{"id":2720,"date":"2016-12-18T19:34:12","date_gmt":"2016-12-18T22:34:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/?p=2720"},"modified":"2016-12-19T21:25:35","modified_gmt":"2016-12-20T00:25:35","slug":"vanicleia-santos-o-patua-nasce-de-recriacoes-da-cultura-negra-na-diaspora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/vanicleia-santos-o-patua-nasce-de-recriacoes-da-cultura-negra-na-diaspora\/","title":{"rendered":"Vanicl\u00e9ia Santos: &#8220;O patu\u00e1 nasce de recria\u00e7\u00f5es da cultura negra na di\u00e1spora&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Maryanna Nascimento<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_2721\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2721\" class=\"wp-image-2721 size-full\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia.jpg\" width=\"600\" height=\"951\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia.jpg 600w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia-189x300.jpg 189w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia-92x146.jpg 92w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia-32x50.jpg 32w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vanicleia-47x75.jpg 47w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-2721\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>De Jacobina, Vanicl\u00e9ia Silva Santos \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autora da tese <em>Bolsas de Mandinga no Espa\u00e7o Atl\u00e2ntico &#8211; S\u00e9culos XV-XVIII<\/em>. Atualmente coordena o Centro de Estudos Africanos (CEA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integra o Comit\u00ea Cient\u00edfico Internacional da UNESCO para Elabora\u00e7\u00e3o do IX Volume de Hist\u00f3ria Geral da \u00c1frica, cole\u00e7\u00e3o que se prop\u00f5e a reconstruir a historiografia do continente.<\/p>\n<p><strong>CORREIO de Futuro\u00a0&#8211; Qual a origem do termo \u00a0\u201cpatu\u00e1\u201d e do amuleto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanicl\u00e9ia Santos<\/strong> <strong>&#8211;<\/strong> A maioria das culturas no mundo possui algum tipo de amuleto para proteger o corpo contra efeitos negativos vindos de pessoas ou seres invis\u00edveis. Nesse caso, a busca de uma poss\u00edvel origem do amuleto n\u00e3o tem sentido. De todo modo, \u00e9 poss\u00edvel levantar origem acerca do uso dessas palavras no Brasil. \u201cPatua\u0301\u201d tem origem tupi, segundo Antenor Nascentes. Esta palavra significa cesta, ba\u00fa, na qual se colocavam ingredientes protetivos. H\u00e1 um debate entre os linguistas se esta palavra seria parte dos tupinismos ou africanismos na l\u00edngua portuguesa do Brasil. Mas, desde o s\u00e9culo XVIII era usada para referir-se aos amuletos usados pelos africanos. Segundo o Vocabul\u00e1rio Portugu\u00eas e Latino (1728), organizado pelo padre Raphael Bluteau, a palavra amuleto, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, tem o mesmo sentido, tanto em sua origem grega quanto latina. Na primeira, vem de atadura, porque se usava o amuleto atado ao corpo para expelir coisas ruins. Do latim, tinha o significado de livrar de perigos ou proteger de quebrantos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual a principal distin\u00e7\u00e3o entre bolsas de mandinga e patu\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cBolsa de Mandinga\u201d tem origem no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII. Passou a ser usada pelos religiosos que foram missionar na costa Oeste da \u00c1frica, especificamente, em Guin\u00e9 e Serra Leoa. Estes religiosos mission\u00e1rios jesu\u00edtas condenavam os amuletos tradicionais usados pela popula\u00e7\u00e3o que vivia na Costa da Guin\u00e9. Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o que havia se islamizado tamb\u00e9m usava amuletos e roupas que indicavam a nova condi\u00e7\u00e3o de convertidos ao Isl\u00e3. \u00a0Em raz\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o entre os jesu\u00edtas e os bexerins (sacerdotes pregadores do Isl\u00e3), os amuletos usados pelos islamizados foram alvos de cr\u00edticas dos jesu\u00edtas. Nas cartas escritas por estes, nas quais narravam os sucessos da miss\u00e3o, havia um destaque para o principal desafio de introduzir o catolicismo na regi\u00e3o \u2013 a influ\u00eancia dos bexerins, que elaboravam e vendiam colares de couro cozido costurados, que continham dentro pequenas partes do Alcor\u00e3o escritas em um peda\u00e7o de papel, que funcionava como amuleto. Na di\u00e1spora, a palavra patu\u00e1 era usada genericamente para referir-se aos amuletos usados pelos africanos e descendentes. O sentido de ambas, tanto de bolsa de mandinga quanto de patu\u00e1, era tratar o amuleto como um tipo de feiti\u00e7o africano. A palavra portuguesa \u201cfeiti\u00e7o\u201d foi utilizada para se referir a amuletos m\u00e1gicos portados pelos europeus. E \u201cfetiche\u201d foi utilizada pelos viajantes europeus para se referir a objetos centrais no complexo religioso-m\u00e1gico africano, como pedras, est\u00e1tuas, \u00e1rvores e amuletos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O patu\u00e1 nasce a partir do sincretismo?