{"id":2594,"date":"2016-12-16T17:32:18","date_gmt":"2016-12-16T20:32:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/?p=2594"},"modified":"2016-12-21T15:19:19","modified_gmt":"2016-12-21T18:19:19","slug":"nos-tempos-de-gil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/nos-tempos-de-gil\/","title":{"rendered":"Nos tempos de Gil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong><em>Por Maryanna Nascimento<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o fazia tanto calor naquela tarde mas Fernando me recebeu sem camisa, esbanjando o f\u00edsico de ex-Rei Momo que n\u00e3o perdeu a majestade e continua conservando mais de cem quilos. Sem titubear, pegou o telefone e ligou insistentemente para tr\u00eas ou quatro mulheres. Uma delas era Elisabete, que ficou encucada com a chamada e n\u00e3o demorou a chegar. \u201cBete, venha aqui em casa agora. Tenho uma amiga que precisa muito falar com voc\u00ea\u201d. Fernando Ant\u00f4nio Reis, 38, \u00e9 assim: um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">fixer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, aquela pessoa que assume o papel de guia e conhece cada beco e pessoa do local. Nesse caso, o Barbalho. Se o vendedor fosse contempor\u00e2neo de Gilberto Gil, certamente o artista n\u00e3o teria d\u00favidas sobre a identidade da \u201cgarota do barulho\u201d, musa da m\u00fasica<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Tradi\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que canta o bairro na d\u00e9cada de 50. Fernando daria a ficha completa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bairro do homem dos contatos est\u00e1 remendado a muitos outros lugares: Maca\u00fabas, Lanat, Pela Porco, Santo Ant\u00f4nio&#8230; As terras pertenciam <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a Luiz Barbalho Bezerra, militar pernambucano que lutou na defesa contra os holandeses.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> O lugar foi um dos palcos de batalha pela Independ\u00eancia do Brasil na Bahia e no forte do s\u00e9culo XVIII, que recebe o mesmo nome do bairro, a primeira bandeira do pa\u00eds independente foi hasteada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">\u266a Conheci uma garota que era do Barbalho, u<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ma garota do barulho\u2026<\/span><\/em><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No fim da d\u00e9cada de 70, Gilberto Gil comp\u00f4s <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tradi\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, com lentes voltadas para duas d\u00e9cadas antes do seu lan\u00e7amento. Os personagens da can\u00e7\u00e3o, que eram reais, faziam parte do imagin\u00e1rio do cantor durante a juventude. \u201cConheci uma garota que era do Barbalho, uma garota do barulho\u201d, \u00e9 a frase que abre a m\u00fasica, lan\u00e7ada no \u00e1lbum Realce, de 1979. Segundo o artista, ele era quase menino, aos 12 ou 13, quando se apaixonou pela tal garota, de 17 ou 18 anos, que chamava a aten\u00e7\u00e3o no bairro e dele, em especial. \u201cEra meu desejo sexual\u201d, revela ao jornalista Carlos Renn\u00f3 no livro \u201cGilberto Gil &#8211; Todas as Letras\u201d (1996). Hoje, seis d\u00e9cadas depois da viv\u00eancia do Gil adolescente, muitas \u201cgarotas\u201d ainda continuam fazendo barulho no bairro do Centro Hist\u00f3rico de Salvador.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2596\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2596\" class=\"wp-image-2596 size-large\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-1024x683.jpg\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-300x200.jpg 300w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-768x512.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-219x146.jpg 219w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-50x33.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/mamis-113x75.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-2596\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Heitor Oliveira<\/p><\/div>\n<h2><b>Tal m\u00e3e, tal filha<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Elisabete.