{"id":2218,"date":"2016-12-14T16:18:08","date_gmt":"2016-12-14T19:18:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/?p=2218"},"modified":"2016-12-20T07:14:58","modified_gmt":"2016-12-20T10:14:58","slug":"compondo-em-cantos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/compondo-em-cantos\/","title":{"rendered":"Compondo em cantos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Vanessa Brunt<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um dos sambistas mais renomados do pa\u00eds, conhecido como <em>compositor-cronista<\/em> de Salvador, continua retratando a cidade atrav\u00e9s das letras que cantarola. Aos 95 anos, Riach\u00e3o, que teve v\u00e1rias das suas m\u00fasicas interpretadas por cantores nacionais, como C\u00e1ssia Eller, e foi autor da famosa Cada Macaco no Seu Galho, gravada por\u00a0Caetano Veloso\u00a0e\u00a0Gilberto Gil, prossegue apaixonado pelo cantar e pelos cantos e encantos soteropolitanos.<\/p>\n<p>Suas mais de 500 m\u00fasicas retratam epis\u00f3dios, figuras e locais do cotidiano em Salvador. Atrav\u00e9s delas, \u00e9 poss\u00edvel pincelar partes da hist\u00f3ria da cidade. O compositor, que vivia desvendando a capital a p\u00e9, agora a investiga atrav\u00e9s dos coment\u00e1rios que escuta e dos passeios que faz de carro. Mesmo sem conseguir mover as pernas com normalidade, por conta da idade, Riach\u00e3o n\u00e3o perde o bom humor ou o olhar detalhista e reafirma o desejo de gravar diversas das can\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o lan\u00e7ou.<\/p>\n<p>Com o costume de n\u00e3o anotar as letras ou as melodias criadas, o cantor perdeu algumas das suas can\u00e7\u00f5es, mas afirma que, por vezes, ressurgem na mem\u00f3ria. Em 2013, lan\u00e7ou o disco Mund\u00e3o de Ouro, reunindo alguns dos lembretes obtidos. \u201cE agora, como \u00e9 que \u00e9? \/ Amor n\u00e3o tem idade \/ Seja o que Deus quiser\u201d, afirma o baiano na letra de Valdin\u00e9ia. Se o amor n\u00e3o tem idade, para Riach\u00e3o, a m\u00fasica tamb\u00e9m n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Sentado com um sorriso no sof\u00e1 da sua casa, no Garcia, ouvindo samba, cantando com empolga\u00e7\u00e3o e mexendo o tronco de um lado para o outro, Riach\u00e3o recebeu o CORREIO de Futuro com a sua famosa toalhinha pendurada no pesco\u00e7o. \u201cEle ouve m\u00fasica o dia inteiro\u201d, afirma a neta Geisivane. Durante o bate-papo, ao ver algu\u00e9m com a m\u00e3o no queixo, o compositor declamava, cantarolando: \u201ctira! Tira essa m\u00e3o! Cara de tristeza aqui n\u00e3o! Tudo tem dois lados, mas o melhor deles \u00e9 sempre o de sambar. As coisas se explicam, mas s\u00f3 para quem quer e entende que \u00e9 melhor cantar\u201d. Confira:<\/p>\n<p><em><br \/>\n<\/em><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2637 size-full\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/blogs\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812.jpg\" width=\"3264\" height=\"2448\" srcset=\"http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812.jpg 3264w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-300x225.jpg 300w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-768x576.jpg 768w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-195x146.jpg 195w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-50x38.jpg 50w, http:\/\/blogs.correio24horas.com.br\/emcantos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMG_9812-100x75.