Por Jo\u00e3o Bertonie<\/em><\/strong><\/p>\n Barulho, calor, empurra-empurra, freadas bruscas, ambulantes oferecendo o <\/span>passatempo da viagem<\/span><\/i>… \u00a0Desculpe atrapalhar o sil\u00eancio da viagem de voc\u00eas! \u00c9 preciso jogo de cintura para flertar no buzu. Mais que um meio de se deslocar pela cidade, o ve\u00edculo tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, com intera\u00e7\u00f5es cotidianas, inspirando can\u00e7\u00f5es como <\/span>Amor de Buzu<\/span><\/i>, de Silvanno Salles, e esta reportagem. \u201cNunca tive um amor de buzu, mas lembro que, quando pegava \u00f4nibus diariamente, via e conversava com as mesmas pessoas todo dia\u201d, diz o cantor baiano que interpretou e popularizou o cl\u00e1ssico do arrocha, composto por Washington Carqueija e Dino Boy, e lan\u00e7ado em 2007.<\/span><\/p>\n Nos pr\u00f3ximos par\u00e1grafos, voc\u00ea vai conhecer algumas hist\u00f3rias de amor de buzu vividas na capital baiana. Boa viagem!<\/span><\/p>\n No ponto<\/b><\/p>\n \u201cOntem eu conheci a mulher com quem vou casar\u201d arrematou o marinheiro Celson Amorim, 53, para um amigo, no dia seguinte ao que conheceu N\u00e9lia Santos Gomes. Dito e feito: em 1993, um ano depois de se virem pela primeira vez, os dois prometeram se amar e se respeitar. Conheceram-se num ponto de \u00f4nibus da BR-324, em Sim\u00f5es Filho, onde Celson morava. No dia 23 de maio de 1992, vinha a Salvador encontrar uma <\/span>ficante<\/span><\/i>. Ap\u00f3s perder um \u00f4nibus, o capit\u00e3o se deparou com uma mo\u00e7a, que tamb\u00e9m n\u00e3o tinha conseguido alcan\u00e7ar o ve\u00edculo. Gaiato, Celson j\u00e1 puxou assunto, rindo do acontecimento. Conquistado pelo riso f\u00e1cil de N\u00e9lia, foi cuidadoso no flerte. \u201cPara n\u00e3o espantar o passarinho\u201d, justifica.<\/span><\/p>\n <\/i>Pegaram juntos um <\/span>bode<\/span><\/i> (\u00f4nibus clandestino) e sentaram lado a lado. Pela primeira vez em 28 anos, Celson pediu o n\u00famero de uma mulher. E foi atendido. Prontamente, retirou a agenda eletr\u00f4nica de sua insepar\u00e1vel pochete e salvou o contato do <\/span>passarinho<\/span><\/i>. Quinze dias depois, assim que voltou do servi\u00e7o no mar, ligou para ela de um orelh\u00e3o. A partir daquele dia, o marinheiro investiria em fichas e mais fichas de telefone p\u00fablico.<\/span><\/p>\n Se o primeiro encontro acidental foi num ponto de \u00f4nibus, no oficial n\u00e3o foi diferente. No ponto em frente ao Shopping da Bahia, antigo Shopping Iguatemi, o casal se reencontrou para assistir ao filme A Volta do Capit\u00e3o Gancho. \u201cDepois da sess\u00e3o, abracei ela e lhe dei o apelido que a acompanharia at\u00e9 a nossa despedida no leito do hospital\u201d, relembra, com carinho, o nosso capit\u00e3o, sem revelar qual seria o tal apelido. N\u00e9lia faleceu em junho de 2014, v\u00edtima de c\u00e2ncer de est\u00f4mago. Dois anos ap\u00f3s se casarem, nasceu Jordi. O anivers\u00e1rio do \u00fanico filho do casal coincidiu com a data em que se conheceram: 23 de maio.<\/span><\/p>\n <\/p>\n Esse Barra 2 que \u00e9 gostar de voc\u00ea <\/b><\/p>\n Foi segurando os livros que Marcos Ribeiro, 44, levava ao seu curso no Senac todos os dias que Ana Paula Costa, 41, apaixonou-se pelo ent\u00e3o estudante de auxiliar administrativo. H\u00e1 19 anos, ela trabalhava na Avenida Contorno e o via sempre no mesmo Esta\u00e7\u00e3o Piraj\u00e1-Barra 2, \u00e0s 18h30, acompanhada por Maria da Gra\u00e7a, que instigava a amiga a conversar com Marcos.<\/span><\/p>\n Num dia em que Ana Paula folgou, Marcos perguntou por ela a Gra\u00e7a. \u201cEla deu o n\u00famero da minha casa, do meu trabalho, do orelh\u00e3o que ficava dentro do supermercado\u201d, explica a mo\u00e7a, que na \u00e9poca tinha 22 anos. J\u00e1 na primeira conversa, marcaram para se ver no s\u00e1bado seguinte, na Esta\u00e7\u00e3o Piraj\u00e1, onde pegariam um \u00f4nibus para o antigo Shopping Iguatemi. O encontro rendeu e o casal passou a se ver dentro e fora do buzu. Mas nem toda viagem \u00e9 tranquila: semanas depois, Marcos revelou que mantinha outro relacionamento. Ana Paula, cujo namoro anterior acabou por causa de uma trai\u00e7\u00e3o, desembarcou \u00e0s pressas daquela hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n Quando Marcos se separou da namorada, um ano mais tarde, tentou retomar o contato com a mo\u00e7a que conheceu no buzu. Ap\u00f3s certa resist\u00eancia, Ana Paula cedeu e os dois come\u00e7aram a namorar novamente. Depois de quatro anos, passaram a pegar \u00f4nibus para o mesmo endere\u00e7o, com as gra\u00e7as de Maria das Gra\u00e7as, madrinha do casamento e fiel escudeira do casal desde 1997. J\u00e1 t\u00eam dois filhos: Gustavo, de 11 anos, e Guilherme, de nove meses. \u201cEstamos fazendo 15 anos de casados, mas ainda temos uma longa estrada pela frente\u201d, declara Marcos, com um risinho discreto<\/span>.<\/span><\/i><\/p>\n Olhando a janela<\/b><\/p>\n Ap\u00f3s alguns minutos de um <\/span>frete<\/span><\/i> silencioso, C\u00e1ssia Corcino, 24, percebeu que devia tomar a iniciativa. \u201cVoc\u00ea \u00e9 sempre quietinho assim?\u201d, perguntou ao rapaz franzino que sentava ao seu lado e n\u00e3o desgrudava os olhos da janela, num Vilas do Atl\u00e2ntico lotado, na primeira semana de outubro deste ano. Thiago Concei\u00e7\u00e3o, 22, ficou logo desajeitado, mas sorriu. Duas semanas depois, os dois embacariam no mesmo \u00f4nibus, mas agora entrariam de m\u00e3os dadas, como namorados.
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Os estudantes C\u00e1ssia Corcino e Thiago Concei\u00e7\u00e3o, num ponto de \u00f4nibus, em Itapu\u00e3 | O marinheiro Celson e o passarinho N\u00e9lia, em 1993 | Ana Paula e Marcos, num ponto, na Val\u00e9ria. Fotos: Jo\u00e3o Bertonie<\/p><\/div>\n
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