{"id":2241,"date":"2016-12-14T17:50:54","date_gmt":"2016-12-14T20:50:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/?p=2241"},"modified":"2016-12-20T01:08:49","modified_gmt":"2016-12-20T04:08:49","slug":"geracoes-travestis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/geracoes-travestis\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00f5es travestis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Por \u00a0<em>Jordan Dafn\u00e9<\/em><\/strong><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Com\u00a0l\u00e1pis e giz, boca e nariz, ch\u00e3o, salto e triz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, Caetano Veloso descreveu a viv\u00eancia de <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">tr\u00eas\u00a0travestis\u00a0soteropolitanas que se vendiam na pra\u00e7a. Ao mesmo tempo que a can\u00e7\u00e3o resgata a realidade das\u00a0travestis\u00a0na d\u00e9cada de 70, \u00e9poca em que a prostitui\u00e7\u00e3o se firmava como principal meio de sobreviv\u00eancia dessas pessoas, ela revela um contraste com a vida das\u00a0travestis\u00a0na modernidade. De 1970 a 2016 o que mudou?\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Quem \u00e9 que diz? Quem \u00e9 feliz? Quem passa?<\/span><\/i><\/p>\n<h1><b>As cinzas de Marta<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nascida em 1956, em uma casa\u00a0no Pelourinho,\u00a0a estadia de Martinha perto de sua fam\u00edlia n\u00e3o durou <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">muito. Aos 7 anos, vestia-se com trajes ditos femininos e aproveitava seu cabelo liso para simular franjas e toc\u00e1-lo delicadamente, como as mulheres faziam. Enquanto a pr\u00e1tica era entendida pelo pai de forma indiferente, na m\u00e3e despertava uma f\u00faria intensa: \u201cPrefiro ter filho bandido a ter filho pederasta\u201d, ela dizia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na escola, a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o permitia que um garoto com comportamento t\u00e3o feminino permanecesse frequentando as aulas, pois seria uma \u201cinflu\u00eancia negativa\u201d. Com esse argumento, Marta foi expulsa do\u00a0Col\u00e9gio Azevedo Fernandes,\u00a0tamb\u00e9m no Pelourinho,\u00a0e n\u00e3o desejou nunca mais estar em um lugar onde n\u00e3o poderia ser ela mesma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os terrores de casa ficavam mais intensos, as ofensas se transformavam em amea\u00e7as cru\u00e9is. A jovem Martinha dormia com medo de ser atacada por uma inje\u00e7\u00e3o de\u00a0estricnina\u00a0(veneno para rato), como sua m\u00e3e lhe prometia repetidamente. A ang\u00fastia do ambiente dom\u00e9stico fez com que, aos 12 anos, Marta sa\u00edsse de casa e fosse tentar a vida nas ruas.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_2456\" style=\"width: 545px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2456\" class=\"wp-image-2456\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-876x1024.jpg\" width=\"535\" height=\"626\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-876x1024.jpg 876w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-257x300.jpg 257w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-768x898.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-125x146.jpg 125w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-43x50.jpg 43w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/marta-64x75.jpg 64w\" sizes=\"auto, (max-width: 535px) 100vw, 535px\" \/><p id=\"caption-attachment-2456\" class=\"wp-caption-text\">Martinha, 60 anos, sobreviveu a ditadura militar e ao preconceito nos 80.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem op\u00e7\u00e3o, procurou emprego em casas de fam\u00edlia, mas a humilha\u00e7\u00e3o parecia lhe perseguir. Era obrigada a levantar de madrugada para preparar o caf\u00e9, \u00a0sendo o tempo inteiro desmoralizada pela sua condi\u00e7\u00e3o de\u00a0travesti. Revoltada, Marta retornou para as ruas a procura de algum destino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A solu\u00e7\u00e3o foi encontrada nos prost\u00edbulos da Ladeira do Mijo, no Centro Hist\u00f3rico. L\u00e1, ela se abrigava junto a outras\u00a0travestis\u00a0e foi introduzida na prostitui\u00e7\u00e3o.\u00a0O primeiro cliente era um doutor muito rico que atendia no \u00faltimo andar do edif\u00edcio A Tarde.