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o chamaria de sincretismo, mas de recria\u00e7\u00f5es da cultura negra na di\u00e1spora. As bolsas de mandinga usadas no Brasil nos s\u00e9culos XVII e XVIII, alvo de den\u00fancias \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o Portuguesa, \u00e9 um objeto Atl\u00e2ntico, que representava a circularidade de ideias, religi\u00f5es, costumes e pessoas que circulavam por diferentes sociedades Atl\u00e2nticas. A bolsa de mandinga era uma bolsa de couro com ora\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, escritas em l\u00edngua portuguesa, com desenhos que fazem refer\u00eancia \u00e0s narrativas crist\u00e3s e tamb\u00e9m \u00e0 cultura bantu. Os ingredientes da maioria das bolsas compreendiam, desde elementos crist\u00e3os, como as h\u00f3stias, \u00e0s referidas ora\u00e7\u00f5es, peda\u00e7os de pedra dar\u00e1 e tamb\u00e9m elementos da natureza, como pedras, enxofre, alho, pedacinhos de ossos de animais. H\u00e1 tamb\u00e9m registros de ora\u00e7\u00f5es escritas com sangue de ave. Em geral, os confeccionadores eram africanos e seus descendentes. Mas, os usu\u00e1rios pertenciam aos diferentes grupos \u00e9tnicos: brancos, mulatos e negros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como os africanos islamizados contribu\u00edram para que o patu\u00e1 fosse popularizado entre diferentes grupos \u00e9tnicos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante distinguir os diferentes tipos de amuletos usados no Brasil pelos diferentes grupos \u00e9tnicos africanos. Dentre os negros que usavam as bolsas de mandingas no Brasil colonial, \u00a0havia africanos oriundos de Cabo Verde, Golfo do Benin e Angola e tamb\u00e9m crioulos, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVII. Os amuletos usados pelos nag\u00f4s islamizados na Bahia no epis\u00f3dio conhecido como Revolta dos Mal\u00eas eram diferentes das bolsas de mandinga usadas pelos africanos que tinham algum contato com o catolicismo \u2013 pois as rezas eram escritas em \u00e1rabes e os desenhos tinham rela\u00e7\u00e3o com a cultura mu\u00e7ulmana. Finalmente, n\u00e3o se deve atribuir o uso de amuletos apenas aos grupos islamizados. Trata-se de costume comum em v\u00e1rias sociedades africanas, islamizadas ou n\u00e3o, europeias e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foi a partir da Revolta dos Mal\u00eas que houve interesse de pesquisadores brasileiros sobre o estudo dos amuletos africanos. Qual foi o papel desses patu\u00e1s no movimento?<\/strong><\/p>\n<p>A revolta dos Mal\u00eas \u00e9 uma das revoltas mais estudadas do Brasil, especialmente pelo seu car\u00e1ter urbano e pela imensa quantidade de fontes. A Pol\u00edcia produziu muitas fontes na Devassa contra os participantes, assim como retirou dos africanos os amuletos e escritos em \u00e1rabe que possu\u00edam, que tamb\u00e9m s\u00e3o fontes. Segundo o historiador Jo\u00e3o J. Reis, os participantes da revolta utilizavam diversos objetos &#8211; an\u00e9is, <em>tessub\u00e1s<\/em> (o ros\u00e1rio mal\u00ea), abad\u00e1s, amuletos e escritos \u00e1rabes. Os amuletos foram um dos elementos mais importantes da Revolta porque tinham a fun\u00e7\u00e3o a proteger o corpo. Contudo, a tradi\u00e7\u00e3o de usar amuletos no Brasil n\u00e3o se iniciou na Revolta de 1835. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode estabelecer essa rela\u00e7\u00e3o direta entre um evento e o interesse dos pesquisadores por um determinado assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em Salvador, existia alguma localidade\/bairro que era reduto de africanos islamizados?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Reis, o maior especialista neste assunto, autor do livro Rebeli\u00e3o Escrava na Bahia, desenvolveu uma an\u00e1lise acerca das freguesias onde viviam os participantes da Revolta dos Mal\u00eas. Segundo ele, a maioria morava na regi\u00e3o da S\u00e9 (regi\u00e3o mais antiga da cidade alta); e os demais viviam no Largo da Vit\u00f3ria, Concei\u00e7\u00e3o da Praia, Pilar, Santo Ant\u00f4nio, S\u00e3o Pedro, Pac\u0327o, Santana, Penha e Brotas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maryanna Nascimento De Jacobina, Vanicl\u00e9ia Silva Santos \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autora da tese Bolsas de Mandinga no<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2721,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[38,40,41,36,37,39],"class_list":["post-2720","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","tag-diaspora","tag-entrevista","tag-isla","tag-mariene-de-castro","tag-negritude","tag-patua"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2720"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2780,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2720\/revisions\/2780"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2721"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}