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 3264px) 100vw, 3264px\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O senhor j\u00e1 afirmou que o mundo \u00e9 mais bom do que ruim, mas o que tem faltado \u00e9 amor. Falta amor em Salvador? \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um radialista me perguntou uma vez o que eu achava atualmente sobre a humanidade, e foi ent\u00e3o quando dei esta resposta. Porque hoje o que est\u00e1 a\u00ed de tristeza \u00e9 falta de amor, mas n\u00e3o generalizo. Ainda tem muita gente boa no mundo, mas as pessoas que acabam indo para caminhos negativos, geralmente acabam assim por conta da falta de amor que, \u00e0s vezes, as boas pessoas acabam negligenciando, deixando de dar como poderiam ou deveriam, por uma inseguran\u00e7a que hoje vejo mais instalada do que antigamente. \u00c9 um ciclo venenoso o de se permitir endurecer, isso \u00e9 o que alimenta o que vemos hoje de absurdo. A falta de amor e de respeito est\u00e1 a\u00ed, piorando pelo mundo, com tudo sendo mais banalizado. A gente vem sem nada, a gente tem que construir, e fico triste de ver pessoas s\u00f3 olhando para os lados ruins das coisas as vezes, sem lembrar que sempre existem os dois lados. Quando vejo falta de agradecimento ao que se tem, \u00e9 o que mais me deixa triste.<\/p>\n<p>Mas em rela\u00e7\u00e3o a Salvador, s\u00f3 tenho a dizer que \u00e9 um lugar que continua alimentando a minha esperan\u00e7a.\u00a0 A nossa cidade mudou, mas mudou assim como o mundo inteiro. Hoje \u00e9 mais violenta, vejo mais falta de considera\u00e7\u00e3o entre as pessoas, menos conex\u00e3o presencial. Mas continua tendo muita alegria, continua sendo um lugar cheio de gente espont\u00e2nea, de gente que chega e logo est\u00e1 compartilhando sobre a vida e dando as m\u00e3os. Essa forma de lidar com o outro quando acaba de conhecer, essa maneira aberta, receptiva, que sempre conta com a esperan\u00e7a, \u00e9 algo que vejo tanto por aqui, e isso \u00e9 muito importante. O povo baiano n\u00e3o desiste de andar, de sentir a intimidade com os cantos, de desvendar. Sempre arranjamos um jeito de fazer festa, de trazer uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e de saber unir isso com muito trabalho no dia a dia, sem pregui\u00e7a. Todos os locais t\u00eam pessoas assim, mas gosto de ver quando chegam aqui e comentam que sentem isso com maior grau.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 fundamental e falta aqui na cidade?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 um trabalho mais humanizado. Passei muito mal em uma festa que fui e, desde ent\u00e3o, n\u00e3o consegui mais andar como antes. Neste dia, estava muito mal, claramente precisando de um atendimento de emerg\u00eancia, porque o risco era de que tivesse um treco. Na verdade, j\u00e1 estava tendo. Me levaram para um hospital particular e, s\u00f3 porque eu n\u00e3o tinha um plano de sa\u00fade na hora, ningu\u00e9m se prestava a atender, a ajudar outro ser humano para depois cobrar. Podiam deixar claro que iriam precisar cobrar depois, mas n\u00e3o, eles n\u00e3o atenderam. Ningu\u00e9m sabia se de l\u00e1 para um hospital p\u00fablico eu aguentaria e, mesmo assim, os m\u00e9dicos n\u00e3o atendiam, colocando o dinheiro ou at\u00e9 a burocracia e as leis absurdas acima de um momento de humanidade. Se aquele era o hospital mais perto&#8230; Qual o problema? Falta de amor! Falta isso no hospital p\u00fablico tamb\u00e9m e em muitos cantos. A minha cr\u00edtica construtiva \u00e9 a de humanizar mais os atendimentos, os c\u00f3digos de \u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>O senhor acha que Salvador ainda \u00e9 \u2018a cidade da m\u00fasica\u2019?