Vanicléia Santos: “O patuá nasce de recriações da cultura negra na diáspora”

Fonte: Reprodução

Por Maryanna Nascimento

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De Jacobina, Vanicléia Silva Santos é doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autora da tese Bolsas de Mandinga no Espaço Atlântico – Séculos XV-XVIII. Atualmente coordena o Centro de Estudos Africanos (CEA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integra o Comitê Científico Internacional da UNESCO para Elaboração do IX Volume de História Geral da África, coleção que se propõe a reconstruir a historiografia do continente.

CORREIO de Futuro – Qual a origem do termo  “patuá” e do amuleto?

Vanicléia Santos A maioria das culturas no mundo possui algum tipo de amuleto para proteger o corpo contra efeitos negativos vindos de pessoas ou seres invisíveis. Nesse caso, a busca de uma possível origem do amuleto não tem sentido. De todo modo, é possível levantar origem acerca do uso dessas palavras no Brasil. “Patuá” tem origem tupi, segundo Antenor Nascentes. Esta palavra significa cesta, baú, na qual se colocavam ingredientes protetivos. Há um debate entre os linguistas se esta palavra seria parte dos tupinismos ou africanismos na língua portuguesa do Brasil. Mas, desde o século XVIII era usada para referir-se aos amuletos usados pelos africanos. Segundo o Vocabulário Português e Latino (1728), organizado pelo padre Raphael Bluteau, a palavra amuleto, no início do século XVIII, tem o mesmo sentido, tanto em sua origem grega quanto latina. Na primeira, vem de atadura, porque se usava o amuleto atado ao corpo para expelir coisas ruins. Do latim, tinha o significado de livrar de perigos ou proteger de quebrantos.

 

Qual a principal distinção entre bolsas de mandinga e patuás?

A expressão “Bolsa de Mandinga” tem origem no início do século XVII. Passou a ser usada pelos religiosos que foram missionar na costa Oeste da África, especificamente, em Guiné e Serra Leoa. Estes religiosos missionários jesuítas condenavam os amuletos tradicionais usados pela população que vivia na Costa da Guiné. Além disso, a população que havia se islamizado também usava amuletos e roupas que indicavam a nova condição de convertidos ao Islã.  Em razão da competição entre os jesuítas e os bexerins (sacerdotes pregadores do Islã), os amuletos usados pelos islamizados foram alvos de críticas dos jesuítas. Nas cartas escritas por estes, nas quais narravam os sucessos da missão, havia um destaque para o principal desafio de introduzir o catolicismo na região – a influência dos bexerins, que elaboravam e vendiam colares de couro cozido costurados, que continham dentro pequenas partes do Alcorão escritas em um pedaço de papel, que funcionava como amuleto. Na diáspora, a palavra patuá era usada genericamente para referir-se aos amuletos usados pelos africanos e descendentes. O sentido de ambas, tanto de bolsa de mandinga quanto de patuá, era tratar o amuleto como um tipo de feitiço africano. A palavra portuguesa “feitiço” foi utilizada para se referir a amuletos mágicos portados pelos europeus. E “fetiche” foi utilizada pelos viajantes europeus para se referir a objetos centrais no complexo religioso-mágico africano, como pedras, estátuas, árvores e amuletos.

 

O patuá nasce a partir do sincretismo?

Eu não chamaria de sincretismo, mas de recriações da cultura negra na diáspora. As bolsas de mandinga usadas no Brasil nos séculos XVII e XVIII, alvo de denúncias à Inquisição Portuguesa, é um objeto Atlântico, que representava a circularidade de ideias, religiões, costumes e pessoas que circulavam por diferentes sociedades Atlânticas. A bolsa de mandinga era uma bolsa de couro com orações católicas, escritas em língua portuguesa, com desenhos que fazem referência às narrativas cristãs e também à cultura bantu. Os ingredientes da maioria das bolsas compreendiam, desde elementos cristãos, como as hóstias, às referidas orações, pedaços de pedra dará e também elementos da natureza, como pedras, enxofre, alho, pedacinhos de ossos de animais. Há também registros de orações escritas com sangue de ave. Em geral, os confeccionadores eram africanos e seus descendentes. Mas, os usuários pertenciam aos diferentes grupos étnicos: brancos, mulatos e negros.

 

Como os africanos islamizados contribuíram para que o patuá fosse popularizado entre diferentes grupos étnicos?

É importante distinguir os diferentes tipos de amuletos usados no Brasil pelos diferentes grupos étnicos africanos. Dentre os negros que usavam as bolsas de mandingas no Brasil colonial,  havia africanos oriundos de Cabo Verde, Golfo do Benin e Angola e também crioulos, desde o início do século XVII. Os amuletos usados pelos nagôs islamizados na Bahia no episódio conhecido como Revolta dos Malês eram diferentes das bolsas de mandinga usadas pelos africanos que tinham algum contato com o catolicismo – pois as rezas eram escritas em árabes e os desenhos tinham relação com a cultura muçulmana. Finalmente, não se deve atribuir o uso de amuletos apenas aos grupos islamizados. Trata-se de costume comum em várias sociedades africanas, islamizadas ou não, europeias e indígenas.

 

Foi a partir da Revolta dos Malês que houve interesse de pesquisadores brasileiros sobre o estudo dos amuletos africanos. Qual foi o papel desses patuás no movimento?

A revolta dos Malês é uma das revoltas mais estudadas do Brasil, especialmente pelo seu caráter urbano e pela imensa quantidade de fontes. A Polícia produziu muitas fontes na Devassa contra os participantes, assim como retirou dos africanos os amuletos e escritos em árabe que possuíam, que também são fontes. Segundo o historiador João J. Reis, os participantes da revolta utilizavam diversos objetos – anéis, tessubás (o rosário malê), abadás, amuletos e escritos árabes. Os amuletos foram um dos elementos mais importantes da Revolta porque tinham a função a proteger o corpo. Contudo, a tradição de usar amuletos no Brasil não se iniciou na Revolta de 1835. Também não se pode estabelecer essa relação direta entre um evento e o interesse dos pesquisadores por um determinado assunto.

 

Em Salvador, existia alguma localidade/bairro que era reduto de africanos islamizados?

João Reis, o maior especialista neste assunto, autor do livro Rebelião Escrava na Bahia, desenvolveu uma análise acerca das freguesias onde viviam os participantes da Revolta dos Malês. Segundo ele, a maioria morava na região da Sé (região mais antiga da cidade alta); e os demais viviam no Largo da Vitória, Conceição da Praia, Pilar, Santo Antônio, São Pedro, Paço, Santana, Penha e Brotas.