<\/strong>\u00a0Em 2002, ent\u00e3o com 14 anos, Elisabete Monteiro teve as primeiras experi\u00eancias de porra-louquice. \u201cDaria para escrever um livro, \u2018<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Aos 14\u2019<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d, confessou, aos risos, fazendo refer\u00eancia a um famoso filme sobre adolescentes rebeldes<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse per\u00edodo, fez o primeiro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">piercing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, a primeira tatuagem e arranjou o primeiro namorado. No ano seguinte, se tornou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">body piercer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> em um est\u00fadio. \u201cS\u00f3 botava em conhecidos, porque era \u2018de menor\u2019. Cheguei a furar umas 50 pessoas\u201d, contou a estudante de G\u00eanero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia. Boa parte delas, influenciadas pela pr\u00f3pria Elisabete, que fazia o tipo popular. Ela era aquela que pulava o muro da Escola Divino Mestre para beber no fundo da Par\u00f3quia do Santo Ant\u00f4nio. A bebida queridinha tamb\u00e9m carregava nome de santo: S\u00e3o Jorge. Hoje, aos 28, atrai admiradores pelo mesmo motivo: n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para nada e inclusive j\u00e1 foi paquerada com a m\u00fasica de Gil. O seu Instagram, com mais de 2 mil seguidores, mensalmente tem um nude postado, o que deixa cabisbaixa a sua m\u00e3e. \u201cN\u00e3o acho legal, as pessoas s\u00e3o maldosas\u201d, disse Rosana, enquanto olhava fixamente para os olhos da filha, provavelmente na esperan\u00e7a de faz\u00ea-la mudar de ideia. A sua m\u00e3e, apesar de ser contra os nudes, n\u00e3o tem maiores reclama\u00e7\u00f5es sobre as cinco grandes tatuagens e os tr\u00eas piercings na sua cria. Ela, inclusive, foi quem colocou a filha no caminho do barulho. \u201cMinha m\u00e3e me levou para os meus primeiros shows. Vi com ela Novos Baianos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b><\/b><strong>Rosana.<\/strong> \u201cM\u00e3e, lembra daquele dia em que vimos um disco voador ali?\u201d, apontou Elisabete para o crep\u00fasculo que pintava o c\u00e9u no Largo do Santo Ant\u00f4nio. Rosana Maria de Santana, 54,\u00a0<span style=\"font-weight: 400;\">lembrava. \u201cSim, os extraterrestres. Eles s\u00e3o nossos irm\u00e3os\u201d, confirma. Tirando a viol\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 mais nada que lhe desperte descren\u00e7a nesse mundo. J\u00e1 teve contato com gnomos, duendes e at\u00e9 com as \u00e1guas. \u00c1guas da Lagoa do Abaet\u00e9, diga-se de passagem. Foi l\u00e1 onde, na d\u00e9cada de 80, construiu um barraco de madeirite e foi morar sozinha, a convite da pr\u00f3pria lagoa escura arrodeada de areia branca. \u201cEu fui conhecer a lagoa e ela me fez um chamado. \u2018Voc\u00ea vai morar aqui\u2019\u201d. Por influ\u00eancia de uma amiga, no mesmo per\u00edodo acabou ingressando no curso de Farm\u00e1cia da UFBA. Hoje, farmac\u00eautica, carrega uma contradi\u00e7\u00e3o: dificilmente deixa um medicamento de laborat\u00f3rio entrar na sua casa. A energia das plantas, a homeopatia e a espiritualidade cuidam de tudo. No meio disso, a mulher de cabelos escorridos, com mechas brancas, que carrega uma fei\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, tamb\u00e9m \u00e9 uma colecionadora de viv\u00eancias ef\u00eameras. J\u00e1 foi da turma do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bodyboard<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">stand up paddle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">slackline<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e atualmente est\u00e1 construindo um tambor xam\u00e2nico. \u201cNo final, n\u00e3o dou sequ\u00eancia a nada, o que gosto mesmo \u00e9 de fazer coisas de jovem\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2600\" style=\"width: 693px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2600\" class=\"wp-image-2600 size-large\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-683x1024.jpg\" width=\"683\" height=\"1024\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-683x1024.jpg 683w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-200x300.jpg 200w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-768x1152.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-97x146.jpg 97w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-33x50.jpg 33w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo-50x75.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vovo.jpg 1728w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><p id=\"caption-attachment-2600\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Soares<\/p><\/div>\n<h2><b><br \/>\nVov\u00f3 do barulho<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Joaninha.