\u00a0Sem qualquer apreens\u00e3o, Martinha entrou na sala que ficava em um dos \u00faltimos andares do pr\u00e9dio. Foi tratada de forma indiferente. N\u00e3o havia espa\u00e7o para qualquer conversa. Sem perder tempo, se aproximou daquele corpo que aparentava ter cerca de 40 anos e fez o seu trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com a institui\u00e7\u00e3o do regime militar em 1964, a l\u00f3gica policial passava a ser pautada no que era considerado como bons costumes sociais. Nem as\u00a0travestis, nem a prostitui\u00e7\u00e3o encontravam-se enquadradas nisso. Durante a ditadura, uma onda de ca\u00e7a\u00a0\u00e0s\u00a0travestis\u00a0tinha sido iniciada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pega pela pol\u00edcia mais de 200 vezes, Marta era obrigada a fazer servi\u00e7os de limpeza nas celas da Delegacia de Jogos e Costumes, no Centro Hist\u00f3rico. Tinha que tirar toda a maquiagem e voltar para casa \u201cfeito homem\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com hematomas na cabe\u00e7a e na perna, o corpo de Martinha guarda at\u00e9 hoje as cicatrizes da tortura policial. As palavras proclamadas ainda soam em nos ouvidos de Martinha: \u201cVoc\u00ea \u00e9 viado! J\u00e1 viu viado ter vez? Voc\u00eas levantam falsa bandeira!\u201d, gritavam\u00a0os militares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s o final da ditadura, o sol da democracia n\u00e3o brilhou t\u00e3o forte para o p\u00fablico LGBT. O in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 estava marcado pela descoberta da AIDS, que no momento era conhecida como peste gay. Martinha relata que n\u00e3o podia andar tranquilamente nos lugares p\u00fablicos sem que as pessoas come\u00e7assem a gritar \u201cAIDS\u201d histericamente ou pegar \u00f4nibus cheios sem ser expulsa.<\/span><\/p>\n<p>O temor do HIV foi utilizado tamb\u00e9m como uma nova forma de prote\u00e7\u00e3o. Toda vez que algu\u00e9m tentava agredir as\u00a0travestis\u00a0elas mordiam giletes escondidas na boca e sangravam demasiadamente. O medo do \u201csangue contaminado\u201d desesperava os agressores e fazia com que eles fugissem.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para concretizar o desejo da casa pr\u00f3pria, Martinha dobrou\u00a0seu turno de prostitui\u00e7\u00e3o.\u00a0Do dinheiro, s\u00f3 era retirado a quantia necess\u00e1ria para comer e pagar a moradia, todo o resto ficava escondido dentro do colch\u00e3o onde dormia.\u00a0Depois de anos de arrecada\u00e7\u00e3o, Marta desviou dos caminhos cantados por Caetano Veloso e ao inv\u00e9s de brilhar em Paris, viajou para a It\u00e1lia, onde sobreviveu tamb\u00e9m por meio da prostitui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>A vida na It\u00e1lia permitiu que ela juntasse muito dinheiro dentro do seu colch\u00e3o, somando assim \u00a0R$ 14 mil.\u00a0Toda a grana foi empregada na compra de um casar\u00e3o na\u00a0Baixa dos Sapateiros,\u00a0onde Martinha viveu tranquilamente por 20 anos e abrigou idosos e outras\u00a0travestis, um pequeno pensionato. Na noite do dia 9 de setembro de 2013, dois homens estranhos bateram\u00a0\u00e0 porta\u00a0do casar\u00e3o de Martinha solicitando um quarto. Inconformados, um dos homens declarou: \u201c N\u00e3o tem vaga, n\u00e3o, viado. Vou te mandar um doce!\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo em seguida, o casar\u00e3o foi atacado com uma bomba molotov (mistura de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas inflam\u00e1veis) que espalhou chamas por todas as partes. Martinha e seus h\u00f3spedes fugiram pela janela. O corpo de bombeiros chegou ao local sem \u00e1gua e solicitou o aux\u00edlio de carro pipa de Lauro de Freitas. A dist\u00e2ncia fez com que o casar\u00e3o fosse consumido pelas chamas por inteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem saber para onde ir, Martinha dormiu por semanas nos escombros da sua casa, at\u00e9 que conseguiu um\u00a0aux\u00edlio\u00a0moradia atrav\u00e9s do governo. Atualmente vive de aluguel na Fazenda Grande do Retiro, mas sonha com a recupera\u00e7\u00e3o da casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com uma mente atormentada por pensamentos suicidas e uma vida danificada pela discrimina\u00e7\u00e3o, Marta Maria de S\u00e1 declara em alto e bom som: <\/span>\u201cEu n\u00e3o sou nem nunca fui uma cidad\u00e3. Estou apenas vegetando nesse mundo, esperando a morte. Isso \u00e9 o que fizeram comigo\u201d.