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O palácio que virou casa

Decisão da Aeronáutica mudou rumo das coisas e impediu o projeto original da Casa do Comércio, com 26 andares, de sair do papel

Fernanda Lima*

O CORREIO convocou os leitores, no início de janeiro, a escolherem o prédio mais representativo de Salvador. As opções constavam em uma lista de nove edifícios escolhidos por arquitetos e um, o Fundação Politécnica, pelos integrantes do Correio de Futuro. A Casa do Comércio foi a vencedora com mil votos, 300 à frente do Sulacap. Mas, o que pouca gente sabia, ao defender o prédio vermelho e preto da Avenida Tancredo Neves como o mais simbólico da cidade, é que, não fosse o destino, a escolha seria impossível. Isso porque, na ideia inicial dos arquitetos, o edifício era bem diferente do que se tornou.

A primeira, e mais simbólica, diferença começa pelo nome. A Casa do Comércio, na verdade, começou a ser pensada pelos arquitetos Fernando Frank, Jader Tavares e Otto Gomes, e por Deraldo Motta, presidente da Federação do Comércio da Bahia (Fecomercio), como Palácio do Comércio. As outras alterações, que deixaram o nome menos pomposo, foram estéticas e estruturais. No lugar da construção de 11 andares que ganhou forma, seria erguido um prédio de 26 andares, com treliças de aço triangulares entrecortando o prédio e uma entrada principal sustentada em uma estrutura colada à única torre de concreto.

Os arquitetos finalizaram o projeto em quase dois anos, de 1979 a 1981. Por um momento, após a jornada de trabalho, as coisas pareciam estar resolvidas: o projeto estava pronto, agradava Deraldo, que encomendou o edifício, e poderia sair do papel. Uma decisão da Aeronáutica, no entanto, barrou o projeto por uma questão de altura. Em uma cidade hoje marcada pela verticalização pode parecer estranho, mas o Palácio não saiu do papel pelo número de andares, que teoricamente afetaria o fluxo aéreo.

O rumo do prédio tomou, a partir daí, outra direção. O Palácio precisou virar Casa. Pode ser que o rebaixamento dê a impressão de uma simplicidade forçada. Mas que nada! Fernando, Jader e Otto voltaram às pranchetas no mesmo ano de 1981 decididos a fazer um projeto tão ousado quanto o primeiro. O resultado foi o croqui de um prédio de 11 andares, com duas torres de concreto no suporte de estruturas de aço simétricas cobertas por vidro, ainda mais inovador, tal como se vê hoje.

A Casa construída era menos da metade do que os arquitetos desejavam para seu tamanho. Mas o dia da inauguração, em 1988, e o futuro de críticas e elogios mostraram que o segundo plano se tornaria muito melhor que o primeiro. O acaso, mesmo sem nunca saber, rebobinou a história da Casa, da Tancredo Neves e de toda a paisagem soteropolitana. Duvida? Imagine passar pela avenida sem ver a enorme Casa rubro-negra (que nada tem a ver com time) destoada dos prédios vizinhos, ora engolida pela imensidão deles, ora protagonista. A resposta dificilmente será algo diferente de: “impossível”.