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O arquiteto que projeta para o céu

Ivan Smarcevscki projetou metade dos 10 prédios mais altos de Salvador

Por Kelven Figueiredo

No mar, Ivan Smarcevscki descobriu sua grande paixão por velejar, mas foi perto do céu que viu a maioria dos seus projetos ganharem forma. O arquiteto é responsável por metade dos 10 prédios mais altos de Salvador e chegou à posição por acaso. “A minha pontualidade e criatividade podem ter contribuído para que eu começasse a ser chamado para fazer essas construções”, se orgulha. Os 12 prêmios de arquitetura dele simbolizam que a escolha pela arquitetura não podia ser mais acertada e ele sabe de cór o que cada um representa.

O velejador-arquiteto, aos 70 anos, atribui à formação no Colégio Militar do Dendezeiros os traços que o fizeram se destacar no mercado: sua pontualidade e rigidez. “A gente não costuma atrasar nenhum projeto e isso nunca me limitou. Esse negócio de oba-oba comigo não existe. Eu meto a cara no trabalho, por isso meu escritório trabalha no horário comercial, não faz virada.”, garante.

A criatividade fica por conta de sua juventude, quando esteve rodeado por artistas como Carybé e Jorge Amado, amigos pessoais de seu pai, Levi Smarcevski.

“Conviver com gente criativa é importante e o pessoal com quem eu convivi era bastante criativo. Tinham ideias brilhantes, muito doidas”, relembra, aos risos.

Assim como os amigos que tinha, o pai do arquiteto era um verdadeiro artista. Fosse nas telas que pintava, nos croquis de arquitetura que traçava ou nas esculturas que se arriscava a fazer, o importante para ele era fazer arte.

Com Ivan não é muito diferente. O arquiteto também pinta e se arrisca nas esculturas. “Quando é um dia fraco aqui no escritório ou tenho um tempo sobrando eu gosto de desenhar e criar coisas.”, assume mostrando uma série de rascunhos prontos esperando para se tornarem obras de seu acervo pessoal. Entre os desenhos muitos barcos, símbolos relacionados ao mar e algumas releituras dos símbolos que representam os 12 signos do zodíaco.

O segredo do arquiteto, no entanto, parece ser a técnica que usa na hora de projetar. “Você precisa ter um pouco de conhecimento porque envolvem estruturas mais arrojadas para conseguir vãos mais livres. Por exemplo, o Margarida Costa Pinto e o Phileto Sobrinho tem pilares nas extremidades e muito poucos no meio.”, revela. Ele explica que é feito desta forma para que o dono do apartamento seja capaz de colocar tudo à baixo e fazer um quarto e sala se desejar.

Apreciar, projetar e velejar

O escritório do arquiteto deixa evidente sua paixão pela arte. Boa parte da decoração do lugar é composta por obras de arte, mas é em sua sala que guarda o que parecem ser suas obras favoritas: uma caricatura de seu pai feita pelo pintor Floriano Teixeira e outros dois pintados pelo patriarca dos Smarcevski. O primeiro é um quadro que representa o signo de capricórnio - signo que compartilha com o pai - e a outra pintura ilustra o ano de 1969, quando foi até os Estados Unidos velejando com ele.

A influência e a relação com o pai foram fatores decisivos na escolha da arquitetura, porém nem tudo ocorreu como o desejado. Durante a graduação, o arquiteto teve dificuldades para se manter na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“Eu não aprendia nada lá, fiquei revoltado com isso. Só queriam saber de política e teoria de arquitetura.”, queixa-se.

Ele atribui sua persistência e formação na UFBA à mãe, Francisca Smarcevski que insistia para que continuasse.

O tempo passou e a opinião de Ivan sobre a Faculdade de Arquitetura da UFBA (FAU) ainda persiste. “Minha neta foi agora cursar arquitetura na UFBA e eu disse não vá para lá, vá para UNIFACS. Porque os estagiários que aparecem aqui da FACS são bem mais preparados do que os da federal.”, conta. A neta, Beatriz Smarcevski, por sua vez seguiu o conselho de seu avô, mas engatou no curso de biotecnologia. Ela ainda pretende fazer arquitetura, mas em Portugal.

Mesmo com muitos anos de profissão Ivan não perde o brilho no olhar, nem o entusiasmo ao falar de seus projetos. Quando fala de trabalho a satisfação se faz presente a medida que explica sua rotina no escritório. Ao ser perguntado sobre aposentadoria sua resposta vem sem que se termine a pergunta: “Nem pensar, eu não conseguiria porque tenho muita vontade de produzir ainda.”

A arte e a arquitetura são um pedacinho do grande amor de Ivan: o mar. Velejar é sem dúvidas a atividade favorita do arquiteto e a ligação é tão forte que tem impacto direto sobre as criações dele. As varandas mais curvilíneas imitando o balanço do mar como no Phileto Sobrinho, Edifício Ícone ou mesmo o Aquárius. Até mesmo a primeira ponte que se arriscou a fazer possui forma semelhante a velas rasgadas. “Sem dúvida é minha maior inspiração.”, admite.

Autodeclarado “fominha” quando o assunto é navegar não gosta de perder um fim de semana sequer.

Assim como Ivan, seu pai era apaixonado pelo mar. De tão encantado, pediu ao filho que jogasse suas cinzas no mar. E foi o que o filho fez quando ele faleceu há 14 anos atrás. “Eu joguei ali na frente do prédio onde moro. Na minha varanda tem um retrato dele também, então ele convive com tudo o que acontece em minha casa.”, confidencia.

Navegando no Bola7 - atual barco do arquiteto - ele já visitou boa parte do mundo. A lista é vasta e inclui Dubai, EUA, Triângulo das bermudas e Maldivas lugar onde ele resolveu organizar uma festa de casamento surpresa para sua atual esposa, Cláudia Smarcevski. A cerimônia contou com menos de 20 convidados: um casal de amigos e a equipe do hotel que estavam hospedados. Sobrou para o sommelier do hotel fazer as honras e conduzir a união do casal.

Ainda que seja um adorador do velejo e das viagens ele acha que a volta ao mundo de barco já foi um sonho. Ele acredita que não fará mais porque prefere ir com calma e ir conhecendo aos pouquinhos.