<\/p>\n<h1><b>A integridade de Tanucha<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trajando saia longa e regata b\u00e1sica, complementadas com argolas douradas, \u00f3culos de sol na cabe\u00e7a e maquiagem leve, Tanucha Taylor,\u00a0travesti\u00a0de 40 anos,\u00a0afirma que tem bom gosto na hora de se vestir. \u201cO meu estilo \u00e9 o bom senso, cada ocasi\u00e3o pede uma roupa espec\u00edfica. Posso ser simples, e tamb\u00e9m posso ser luxuosa\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Respeitar as regras, sejam elas de moda, sociais ou institucionais \u00e9 um dos princ\u00edpios de Tanucha. O entendimento de que pertencia a uma minoria social, foi a principal motiva\u00e7\u00e3o para que ela tentasse sempre andar na linha. Entende que para ser respeitada \u00e9 necess\u00e1rio se dar ao respeito e tamb\u00e9m respeitar os outros.<\/span><\/p>\n<p>Ao andar nas ruas, Tanucha relata que n\u00e3o sofre mais com piadinhas ou olhares de desprezo. Suas conquistas imp\u00f5em respeito onde quer que ela v\u00e1. Ressalta que, se um dia acontecer, tem fundamento e experi\u00eancia para por cada um em seu devido lugar.\u00a0\u201cSe falam por tr\u00e1s de mim, \u00e9 porque me respeitam na minha frente\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_2811\" style=\"width: 489px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2811\" class=\"wp-image-2811\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-683x1024.jpg\" width=\"479\" height=\"719\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-683x1024.jpg 683w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-200x300.jpg 200w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-768x1152.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-97x146.jpg 97w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-33x50.jpg 33w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/DSDFG-50x75.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 479px) 100vw, 479px\" \/><p id=\"caption-attachment-2811\" class=\"wp-caption-text\">Tanucha Taylor, 40 anos, imp\u00f5e respeito por onde passa.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nTanucha sempre acreditou no poder da educa\u00e7\u00e3o, isso fez com que ela permanecesse na escola at\u00e9 o \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio. Mesmo com apenas 14 anos, quando saiu da casa dos pais, no interior do estado, em Ipir\u00e1, para desbravar a capital baiana, n\u00e3o deixou de investir nos estudos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Formou-se no col\u00e9gio estadual Severino Vieira, no bairro de\u00a0Nazar\u00e9.\u00a0Seu jeito feminino chamava a aten\u00e7\u00e3o e provocava piadas entre os colegas, mas Tanucha tinha muita certeza do que era, e a plena consci\u00eancia de que n\u00e3o havia nada de errado naquilo.\u00a0\u201cEu nunca fui muito de olhar para os lados. Sempre fui de olhar para a frente e fazer aquilo que aquilo que eu desejava\u201d, ressalta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na capital, Tanucha se hospedou na Associa\u00e7\u00e3o dos Estudantes\u00a0Ipiraenses (Aeipi), com cerca de 50 pessoas. Certa noite, ao voltar da Caverna, boate que frequentava na rua Carlos Gomes, se deparou com um dos estudantes da associa\u00e7\u00e3o dormindo despido em sua cama. Enquanto tentava acordar o garoto, ele levantou gritando e anunciando que Tanucha estava tentando abus\u00e1-lo. <\/span><\/p>\n<h2><strong>\u201cEu fui v\u00edtima de uma arma\u00e7\u00e3o por parte de pessoas que moravam dentro da rep\u00fablica exatamente pela quest\u00e3o do preconceito. Eles planejaram uma situa\u00e7\u00e3o que nunca foi real\u201d<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tanucha foi julgada em uma assembleia com os dirigentes do local, que eram os pr\u00f3prios estudantes. Na ocasi\u00e3o, foi dado um prazo de um m\u00eas para que ela encontrasse um novo lugar para morar. O dinheiro que a jovem recebia da m\u00e3e era muito pouco para pagar um aluguel. