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Nem tão redondo assim
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Tá puxado!

Na arquitetura sem regras de Cajazeiras, maior conjunto habitacional da cidade, o puxadinho é questão de necessidade

Por Caio Issa e Beatriz Oliveira
 

O bloco 45 da Fazenda Grande 2 tem uma garagem para o morador do térreo, uma copa no vão do corredor do primeiro andar e um “puxadão” no térreo, que serve para as crianças de um dos apartamentos brincarem. Ele era um prédio normal, até os moradores fazerem modificações para adaptar a estrutura às necessidades.

Diferente de alguns condomínios que são cheios de regras, nos conjuntos habitacionais as pessoas mudam a fachada, fazem puxadinhos para construir comércios e quintais, penduram roupas para secar nas janelas.

Segundo os moradores, todas as decisões que afetam o prédio são tomadas em conjunto, com uma negociação entre os vizinhos. No bloco 45, essas modificações ocorrem após a aprovação de pelo menos 10 dos 16 proprietários dos apartamentos. Como não passam por vistorias, é mais fácil modificar a estrutura.

Quando pensou em fazer uma copa no vão do prédio para aumentar a sua cozinha, a pensionista Marieta Borges, 75 anos, entrou em contato com os vizinhos e, segundo ela, ninguém criou problema. “Até que (fazer puxadinhos) é certo, né? Mas tem alguns que são exagerados! Esse daí da frente mesmo tomou a área dos moradores toda.”



“A gente poderia pintar, ajeitar, limpar ou colocar azulejos, mas aqui cada um cuida do seu e eu não posso fazer isso sozinha por todos”



O puxadinho que ela critica é da designer de interiores Thaís Cerqueira, 33 anos, que mora lá há um mês e meio. Ela e o marido resolveram fechar mais ainda o quintal que o dono anterior tinha feito, formando uma garagem, uma área para os dois filhos brincarem e churrasqueira. “Comunicamos aos moradores e eles disseram que a gente não poderia fazer, que ficaria feio. Questionei: por que não fazer se aqui todo mundo tem um puxadinho?”

Atualmente, o prédio não tem síndico e, como a água é paga individualmente, a única responsabilidade que une os moradores é a conta de luz do condomínio. Mas as coisas estão mais pra lá do que pra cá. Marieta precisou puxar uma fiação da sua casa para pôr luz no corredor do prédio. Goteiras no terceiro andar e sujeira nos corredores também estão entre os problemas. “A gente poderia pintar, ajeitar, limpar ou colocar azulejos, mas aqui cada um cuida do seu e não posso fazer isso sozinha por todos.”

Segundo Marieta, anos atrás, isso não acontecia. “Quando outras pessoas viviam aqui e o condomínio era certinho, as coisas eram diferentes. Os moradores se uniam um dia da semana para lavar e limpar o prédio. A gente comemorava Natal, fazia brincadeiras, amigo-secreto, mas muitos se mudaram e, com o tempo, isso foi se perdendo”, desabafa.

Em alguns prédios, como os vizinhos de quase todos os andares resolvem construir puxadinhos no vão que existe entre duas partes da construção, quem passa e observa nem desconfia que antes não era assim. Outras mudanças, no entanto, são bem perceptíveis. A aposentada Thabita da Silva, 69 anos, fechou a parte de trás do apartamento, criando um quintal e uma lavanderia onde ficava a antiga saída dos fundos do prédio. Para completar, construiu uma barbearia para o neto.

A vida em conjunto habitacional quebra as regras que separam prédios comerciais e moradias. De acordo com o vice-presidente do Instituto dos Arquitetos da Bahia (IAB-BA), Neilton Dórea, “socialmente, isso é algo bom, porque alguém que mora no primeiro andar percebe a falta de um negócio e começa a vender no térreo, ou até pela janela. Nessa hora, a vida em conjunto começa a ter uma interação, o que gera movimentação no local e, por consequência, segurança. No entanto, é necessário cautela pra não mexer demais na estrutura de um prédio que já não tem essa qualidade toda”, explica.