<\/strong> Escanteio, p\u00eanalti, impedimento, tiro de meta s\u00e3o termos comuns para quem se interessa por futebol. A aposentada Joaninha gosta muito de ver jogos em est\u00e1dio, mas desconhece o significado da maioria dessas express\u00f5es e inclusive teve dificuldade em entender a l\u00f3gica do \u2018gol\u2019. \u201cUma vez que fui ao Barrad\u00e3o com o meu filho, o Bahia fez um gol e eu comemorei igual a uma maluca, com a m\u00e3o na cabe\u00e7a\u201d, lembra. A ocasi\u00e3o era um Ba-Vi e C\u00e9lia estava na torcida do Vit\u00f3ria, a qual ela acompanha h\u00e1 tr\u00eas anos com frequ\u00eancia. Joaninha ou C\u00e9lia? De batismo \u00e9 Maria Joana Jesus Santana, mas ela tem um nome em cada canto: Veia, C\u00e9lia, I\u00e1, Bia, Joaninha. \u201cMas eu n\u00e3o fa\u00e7o nada de errado\u201d, diz, ao justificar o motivo de tantos codinomes. Al\u00e9m de ser uma fiel seguidora do Le\u00e3o, ela tamb\u00e9m bate ponto nos shows de Tatau, outro rubro-negro. N\u00e3o \u00e0 toa, j\u00e1 \u00e9 conhecida dele e tem lugar garantido no palco. \u201cSe um dia ele n\u00e3o me chamar, ficarei magoada\u201d. Joaninha, 76 anos, n\u00e3o abre m\u00e3o de fazer bagun\u00e7a: virou a noite no \u00faltimo Carnaval e s\u00f3 chegou depois de o sol raiar, preocupando a filha; j\u00e1 subiu em \u00e1rvore para ver Ivete e gosta de ficar \u201cno meio da putaria\u201d quando vai ao Barrad\u00e3o. \u201c\u00c9 claro que eu sou do barulho\u201d, garante.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d2_IN0rSsUQ\" width=\"853\" height=\"480\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h1><b><br \/>\nOs 50\u2019s que Gil viu<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;No tempo em que o Centro Hist\u00f3rico era realmente o centro da cidade&#8230;&#8221;, poderia cantar Gil, se <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tradi\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> fosse escrita hoje, com os olhos para os anos 50. Centro econ\u00f4mico, social e cultural da d\u00e9cada, o local era o quintal do artista, que vivia no Santo Ant\u00f4nio Al\u00e9m do Carmo quando adolescente. Relembrando as hist\u00f3rias narradas nos versos da can\u00e7\u00e3o, especialistas e personagens que viveram no per\u00edodo comentam o que era a tradi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong><i>\u266a (&#8230;) Namorava um rapaz que era muito inteligente, u<\/i><i>m rapaz muito diferente, i<\/i><i>nteligente no jeito de pongar no bonde (\u2026)\u00a0E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde<\/i><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2601\" style=\"width: 732px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2601\" class=\"wp-image-2601 size-full\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde.jpg\" width=\"722\" height=\"446\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde.jpg 722w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde-300x185.jpg 300w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde-236x146.jpg 236w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde-50x31.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bonde-121x75.jpg 121w\" sizes=\"auto, (max-width: 722px) 100vw, 722px\" \/><p id=\"caption-attachment-2601\" class=\"wp-caption-text\">Foto: William Janssen \/ Samsung museum<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nQuando Gil era garoto, os bondes ainda predominavam em Salvador. A sua eletrifica\u00e7\u00e3o havia se dado h\u00e1 cinco d\u00e9cadas, em 1897. Antes disso, os ve\u00edculos eram movidos a tra\u00e7\u00e3o animal e se chamavam &#8220;bondes de burro&#8221;. Com a segunda linha de bondes el\u00e9tricos do Brasil, a capital baiana teve o ch\u00e3o coberto de trilhos que estavam presentes da Cidade Baixa \u00e0 Alta. Em meados da d\u00e9cada de 50, por\u00e9m, a qualidade dos servi\u00e7os n\u00e3o era boa e o prefeito H\u00e9lio Machado decidiu encampar a Companhia Circular Carris da Bahia, criando o Servi\u00e7o Municipal de Transporte Coletivo (SMTC). A retomada do servi\u00e7o pelo Poder P\u00fablico n\u00e3o teve sucesso e aos poucos os bondes pararam de rodar. A desativa\u00e7\u00e3o total se deu pouco tempo depois, nos anos 60, durante o governo do prefeito Heitor Dias.<\/span><i><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sabino Braga, 70, \u00e9 um ex-pongador de bonde. \u201cOs bondes sa\u00edam da Pra\u00e7a da S\u00e9 e quando passavam pelo Santo Ant\u00f4nio, antes de chegar ao ponto, pul\u00e1vamos pra dentro. Os motorneiros ficavam brigando por causa da bagun\u00e7a e t\u00ednhamos que correr pra eles n\u00e3o irem atr\u00e1s. A nossa brincadeira era saltar antes antes do cobrador chegar, e a\u00ed era o momento de despongar\u201d, lembra o aposentado, mestre auto-credenciado na arte de saltar desses ve\u00edculos em movimento. \u201cDespongar \u00e9 o pior. Voc\u00ea tem que ter equil\u00edbrio, precisa correr compassado. No meio disso tudo, ainda tinha espa\u00e7o para competi\u00e7\u00e3o: pegar na Rua Direita e descer na Marchantes, pra ver quem era o mais r\u00e1pido e saltava mais vezes do bonde\u201d, conta. \u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_2602\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2602\" class=\"size-medium wp-image-2602\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee-214x300.