viveram situações parecidas com a de Valentina passem a acreditar que foram mesmo culpadas pelo que aconteceu. “Elas chegam sofridas, carentes ao extremo, desacreditadas, desconfiadas... Por isso, precisamos de diálogo. Não vai ser em uma conversa que elas vão chegar à conclusão de que foram vítimas. Isso é um processo”.
O jeito é prestar atenção às outras formas de comunicação ou ao que a criança fala que pode soar estranho. “A fala da criança é muito importante. Quando você vê que a criança verbaliza certos atos que não são do universo dela, isso é um indício forte (de estupro)”, destaca a delegada Ana Crícia Macedo, titular da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente (Derca).

Um indício que pode indicar que a criança foi vítima de violência sexual é se ela começa a ter uma sexualidade aflorada logo cedo, apesar da pouca idade. Para o coordenador do Lar Pérolas de Cristo, Rafael Raposo, essa é a consequência de uma infância roubada. “Eles querem reproduzir o comportamento (do abuso) com outros. Por isso, a gente trabalha muito o sujeito voltando a ser criança”, explica. O Pérolas de Cristo, em Tubarão, é um dos abrigos mais antigos da cidade. Lá, moram quase 90 crianças e adolescentes vítimas de algum tipo de violência — inclusive, sexual.

Estupros praticados por maridos sequer eram levados em conta

Como aconteceu com Andresa, a gravidade de estupros de companheiros costuma ser minimizada. No passado, porém, casos de violência sexual que tinham como autores o marido, o noivo ou até o namorado não eram nem levados em conta. Sequer eram tratados como estupro. Autora de estudo sobre crimes sexuais em Salvador de 1940 a 1970, Andréa Rodrigues, professora da pós-graduação em História da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), diz que, nesse período, se o crime fosse cometido pelo marido, não era estupro.
Aliás, mesmo com outro homem, se a mulher fosse casada, nada era feito e ninguém acabava punido. “Simplesmente não tinha casos de mulheres casadas estupradas. Porque teoricamente seria com o marido. Se acontecesse com algum homem tentando violá-la, os problemas eram resolvidos de outra forma que não a jurídica. No período que pesquisei, não foi encontrado nenhum caso de mulher casada estuprada”.

Essa cultura masculina atravessou gerações e deixou sua herança para as gerações atuais. “A sociedade patriarcal acabou naturalizando esse tipo de violência. Ainda hoje a violência sexual praticada dentro da família ainda é vista com condescendência”, diz Sandra Muñoz, coordenadora da Casa Cristal Lilás da Bahia, que no passado foi estuprada e hoje acolhe mulheres nesta situação.
Diferente do que muita gente pode imaginar, a violência sexual praticada pelo companheiro pode ser ainda mais sofrida e dolorosa que as outras. É o que acredita o psiquiatra Antonio Serafim, coordenador do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria HC (IPQ) e professor do mestrado e doutorado em Psicologia. “A violação em caso de marido pode causar mais impacto e revolta porque envolve uma pessoa de confiança com a qual se mantém um relacionamento íntimo. Talvez seja pior do que transar forçado com um desconhecido”.

Dificuldade a mais

O silêncio de prostitutas estupradas, como Olivia, não é de hoje. Desde 1940, quando o estupro foi reconhecido pelo Código Penal como crime, até o fim do século 20, não houve nenhum registro de prostitutas que tenham buscado a Justiça para denunciar uma violência sexual em Salvador.

Para a professora Andréa Rodrigues, a falta de dados sobre prostitutas estupradas não significa que elas não eram agredidas, apenas que não denunciavam. “Se uma mulher que não era prostituta já tinha dificuldade de provar que tinha sido violada, imagine uma que era...”.
(*Nomes fictícios)