Por Maryanna Nascimento
Por volta do século XVIII, João da Silva foi preso sob a acusação de carregar uma bolsinha de couro com objetos furtados da Igreja. Dentro da bolsa, havia uma hóstia consagrada, uma oração e pequenos pedaços de pedra d’ara. Os símbolos, considerados protetivos pelo escravo, eram apenas uma parte dos muitos elementos que se incluíam no patuá. O amuleto, hoje associado à cultura baiana, já guardou de búzio a trechos do Alcorão.
Iniciada no candomblé e atenta às questões culturais da cidade, a cantora Mariene de Castro traduz na canção Eu Carrego Patuá o tanto de fé que cabe em uma bolsa tão pequena: “Acima de todas as crenças, ela representa uma proteção, a fé que move montanhas, independe de credo ou religião”, resume. Não fosse pela presença dos africanos no Brasil colonial, talvez o amuleto não inspirasse a música cantada por Mariene e outras composições presentes na música baiana.
Provavelmente a origem da bolsinha, aqui na Bahia, está entre os povos islamizados que chegaram por volta do século XIX. Os amuletos traziam passagens do Alcorão e atraíam os demais africanos, seduzidos pelo poder da cultura escrita e da proteção espiritual. Por outro lado, “o amuleto usado no Brasil nos séculos XVII e XVIII representava a circularidade de ideias, religiões, costumes e pessoas que transitavam por diferentes sociedades Atlânticas”, afirma Vanicléia Santos, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de tese sobre o assunto. Ele se refere às sociedaes que se criaram em torno do trânsito de escravos entre continentes.
Aos poucos, a bolsa também se apropriou de elementos cristãos. Segundo Vanicléia, o amuleto podia trazer hóstias, orações e pedaços de pedra d’ara – pedra benta usada durante a missa para colocar o cálice e a patena com a hóstia. Ou ainda, elementos da natureza, como alho, enxofre e pedacinhos de ossos de animais.
Defesa
Independente das muitas ressignificações, uma coisa é certa: o patuá nunca deixou de ser símbolo de defesa e resistência. E teve papel importante, por exemplo, no século XIX, entre os participantes da Revolta dos Malês, rebelião na qual os negros lutavam pelo fim da escravidão e dos maus tratos. “Os amuletos foram um dos elementos mais importantes porque tinham a função de proteger o corpo”, ressalta Vanicléia. Durante a revolta, os malês carregavam as bolsinhas em volta do pescoço e nos bolsos. Os amuletos eram confeccionados por mestres muçulmanos que tinham a certeza da vitória.
Há 181 anos do levante, o objeto de resistência é usado para fins bem mais amenos. É vendido, por exemplo, como lembrancinha da Bahia, por pessoas como Neuza, 67 anos. Católica, ela vende o amuleto há mais de 40 anos, mas jura de pé junto que nunca entrou em um terreiro de candomblé. “Eu aprendi a fazer mas não tenho nenhuma relação com o candomblé”, confessa. Ela sequer conhece a história do objeto que a ajuda financeiramente. A única informação que guarda é a cor dos orixás, que usa para fazer a bolsinha, e um ou outro amuleto historicamente usado, como búzio e figa.
Com axé
Para o babalorixá Anderson Argôlo, do terreiro Ilê Axé Alá Obatalandê, comprar o amuleto é recebê-lo sem encanto. “O patuá é uma insígnia, um elemento que vai gerar energia e que deve ser feito dentro de um processo de axé. É preciso ter conhecimento para que essa força seja transmitida”, afirma.
Já pai Paulinho de Ogum Xoroquê, liderança do terreiro de umbanda Ilê Axé Ogum-Já, em Porto Alegre, não vê problema em comprar o amuleto. No entanto, ressalta, é importante que “o amuleto passe pelo ritual e que a pessoa esteja envolvida na preparação”, para gerar mais responsabilidade e compromisso.
O ritual a que Pai Paulinho se refere não é o mesmo para a umbanda e para o candomblé. Além do mediador, muda também o modo de fazer. Na primeira, a entidade incorporando o Preto Velho utiliza elementos que dão lugar ao sincretismo: “oração católica, figa, pimenta e moeda”. Uma oração envolvendo santos e orixás é o passo final para que o amuleto receba o axé. Já no candomblé, diz Anderson, o amuleto varia de pessoa para pessoa e os elementos utilizados serão definidos a partir disso. “No terreiro, jogamos os búzios e através das entidade do segredo, Ifá e Orunmila, o orixá será consultado e dirá qual vai ser a necessidade da pessoa”, explica.

Foto: Gabriel Soares

Fábio Fernandes Souza, 36 “Ganhei de uma entidade chamada Marujo. É um patuá de defesa, de proteção, que livra de energia negativa e inveja. Com ele eu realmente me sinto protegido. Certa vez eu estava em um estacionamento e houve um assalto. O homem roubou todos em volta, menos a mim. Quando eu percebi o assalto, estava com o meu patuá e pedi que ele não me enxergasse e o assaltante realmente não me viu. Eu sei que existe uma força maior do que eu, que intercede por mim. O patuá é uma das consagrações disso.”

Foto: Heitor Oliveira

Julliane Naiara da Silva, 27 “Para mim, ele significa sorte na essência. A propriedade espiritual que emana desse simples amuleto provoca a esperança do dia melhor. Ele é prosperidade, não apenas relacionado a dinheiro. Mas é certo: não me falta uma moeda. E o engraçado é que como ele sempre fica na carteira, é comum cair quando eu estou no caixa para pagar. As pessoas ficam olhando e eu penso ‘volta pra carteira, patuá’. (risos) Como filha de Iansã, ele reforça o meu amor e acalenta o meu coração.”

Foto: Gabriel Soares

Fábio Francisco de Oliveira Santos, 32 “Há três anos eu estava com um amigo e sofri um acidente. Um rapaz alcoolizado veio na contramão e bateu de frente com o carro. Os dois veículos ficaram em estado de Perda Total e só tivemos ferimentos leves. Dos meus pertences, muita coisa foi perdida com o impacto, mas uma parte do patuá continuou comigo, o Oxossi. Diante da gravidade do acidente, ter sido livrado foi uma proteção do patuá.”

Foto: Heitor Oliveira

Jéssica Greice, 25 “Sempre carrego o meu patuá na carteira. Todos eles têm função de proteção e por isso levo o meu para todos os lugares. Além disso, o amuleto me traz prosperidade. Nunca fico sem dinheiro, pelo menos 2 reais na carteira sempre vai ter. Ele sempre provém algo pra mim, seja financeiramente, abrindo caminhos, com o trabalho. O certo é que nunca falta nada, seja material ou espiritual.”