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EmCantos http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos Correio24h Wed, 18 Jan 2017 21:08:24 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 10 vezes em que a Bahia foi lembrada pela música http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/15-vezes-em-que-a-bahia-foi-lembrada-atraves-de-musicas/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/15-vezes-em-que-a-bahia-foi-lembrada-atraves-de-musicas/#respond Thu, 15 Dec 2016 21:22:13 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2385 […]]]> Por Jordan Dafné

É irresistível escutar  a voz de Compadre Washington pedindo para a gente segurar o tchan e não lembrar do rebolado baiano, ou ouvir o suave violão das clássicas  canções de Caymmi e não se teletransportar para uma tarde de sol em itapuã. A relação da Bahia com a música é tão forte que cada letra acaba sendo associada a lembranças de momentos vividos nessa terra onde os hábitos, crenças e cotidiano do povo ganham diferentes ritmos. Que música te faz lembrar da Bahia? Selecionamos 10 reações super divertidas de usuários do Twitter  ao lembrarem do estado por meio de composições baianas.

É mais complexo do que ser ou não ser…

Uma caipirinha pode ajudar a entender as metáforas de Caetano.

Bota a mão no joelho, dá uma baixadinha…

O que é mais gostoso que pôr do sol na Barra com violão?

Lugar com música melhor? Eu quero é prova…

Todos querem saber!

Não basta as músicas serem inspiradas em cantos, tem que tocar em todo canto!

Gil… homão

Gal não só sabe, como fez questão de mostrar…

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BAHIA CANTADA: Ouça a playlist definitiva sobre a Bahia http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/bahia-cantada/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/bahia-cantada/#respond Thu, 15 Dec 2016 20:39:35 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2366 […]]]> Por Jordan Dafné

“Se o Rio não escreve, a Bahia não canta.” Riachão conta que, quando jovem, leu isso em um jornal. Decidiu que dali em diante, seria diferente. Ele foi somente um dos muitos que retrataram em música as dores e as delícias da Bahia. O que Dorival, Riachão, Caetano e tantos outros começaram, vem inspirando novos artistas e ganhando continuidade ao longo das gerações. Para quem ainda duvidar, basta escutar a playlist que a equipe do Correio de Futuro preparou. Bahia Cantada contempla quase 200 faixas de músicas sobre a Bahia em diversos gêneros, escritas por mais de 50 compositores. Aperta o play!

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RESPOSTAS DO QUIZ – Você conhece músicas sobre a Bahia? http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/por-tras-do-som/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/por-tras-do-som/#respond Thu, 15 Dec 2016 20:21:25 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2332 […]]]> Jordan Dafné 

Todo mundo sabe o que é que baiana tem, o quanto é bom passar uma tarde em Itapuã e que toda menina baiana tem um brilho que só Deus dá. A Bahia é rica de personagens e lugares que inspiraram diversos compositores dentro e fora dela. Fez o Quiz Você conhece músicas sobre a Bahia? Então chegou a hora de descobrir as respostas e mais algumas curiosidades sobre as músicas e compositores que cantaram a Bahia de maneira singular e tratando de diversos aspectos da cultura baiana.

1- ALTERNATIVA D –  A verdadeira baiana incomoda sim!

Composta por Caetano Veloso e interpretada por Gal Costa, a letra de “A Verdadeira Baiana” descreve as características que uma baiana de verdade tem que ter: “A verdadeira baiana sabe ser falsa, salsa, valsa e samba quando quer. A verdadeira baiana é transafricana! É pós-americana, Rum, Pi, Drum-machine, Lé”. Segundo Caetano, uma verdadeira baiana faz o que bem quer, sem se preocupar com o que vão pensar e pode assumir diferente papeis na sociedade. Não incomodar ninguém é uma característica citada pelo compositor Geraldo Pereira para descrever a “Falsa Baiana”, letra também interpretada por Gal. A falsa baiana é aquela que não sabe sambar, que não chama a atenção quando chega, é aquela que não incomoda:

♪ A falsa baiana quando entra no samba/ninguém se incomoda, ninguém bate palma
ninguém abre a roda/Ninguém grita ôba

