Kelven Figueiredo*
kelven.figueiredo@redebahia.com.br

Se as letras da sigla LGBTQIA+ ainda te deixam em dúvida sobre o que cada uma significa e se quando surge o assunto ‘sexualidade, sexo e gênero’ você não sabe diferenciar um do outro, esta matéria é para você.

A sigla que representa o movimento cresceu tanto nos últimos anos que é preciso um esforço para diferenciar os termos. Até por quê, entender o outro é o primeiro passo para quebrar preconceitos e compreender as diferenças.

Segundo o pesquisador Leandro Colling, especialista em gênero e sexualidade e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), tudo começa com o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). “A partir daí, as identidades foram se proliferando e os grupos começaram a reivindicar uma outra categoria identitária para si”, explica. Desta forma, nasce a sigla GLBT como forma de incluir outras expressões sexuais e de gênero na luta.

A primeira alteração na sigla aconteceu na primeira conferência nacional do movimento, em novembro de 2007. A decisão foi tomada a partir de uma demanda das lésbicas, que se sentiam invisibilizadas dentro do movimento. Como uma solução para dar mais destaque às mulheres lésbicas na luta, o L assumiu a dianteira da sigla, o que resultou no LGBT que conhecemos hoje.

Aí você pode estar se perguntando: Mas e o GLS? Acontece que essa sigla nunca integrou de fato o movimento institucionalizado e organizado LGBT. Colling explica que a nomenclatura GLS vem do mercado, como uma espécie de adjetivo para designar produtos e serviços destinados à comunidade.

Além disso, aponta Colling, à medida que os assexuais, intersexuais e queers passaram a se articular, estas letras foram incorporadas aos poucos à sigla e no uso diário de quem acompanha a discussão da causa LGBT. O percurso conduz à sigla que usamos hoje no Brasil: LGBTQIA+, ainda que de maneira espontânea, já que não foi oficializada em conferência nacional do movimento.

“Não tivemos mais nenhuma conferência do movimento para se reunir e discutir sobre isso, mas as pessoas usam LGBTQ+, LGBTQI+ e LGBTQIA+ com base em seus posicionamentos políticos e ideológicos”, garante o professor, que é referência e especialista no assunto.

A próxima convenção nacional está prevista para este ano. Autorizada em documento oficial pelo ex-presidente Michel Temer, porém, o evento ainda não tem data oficial para acontecer. No entanto, ao redor do mundo, em lugares onde as discussões e conquistas dos movimentos sociais estão um pouco mais avançadas, a sigla completa pode ter até 18 letras, números e até sinais; como no Canadá: LGBTQQIAAACPPF2K+.

Autoidentificação
Embora não seja universal e seja baseada na cultural local, a expansão é organizada e tem um propósito. Segundo argumenta o pesquisador, definir uma sigla única para uma causa que está a todo momento encontrando aliados e se diversificando implicaria em excluir algumas classes e categorias.

“A necessidade de ter várias letras na sigla é fruto das diversas identificações que as pessoas têm no mundo concreto. A sigla aumenta porque as pessoas não se contemplam com as identidades que já estão aí. Elas não se reconhecem naquilo, elas se reconhecem em outros significados que criam para si ou se apropriam de outras palavras que já existem só que de outra forma. O processo é de autoidentificação e isso tem que ser respeitado”, defende.

A solução encontrada foi incorporar o sinal “+”. Assim, o movimento se mantém sempre aberto a receber novos aliados e causas, isto porque entende sexualidade e gênero como algo dinâmico, que passa por constantes processos de transformação.
Sexualidade
Antes de se preocupar com o significado de cada um dos componentes da sigla, é preciso entender a diferença entre sexo biológico, sexualidade e gênero. O primeiro é o único que se refere ao órgão sexual do indivíduo e se divide em três: feminino, masculino e intersexo. “Ele é definido a partir do aparato biológico”, reforça a psicóloga especializada em gênero Darlane Andrade.

Já a sexualidade, pensando nas expressões de orientação sexual, de acordo com a psicóloga, tem ligação com a forma que se expressam os desejos sexuais por outras pessoas – seja do mesmo sexo ou do sexo oposto. “Há, inclusive, os assexuais, aqueles que não expressam desejo sexual – o que não está ligada a nenhuma patologia também”, lembra.

Baseada na psicanálise, ela ainda explica que a sexualidade não está apenas ligada à reprodução. Segundo Sigmund Freud, considerado pai da psicanálise, a sexualidade é qualquer sentimento de prazer, desde um toque, que nos acompanha desde o nascimento. A sexualização destas ações, no entanto, só acontece na transição para a fase adulta. “Na vida adulta, nós erotizamos nosso corpo mais pela influência da cultura”, esclarece.

