*Por Théo Meireles

Eu nasci mulher e cresci nesse contexto hegemônico. Ao longo da minha vida, a medida que os desejos e preferências se revelavam, a sexualidade se tornava um paradigma da mais alta complexidade para mim que, por conta disso, muito evitava a chegada da maturidade. Renunciei a realidade e me reservei a viver as fantasias da minha cabeça.

Fiz da infância uma redoma para me esconder e relutei, sobretudo, em assumir a adolescência que me batia à porta. No entanto, foi inevitável a chegada avassaladora das mudanças. Com muita clareza e lucidez, eu poderia me declarar heterossexual. O desafio era: como legitimar que uma imagem feminina, que queria se relacionar com mulheres, se configuraria no âmbito da heteronormatividade? Ausente de respostas, me tornei uma pessoa sem identidade, reclusa, calada, triste.

Se eu não podia ser quem eu era, se não tinha nome essa coisa de viver por dentro e existir por fora, eu não tinha o direito de me manifestar. Por muito tempo, conhecer os prazeres da liberdade de ser quem se é parecia uma realidade inalcançável para mim. Mas, como um autêntico sagitariano curioso e aventureiro, adentrei à clandestinidade dessas experiências.

Completamente rendido, me despreocupei em esconder a façanha a qual me submeti e inevitavelmente fui descoberto. Carregado de expectativas, veio o ultimato: ‘Você lésbica? – Não, não sou. Mas também não sou uma mulher hétero’.

Sem argumentos e sem direito a um rótulo que me tirasse daquele enquadramento, me sabotei: sou lésbica, gosto de mulheres. O sentimento era de frustração e de que aquela conversa com minha mãe ainda não tinha terminado, era apenas uma forma de ceder já que ela precisava de uma resposta e eu precisava de espaço.

Na busca por alguém que me entendesse e me ajudasse a colocar as coisas em seus devidos lugares para que eu encontrar um caminho no meio da bagunça de meus sentimentos, depositei muita esperança em relações sem perspectiva alguma de dar certo. Nunca me conformei e, por um lado, isso fortaleceu uma resistência em compreender o universo lésbico e fortaleceu também o machismo cultural enraizado em mim – eu que me sentia homem, me percebia homem, tinha que me enturmar com homens.

Involuntariamente a resposta chegou quando conheci a transgeneridade. Num bate papo casual em frente à faculdade, uma pessoa que admirava muito me lançou a provocação de pesquisar e entender a vivência trans. No primeiro artigo fui abraçado, me senti incluído, legitimado e a partir de então, fui implacável na determinação e na coragem de encarar todos os desafios desta travessia.

Eu, homem trans hétero, conduzo com muito amor a responsabilidade pessoal e o compromisso social de levantar essa bandeira. Tive muito apoio, tive alicerce, tive incentivo e isso foi determinante para que as expectativas que frustrei um dia se transformassem no orgulho da minha trajetória.

Tenho um passado que, apesar do sofrimento, me trouxe até aqui e não merece ser anulado. Hoje sou pai, marido, filho e, sobretudo, livre do clausuro de quem não se permite ir além dos padrões nos entope limites e nos doutrina. Hoje sou gratidão à resistência das personalidades trans que, ao longo da história, nos deixaram um legado de coragem como inspiração desta caminhada.

*Jornalista e ativista trans

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