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o era enfrentar o mercado profissional, restrito para\u00a0travestis\u00a0na \u00e9poca. Com esfor\u00e7o, conseguiu trabalho em casas de fam\u00edlia e alugar um quarto pr\u00f3ximo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o da Lapa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0A ambi\u00e7\u00e3o lhe levou a uma lembran\u00e7a da inf\u00e2ncia, onde costumava ir at\u00e9 aos sal\u00f5es de beleza e ajudar lavando cabelos. Apoiada nisso, ela buscou um curso de cabeleireira, que pagou com a ajuda de amigos. Com dois meses de curso ela conseguiu um emprego de carteira assinada no sal\u00e3o Charmant Penteados,\u00a0em Ondina. Por l\u00e1 permaneceu por dois anos, e, aos 18, foi contratada para trabalhar em um sal\u00e3o ainda maior, o Instituto de Beleza Novos e Velhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Apesar da ajuda que o trabalho nos sal\u00f5es de Ipir\u00e1 havia dado para Tanucha permanecer na cidade, na inf\u00e2ncia,\u00a0o\u00a0ato n\u00e3o era bem visto nem pela m\u00e3e, dona de casa, nem pelo pai, caminhoneiro de mente conservadora. Taylor expressava sua vontade de se livrar do disfarce masculino em um di\u00e1rio. As confiss\u00f5es foram posteriormente lidas por uma tia e reveladas para a m\u00e3e, que condenava o ato por medo dos problemas que a filha poderia enfrentar diante de uma sociedade t\u00e3o preconceituosa.<\/span><\/p>\n<p>As conquistas de Tanucha foram fundamentais para desconstruir esse paradigma do pai. Atualmente, ele respeita a identidade de g\u00eanero de qualquer pessoa e se refere a Tanucha orgulhosamente. \u201cEssa \u00e9 a minha filha!\u201d, afirma diante dos amigos. A m\u00e3e faleceu\u00a0h\u00e1\u00a016 anos e levou com ela parte de quem Tanucha \u00e9. \u201cEu posso conquistar tudo nessa vida, mas nunca me sentirei totalmente completa sem ela aqui do meu lado. \u00c9 uma das perdas mais tristes de toda a minha hist\u00f3ria\u201d, contou.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tanucha decidiu expandir seus horizontes e viajar para a It\u00e1lia. Morou por 15 anos no pa\u00eds e conquistou a cidadania italiana, da qual se honra muito. Muito vaidosa, aproveitou sua estadia na Europa e fez aplica\u00e7\u00e3o de silicone nos seios e na bunda, que as deixaram extremamente satisfeita. Quando retornou para o Brasil, foi para S\u00e3o Paulo e realizou uma cirurgia pl\u00e1stica de feminiza\u00e7\u00e3o, na qual raspou o pomo de ad\u00e3o e afinou o rosto. Uma das suas refer\u00eancias foi a atriz Elizabeth Taylor, famosa nos anos 50 pela sua beleza considerada estonteante, e de quem Tanucha retirou a inspira\u00e7\u00e3o para seu segundo nome.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A integridade permanece como o princ\u00edpio norteador de Tanucha Taylor. Viver na tentativa de ser algu\u00e9m melhor \u00e9 sua principal forma de ativismo. \u00c9 a sua reivindica\u00e7\u00e3o por uma humanidade, que embora ela sempre tenha reconhecido em si mesma, a sociedade lhe negou.<\/span><\/p>\n<h1><b>A aceita\u00e7\u00e3o de Mahylle<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bermud\u00e3o, camisa de bot\u00e3o e sapat\u00eanis de cores escuras s\u00e3o tudo o que Mahylle, auxiliar administrativa de 20 anos, repudiou durante sua inf\u00e2ncia e boa parte da adolesc\u00eancia. Mahylle\u00a0se livrou dos padr\u00f5es masculinos e se mostrou como mulher ao mundo\u00a0aos 18 anos. Antes disso, vestia-se \u201ccomo homem\u201d dentro de casa, para que os pais n\u00e3o percebessem, mas fugia para casa dos amigos onde finalmente poderia ser o que ela realmente sempre quis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As roupas masculinas aprisionavam o corpo da jovem\u00a0travesti, e apesar de j\u00e1 se reconhecer com essa identidade desde sempre, o medo da rea\u00e7\u00e3o da sociedade e da fam\u00edlia, a impediram de expressar livremente o seu g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_2455\" style=\"width: 549px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2455\" class=\"wp-image-2455\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-683x1024.jpg\" width=\"539\" height=\"808\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-683x1024.jpg 683w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-200x300.jpg 200w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-768x1152.