Darlene ainda pontua que gênero é algo que se constitui ao longo da vida do indivíduo, e leva em consideração apenas o sentimento que ele tem consigo e as identificações que cria para si. “A palavra gênero é uma categoria de análise que estuda as relações sociais a partir das diferenças sexuais. A partir disso, são colocados diferentes papéis e expectativas para homens e mulheres dentro da sociedade”, argumenta.

A pesquisadora defende também que estes papéis sociais e expectativas são culturais e estão nas mínimas coisas, como por exemplo aspectos que são encarados como ‘coisa de menino e de menina’.

Darlene ainda alerta sobre como gênero é algo não binário e individual: a experiência de cada indivíduo dirá como aquela identidade será construída. Desta forma, os que construíram uma identidade de gênero compatível com o que lhe foi atribuído na infância são cisgênero. Aqueles que não se identificam são denominados transgênero.

Entenda a diferença
SEXO BIOLÓGICO –  Conjunto de informações cromossômicas, órgãos genitais, capacidades reprodutivas e características fisiológicas secundárias que distinguem machos e fêmeas dentro da sociedade.
GÊNERO – Conceito criado para distinguir a dimensão biológica da dimensão social. O gênero significa que homens e mulheres são produtos da realidade social e não decorrência da anatomia de seus corpos.
SEXUALIDADE – São as elaborações culturais sobre os prazeres e troca sociais e corporais que compreendem desde o erotismo, o desejo e o afeto, até noções relativas à saúde, à reprodução e ao exercício do poder na sociedade.

VEJA LETRA POR LETRA E ENTENDA AS DIFERENÇAS:

LÉSBICA
MULHERES QUE SE RELACIONAM AFETIVAMENTE E SEXUALMENTE COM OUTRAS MULHERES

GAY
HOMENS QUE SE RELACIONAM AFETIVAMENTE E SEXUALMENTE COM OUTROS HOMENS

BISSEXUAL
PESSOA QUE SE RELACIONA AFETIVAMENTE E SEXUALMENTE COM AMBOS OS SEXOS E GÊNEROS

TRANSGÊNERO
PESSOAS CUJA IDENTIDADE DE GÊNERO TRANSCENDE AS DEFINIÇÕES BINÁRIAS DE FEMININO E MASCULINO

TRAVESTI
SE IDENTIFICAM COM O GÊNERO OPOSTO AO IDENTIFICADO AO NASCER ; NÃO DESEJAM  NECESSARIAMENTE FAZER CIRURGIA DE RESIGNAÇÃO SEXUAL

TRANSEXUAL
PESSOA QUE POSSUI UMA IDENTIDADE DE GÊNERO DIFERENTE DO SEXO DESIGNADO AO NASCER; PODEM QUERER FAZER CIRURGIAS

QUEER
ENGLOBA MINORIAS SEXUAIS E DE GÊNERO QUE NÃO SE ENQUADRAM NO SISTEMA BINÁRIO HETEROSSEXUAL OU CISGÊNERO

QUESTIONING
SIGNIFICA “SE QUESTIONANDO”. REPRESENTA QUEM ESTÁ EM PROCESSO DE DESCOBERTA DA SEXUALIDADE E GÊNERO

INTERSEXO
TODA PESSOA QUE NASCE COM UMA CORPORALIDADE QUE NÃO PODE SER FACILMENTE DEFINIDA COMO FEMININA OU MASCULINA

ASSEXUAL
PESSOAS QUE NÃO SENTEM ATRAÇÃO SEXUAL POR NENHUM GÊNERO DE FORMA ESPECÍFICA

ALLY
ALIADOS À CAUSA QUE NÃO FAZEM PARTE DA COMUNIDADE, MAS FAZEM PARTE DA LUTA

PANSEXUAL
PESSOAS QUE SENTEM ATRAÇÃO SEXUAL POR PESSOAS DE TODOS OS GÊNEROS E SEXUALIDADES DIFERENTES

AGÊNERO
PESSOAS QUE NÃO SE IDENTIFICAM COM NENHUM GÊNERO QUE CONHECE, OU TEVE ACESSO A PARTIR DE SUA CULTURA

GÊNERO QUEER
QUEER ENQUANTO GÊNERO QUE NÃO SE IDENTIFICA COM MASCULINO, NEM FEMININO.

BIGÊNERO
PESSOAS QUE VIVEM GÊNERO DE FORMA QUE CONSEGUEM SENTIR DOIS GÊNEROS AO MESMO TEMPO, COM INTENSIDADES DIFERENTES

MAIS
CONTEMPLA TODAS AS IDENTIDADES SEXUAIS E DE GÊNERO QUE AINDA NÃO SE UNIRAM ÀS LETRAS DO MOVIMENTO

Gostou? Acompanhe, todas as segundas-feiras de maio, novas matérias sobre o tema aqui no Me Salte no especial LGBT O QUÊ?. Clique aqui. 

*Com supervisão da editora Ana Cristina Pereira e do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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