Memória: João Filqueiras Lima, o Lelé
Janeiro 31, 2018
O Edifício Master de Salvador
Fevereiro 1, 2018

Faz tudo sob medida

Encanador, pedreiro, pintor, eletricista e zelador: tudo isso ao mesmo tempo em uma só profissão

Rafaela Souza e Renata Oliveira

Todo prédio tem aquele profissional que sabe de tudo e que é conhecido pela maioria dos moradores por salvar na hora de um problema. Essas figuras são essenciais para a manutenção dos prédios e suas tarefas vão desde o conserto de um vazamento, a instalação de lâmpadas, até quebrar paredes e cuidar da contabilidade do prédio. São os "faz tudo". O Correio de Futuro conta a história de três:

José Raimundo, o Zé

Em uma pequena sala isolada no andar de garagem do edifício Módulo, José Raimundo Alves dos Santos, 59 anos, guarda as ferramentas de trabalho. Veste um uniforme azul, desgastado e sujo de graxa e nos recebe naquele lugar que chama de "seu quarto".

Mais que um supervisor de manutenção, José é conhecido entre os moradores e os seus próprios colegas de trabalho como o “faz tudo” do prédio Módulo. Também não é para menos. Ele começou a trabalhar no edifício pouco tempo depois da sua criação. Antes disso, trabalhou por quatro anos instalando ar condicionados.

O dia dele começa às oito horas da manhã – horário que chega ao condomínio – e só acaba às cinco e vinte da tarde, quando finalmente para casa, localizada no Calabar. Essa rotina se repete de segunda a sexta, há 37 anos. “Não invado a intimidade dos condôminos. Aqui é o meu trabalho”, afirma. O apelido, Chia, é por causa da gagueira. Mas não vacila na hora de socorrer alguém.

Reparos, vazamentos e instalações são algumas das inúmeras funções que José realiza no Condomínio Edifício Módulo. O chefe de manutenção não mede esforços quando recebe algum serviço. Em média, são cinco trabalhos por dia. E não precisou de muito tempo durante a nossa conversa para que ele recebesse mais um chamado: a moradora tinha medo de furar algum cano. “Pode deixar que eu passo lá mais tarde”, garantiu. Segundo o síndico José Gomes Filho, 67, ninguém faz nenhuma obra sem a consulta prévia. Só ele sabe onde se localiza cada segredo estrutural do Módulo, desde o encanamento até a fiação.

O profissional conta que as atribuições foram aprendidas ao longo da sua vida “na marra”: “Eu não sabia fazer nada disso, fui fazendo e aprendendo”, compartilha. Hoje, a hora de lazer também é de trabalho. "Quando saio daqui, faço reparos nas casas dos meus vizinhos, amigos...”.

Luiz, o "Presepeiro"

O zelador Luiz Antônio Moreira, 48, responsável pelos serviços prestados ao Edifício Nogueira, nos Barris, leva a função de "faz tudo" muito a sério. Porém, o seu jeito divertido e a facilidade em fazer piadas chama a atenção dos moradores. “Eles costumam dizer que “o teatro está te perdendo!”, diz, aos risos.

"Eu moro no prédio há mais de dez anos. Então, conheço Luiz desde quando ele começou. Ele é um cara muito prestativo e trabalhador. Eu o apelidei de Luiz Presepeiro porque ele é extremamente extrovertido. Aquele típico soteropolitano brincalhão", conta o professor Fábio Mira, 47. Antes de assumir a sua atual profissão, Luiz trabalhou no estoque de um grande supermercado. Hoje, além de zelador, trabalha como garçom e segurança em eventos aos fins de semana.

Ele exerce a sua função há 13 anos no prédio e é o único profissional contratado. Como ele mesmo disse: tudo é com ele! “A limpeza do prédio, pagamento e prestação de contas ao síndico, consertos no elevador e na bomba de água. É muita responsabilidade, mas eu me garanto”, diz.

Luiz Antônio não nega nenhum serviço aos moradores, porém tem algumas restrições. Segundo ele são medidas de segurança e de bem estar, como não mexer nos disjuntores do condomínio. “Eu até troco uma tomada, interruptor, mas não mexo em serviços de eletricidade mais complicados porque acho mais conveniente que o morador contrate um técnico especializado. Faço de tudo um pouco, mas não é tudo que eu sei”, completa.

Messias, o enviado

É no prédio Costa do Sol, em Ondina, que Messias Gonçalves, 37, trabalha como porteiro. Dia sim e dia não, das 19h às 7h. Com a rotina diurna mais flexível, ele aproveita as folgas trabalhando. Além de porteiro, Messias é pedreiro, marceneiro e eletricista.

As outras três profissões foram adquiridas pela necessidade. O pai de Messias era pedreiro, então o porteiro aprendeu tudo que sabe com ele: de instalação de pisos a reboco de parede. Depois, fez um curso intensivo de seis meses com um marceneiro. Por fim, perto de completar cinco anos de portaria no Costa do Sol, pediu demissão e foi em busca do seu curso de eletromecânica. Neste período, chegou a trabalhar em uma empresa de embalagem de alimentos. Atuou como auxiliar de produção, encarregado na manutenção das máquinas e responsável pela distribuição de funcionários.

Segundo ele, apesar de gostar da área os interesses da empresa não eram os mesmos dele. Por isso, preferiu sair e retornar para a portaria. Já faz pouco mais de um ano que Messias retornou para o Costa do Sol. O porteiro conta que não foi difícil, graças a sua conduta profissional e boa relação com todos do prédio. Depois dessa experiência, prometeu não sair mais. “Apesar de todo mundo falar para fazer só trabalho de marcenaria e elétrica porque dá mais dinheiro, eu prefiro ficar aqui. Não vou mais sair daqui para ter que voltar.”

Hoje, assumindo a função de pedreiro e faz tudo, ele prefere ajudar mais pela gentileza do que pelo retorno financeiro. Apesar dos moradores até o ameaçarem por não receber o “agrado” oferecido. “Não sou muito bom com dinheiro. Eu procuro fazer de uma forma que não precise cobrar. Quando é mais trabalhoso, tento cobrar de uma forma modesta. Prefiro ficar só na gentileza, um sorriso e reconhecimento pelo meu trabalho já me deixa satisfeito”.

O serviço mais difícil realizado por ele, foi o conserto de um vazamento de gás na casa de uma moradora. Mesmo não estando no seu dia de trabalho, Messias atendeu ao chamado. O porteiro relata que na troca do botijão, perceberam que o registro. “Todos ficaram muito preocupados, não parava de vazar o gás, mas fiz um esforço e consegui estancar.” Herói que chama, né?