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(Foto: Betto Jr/CORREIO)

O edifício Master de Salvador

Rafaela Souza e Renata Oliveira

Próximo ao Teatro Castro Alves e à Concha Acústica, um prédio sinuoso e que cresce para os lados se tornou ponto de referência no bairro Politeama. Conhecido como “Minhocão”, o Condomínio Conjunto Residencial Politeama já tem 47 anos e é dividido por blocos que vão do A até o H. O Minhocão é um dos prédios mais povoados de Salvador: são 40 apartamentos em cada bloco, totalizando 320 residências no prédio inteiro.

Apesar da ótima localização, por causa da época em que foi construído, apresenta problemas estruturais para a rotina atual dos moradores. A ausência de elevadores é um deles. A aposentada Onorina Alcântara, de 78 anos, mora no oitavo andar e precisa subir as escadas para chegar até a sua residência. Por ser ex-coronel da Polícia Militar, Onorina tem muitas sequelas corporais da antiga profissão, o que torna a sua rotina bastante cansativa:

“Eu vou me segurando pelos corrimões, colocando uma perna e depois a outra, bem devagar, até chegar”. O porteiro Bartolomeu Ribeiro, 42, que trabalha no prédio há 23 anos, costuma ajudar os idosos a chegarem a sua residência: “Eu ajudo do jeito que posso. Eu vou chegar a essa idade algum dia”, diz Bartolomeu. A própria síndica Tereza Camões, 72, sente o cansaço pelo sobe e desce das escadas.

“No início, quando vim pra cá, não achei que escada seria um problema. Eu via a escada como uma forma de exercício. Hoje eu sei bem o que eu passo. Mas ainda assim vejo algumas idosas que ficam pra lá e pra cá, com toda a energia do mundo”, diz, aos risos. Uma dessas idosas é a viúva Maria Raimunda, 73, moradora mais antiga do Minhocão, que vive hoje com a sua pequena Jade, uma cachorrinha sem raça definida, no sexto andar da torre A.

Raimunda diz que ainda não se queixa das escadas que precisa subir, mas quando começar a sentir “as dores do tempo” já tem para onde ir: “Aqui tem muito apartamento para alugar por conta disso. Muitos moradores antigos que hoje são idosos saíram daqui para locais com fácil acesso. Eu, quando precisar sair, vou para a casa da minha filha”.

De acordo com a síndica, a implantação de um elevador panorâmico é um dos projetos do condomínio, mas até então os valores apresentados não agradaram os moradores: “Ao fazer um orçamento, descobri que seria no mínimo um milhão de reais cada elevador”. A alternativa para o uso das escadas é transitar pela rua, saindo pela portaria secundária, e subir a rua até chegar nas rampas da entrada principal do condomínio. Mas a síndica denuncia que muitos idosos já foram assaltados ao utilizar essa alternativa.

Reforma como hobby

“O meu lar é tudo para mim. Não tenho pena de gastar dinheiro com ele”, diz Raimunda, que já perdeu as contas de quantas reformas fez no seu apartamento. Inicialmente, as reformas começaram devido a problemas estruturais diante da idade do prédio: “Desde sempre tive que fazer vários ajustes nas estruturas do meu apartamento. Em 2017, por exemplo, gastei R$8 mil com uma reforma após um vazamento do apartamento de cima que durou quatro anos, molhou as paredes do meu apartamento todo e estragou meus móveis por todo esse tempo”.

Depois de tantos reparos, ajustes e pequenas reformas aqui e ali, Raimunda diz ter a prática como um hobby. “Eu faço tanta reforma no meu apartamento que acabei desenvolvendo rinite, o que me fez ter que dar uma parada nas inovações”. Raimunda diz que busca inspiração nos prédios do Campo Grande e que até a janela já mudou de lugar: “umas três vezes, mas agora a minha preocupação é o banheiro de Jade”, compartilha, aos risos.

