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Livros com 31 narrativas de mulheres lésbicas serão lançados em Salvador

thais

Dois livros que reúnem 31 ensaios com narrativas de sapatonas de todo Brasil serão lançados em Salvador na próxima quinta-feira (15) no Espaço Cultural Caras e Bocas, na Rua Carlos Gomes. Os livros – 1. Abordagens e epistemologias sapatonas e 2.  Outras produções de saberes e afetos – estarão disponíveis para a compra nos valores: R$42 cada e R$75 o par.

No dia do lançamento haverá  pocket show de Jann Souza e haverá sorteio de um par dos exemplares para as pessoas presentes. O lançamento será a partir das 19h. A entrada custa R$ 7.

Os livros foram organizados por Mayana Rocha Soares, Simone Brandão Souza e  Thais Faria Castro. Em conversa com o Me Salte, Thais falou sobre as questões que os livros abordam.

1 – Os livros falam sobre as questões de gêneros pela ótica da mulher lésbica. O que você acha que precisa ser reforçado nesse aspecto?

A construção de narrativas sobre a existência lésbica é permeada de invisibilidades. Dentro dos campos de gêneros e sexualidades existe uma grande dificuldade de produção e divulgação da produção acadêmica realizada por nós. Um dos fatores determinantes para a existência escassa de trabalhos nessa área é o fato de que durante um longo período a lesbianidade foi tratada como um apêndice da homossexualidade gay, um seu quase sinônimo.

O crescimento das produções sobre lesbianidade, que falam a partir do e sobre o universo lésbico, foi influenciado pelo surgimento de ONGs de lésbicas, através do processo afirmativo da identidade lésbica iniciado na década de 1970 e intensificado na década de 1990. Isso acaba por fazer sentido com o período histórico onde foi se materializando a autonomização do movimento lésbico em relação ao movimento homossexual ou da identidade lésbica em relação às outras identidades políticas, além do fortalecimento do feminismo.

É necessário dar uma outra perspectiva a partir de um olhar não impregnado de valores e cultura masculina, colonizado, que atravessa as publicações sobre as homossexualidades de uma forma geral, reproduzindo especificidades do universo gay sem dar visibilidade às peculiaridades das lesbianidades.

Os livros vêm da necessidade de dar vazão as narrativas sapatônicas. Da importância de darmos visibilidade às produções das e sobre as existências lésbicas, pensando suas vivências subalternizadas mas também suas resistências, a partir de perspectivas interseccionais, nas quais se entrecruzam diferenças étnico-raciais, de identidades de gênero, classe social, geracionais, sexualidades, estéticas e que também podem se constituir em potência e, através da agência lésbica, rasurar as normatividades e construir outras possibilidades de vivências.

2. Quais as temáticas dos ensaios?
Este é um livro que narra sapatonices! Sim, no plural, pois somos muitas, de várias regiões do país e com muitas histórias para contar e espaços para ocupar. Os dois volumes trazem uma multiplicidade temática, em que os ensaios tratam sobre direitos humanos, audiovisual, literatura, políticas públicas, mídia, corporeidades, afetividades e subjetividades.

O primeiro volume tem o título “Lesbianidades Plurais: abordagens e epistemologias sapatonas” e o segundo “Lesbianidades Plurais: abordagens e epistemologias sapatonas”. Escolhemos abordagens múltiplas que buscassem trazer as subjetividades, olhares, direitos, visualidades e protagonismos, que buscam ocupar imaginários e estes relatos vão realizar a costura das publicações.

livros

3. Como o conteúdo acadêmico pode colaborar para combater o preconceito?
A academia tem a função social de produzir conhecimento e compartilhar este com a população. E conhecimento, ainda mais nos tempos que vivemos, é político. Todo e qualquer tema e assunto que é estudado tem recorte e posicionamento, seja ele de esquerda, direita ou de qual for. Os estudos que abordam gênero e sexualidade são práticas que humanizam sujeitas e sujeitos que são violentados pela sociedade apenas porque vão de encontro a uma moralidade e cultura conservadora que temos visto cada vez mais imposta guela abaixo.

Em tempos de releituras ditatoriais, fanatismos religiosos e um bolsonarismo imbecilizante, se faz necessário reafirmar que “Sapatão não é bagunça”! É produzindo as nossas narrativas e mostrando que temos memória, quebramos o silêncio da violência e materializamos a nossa (re)existência, dentro e fora da academia.

4. Há muito preconceito dentro da própria comunidade LGBTQIA com as mulheres lésbicas. Como você acha que isso pode ser revertido? Isso tem relação com o machismo que há dentro da comunidade gay com as lésbicas?
Bom, a população LGBTQIA compartilha dos valores que são colocados na nossa sociedade. Se temos uma cultura machista, LGBTfóbica, racista, classista, dentre tantas outras hierarquias que causam preconceitos isso também reverbera nas pessoas LGBTQIA. A misoginia é muito presente entre os gays e isso é o machismo bem vivo. O ponto aqui é que temos que construir espaços de intervenção na cultura e na educação e é isso que fazemos desde a nossa existência corporal, na estética dos cabelos e roupas, vivências, afetividades, linguagens, até as nossas produções de trabalho e conteúdo que ocupam todas as áreas da sociedade. Sem perder de vista que é uma constante disputa de espaço e de poder, nada vem sem luta. Eu entendo que é povoando imaginários que as nossas existências marginais ocupam lugar na cultura e, dessa forma, vamos modificando as práticas e narrativas sociais.

5. De onde são as mulheres que escreveram? Como foi o processo de escolha?
São quase 50 mulheres de todas as partes do país que compõem as duas publicações. Conseguimos uma multiplicidade de vozes e isso nos deixou bastante felizes. Contudo, é importante ressaltar que a maioria das representantes nos ensaios são nordestinas. O nosso processo de escolha se baseou em ser uma publicação das sapatonas pelas sapatonas. O conteúdo aceito foi alinhado com as categorias propostas, em formato de ensaio e de que trouxesse narrativas lésbicas.

6. Há mulheres trans escrevendo? Se sim quais e quais temas elas escrevem nos livros?
Sim. Eu, Mayana e Simone sempre estivemos muito tranquilas e alinhadas neste ponto. Como falamos da perspectiva de ensaio, abordamos uma lógica de narrativa que traz a subjetividade e vivencias das autoras em evidência e, sendo as lesbianidades também uma forma de expressão da sexualidade de mulheres trans, não teria razão para ficar de fora. Sabemos que existe a dificuldade de entrada e permanência de pessoas trans ainda no contexto das universidades e que também temos muita manifestação de transfobia dentro do movimento lésbico, mas a proposta dos livros é trazer lesbianidadeS, no plural, e isso diz de vivências tanto de mulheres cisgêneras, quanto de mulheres trans.

Jorge Gauthier
Jorge Gauthier
Jornalista, adora Beyoncé e não abre mão de uma boa fechação! mesalte@redebahahia.com.br

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