A arquitetura, no caso dos conjuntos, pensa em soluções mais baratas. Por isso as cores padronizadas e prédios de, no máximo, quatro andares. Assim, a construtora não é obrigada a colocar elevadores, o que aumentaria o preço dos apartamentos e do condomínio. Os próprios materiais são diferentes. “É mais areia do que cimento. A qualidade das janelas, dos equipamentos e de construção não é boa”, diz Neilton.



“Socialmente, isso é algo bom, porque alguém que mora no primeiro andar percebe a falta de um negócio e começa a vender no térreo, ou até pela janela. No entanto, é necessário cautela pra não mexer demais na estrutura de um prédio que já não tem essa qualidade toda"



Diferente dos condomínios, nos conjuntos habitacionais os moradores que fazem as próprias leis, como pendurar as roupas na janela. (GIF: Caio Issa)

Cajazeiras Longe

O bloco 45 faz parte do maior complexo habitacional de Salvador: Cajazeiras. O lugar surge, na década de 70, com a implantação da estrada CIA-Aeroporto e a chegada do Polo Industrial de Camaçari, com pretensão de ser o maior conjunto habitacional planejado da América Latina. Ocupar o miolo da cidade deixou os trabalhadores próximos do Polo, mas também longe do centro da cidade.

Hoje em dia, Cajazeiras nem parece o lugar que Thabita encontrou, em 1985. “Isso aqui era tudo mato. Só tinha esses prédios. Não tinha padaria, mercado, orelhão, polícia, banco, nem escola. Parecia que a gente estava do outro lado do mundo. A gente encontrava apartamento sendo vendido por mil, dois mil e até de graça. Ninguém queria viver num lugar que não tinha nada”.

Para o vice-presidente do Conselho de Arquitetura da Bahia, Neilton Dórea, habitar não é só construir a casa. “Para nós, arquitetos, a habitação é tudo o que existe em volta. Lazer, saúde, educação, mobilidade, tudo isso faz parte de habitar. Se eu coloco você longe, você não está habitando, está hibernando.”



"Para nós arquitetos, a habitação é tudo o que existe em volta. Lazer, saúde, educação, mobilidade, tudo isso faz parte de habitar. Se eu coloco você longe, você não está habitando, está hibernando"



1975


Ano em que Cajazeiras foi projetada como um conjunto habitacional para abrigar 150 mil pessoas. São 20 km² de área

4 fazendas


foram desapropriadas para a construção do conjunto: Fazenda Cajazeiras, Fazenda Grande, Fazenda Boa União e Chácara Nogueira

15 bairros


fazem parte do complexo, entre eles: Águas Claras, Boca da Mata, Cajazeiras (de 2 a 11, pulando a 9) e Fazenda Grande (de 1 a 4)

Uma hora


Tempo percorrido de ônibus entre a Estação da Lapa e Cajazeiras 10. Hoje, 50 linhas de ônibus com 320 coletivos atendem a região

No momento da construção de seus conjuntos habitacionais, Cajazeiras era formada por áreas que hoje fazem parte dos bairros de Águas Claras, Boca da Mata, Fazenda Grande (de 1 a 4) além das próprias Cajazeiras (de 2 a 11, pulando a 9). Somados, todos os bairros que formam o complexo têm 20 quilômetros quadrados e 147 mil habitantes, sendo 85% negros, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010.

A pesquisadora Angela Gordilho, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no entanto, afirma que Cajazeiras deve ter, pelo menos, 300 mil pessoas. Equivale a uma cidade como Vitória da Conquista, por exemplo.

Atualmente, Cajazeiras conta com 50 linhas de ônibus que operam 320 coletivos, muitas lojas, supermercados, farmácias, bancos, shopping center, faculdade privada e, até 2020, vai receber uma estação de metrô. “Já faz uns seis meses que eu não vou lá na cidade”, diz o presidente da União das Associações de Cajazeiras e Adjacências, Evanir Borges, se referindo ao centro de Salvador.