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carlinhos maia
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Carlinhos Maia, vá estudar!

carlinhos e lucas

Quando eu assumi para mim e para a sociedade que era gay a sigla para identificar a nossa comunidade era “GLS” (Gays, lésbicas e simpatizantes). Em pouco mais de 15 anos a denominação mudou para LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromântiques/Agênero, Pan/Poli, e mais). De lá pra cá muita coisa teve os significados alterados, mas o principal foi a minha vontade de estudar sobre as questões que envolvem a minha sexualidade e a comunidade a qual pertenço. O influenciador digital Carlinhos Maia – que neste domingo assumiu ser gay – está precisando fazer o que eu fiz no passado: buscar conhecimento!

Desde que revelou para seus seguidores ser noivo do modelo Lucas Guimarães, o alagoano começou a tecer diversos comentários preconceituosos e carregados de esteriótipos machistas e LGBTfóbicos. O artista, por exemplo, chegou a sugerir a existência de uma suposta “ditadura gay” repetindo o discurso belicoso de quem luta contra os Direitos Humanos.

Em um dos vídeos publicados no seu storie do Instagram ele falou que “nós gays precisamos ser homens” e ainda disse “vocês não me verão usando salto e mini-saia”.

As falas do influenciador digital colocam em situação de isolamento e depreciação os gays que não reproduzem o ‘padrão heteronormativo’. Carlinhos, não há uma ‘escala de mais homem ou menos homem’ pela roupa que se vestem. Ser homem é um conceito mais amplo do que vestir um calça e sapatênis.

Foram (e são) justamente as gays afeminadas, travestis, transexuais e mulheres lésbicas que assumiram (e ainda assume) a linha de frente dos embates e lutas pela nossa comunidade. São essas pessoas que deram ( e ainda dão) a cara a tapa e a abriram caminho para que eu e você possamos assumir nossa sexualidade.

‘Vestir sainha, batom ou salto alto’, como ele fez questão de frisar que não faria não é qualquer demérito. Cada um é livre para vestir o que quiser. Mas, não temos o direito de julgar ou depreciar qualquer pessoa pelo que ela veste. Infelizmente, o comportamento de Carlinhos é comum em muitos homossexuais que repetem discursos preconceituosos. Esses pensamentos são um desserviço à comunidade LGBTQIAP+.

Vivemos no país onde mais se mata pessoas LGBTQIAP+ no mundo, segundo dados do Grupo Gay da Bahia. Um LGBT foi morto a cada 20 horas no Brasil em 2018. Os discursos preconceituosos são o plano de fundo dessas mortes e de tantas outras agressões. Já temos muitos algozes e não precisamos de mais um. Há uma onda forte de conservadorismo no país e não precisamos de alguém – que é um de nós – reproduzindo os mesmos discursos arraigados de tanta homofobia institucionalizada resultado de faltas do senso comum e de esteriótipos anacrônicos. Você é humorista, mas quando há vidas em risco nenhuma piada tem graça!

Carlinhos, ninguém nasce sabendo. Ser uma pessoa LGBTQIAP+ não é uma escolha.  Mas, nesse momento, você precisa fazer uma escolha (nesse caso, sim, é uma escolha). Não escolhemos ser gays, mas podemos escolher buscar o conhecimento e não reproduzir esses comportamentos e discursos preconceituosos. Você pode escolher em ser um gay engajado e lutar para comunidade que você faz parte.

Você pode escolher usar seu título de Rei do Instagram (com 12 milhões de seguidores e o segundo storie mais visto do Brasil) para ajudar quem, assim como você, sofreu por estar no armário. Mas você também pode escolher não tornar público seus pensamentos preconceituosos. Você pode escolher estudar, se informar. Você pode escolher buscar conhecimento. Você pode escolher ler sites, livros e conversar com pessoas que possam lhe orientar sobre os temas. Estudar não arranca pedaço de ninguém.

Reconhecer pensamentos inadequados não é nenhum demérito. Ninguém nasce sabendo, mas continuar na ignorância é uma escolha. Se você não quiser se engajar na causa uma sugestão é ficar calado. Afinal, muito ajuda quem não atrapalha.

Veja vídeo com algumas falas do influenciador digital que causam revolta na população LBGTQIAP+: 

Jorge Gauthier
Jorge Gauthier
Jornalista, adora Beyoncé e não abre mão de uma boa fechação! mesalte@redebahahia.com.br

2 Comentários

  1. Brotas - SSA disse:

    Parabéns, Jorge. Excelente matéria e palavras utilizadas na mesma.

    Infelizmente, os “holofotes” são muito mais importantes que o conhecimento, para pessoas como esse “Influenciador Digital”.

    Vamos torcer para que ele e pessoas como ele sejam “Influenciados” pela educação, cultura e conhecimento de valores.

    Menos ignorância, pessoal. Por favor! Mais e mais informação!!!

  2. Lucas Vinicius disse:

    Não sou leitor assíduo deste blog, mas hoje tem meu respeito. Precisamos incentivar essa “mana artista” que não aceita afeminados a voltar para sala de aula. Não consigo entender como pessoas tão influentes do movimento LGBT (sigla da época que nasci) estão apoiando este rapaz, assim como pessoas do meu movimento negro se rendendo a essa notícia. Que o amor é lindo não podemos negar, mas não podemos negar o quão o artista e a pessoa são bem preconceituosos. Viva o amor, mas viva também a extrema necessidade de voltar as salas de aulas para aprender sobre nós mesmos.

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