Salvador, seus prédios e histórias

Em Salvador, o transeunte se orienta pelo nome dos prédios. Tanto quanto as ruas, que também têm nomes. Mais do que pelos números que, desordenados, não fazem sentido. Há prédios que o soteropolitano cita em ruas esquecidas. “É ali na rua do prédio tal.” Mas nem sempre foi assim.

A cidade começou a ser construída com a ocupação portuguesa. Nessa época, eram predominantes as fortificações e as igrejas. A partir do século XVII, puxadas pela cana-de-açúcar, as edificação de Salvador ficaram mais refinadas, sólidas e seguras. As técnicas primitivas, como adobe, taipa e adobão foram substituídas pela alvenaria mista, de pedra e tijolos assentados com argamassa de cal. Durante os três séculos seguintes, elas foram predominantes em toda a Bahia.

Essa arquitetura colonial começa a perder espaço com o uso de novos materiais na construção civil, como o concreto armado e o aço, no fim do século XIX, e com a exigência da sociedade que as edificações fossem mais higiênicas, o que fez com que o eixo de moradia fosse deslocado do Centro Histórico para bairros como os da Vitória, Graça e Barra. Na República Velha, Salvador teve sua fase de reproduzir as arquiteturas europeias. Dessa época, os estilos eclético e neoclássico são vistos no Palacete das Artes, no Palácio Rio Branco e no Palácio da Aclamação.

Foi apenas na última década de 30, com o surgimento da arquitetura moderna, que surgiram prédios de caráter mais funcionalista, flexível à necessidade dos moradores. O modernismo, com grande influência na arquitetura até o princípio dos anos 80, tem como principais características o purismo, a forma geometrizada e as linhas aerodinâmicas.

Foi nesse último século, inclusive, que uma nova Salvador começou engolir a antiga – pra ficar na metáfora antropofágica do modernismo. Vieram os edifícios de apartamento, os grandes prédios públicos, as grandes vias urbanas. Andar por andar, Salvador foi sendo vista de novos ângulos. E as ladeiras, tão protagonistas, começaram a sumir no meio dos corredores de prédios altos ao redor delas. Com estas novas construções, muda também o jeito de viver. Mais um andar acima e você já vê o mar. A vida do vizinho ganha vista em novos peitoris. As modernas fachadas brincam com nosso excesso de luz, projetando sombras pelas ruas.

O que esses prédios podem contar sobre a cidade? O que eles revelam sobre as pessoas que os construíram e como impactam/condicionam/determinam a vida de quem os habita para morar, trabalhar ou passear. Eles são protagonistas da cidade e donos de muitas vidas e histórias que passam dentro e ao redor deles.

O que você vai ver

O especial Salvador Concreta é o produto da 12ª turma do Correio de Futuro. Nas páginas seguintes, há histórias de prédios que já são personagens da cidade.

Primeiro, para definir o prédio que é a cara de Salvador, a equipe pediu a ajuda dos internautas. Em uma enquete, que durou três dias no site do jornal, os leitores bateram o martelo e definiram a Casa do Comércio para representar a cidade. Porém, a reportagem revela que o prédio foi inicialmente projetado para ser um palácio e que um de seus arquitetos não chegou a vê-lo pronto.

E o prédio mais alto de Salvador: você sabe qual é? O especial também descobre os dez arranha-céus genuinamente baianos.

O desafio de viver em uma edificação antiga também é tema do caderno. Apartamento com parede redonda, prédio sem escada e sem garagem... tem vezes que a arquiterura é uma arquitortura!

Tão importante quanto conhecer a história dos moradores e das próprias edificações da cidade, é conhecer quem construiu. Por isso a equipe foi atrás da vida e obra de Lelé, arquiteto carioca que deixou sua marca em Salvador, da Praça Municipal ao CAB. Uma de suas obras mais especiais, o Hospital Sarah, abriga o Centro de Tecnologia da Rede Sarah. O CTRS poderia produzir de forma barata e sustentável escolas e creches, mas está paralisado. A reportagem explica o porquê.

E tem ainda a vida no maior conjunto habitacional da cidade: Cajazeiras. A reportagem mostra como os moradores refazem o lugar, definem suas regras e criam seus puxadinhos.

SOBRE

O programa Correio de Futuro é uma iniciativa que possibilita ao estudante de jornalismo ir além da sala de aula. Na prática, os alunos vivenciam o dia-a-dia de um profissional de comunicação. Desta vez, estudantes que participaram dos três meses de atividades fazem parte de três instituições: Universidade Federal da Bahia, Centro Universitário Jorge Amado e Faculdade da Cidade. Foram oito jovens que venceram a disputa com mais de 180 inscritos.

Os participantes produziram notícias para a o jornal impresso e online, além de conceber integralmente este produto que agora você lê. A rotina de reuniões, coberturas, apurações, fotografias e edições foram entremeadas de comentários, incentivos e perguntas: “qual o lead de vocês?”, “assim não está bom”, “insistam mais”. No final, além de produzir e assinar as próprias reportagens, saem com experiência para o mercado de trabalho. Esta é a décima segunda turma do Programa Correio de Futuro em seis anos (veja ao lado os números do Programa). Em cada edição, o Correio de Futuro ganha novos formatos sugeridos pelos próprios estudantes. O projeto tem patrocínio da Odebrecht e apoio da FSBA.

12ª Turma