O incomparável gigante da Tancredo Neves
Janeiro 30, 2018
Faz Tudo
Fevereiro 1, 2018

Crédito: Claudionor Junior/Arquivo CORREIO

Arquitetura econômica e sustentável

João Filqueiras Lima era um arquiteto que queria construir para o social, amava música e gostava de caricaturar seus amigos


Por Elaine Araújo e Pedro Vilas Boas

A maneira mais comum de lembrar um arquiteto é falando sobre suas obras, mas tratando-se de João Filgueiras Lima (1931-2014), o Lelé, não há como não remetê-lo também à música e à arte da caricatura. Um profissional que, além de projetar, também amava compor e desenhar livremente.

Dizem por aí que toda obra tem um pouco da essência do artista. Citar o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que afirmou que “a arquitetura é música petrificada”, pode parecer estranho, mas isso se reflete bem nas obras de Lelé.

Usando estruturas metálicas e peças pré-moldadas em argamassa armada, ele moldava cada etapa das obras executadas. Seja na Estação da Lapa ou no Hospital Sarah Kubitschek, a admiração pela arte se sobressaía em cores e formas.

Através de seu trabalho, o carioca radicado em Salvador João Filgueiras Lima almejava atender as demandas da população utilizando a industrialização como forte aliada. O método de pré-fabricação utilizado por Lelé permitia levar ao canteiro de obras peças prontas que se encaixavam como um quebra-cabeças e davam forma definida às suas estruturas.

Pensando em construir em larga escala, ele deu vida ao Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), em Salvador, na Avenida Tancredo Neves, onde funciona o hospital. “Ele não pensava em produzir cada janela, mas criar uma fábrica para produzir 800 janelas em um mês e, com isso, conseguir fazer dez hospitais ou escolas por ano”, explica o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Nivaldo Andrade.

Lelé aplicava, na execução de seus projetos, técnicas adquiridas durante o desenvolvimento do plano piloto de Brasília, onde trabalhou junto com os também arquitetos Oscar Niemeyer (1907-2012) e Nauro Esteves (1924-2007).

Ele foi para Brasília logo após se formar pela Universidade Brasileira, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1955. Mais tarde, em viagens pelo Leste Europeu, entre a Polônia e a Tchecoslováquia, aprimorou os conhecimentos técnicos na construção com pré-moldados como uma forma prática e econômica de construir.

Projetos da Companhia de Renovação Urbana de Salvador (Renurb), Fábrica de Equipamentos Comunitários (Faec) e do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat (IBTH), escritório no qual desenvolveu projetos em Salvador, também eram feitos voltados para as estruturas pré-moldadas.

Na capital baiana, o arquiteto executou projetos no Centro Administrativo da Bahia (CAB), implantou passarelas e desenvolveu o Palácio Tomé de Souza, onde se instalou a Prefeitura de Salvador. Esse projeto virou o xodó do arquiteto. “Ele gostava muito desse prédio e sofria muito porque toda hora diziam que iam demolir. Pouco antes dele morrer, começou de novo essa história, aí lembro que eu falava para ele: não sofre por isso, não vão demolir coisa nenhuma”, conta a filha do arquiteto, Adriana Filgueiras.

O projeto da prefeitura foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como temporário e, por esse motivo, sempre aconteciam audiências que debatiam a permanência dele no local. “Ele montou o prédio da prefeitura em 14 dias. Lelé interferiu no urbanismo de Salvador como nenhum arquiteto fez”, conta o então prefeito e amigo do arquiteto, Mário Kertész.

Lelé veio a Salvador pela primeira vez, em 1979, a convite de Mário Kertész, que, na época, atuava junto ao então governador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007). Em 1985, quando Kertész foi eleito prefeito, Lelé voltou a Salvador e passou a atuar na Faec. “Ele construiu passarelas, hospitais, escolas e postos de saúde. A Faec chegou a ter 5 mil operários trabalhando simultaneamente”, lembrou Kertész.

“A disciplina no trabalho era fundamental, reunião às 7h, e ai de quem atrasasse. Era rigoroso, brigava, perfeccionista. Não era fácil, não”, lembra Adriana, enquanto relatava que, certa vez, uma das obras precisava da recolocação de calhas com material flexível, pois, na véspera da inauguração, choveu e toda a circulação molhou. “Eu falei: ‘olha, pai, está impossível, não consigo, está tudo molhado, não cola, uma escuridão total’. Aí, ele olhou para mim e respondeu: ‘eu não quero saber, volte e se vire’. Voltei e me virei: fiz uma cobertura com plástico, sequei as vigas com secador de cabelo e fui colando”, revela Adriana, que finalizou sua história dizendo que, “no trabalho, ele era assim”.