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-97x146.jpg 97w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-33x50.jpg 33w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Mahylle-50x75.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 539px) 100vw, 539px\" \/><p id=\"caption-attachment-2455\" class=\"wp-caption-text\">Mahylle, 20 anos, desconstr\u00f3i preconceitos de forma did\u00e1tica.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mahylle completou o ensino m\u00e9dio aos 17 anos no Col\u00e9gio Estadual Luiz Tarqu\u00ednio, no bairro da Boa Viagem. As piadas entre os garotos da escola eram inevit\u00e1veis; apelidos como bichinha e baitola eram t\u00e3o frequentes que com o tempo se tornaram indiferentes. No entanto, seus amigos e professores jamais permitiam que a viol\u00eancia se prolongasse. \u201cMeus professores eram maravilhosos. Jamais deixavam que me diminu\u00edssem na frente de qualquer um deles. Ensinaram a muita gente que elas tinham a obriga\u00e7\u00e3o de me respeitar\u201d, contou. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir dos 18, a primeira transforma\u00e7\u00e3o foi deixar o cabelo crescer, causando estranhamento na m\u00e3e que come\u00e7ava a se preocupar com o mercado de trabalho e com os coment\u00e1rios da vizinhan\u00e7a. \u201cVai sair desse jeito? V\u00e3o pensar o que sobre voc\u00ea?\u201d, \u201cN\u00e3o vai cortar esse cabelo, n\u00e3o? \u201d, retrucava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por ser uma das poucas\u00a0travestis\u00a0que saiam \u00e0 luz do dia no bairro de Pernambu\u00e9s, Mahyelle\u00a0afirma que n\u00e3o olhavam para ela como se fosse um ser humano, mas sim como uma criatura estranha. Isso despertou nela uma enorme f\u00faria, que posteriormente transformou-se em mecanismo de defesa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir da\u00ed, nenhum coment\u00e1rio passava despercebido por ela, qualquer piadinha era retrucada com discursos empoderados. Discuss\u00f5es na rua tornaram-se parte do cotidiano da\u00a0travesti, deixando-a ainda mais vulner\u00e1vel a ataques transf\u00f3bicos, pois toda vez que aumentava o tom de voz para discutir com algu\u00e9m corria o risco de apanhar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi ent\u00e3o que Mahyelle conheceu Tuka Perez,32, outra\u00a0travesti\u00a0do bairro de Pernambu\u00e9s que lidera o projeto pr\u00f3 LGBT do bairro, chamado Linha de Frente. Tuka a ensinou como lidar com as situa\u00e7\u00f5es de preconceito no dia a dia de forma politizada, esclareceu conceitos, elencou os perigos e mostrou que reagir de forma combativa nem sempre era o melhor caminho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tendo um melhor conhecimento da causa, Mahyelle\u00a0sentava lado a lado com a m\u00e3e na cama do quarto e contava que n\u00e3o se tratava de algo que ela escolheu, que somente com aquele cabelo, com aquela roupa, ela poderia ser feliz. A m\u00e3e percebia que mesmo se vestindo daquele jeito Mahylle permanecia estudando e sendo uma pessoa com bons princ\u00edpios, nada mudaria.<\/span><\/p>\n<p>O irm\u00e3o sempre mostrou-se de bra\u00e7os erguidos para a causa de Mahyelle, referindo-se a ela pelo seu nome social, mesmo quando ningu\u00e9m o fazia. O pai tamb\u00e9m reage positivamente, tudo gra\u00e7as aos esclarecimentos da pr\u00f3pria filha. Hoje, os tr\u00eas vivem juntos e respeitam as formas de vida um do outro.<\/p>\n<p>Diferente da realidade narrada por Caetano, a jovem nunca precisou se prostituir. Ao terminar o ensino m\u00e9dio ingressou no programa Adolescente Aprendiz, onde era a \u00fanica\u00a0travesti\u00a0competindo por uma vaga de auxiliar administrativa \u00a0em uma faculdade particular de Salvador. Ela conquistou a vaga e ingressou no mercado de trabalho. No entanto, a conviv\u00eancia n\u00e3o era plenamente harmoniosa.<\/p>\n<p>Uma das coordenadoras do trabalho de Mahylle se recusava a cham\u00e1-la pelo seu nome social, causando constrangimentos. Certo dia Mahylle parou de atender pelo nome civil e respondia apenas aqueles que a chamassem pelo nome social, fazendo assim com a pr\u00f3pria coordenadora percebesse seu equ\u00edvoco.