2- ALTERNATIVA C – Morena bela e peixe Mariquita é no Rio Vermelho

O Candeal Pequeno de Brotas é um bairro periférico de Salvador conhecido pela estética colorida das ruas e pelas diversas manifestações artísticas que a própria população promove. Carlinhos Brown nasceu no local e atualmente possui um projeto social na região chamado Pracatum. As características do local são muitas e foram cantadas em diferentes músicas, a exemplo de “Tiririca”, da Banda Mel, que fala do banho de bica que acontecia no bairro; “Zorra”, da Timbalada, que cita o espaço cultural Guetho Square Candyal e afirma que lá “cacique é rei do carnaval”; além da conhecida canção na voz de Ivete Sangalo “Levada Louca” que já avisa no primeiro verso “Tem festa no Candeal”. Morena bela e peixe Mariquita fazem parte de uma outra canção, composta por Roque Ferreira, chamada “Vi Mamãe na Areia”, que não fala sobre o Candeal, mas sim sobre o Rio Vermelho.

♪ No tempo que o Rio Vermelho tinha peixe Mariquita/E o terreiro Casa Branca, batia na Barroquinha/Quando em Água de Meninos, engenho de cana moia/Quando o terno do Arigofe, reisava na Soledade/E no largo dos Aflitos tinha samba de verdade

3- ALTERNATIVA B – O tambor do Ilê é o vulcão da Bahia

Wostinho Nascimento disse que o Olodum faz balançar pra lá e pra cá em “Olodum Pra Balançar”. Nem Cardoso escreveu que o toque do timbaleiro sacode o mundo inteiro em “Toque de Timbaleiro”. No entanto, foi Paulinho Camafeu que consagrou o tambor do Ilê Ayê como o vulcão do Bahia ao compor “Que Bloco É esse”, música que celebra a beleza do mais belo dos belos, como é conhecido o Ilê Ayê, bloco afro mais antigo de Salvador.

♪ Hoje terra vai tremer/Vulcão da Bahia é tambor de Ilê Aiyê

4- ALTERNATIVA B – Gil reparou no namorado da Garota do Barbalho

Apesar de ter muitas boas características, a garota do Barbalho não tinha malemolência e nem sabia tocar tambor, porque essas são peculiaridades que Saul Barbosa percebeu no “Menino do Pelô”, música interpretada por Daniela Mercury. Já a primazia para o bem e para o mal, e os defeitos que deus também dá não são exclusivos da garota do Barbalho, mas sim de “Toda menina baiana”, como o próprio Gil afirmou na canção de sua autoria. O que Gil mais cita na letra de “Tradição” não é a garota do Barbalho em si, mas o namorado dela. É ele quem chama mais a atenção do compositor:

♪ Namorava um rapaz que era muito inteligente/Um rapaz muito diferente/Inteligente no jeito de pongar no bonde/E diferente pelo tipo/De camisa aberta e certa calça americana/Arranjada de contrabando/E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde/Sempre rindo e sempre cantando/Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre/Sempre rindo e sempre cantando

5- ALTERNATIVA E – John Coltrane lançou o disco “Bahia”

John Coltrane, ou simplesmente Trane, foi um famoso saxofonista e compositor de jazz norte-americano. Em 1965, Trane lançou o álbum “Bahia” pela Prestige Records. O álbum conta com 5 faixas instrumentais que mesclam o clássico jazz com elementos da música baiana, inclui tambores, pianos, saxofone e trompete. A faixa-título é, na verdade, a releitura da cifra de “Bahia” do compositor brasileiro Ary Barroso. Gravado no estúdio de Rudy Van Gelder, engenheiro de som especializado em jazz, o álbum foi bem recebido pela crítica internacional. Recebeu 3 de 5 estrelas do portal internacional AllMusic e da Rolling Stone Jazz Record Guide.

6- ALTERNATIVA C – No vatapá de Caymmi não entra tomate e cheiro verde

No vatapá de Caymmi entra, fubá, dendê, castanha de caju, gengibre, cebola, amendoim, camarão, coco e principalmente uma nêga baiana que saiba mexer. Só não entra o tomate e o cheiro verde, que são ingredientes inclusos em receitas mais modernas.