<\/strong><\/p>\n<p>Salvador \u00e9 e continua sendo a cidade da m\u00fasica, sem d\u00favidas. A espontaneidade que temos como soteropolitanos, a necessidade de chegar junto, de expelir sensa\u00e7\u00f5es e criar novas, \u00e9 algo muito presente e natural. Dizem que \u201cfalamos cantando\u201d e \u00e9 verdade, mas n\u00e3o s\u00f3 pelo som que fazemos, \u00e9 uma uni\u00e3o da nossa ess\u00eancia, do fulgor que a maior parte do nosso povo carrega. As m\u00fasicas daqui s\u00e3o t\u00e3o ecl\u00e9ticas, por mais que, de fora, conhe\u00e7am poucos dos nossos estilos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Falando mais especificamente, h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s houve uma pol\u00eamica no Rio de Janeiro para saber onde nasceu o samba. Ent\u00e3o o Rio preparou uma equipe de imprensa e mandou para a Bahia, para encontrar aqui, artistas que pudessem responder sobre essa quest\u00e3o. Foram procurados Riach\u00e3o e Batatinha. Ent\u00e3o marcaram o dia do encontro. Chegou no dia e primeiro Batatinha respondeu. Lembro-me bem. Ele disse assim: \u201cQuando eu me entendi, o samba estava vindo do Rio de Janeiro\u201d. A\u00ed para a imprensa do Rio caiu bem, porque, obviamente, eles queriam confirmar que o samba veio de l\u00e1. Quando terminou a parte dele, chegou a minha. Ent\u00e3o eu convidei um violeiro e respondi: \u201cDigo, com toda a certeza, que o samba nasceu na Bahia. Por qu\u00ea? Porque o Brasil nasceu na Bahia. E quem trouxe o samba? Os africanos. Os escravos. E o samba de roda, o samba de chula, \u00e9 o pai de todos os sambas. O samba de chula foi o pioneiro do ritmo que gerou essa forma de liberar tantas letras, tantas emo\u00e7\u00f5es\u201d. Assim que acabei de falar isso, eu cantei um samba de chula com o violeiro, para representar o que eu estava falando. Ent\u00e3o eu disse \u201c\u00c9 esse samba que \u00e9 o pai de todos, \u00e9 o samba trazido dos africanos. Africanos que foram trazidos por Portugal, causando ainda mais essa mistura que somos. \u00a0Na senzala, a brincadeira dos escravos era essa, e ela continuou sendo a nossa, porque a Bahia \u00e9 s\u00e9ria sim, mas sempre sabendo sorrir\u201d. E ent\u00e3o, a imprensa daqui me prestigiou pela resposta sincera que dei.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NWiL8uEmheU\" width=\"853\" height=\"480\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>A cidade, em geral, \u00e9 a mesma que te inspirava?<\/strong><\/p>\n<p>Salvador mudou, porque evoluiu. O problema \u00e9 que \u201cn\u00eago\u201d \u00e0s vezes vai a p\u00e9 e chega mais r\u00e1pido, s\u00f3 que esse \u2018a p\u00e9\u2019 n\u00e3o tem tanta estrutura e nem seguran\u00e7a para acontecer. \u201cT\u00f4\u201d vendo que o metr\u00f4 foi feito e est\u00e1 encaminhando, tomara que essas ajudas aconte\u00e7am com mais efic\u00e1cia. A cidade continua tendo a ess\u00eancia alegre e isso \u00e9 o que mais me inspira. Fico inspirado quando ando de carro pela cidade, olhando. Mas hoje n\u00e3o saio por a\u00ed andando como antes. E sinto saudade disso. Vivo e sinto Salvador de uma maneira diferente, mas sei que existem possibilidades, locais que est\u00e3o sendo revitalizados para que possamos curtir Salvador a p\u00e9, como \u00e9 o caso da Barra. <em><br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>E o Garcia? Continua sendo uma inspira\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Aqui no Garcia era tudo ro\u00e7a. Meu pai plantava aqui mesmo. Neste terreno era tudo mato e terra, at\u00e9 l\u00e1 frente, onde hoje \u00e9 rua, e antes era tudo estreito, s\u00f3 dava para passar uma carro\u00e7a. Eu sinto muita saudade e em alguns dias eu choro, porque tudo isso me lembrava da minha inf\u00e2ncia e da minha fam\u00edlia, as l\u00e1grimas surgem nos olhos por saber que tudo o que era mais pr\u00f3ximo daquela \u00e9poca se foi. Depois da morte do meu pai tudo se modificou, olho hoje para esse lugar, para o bairro, e vejo que tudo est\u00e1 ocupado de maneiras