Lelé: mais que um arquiteto


Nem sempre Lelé era o arquiteto, ele era também pai, amigo e musicista. Uma das primeiras paixões dele foi a música, arte que ele pensou em levar para sua vida de forma profissional. Um carioca flamenguista, que na adolescência ganhou o apelido do vascaíno. Lelé tornou-se amigo de músicos que nada tinham a ver com a bola no pé: Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso eram só alguns dos tantos músicos que, de acordo com Adriana, frequentavam a casa do pai. Ela lembra ainda que todos os dias seu pai acordava às 5h da manhã para tocar seu piano e assim fazia até o horário de sair para trabalhar.

Nas horas de lazer, além de tocar, Adriana revela que Lelé gostava de desenhar. “Ele gostava de se reunir com os amigos para desenhar caricaturas e compor canções que retratavam características de cada um”, lembra.

Em seus últimos dias, Lelé, que lutava contra um câncer de próstata, já não tocava mais nem tinha o mesmo entusiasmo. “Ele estava triste com Salvador”, comentou o arquiteto e também amigo José Fernando Minho. No dia 21 de maio de 2014, o arquiteto, que passou a vida almejando implantar um sistema de obras sociais, terminou sua jornada de planejamento e execução, composições e caricaturas. “Lelé era uma figura incrível. Comunista até morrer. Nunca fez questão de dinheiro. Sinto muitas saudades dele. Ele foi uma pessoa muito mais importante que muitos políticos, inclusive eu”, recorda o amigo Kertész.

Fábrica de hospitais está parada

Depois de planejar e fabricar seis dos nove hospitais da Rede Sarah distribuídos pelo país, através da técnica econômica e sustentável da pré-fabricação, o Centro de Tecnologia (CTRS), em Salvador, está parado. A ideia da instituição, que foi materializada no canteiro de obras do Hospital Sarah de Salvador, em 1994, pelo arquiteto carioca João Filgueiras Lima, conhecido como Lelé, já não constrói mais nada nos dias de hoje.

“Poderia estar fazendo escolas, tudo que fosse equipamento público, porque isso pertence ao povo brasileiro”, desabafa Nivaldo Andrade, presidente do IAB.

Em 2000, o contrato que o CTRS possuía com a União foi atualizado para uma versão em que era proibido construir novas unidades da Rede Sarah. De acordo com Lúcia Willadino Braga, presidente da instituição, isso ocorreu porque o governo entendeu que, apesar do custo da obra ser barato, a manutenção era cara.

Foi então que Lelé teve a ideia de construir, além de hospitais e peças para as unidades da Rede Sarah, projetos externos ao grupo. O Centro foi responsável pela construção de nove secretarias para o Tribunal de Contas da União (TCU), além de prédios como o do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA); postos fiscais no Maranhão; além das icônicas passarelas de Salvador.

Porém, em 2002, o próprio TCU – órgão que auxilia o Congresso Nacional na execução orçamentária e financeira do país, e que possuía um contrato com o Centro - determinou que o CTRS não poderia mais ser responsável por obras que não fossem ligadas à Rede Sarah, já que o objetivo oficial da instituição é trabalhar apenas na área hospitalar.

O espaço de 17 mil m² que custou aos cofres públicos R$ 18 milhões na época - pouco mais de R$ 91 milhões atualmente, corrigidos pela taxa Selic de dezembro de 2017 - ficou reservado apenas para a manutenção dos hospitais já construídos pelo Centro. A instituição já contou com cerca de 300 funcionários, mas atualmente apenas 42 pessoas trabalham no local.

Quando há a necessidade de construir alguma peça ou móvel para os hospitais, é aberto um processo licitatório para uma outra empresa realizar a construção. “Raramente, o CTRS constrói uma coisa ou outra. Você não tem mais pessoal e a máquina fica velha, porque, quando você tem perspectiva de construir, você contrata equipe, aquele pessoal todo. Com obras pequenas, é melhor você pegar o projeto e licitar, que vai ser mais barato”, explica Lúcia Willadino.

Para José Fernando Minho, colega e amigo de Lelé que trabalhou como gerente de projetos no CTRS até 2002, o estado atual do Centro é um desserviço para a população, além de acabar com os desejos do falecido companheiro de trabalho. “É uma estrutura que poderia estar produzindo muitas coisas que a gente precisa no nosso país, na nossa cidade. O Lelé sempre teve um olhar voltado para essas questões de cunho social”. Para a arquiteta Adriana Filgueiras Lima, filha de Lelé, que trabalhou no CTRS até 2010, o objetivo de seu pai de disseminar a ideia da pré-fabricação sempre foi podada pelo TCU.

A presidente da Rede Sarah afirmou que não existe a possibilidade do CTRS fechar. “A gente pensa em expandir o Sarah Salvador. Aí, sim, contrataríamos pessoal, máquinas. Mas isso depende da economia melhorar e haver investimento”, conclui.