7- ALTERNATIVA C – Lazzo e Jorge não citaram o Pelourinho em “Alegria da Cidade”

Composta por Lazzo Matumbi e Jorge Portugal, a canção “Alegria da Cidade” ficou famosa na voz de Margareth Menezes, que levou a música mundo afora ao interpretá-la no tradicional Montreux Jazz Festival, na Suiça, em 2006. Apesar da canção citar diversos locais ligados a cultura afro-baiana, o Pelourinho é o único que fica de fora da letra. Porém, o Pelô recebe atenção especial numa canção do Olodum que também retrata a relação da Bahia com a ancestralidade de outros lugares, a famosa “Faraó, divindade do Egito”:

♪ Pelourinho, uma pequena comunidade/Que porém Olodum unirá/Em bracos de confraternidade/Despertai-vos, para a cultura egípcia no Brasil

8- ALTERNATIVA A – A morena mais frajola da Bahia está na Baixa dos Sapateiros

Na música “Lapa”, a banda de pagode Saiddy Bamba encontrou roupas e acessórios super baratos como a lupa de 10 reais, que se cair no chão não presta mais, e o tênis da nike, que se molhar começa a descolar. Enquanto isso, Paulinho Camafeu em “Que Bloco é esse?”, revela que a Liberdade “é um bairro que a alma quer visitar, lave a boca, limpe os pés, na pisa que for levar”. Já Dorival Caymmi sente falta do coqueiro, da areia e da morena de Itapoã, que não é a mais frajola da Bahia. Esta, encontra-se “Na Baixa dos Sapateiros” e recusou os beijos e carícias de Caetano Veloso. Mas não foi só Caetano que sofreu pelas garotas de Salvador. Raul Seixas implorou para que a “Menina de Amaralina” voltasse para seus braços:

♪ Menina de Amaralina/eu quero o seu amor/Menina/Oh, menina linda/Volta por favor

9- ALTERNATIVA D – A Salgueiro cantou que felicidade também mora na Bahia

No ano de 1969 a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro levou para o carnaval carioca o enredo “Bahia de todos os deuses”. O samba, que enaltece entidades do candomblé e riquezas naturais da flora baiana foi composto por Bala e Manuel Rosa:

♪ Preto Velho Benedito já dizia/Felicidade também mora na Bahia/Tua história, tua glória/Teu nome é tradição,/ Bahia do velho mercado/Subida da Conceição/És tão rica em minerais/Tens cacau, tens carnaúba/Famoso jacarandá/Terra abençoada pelos deuses/E o petróleo a jorrar

No ano de 2009, a Viradouro tentou reeditar o samba, mas o regulamento do ano não permitiu a apresentação de reedições de composições. A música também foi interpretada por grandes nomes nacionais, dentre eles, Elza Soares e Jair Rodrigues. Vale lembrar que, em 1986 a Estação Primeira de Mangueira, também utilizou a Bahia no enredo “Caymmi Mostra Ao Mundo o Que a Bahia e a Mangueira Tem”.

10- ALTERNATIVA B – Batatinha contou a história de Jájá da Gamboa

“Jájá da Gamboa” foi a primeira música gravada de Batatinha. O consagrado compositor baiano começou a escrever aos 15 anos e seu nome artístico pegou depois que o locutor Antônio Maria lhe chamou pelo apelido. Ninguém nunca entendeu o motivo, mas o nome permanece até hoje. Batatinha era um ótimo tocador de caixinha de fósforo e o instrumento ajudava a ritmar suas composições. Ao longo de sua vida, Batatinha conquistou grandes êxitos, como músicas nas trilhas de filmes de Glauber Rocha e regravações de Maria Bethânia. Batatinha faleceu ao 77 anos, em 1997.