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste ano, Mahylle ingressou no curso de contabilidade na Faculdade de Ci\u00eancias\u00a0Gerenciais\u00a0da Bahia. Apesar de amar n\u00fameros, desistiu de concluir para ingressar no curso de moda a partir de 2017, outra grande paix\u00e3o. <\/span><\/p>\n<h2><strong>\u201cMe orgulho muito dos meus m\u00e9ritos acad\u00eamicos, mas ainda fico muito angustiada com o fato de que para uma\u00a0travesti\u00a0ser respeitada, ela precisa de conquistas intelectuais. Na mente das pessoas, nossa mera exist\u00eancia n\u00e3o nos faz dignas de respeito\u201d<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, Mahylle trabalha no Centro Municipal de Refer\u00eancia LGBT, no Rio Vermelho\u00a0e vive\u00a0as alegrias de um relacionamento amoroso ao lado de Uriel Henriquez,um homem trans. A \u00fanica coisa que ainda assombra a mente da jovem auxiliar administrativa \u00e9 o regresso das ideias e do respeito, pois segundo a mesma, este \u00e9 o medo da invalida\u00e7\u00e3o do sofrimento e da luta que\u00a0travestis\u00a0e transexuais cravaram no passado para que ela esteja aqui hoje.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/f2qdlJgCJns\" width=\"853\" height=\"480\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h1 style=\"text-align: left;\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><b>ENTENDA AS DIFEREN\u00c7AS:<\/b><\/h1>\n<p><b>Identidade de g\u00eanero:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00c9 a identifica\u00e7\u00e3o que cada pessoa tem com o g\u00eanero feminino, masculino, ou de uma combina\u00e7\u00e3o entre os dois. Nem sempre corresponde ao sexo atribu\u00eddo durante o nascimento e por isso pode agregar modifica\u00e7\u00f5es corporais, trejeitos e vestimentas comuns ao sexo oposto.<\/span><\/p>\n<p><b>Orienta\u00e7\u00e3o sexual: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Diz respeito a atra\u00e7\u00e3o sexual e afetiva que uma pessoa pode ter pelo mesmo g\u00eanero (homossexual), pelo g\u00eanero oposto (heterossexual), por mais de um g\u00eanero (bissexual), por nenhum deles (assexuados) ou outras denomina\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>Transexual<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: \u00c9 a pessoa cuja a identidade de g\u00eanero n\u00e3o corresponde ao sexo designado no nascimento. Exemplo: algu\u00e9m que, ao nascer, foi designado \u00a0como sendo pertencente ao sexo masculino por quest\u00f5es biol\u00f3gicas visuais, mas que se entende como pertencente ao feminino. Algumas pessoas trans expressam a necessidade de modificarem seus corpos atrav\u00e9s de procedimentos m\u00e9dico-cir\u00fargicos para se adequarem ao g\u00eanero do qual se identifica. Por\u00e9m, h\u00e1 pessoas que s\u00e3o trans que n\u00e3o passaram por nenhum procedimento.<\/span><\/p>\n<p><b>Travesti: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de g\u00eanero oposta ao seu sexo biol\u00f3gico. Exemplo: algu\u00e9m que nasce com caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas atribu\u00eddas ao masculino, mas que se identifica com os comportamentos femininos. Algumas travestis modificam seus corpos com cirurgias, mas n\u00e3o \u00e9 uma regra. Diferentemente das transexuais, as travestis n\u00e3o desejam realizar a cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual (mudan\u00e7a de \u00f3rg\u00e3o genital). <\/span><\/p>\n<p><b>Transg\u00eanero:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Al\u00e9m de incluir as pessoas que n\u00e3o se identificam com o sexo biol\u00f3gico, engloba tamb\u00e9m as pessoas que transitam \u00a0entre os g\u00eaneros e n\u00e3o se definem unicamente como femininas ou masculinas.<\/span><\/p>\n<p><b>Transformista:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Indiv\u00edduo que se veste com roupas do g\u00eanero oposto movido por quest\u00f5es art\u00edsticas.<\/span><\/p>\n<p><b>Androginia: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Termo gen\u00e9rico usado para descrever qualquer indiv\u00edduo que assuma postura social, especialmente a relacionada \u00e0 vestimenta, comum a ambos os g\u00eaneros.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por \u00a0Jordan Dafn\u00e9 Com\u00a0l\u00e1pis e giz, boca e nariz, ch\u00e3o, salto e triz, Caetano Veloso descreveu a viv\u00eancia de tr\u00eas\u00a0travestis\u00a0soteropolitanas que se vendiam na pra\u00e7a. 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