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee-214x300.jpg 214w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee-104x146.jpg 104w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee-36x50.jpg 36w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee-54x75.jpg 54w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lee.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><p id=\"caption-attachment-2602\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<strong>\u266a De camisa aberta e certa cal\u00e7a americana, arranjada de contrabando<\/strong><\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O sonho de consumo dos garot\u00f5es da \u00e9poca eram as cal\u00e7as das marcas Lee e Levi&#8217;s. O \u00fanico problema era que o desejo n\u00e3o se realizava com tanta facilidade. As roupas eram\u00a0<\/span>produzidas no exterior e o Brasil tinha taxas alt\u00edssimas que intimidavam o mercado, fazendo com que a mercadoria sequer ousasse atravessar legalmente a fronteira. Para ficar na moda, portanto, existiam duas op\u00e7\u00f5es: aproveitar a viagem internacional e fazer a compra, ou pegar na m\u00e3o dos atravessadores, que vendiam a mercadoria de forma ilegal, conseguida com viajantes que chegavam de navio no Porto de Salvador. &#8220;As cal\u00e7as podiam custar o equivalente a 200 reais hoje, e sequer precisavam ser originais. O importante era mostrar o selo da marca&#8221;, comenta Raimundo Torres, consultor em economia exterior.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2604 alignright\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/lessa2-194x300.jpg\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"326\" \/><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<strong>\u266a No tempo que Lessa era goleiro do Bahia, u<\/strong><\/span><\/i><strong><i>m goleiro, uma garantia\u2026<\/i><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre 1947 e 1955, a defesa do Bahia teve o posto ocupado pela mesma pessoa: Walter Lessa. O goleiro magrelo, que nasceu l\u00e1 em Recife, Pernambuco, saltava como ningu\u00e9m e n\u00e3o deixava (quase) nada passar &#8211; apesar de ter dado zebra e perdido os dois primeiros jogos com a camisa tricolor. \u201cLessa, 1,77m e apenas 60kg, \u2018orelhas de abano\u2019 e com seu indefect\u00edvel gorro lembrava os filmes de terror em que Boris Karloff ou Bella Lugosi eram os artistas principais\u201d, descreve Nestor Mendes Jr no livro Esporte Clube da Felicidade: Bahia. Apesar da sua estranheza est\u00e9tica, de uma coisa n\u00e3o se pode reclamar: Gil estava certo quando disse que ele era uma garantia. <\/span><\/p>\n<p><strong>\u266a No tempo que preto n\u00e3o entrava no Bahiano, nem pela porta da cozinha\u2026<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_2607\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2607\" class=\"wp-image-2607 size-full\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano.jpg\" width=\"520\" height=\"245\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano.jpg 520w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano-300x141.jpg 300w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano-260x123.jpg 260w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano-50x24.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Bahiano-150x71.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><p id=\"caption-attachment-2607\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquela manh\u00e3 de segunda, o clube n\u00e3o estava movimentado, apenas uma das quadras de t\u00eanis estava ocupada. Dois jogadores faziam acrobacias\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">para sustentar a bola verde cana no ar. Um, negro; o outro, branco. Esse, aluno; aquele, professor. Completando o seu centen\u00e1rio, hoje o Clube Bahiano de T\u00eanis tem negro entrando pela porta da frente. Em algum momento n\u00e3o foi assim? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gil cantou que sim, Waldir diz que n\u00e3o. Waldir Figueiredo \u00e9 um senhor de 92 anos que h\u00e1 66 trabalha no clube como gerente. Ele, que se diz mulato, \u00e9 enf\u00e1tico ao afirmar que \u201ctudo isso de preto n\u00e3o entrar no Bahiano \u00e9 um folclore\u201d. Segundo o senhor de olhos verdes, o que sempre existiu foi uma quest\u00e3o de \u201cqualidade social\u201d. \u00c9 muito simples entender: se voc\u00ea carregava sobrenomes como Catarino, Correia Ribeiro ou Gordilho, o passe j\u00e1 estava garantido. \u201cBahiano era tradi\u00e7\u00e3o\u201d, reitera. Hoje, seis d\u00e9cadas depois, o que vale mais \u00e9 o poder aquisitivo. Mas se preto quiser entrar, ele entra. Basta ter uma gorda conta banc\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><strong><i>\u266a \u00a0Indo do bairro pra cidade.