De acordo com a arquiteta especialista em reformas, Nanci Uchôa, 61, a maioria dos moradores de prédios antigos não dá muita importância aos sistemas hidráulico e elétrico, que ela considera imprescindíveis para uma boa morada: “A princípio, eles querem é seguir a moda, querem beleza, seguir as revistas de arquitetura. Tirar o piso de madeira e colocar o porcelanato... e nós, arquitetos, devemos mostrar se há a necessidade de uma imposição maior, uma mudança estrutural”. A arquiteta considera que a dinâmica e a ventilação é que devem vir a princípio: “estética vem depois”, afirma.

Arquitortura

Assim como relatam os moradores do Minhocão, a falta de elevadores e estruturas ultrapassadas são um entrave para a rotina de moradores de outros prédios da capital. O empresário Ícaro Deodoro, 26, relata que não vê nada de positivo em sua moradia no Recanto dos Pássaros, localizado no bairro de São Rafael.

“Para ter um prédio decente teria que demolir e construir outro do zero. Quando você vai colocar algum móvel você percebe o quanto que o prédio é torto. Eu fui instalar uma TV e me baseei pelo chão, ai ela ficou torta. Quando você molha o banheiro, a água vai pro corredor, não vai pro ralo”

Os pontos negativos citados por Ícaro vão desde a falta de garagem e o elevador até a estrutura do prédio, que é torta. Ele mora há oito anos no local. Além disso, o empresário reclama falta de acessibilidade no seu prédio, que foi construído na década de 80. Ele relata que, ao sofrer um acidente e torcer o pé, tinha que dar um jeito de subir até o seu apartamento, no terceiro andar. Encontrou diversas dificuldades e sentiu falta de um elevador: “até para ter acesso ao térreo tem que subir uma escada e depois descer outra. Não tem corrimão também, nem piso antiderrapante”, afirma.

Quando se tem filhos, a falta do elevador é ainda mais sentida. Mariana Sokolonski, 29, se mudou há apenas cinco meses para Edifício Solar dos Bosques, no Rio Vermelho. A falta de elevador no prédio de cinco andares é um transtorno quando se tem um carrinho de bebê e a bicicleta do seu filho mais velho para carregar. Mariana conta que teve que se desfazer do carrinho porque se tornou impossível a locomoção nas escadas.

“Eu não tinha como ficar subindo e descendo as escadas com o bebê e a bicicleta do meu filho. O prédio até tem espaço, mas por esse motivo fica impossível. A não ser que o meu marido esteja em casa para me ajudar”. Desde a mudança, em agosto, o pequeno Ruan Pedro, 7 anos, não anda de bicicleta.

O presidente nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil, Nivaldo Andrade, 41, diz que o elevador surge no Brasil no início do século XX: “O Edifício Oceania é um dos primeiros prédios residenciais e comerciais com elevador na cidade. Ele surgiu com a possibilidade de verticalizar ainda mais os prédios, torná-los mais altos, para dar mais conforto aos moradores”. Até hoje se constroem prédios sem elevadores em Salvador, a maioria populares, de padrão mais baixo ou de até 4 andares.

Ao longo dos tempos, as mudanças na arquitetura são justificadas pelas mudanças na rotina das pessoas. Para Francisco Sena, “qualquer coisa que o arquiteto crie é muito bem pensado e contextualizado com a sua época. Na medida que se cria o espaço arquitetônico, ele determina o comportamento do homem”, reflete. O arquiteto e historiador exemplifica a chegada da TV como um fator responsável pela mudança da arquitetura.

“A chegada da TV nos anos 60 desperta a necessidade de uma sala de estar maior. Antes você tinha a sala de visita, que era muito pequena e a sala de jantar, que por sua vez era grande, já que as famílias costumavam ser maiores. E como a TV reúne a família em sua frente, o seu espaço precisou ser ampliado e a situação se inverteu”.

Há mudanças localizadas, específicas de cada região ou população. Um cômodo de apartamento que Francisco considera essencialmente baiano é a “varanda gourmet”. Para ele, o conceito de receber convidados em seu lar mudou: “Hoje, um bom baiano hospitaleiro prepara a comida a ser servida, toma um vinho e entretém os convidados, tudo isso ao mesmo tempo. Por isso a varanda gourmet surge, para atender todos esses requisitos”.