Nem tão redondo assim
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O incomparável gigante da Tancredo Neves


Por Fernanda Lima e Kelven Figueiredo

A movimentação na avenida e o trânsito caótico de hoje não imprimem a história do símbolo da Avenida Tancredo Neves, em Salvador, nascido há exatos 30 anos. O vermelho e preto não passam despercebidos aos olhos de quem o vê. São diversos cliques que tentam capturar sua ousadia e singularidade. Também são inúmeros os curiosos que param para admirá-lo. E sempre foi assim. Desde a montagem da Casa do Comércio, iniciada em 1982, pessoas que se arriscavam na região quase inabitada da capital dedicavam uma das poses do filme fotográfico para registrar a estrutura em formato de fogueira.

A atenção destinada ao prédio era o que seu idealizador, Deraldo Motta, desejava – ainda que o projeto inicial, para a construção de um palácio, tenha sido vetada (ver abaixo). O presidente da Federação do Comércio da Bahia (Fecom-BA) pretendia transferir a antiga sede da entidade, do Edifício Nelson de Faria, no bairro do Comércio, para a recém-inaugurada avenida. Mas, não de qualquer jeito. O gestor ambicionava um projeto de prédio que se tornasse referência para as futuras construções do novo centro comercial da capital baiana. A mudança também deveria marcar os mais de 20 anos de administração, comemorados em 1976.


Para tornar o sonho real, escolheu cuidadosamente os arquitetos. Os eleitos foram o trio de amigos e sócios Fernando Frank, Jader Tavares e Otto Gomes. Eles já eram conhecidos pela coautoria no projeto do Centro de Convenções da Bahia, em Jardim Armação, junto ao escritório carioca Maurício Roberto Arquitetos S/A, em 1979. Foi o assessor de Deraldo à época, Heitor Castro, quem sugeriu os nomes pela irreverência de estilo apresentada no projeto anterior. Tamanha ousadia teve preço e dividiu opiniões.

 

“Diziam que ele era maluco, que a obra ficaria inacabada. Conversa de gente pessimista, sabe como é?”, avalia hoje o filho de Deraldo, Paulo Motta



Ao final, venceu quem apostava no sucesso do projeto. “Todos reconheceram que ele era visionário”, conta. As obras tiveram início em 9 de junho de 1982 e a inauguração ocorreu seis anos depois, em 28 de janeiro de 1988. Deraldo morreu no dia 13 de julho de 1987 – antes que pudesse ver o prédio ganhar vida –, após um ataque cardíaco no apartamento em que morava, no Corredor da Vitória. A Casa do Comércio se tornou, para a família, a maior referência para perpetuar sua memória.

O croqui que nunca mais se desenhou


A Casa do Comércio nasceu para revolucionar. Mas, em solo baiano, jamais se produziu arquitetura com a irreverência estética do edifício. As treliças de aço vermelho em retângulos equilibrados em tamanhos assimétricos e recobertos por vidro preto deveriam apontar para o futuro. Viraram o século sem que a posteridade acompanhasse. “Depois da Casa do Comércio, ninguém fez nada nem parecido”, opinam Fernando Frank e Otto Gomes.

Em uma Salvador onde ainda predominavam as experimentações modernistas, os arquitetos foram além. Faltam rótulos ao prédio e nem mesmo Frank e Otto conseguem enquadrá-lo. Dizem apenas que foram influenciados pelo Centro Pompidou, museu construído em 1977, na França, baseado em um sistema de tubos. O edifício parisiense é também o maior símbolo do estilo High Tech, marcado pelo uso de materiais arrojados como o aço e o vidro, hoje associado à tecnologia de sistemas inteligentes, explica Neilton Dórea, vice-presidente do Conselho de Arquitetura da Bahia (CAU-BA).

Os arquitetos apostaram alto em uma junção de materiais, com exceção da experiência no Centro de Convenções, quase inexistente nos prédios soteropolitanos: aço metálico, concreto e vidro. “Era a forma que tínhamos de aliar o tradicional ao novo e fomos muito bem sucedidos nisso”, entrega Frank. A construção do prédio se assemelhou à montagem de peças em um quebra-cabeça. Primeiro, foram colocadas duas torres de concreto no terreno. Depois, a estrutura metálica revestiu o concreto da parte mais alta até ao nível inferior.