diferentes, est\u00e3o desmatando cada vez mais e sem os cuidados devidos. Agora s\u00e3o casas e pr\u00e9dios aparecendo descontroladamente. Aqui foi onde nasci, cresci, e quero continuar tendo esse contato ativo com o lugar acima de tudo. Mas n\u00e3o posso deixar de observar os lados positivos dessas mudan\u00e7as. A mobilidade melhorou muito. Se antes n\u00e3o tinha espa\u00e7o sequer para um cavalo passar direito, hoje vemos os carros. O que me entristece \u00e9 o verde sendo acabado, essa falta equil\u00edbrio, mas o resto \u00e9 muito bom. Hoje \u00e9 mais bonito, mais confort\u00e1vel.<em><br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>O que era ser malandro em Salvador? Esse tipo de malandro ainda existe?<\/strong><\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, j\u00e1 houve uma pol\u00eamica por condenarem a palavra \u201cmalandro\u201d, por isso gosto de esclarecer esta quest\u00e3o. O malandro \u00e9 aquele que tem alegria no cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 ativo, que samba, joga capoeira, faz a alegria para o povo por viver e n\u00e3o apenas sobreviver, por saber enxergar as coisas n\u00e3o s\u00f3 para si, mas pensando no respeito, nos outros. O malandro \u00e9 observador, quer desvendar os cantos e as pessoas. O malandro tem malicias por acumular experi\u00eancias detalhadas, e utiliza essa malicias para viver mais e lan\u00e7ar o bem por a\u00ed, sendo sagaz. O malandro de hoje pode ainda ser bem semelhante ao de antigamente, porque a ess\u00eancia n\u00e3o muda apenas por detalhes externos. Quem quer ter um estilo de vida mais ativo e curioso, vai ter.<\/p>\n<p><strong>O senhor j\u00e1 admitiu que n\u00e3o gosta da letra da m\u00fasica \u201cV\u00e1 Morar com o Diabo\u201d, que foi gravada por C\u00e1ssia Eller. Por que esse desgosto?<\/strong><\/p>\n<p>Foi o seguinte, l\u00e1 no Rio de Janeiro, meu grande amigo J\u00f4 Soares virou para mim e disse: \u201cRiach\u00e3o, gosto muito de voc\u00ea, as mulheres tamb\u00e9m gostam muito de voc\u00ea e sei que voc\u00ea trata as mulheres com carinho. Ent\u00e3o gostaria de saber o motivo do nome da m\u00fasica \u2018<em>V\u00e1 morar com o diabo<\/em>\u2019. Por que mandar uma mulher morar com o diabo?\u201d. A m\u00fasica na \u00e9poca estava no sucesso. E, ora, se as mulheres devem ser tratadas com carinho e respeito tanto quanto qualquer homem e ser humano, como posso mandar uma mulher ir morar com o diabo? A letra maltrata as mulheres, e por isso n\u00e3o gosto. Essa m\u00fasica n\u00e3o nasceu de algo que ocorreu diretamente comigo. Ela surgiu a partir da inspira\u00e7\u00e3o que veio em uma conversa que tive com um amigo. Ele estava reclamando em um bar, falando que a mulher dele n\u00e3o queria fazer nada e disse \u201cela que v\u00e1 morar com o diabo!\u201d, mas depois me arrependi de ter lan\u00e7ado algo t\u00e3o grosseiro. Naquela \u00e9poca a mulher ainda era vista como quem deveria cuidar da casa, existia tanta imposi\u00e7\u00e3o ruim. Hoje, ainda bem, cada um escolhe o que deseja fazer e as pessoas dividem as responsabilidades. Todos temos as mesmas capacidades. Se a mulher deseja cuidar somente da casa, maravilha. Mas, se n\u00e3o, maravilha tamb\u00e9m. Fico feliz de ver tantas mulheres em novos cargos em Salvador e triste por ter alimentado esse estere\u00f3tipo na letra.<\/p>\n<p><strong>Salvador \u00e9 tamb\u00e9m um local repleto de religiosidades. O senhor acha que, hoje, existe respeito a essa diversidade?