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Nem tão redondo assim

A arquitetura arrojada e os problemas de estrutura que afetam a rotina dos moradores dos prédios de Salvador


Rafaela Souza e Renata oliveira

Do Porto da Barra dá para avistar o nosso prédio personagem, a uns 300 metros da balaustrada da praia. A fachada espelhada e o formato pouco conhecido em Salvador chamam a atenção dos que ali transitam. Curiosas para desvendar as histórias do edifício, ponto de referência no bairro, entramos no “Prédio Redondo da Barra”. Idealizado pelo arquiteto baiano Rui Quadros e construído pela construtora Conjunto há mais de 35 anos, o Condomínio Edifício Módulo é um dos poucos prédios redondos da cidade, assim como o Edifício Aganjur, que faz parte do Orixás Center.

Foi como entrar em uma caixinha – redonda - de surpresas. Ao subir os degraus da porta de entrada, além da portaria, demos de cara com os carros dos moradores. Isso porque a portaria do Edifício Módulo também faz o tipo “diferentona”. Fica na garagem, ao invés do térreo, como a maioria dos edifícios da cidade. “Todo mundo que chega aqui fala disso, mas já me acostumei”, afirma Cristiano Souza, 30, que é porteiro do prédio há um ano. A localização do seu ambiente de trabalho afeta diretamente no seu conforto.

O porteiro admite que já não trabalha mais sem ventilador, repelente e inseticida: “O calor aqui é insuportável e as muriçocas nem se fala. Ainda bem que temos um ventilador doado por uma moradora”.

Além disso, o portão de entrada e saída dos carros não é automático, o que obriga Cristiano a se levantar, abrir e fechar o portão a todo momento em que um veículo aparece: “é o meu exercício diário”, diz, aos risos. Seguimos para o interior de um dos apartamentos. Até lá, uma mão de obra. Depois de passar por entre os carros, encontramos um pequeno elevador. Do G1, fomos primeiro ao G4. Só então pegamos outro elevador que nos levaria ao apartamento 502. No hall do quinto andar, diferentemente da escuridão da garagem, desfrutamos da iluminação do conjunto de janelas que compõem a fachada espelhada do prédio. Foi então que a bancária Raidete Coutinho, 49, abriu a porta e nos convidou para conhecer o seu pedaço de pizza.

A pizza mais cara da Barra

Sim, porque a estrutura por dentro do prédio é similar a uma pizza dividida em quatro partes. Pense que um andar equivale ao ângulo de 360 graus e a cada 90 graus há um apartamento. O prédio possui 21 andares e uma unidade no Edifício Módulo não sai por menos de R$450 mil. O também bancário Adalton Bezerra, 51, marido de Raidete, comprou um imóvel no Módulo em 2013, mas só se mudou em 2014, após o término de uma grande reforma em sua moradia: “O apartamento é como uma grande fatia de pizza. Quando você olha para as paredes, pensa que é simples, mas vá montar armário para ver. A equipe tem que dar umas dez voltas no local antes de qualquer obra, senão vai fazer errado”, afirma Adalton.

O morador relata que teve uma má experiência nessa mesma reforma: “Coloquei gente incompetente para a instalação do piso. Mandei ele parar o trabalho assim que vi que estava incorreto e chamei Ademário, que é careiro, mas já conhece bem a planta por fazer obras aqui no prédio com frequência”. Adalton preza pelo trabalho bem feito: “Nem que eu tenha que pagar mais caro por isso”, diz o bancário, que gastou mais de R$100 mil com a reforma, que envolveu a troca dos pisos, armários, instalação de móveis e pintura.

Mesmo com as más experiências na reforma, o apartamento de Adalton e Raidete não deixa de ser aconchegante. A primeira vista, o formato arredondado é percebido de forma bem sutil, a ponto de não conseguir diferenciar de um apartamento com planta retangular. Para enxergar o formato circular, é preciso ir adiante, no corredor, onde você se sente como se estivesse contornando uma meia lua.

O cômodo que mais se distingue de outros apartamentos é o banheiro. O formato afunilado das suas paredes dá uma sensação de aperto conforme se entra. Os móveis e persianas, ao contrário do que muitos podem pensar, não dão tanto trabalho aos moradores. O que dá dor de cabeça, de acordo com Raidete, é a instalação de pisos e a troca de armários, que não pode ser feita por qualquer pessoa justamente pelo formato do apartamento.

O síndico do edifício Módulo, José Gomes Filho, 67, teve um “trabalho do cão” ao tentar dar uma cara nova à sala: “As soluções de interiores têm que ser feitas com muito capricho. Ao fazer molduras para colocar espelhos, tive um trabalho do cão, nenhuma peça ficou igual a outra ao encaixa-las, porque eu saía de uma parte mais larga do teto e ia para outra mais fina. O cara me xingou todo, porque ele tinha que trabalhar com o pescoço pra cima enquanto fazia as peças uma por uma, bem demorado. Todos os móveis devem ser ajustados ao espaço, você não pode comprar um pronto”.

Apesar das peculiaridades que envolvem o formato, os moradores enaltecem as qualidades do prédio, como o florido jardim, o grande espaço do playground e a localização privilegiada: “A estrutura é muito boa e você tem duas vagas de garagem por apartamento, coisa rara aqui na Barra. Além disso, você pode fazer tudo andando. Isso é qualidade de vida”, destaca Adalton.

Ainda assim, há controvérsias sobre a compra de um imóvel no Módulo. O arquiteto e historiador Francisco Senna, 65, não recomenda a compra de uma unidade no prédio. “É um prédio circular, você não tem nenhum compartimento com ângulo de 90 graus, é como se fosse uma fatia de pizza. Então para você colocar um móvel, criar um ambiente ali, não dá, só se fosse um hotel. Mas essa opinião é muito pessoal”.

De acordo com o arquiteto e especialista em urbanismo Armando Branco, 73, prédios redondos não chegaram a ser um modismo, mas foram uma tentativa de inovar saindo da planta retangular ou da planta quadrada: “Não diria que era uma tendência. O empreendedor as vezes pede uma coisa mais exclusiva. Se formos olhar a arquitetura fora do país, vemos que tem coisas completamente fora do sentido. No nível de tecnologia que se tinha naquele momento e questões envolvendo custo, o que poderia fazer de mais original é uma planta circular”. O arquiteto também afirma que as plantas retangulares e quadradas são predominantes não só em Salvador, como no Brasil, devido ao seu baixo custo: “Para inovar, eles apostam em fachadas mais criativas e diferentes, não nos formatos em si”, completa.

Pizza mais barata


A arquitetura redonda do prédio Módulo não se restringe a Barra. No Politeama, o famoso centro de compras Orixás Center abriga o Edifício Aganjur, que tem 13 andares e 5 apartamentos por andar (cada um com 44m²). Assim como o seu primo mais rico, tem o formato de uma fatia de pizza. Moradora do Aganjur há 4 anos, a advogada Camila Malaquias, 22, confirma a dificuldade em lidar com o espaço interno do seu imóvel: “Só tem duas paredes que são quadradas certinhas, o resto é tudo redondo e por isso o encaixe de móveis não é perfeito, além dos apartamentos serem pequenos”. Porém, Camila conta que o conforto do seu quarto e sala e a ventilação do prédio são pontos fortes a serem considerados. Segundo a advogada, uma unidade no Edifício Aganjur não sai por menos de R$150mil.