Sem as facilidades tecnológicas de hoje, os projetistas e o engenheiro estruturalista da obra, José Luís Costa Souza, precisavam redobrar os esforços. “Era tudo feito na mão e o processo entre pensar e colocar no papel era muito mais difícil”, relembra Frank. Otto precisou acompanhar a construção da maquete para que tudo saísse como planejado. A maquete original pode ser visitada no térreo do prédio.

As dificuldades pareciam surgir antes mesmo das obras começarem. Com a morte de Jader Tavares, aos 36 anos, em 1981, a dupla recém-órfã precisou seguir em meio ao luto. E lidar com as críticas que brotavam entre os próprios colegas conforme o prédio tomava forma.

“Diziam que isso aqui ia ficar uma verdadeira chaleira, que seria muito quente", lembra Otto.

Os dois, então, encontraram soluções para aliviar o calor aprisionado pelo aço no espaço e refletido pelo vidro e evitar que o prédio se tornasse uma fogueira de concreto. O uso das flores Bougainville, que ajudam a resfriar o espaço no processo de respiração, na área externa das varandas de cada um dos 11 andares foi uma delas. A outra proposta foi investir no óbvio: a implementação de uma central de ar-condicionado.

Se o calor passa a léguas do prédio, o fogo também terá dificuldade de se alastrar em caso de incêndio. Isso porque, segundo o engenheiro José Luís Costa Souza, a pintura das paredes não é como outra qualquer. “Usamos uma pintura elastomérica [tinta elástica e impermeável], que apesar de mais cara, retarda a deformação da estrutura em até oito horas se for exposta ao fogo”, explica. Enquanto uma lata de 18 litros de tinta normal custa cerca de R$ 80, a mesma quantidade da tinta ‘antifogo’ hoje não sai por menos de R$ 499.

O dia da inauguração, em 28 de janeiro de 1988, foi o momento de ver os esforços recompensados. O prédio foi visitado por dentro pela primeira vez em uma cerimônia para diretores da Fecomércio, arquitetos, imprensa e funcionários. Exatos 30 anos depois, pouca coisa ali mudou. A empresa, no entanto, iniciou uma fase de mudanças na estrutura interna do edifício para “retirar os móveis e influências dos anos 80” em 2015. A primeira ala reformada foi o 9º andar, onde está localizada a administração.

Os arquitetos, que visitaram o prédio a convite do CORREIO, aprovaram a reforma, mas com ressalvas. Uma das mudanças criticadas pela dupla é a troca das flores Bougainville por palmeiras, já que se perde o efeito de resfriamento. Mas, o tom de reprovação é elevado somente quando Frank e Otto avistam vigas de aço vermelho no interior das salas reformadas que acabaram pintadas de bege. “Não há outra cor além do vermelho para a Casa do Comércio”, sentencia Otto.

O palácio que jamais se ergueu


Apesar do sucesso alcançado na obra, a Casa do Comércio se tornou o projeto mais modesto de um palácio que nunca saiu do papel. No croqui inicial, a estrutura contava com 26 andares e se assemelhava ao edifício do Banco Central de Brasília. A proposta não foi à frente porque sofreu um embargo da Aeronáutica, em 1981.

O órgão defendia que uma edificação do porte não poderia ser construída na região, porque estava próxima do cone de aproximação do aeroporto, a 18 quilômetros dali, o que poderia interferir no fluxo aéreo. Hoje, ironicamente, são erguidos na mesma avenida prédios de até 45 andares, como o Mundo Plaza.

O projeto denominado “Palácio do Comércio” foi vetado na gestão do ex-prefeito Mário Kertész (1979-1981). Diante da situação, os arquitetos voltaram às pranchetas, reformularam a estrutura e deram vida à Casa do Comércio que conhecemos. Os 26 andares que cresceriam para a vertical foram divididos em duas torres de 11 andares que se expandem pelo horizonte. A estrutura foi simplificada e reduzida, mas surgiu um novo impasse: o empreendimento reformulado não cabia no espaço disponível para a construção. A solução foi comprar o terreno vizinho.

Terminadas as devidas adaptações, tanto Deraldo quanto os arquitetos ficaram mais contentes com o segundo resultado. A satisfação permanece três décadas depois, já que, mesmo depois de inúmeros projetos, a Casa do Comércio continua sendo a menina dos olhos dos projetistas. O sentimento é compartilhado pelo engenheiro responsável pela obra, José Luís Costa Souza. “O projeto até hoje é um ícone no Brasil. Foi o marco da minha vida e, mesmo com mil projetos já feitos, ele continua sendo o que mais me marcou”, assume.