\u00a0<\/i><i>Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro, p<\/i><i>ra onde todo mundo ia t<\/i><i>odo dia, todo dia, todo santo dia\u2026<\/i><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2609\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2609\" class=\"wp-image-2609 size-large\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-1024x612.jpg\" width=\"1024\" height=\"612\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-1024x612.jpg 1024w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-300x179.jpg 300w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-768x459.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-244x146.jpg 244w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-50x30.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/terreiro-125x75.jpg 125w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-2609\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_2612\" style=\"width: 221px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2612\" class=\"size-medium wp-image-2612\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-211x300.jpg 211w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-768x1092.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-720x1024.jpg 720w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-103x146.jpg 103w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-35x50.jpg 35w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino-53x75.jpg 53w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balbino.jpg 1129w\" sizes=\"auto, (max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/><p id=\"caption-attachment-2612\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>&#8220;O Largo do Terreiro era o coqueluche&#8221;, disse com voz saudosista o Porf\u00edrio Amoedo, 84, propriet\u00e1rio do bar Cruz do Pascoal, no Santo Ant\u00f4nio. Coqueluche \u00e9 uma express\u00e3o da \u00e9poca que fazia refer\u00eancia \u00e0 doen\u00e7a infectocontagiosa e quer dizer &#8220;o que se pega em todo mundo, modismo&#8221;. Essa era uma boa defini\u00e7\u00e3o para o Largo do Terreiro, o Terreiro de Jesus. O local era o centro da cidade e agitava a Salvador da d\u00e9cada de 50. Magazine Duas Am\u00e9ricas, primeira loja de departamento da Bahia e a primeira com escada rolantes da cidade; Sloper, loja voltada para o p\u00fablico feminino; o Bar Cacique e a Pastelaria Peres eram s\u00f3 alguns dos locais que atra\u00edam a juventude. &#8220;O Terreiro de Jesus era o largo da Faculdade de Medicina, da Catedral Bas\u00edlica, da Academia de Letras. Era um largo da elite, de intelectualidade e juventude. Como tinha faculdade, tinham estudantes. No intervalo de aula iam se divertir, era um ponto fervilhante&#8221;, diz o urbanista e historiador Chico Senna, 64.<\/p>\n<p><strong><i>\u266a\u00a0<\/i><i>No tempo quem governava era Ant\u00f4nio Balbino, n<\/i><i>o tempo que eu era menino\u2026<\/i><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ant\u00f4nio Balbino foi governador da Bahia entre 1955 e 1959. O maior marco do seu governo foi a constru\u00e7\u00e3o do Teatro Castro Alves. Uma semana antes da inaugura\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, o\u00a0<\/span>teatro sofreu um inc\u00eandio e s\u00f3 pode ter as portas abertas em 1967, durante o mandato de Lomanto J\u00fanior. Enquanto o TCA se recuperava, \u201calguns espet\u00e1culos j\u00e1 contratados acabaram sendo no Instituto Central de Educa\u00e7\u00e3o Isa\u00edas Alves Geral (ICEIA), do Barbalho\u201d, comenta o pesquisador Nelson Cadena. \u201cNesse teatro, tamb\u00e9m ensaiavam os grandes artistas baianos\u201d, completa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maryanna Nascimento N\u00e3o fazia tanto calor naquela tarde mas Fernando me recebeu sem camisa, esbanjando o f\u00edsico de ex-Rei Momo que n\u00e3o perdeu a majestade<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2601,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[44,48,21,47,46,45],"class_list":["post-2594","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","tag-gilberto-gil","tag-historia","tag-musica-baiana","tag-perfil","tag-reportagem","tag-tradicao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2594","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2594"}],"version-history":[{"count":15,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2594\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3036,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2594\/revisions\/3036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2601"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}