<\/strong><\/p>\n<p>Reparo cada vez mais respeito de uma pessoa para outra em rela\u00e7\u00e3o a essas escolhas religiosas, ao que o outro tem como cren\u00e7a; mas \u00e9 triste ver quando existe guerra em que um s\u00f3 quer falar e n\u00e3o ouvir. Eu sou cat\u00f3lico, acredito em Deus e cuido da minha parte, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou fan\u00e1tico por conta de alguns detalhes ainda exagerados dentro das igrejas, mas sei tamb\u00e9m que muita coisa tem melhorado. O sincretismo em Salvador \u00e9 uma coisa linda de ver, a mistura das nossas cren\u00e7as \u00e9 algo realmente singular e que vemos com for\u00e7a em amuletos e outros detalhes, como \u00e9 o caso da fitinha do Senhor do Bonfim. A Bahia vive em liberdade e, em geral, Salvador enxerga a mistura como pr\u00f3spera. Candombl\u00e9, espiritismo, catolicismo, os crentes, todos acabam, muitas vezes, se complementando e dando luz uns aos outros. Contanto que haja respeito e vontade de ajudar, isso ser\u00e1 algo belo e nos beneficiar\u00e1. J\u00e1 que um saber e um crer sempre pode ser porta para que outro saber e crer ganhe mais de si. O nosso povo, em geral, leva muito isso em considera\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o principal da nossa cidade \u00e9 a natureza, \u00e9 o acreditar em algo maior. Contemplar isso na energia, no sol, na lua, nas estrelas. Cada um desses detalhes nos liberta para que misturemos cren\u00e7as buscando entender as nossas \u00e2nsias. Somos um povo que abra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s o acidente que aconteceu com a sua fam\u00edlia, quais as reflex\u00f5es mais profundas que o senhor p\u00f4de ter?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTudo tem uma raz\u00e3o.<br \/>\n<strong><br \/>\nNas viagens, o que mais sentia falta daqui?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nApertava saudade de tudo. Principalmente das comidas t\u00edpicas, como de um bom caruru e de conversar na pra\u00e7a com desconhecidos que acabam, em geral, conversando de volta e n\u00e3o olhando torto como acontece em maiores casos em outros locais. <strong><br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>Pretende gravar um novo disco?<\/strong><\/p>\n<p>Quero gravar v\u00e1rias das m\u00fasicas que lembro \u00e0s vezes. Quero ainda gravar v\u00e1rias das que tenho. De 2007 (\u00e9poca em que surgiu o problema na perna) pra c\u00e1 eu n\u00e3o tenho gravado novas can\u00e7\u00f5es, mas tudo o que acontece comigo pode virar m\u00fasica, Deus acaba trazendo novas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v\u00ea as oportunidades hoje para a m\u00fasica na capital baiana?<\/strong><\/p>\n<p>Salvador sempre incentiva a arte, sempre tem nas favelas projetos incr\u00edveis acontecendo e fora delas tamb\u00e9m. \u00c9 assim em qualquer canto. A arte nasce e \u00e9 regada em diversos locais, agregando oportunidades. S\u00e3o escolas, s\u00e3o concursos, s\u00e3o novos programas de apoio. Basta buscar e ir na atitude de ficar no meio disso e bater nas portas. Al\u00e9m disso, voc\u00ea pode criar o seu pr\u00f3prio projeto, levar para o governo, divulgar e sempre existir\u00e1 gente para impulsionar. A veia da express\u00e3o, do sentir calorosamente, corre aqui. Tem que pesquisar, usar a tecnologia para isso, mas os p\u00e9s tamb\u00e9m. Correr atr\u00e1s da mesma maneira que antigamente \u00e9 fundamental. Aconselho a todos que pesquisem, mas que cheguem pessoalmente nos locais, n\u00e3o esquecendo de \u201cmeter as caras\u201d. Aqui e em qualquer lugar, chegar e olhar nos olhos \u00e9 mais impactante, ainda mais nos dias de hoje, em que o esfor\u00e7o de mexer o corpo fica em segundo plano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vanessa Brunt Um dos sambistas mais renomados do pa\u00eds, conhecido como compositor-cronista de Salvador, continua retratando a cidade atrav\u00e9s das letras que cantarola. 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