11- ALTERNATIVA C – A mulher de roxo não caiu no samba

As meninas da Ribeira e do Alto do Candeal não resistiram e caíram no samba da Timbalada, como narra Jaimme Bahia na letra de “Sambaê”:

♪ Menina do alto do Gantois/Menina da Ribeira/Menina do alto do Candeal/Menina dessa cidade negra/Sambaê/Sambaê, samba/Samba menina/Sambaê/Sambaê, samba/Na Timbalada

Mas não foram só as novinhas que entraram na dança, Carlinho Ganso e Badegão revelam em “Vovó no Samba” que uma vovó envergonhada, depois que tomou licor, ficou toda debochada, entrou no samba e não quis mais sair. Eles tiveram que gritar “tira vovó daí”. Já Carlinhos Brown descreveu em “Maria Caipirinha” uma mulher essencialmente forte e baiana, que sabia fazer feijoada, tinha as mãos calejadas, e claro, bailava toda molhada.:

♪ Samba da Bahia…/Vem Maria Nega Tetê/Tetetê tetê/Vem Maria toca o dindê/Tetetê tetê/Vem Maria, quero você/Tetete tetê/Vem Maria para a Bahia/Tetete tetê/Vem Maria Caipirinha/Tetetê tetê

A única das baianas que não caiu no samba foi a misteriosa “Mulher de Roxo”, cantada e composta pela banda de rock baiano Cascadura em parceria com a cantora, também baiana, Pitty. A música descreve uma mulher que andava com trajes roxos na Rua Chile. Ninguém sabia de onde ela vinha, nem para onde ela iria, sua aparência remetia a uma bruxa e todos tinham medo dela. Identificada como Florinda Santos, a mulher de roxo inspirou uma personagem de Glauber Rocha no filme “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969)”. As teorias sobre a origem daquela curiosa criatura que morava nas ruas eram diversas, muitos diziam que ela tinha enlouquecido por conta de uma desilusão amorosa, outros relatavam que há tempos atrás ela era muito rica, porém tinha perdido tudo. Na época, a imprensa publicou algumas notas sobre o caso.

12- ALTERNATIVA E – No Farol da Barra não tem esteira de vime

Composta por Caetano Veloso e Luiz Galvão, “Farol da Barra” ficou conhecida com os Novos Baiano. A letra canta o que acontece em um dos pontos turísticos mais requisitados da Bahia quando o sol se põe:

♪ No Farol da Barra, o encontro é pouco/A conversa é curta, tudo é tão rápido como se furta/Como a luz bate nas águas/Como tudo que se passa/Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do-sol

Caetano e Galvão ainda fazem uma profecia: “até o ano 2000, o Farol além do pôr-do-sol será o pôr-do-som”. A profecia se concretizou, pois em 2009 a cantora Daniela Mercury batizou seu tradicional show no primeiro dia do ano de “Pôr do Som”. A relação entre a letra e o evento não foi muito harmoniosa, uma vez que no ano passado Luiz Galvão decidiu processar Daniela pelo uso não autorizado do termo. Dentre as muitas coisas presentes no Farol da Barra, só não está a esteira vime. A esteira a gente encontra na clássica “Tarde em Itapuã” de Toquinho e Vinicius, junto a água de coco e preguiça do corpo:

♪ Um velho calção de banho/O dia pra vadiar/Um mar que não tem tamanho/E um arco-íris no ar/Depois na praça Caymmi/Sentir preguiça no corpo/E numa esteira de vime/Beber uma água de coco

13- ALTERNATIVA B – Na Bahia tem ecó e ebó

É claro que na Bahia tem farofa e dendê, caruru e mel de uruçu, maniçoba e óleo de peroba. No entanto, essas coisas não foram citadas na letra de “Na Bahia tem” composta por Marcus Viana e interpretada por Jorge Benjor. Além das especiarias culinárias, a música cita também as oferendas do candomblé, conhecidas como “ebó”.

♪ Na Bahia tem, tem, tem/Na Bahia tem ecó/Na Bahia tem caruru/Na Bahia tem ebó/Na Bahia tem vatapá/Na Bahia tem mugunzá/Na Bahia tem acarajé/Na Bahia tem apará/Na Bahia tem candomblé

14- ALTERNATIVA E – Roque Ferreira só não viu o Ilê passar

A composição de Roque Ferreira, “Vi mamãe na areia”, conta muitas coisas que podem ser vistas na Bahia antiga. O Ilê não é uma delas. Na música “O mais belo dos belos”, Valter Farias conta que o Ilê sobe a Ladeira do Curuzu, que fica entre a Liberdade e a San Martin, fazendo a galera pular de alegria e curtir o charme da liberdade:

♪ Quem é que sobe a ladeira do Curuzu?/E a coisa mais linda de se ver?/É o Ilê Ayê/O Mais Belo Dos Belos/Sou eu, sou eu /Bata no peito mais forte/E diga: Eu sou Ilê/Não me pegue não, não, não/Me deixe à vontade/ Não me pegue não, não, não/Me deixe à vontade/Deixe eu curtir o Ilê/O charme da liberdade/Como é que é?/Deixe eu curtir o Ilê/O charme da liberdade

15- ALTERNATIVA D – Caetano sentiu a falta de um amor secreto

As saudades da Bahia foram inspirações de muitos compositores Baianos, mas cada um deles sentiu falta de aspectos diferentes. Caymmi se arrependeu de não ter escutado os dizeres da mãe em “Saudades da Bahia”:

♪ Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia/Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia/Bem, não vá deixar a sua mãe aflita/A gente faz o que o coração dita/Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão

Já Gil, colocou seus sentimentos para fora em “Back in Bahia” e revelou que ao contemplar a paisagem de Londres, sentia falta do mar da Bahia, “Do luar que tanta falta me fazia junto do mar, mar da Bahia, cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar, tão diferente, do verde também tão lindo dos gramados campos de lá”. O que Caetano sentiu falta mesmo foi de um amor secreto, que só a Virgem Maria sabia, como ele canta em “Quando eu penso na Bahia”:

♪ Eu deixei lá na Bahia/Um amor tão bom, tão bom ioiô/Meu Deus que amor/Que desse amor só quem sabia/ Era a Virgem Maria/Nasceu cresceu e lá ficou

O sorvete de cajá, no entanto, nada tem a ver com saudades da Bahia. É o título de uma música do grupo Suinga, que conta a história de um garoto apaixonado que, enquanto esperava ser notado por sua paixão, tomava sorvete de cajá.

♪ Enquanto mais ou menos espero/Eu fico cá a te olhar/Ao mesmo ponto ou tempo espero/Quem sabe se vai me notar?/Enquanto eu cá, você ali/Eu fico assim,/Que eu me preocupo com meu suspiro/Mas o bom que é mesmo nesse ponto/Tem sorvete de cajá

 

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QUIZ – Você conhece músicas sobre a Bahia? http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/quiz-voce-conhece-o-som-da-bahia/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/quiz-voce-conhece-o-som-da-bahia/#respond Thu, 15 Dec 2016 19:57:14 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2299 […]]]> A menina que andava pelo Barbalho, o pôr do sol, o cheiro de acarajé, o rebolado da morena, cada elemento do cotidiano inspira letras e melodias. É a realidade baiana sob um olhar poético. Este olhar pode vir de Caetano ou de Gil, de bandas novas como Suinga ou do É o Tchan, de Silvano Sales e Psirico. Até mesmo um mestre do jazz clássico que viveu em outro continente já cantou a Bahia. Independente do gênero musical, conhecer as músicas sobre a Bahia é conhecer ela própria com todas peculiaridades. Você conhece?

Responda o quizz abaixo com 15 questões a respeito de composições (algumas não tão populares assim), mas que falam de gente, lugares e encantos bem baianos. Mizeravão, inocente ou fulêro todo? Descubra o quanto você sabe sobre o estado que abriga a cidade da música.

CONFIRA AS RESPOSTAS CORRETAS

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Nos tempos de Gil http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/nos-tempos-de-gil/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/nos-tempos-de-gil/#respond Fri, 16 Dec 2016 20:32:18 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2594 […]]]> Por Maryanna Nascimento

Não fazia tanto calor naquela tarde mas Fernando me recebeu sem camisa, esbanjando o físico de ex-Rei Momo que não perdeu a majestade e continua conservando mais de cem quilos. Sem titubear, pegou o telefone e ligou insistentemente para três ou quatro mulheres. Uma delas era Elisabete, que ficou encucada com a chamada e não demorou a chegar. “Bete, venha aqui em casa agora. Tenho uma amiga que precisa muito falar com você”. Fernando Antônio Reis, 38, é assim: um fixer, aquela pessoa que assume o papel de guia e conhece cada beco e pessoa do local. Nesse caso, o Barbalho. Se o vendedor fosse contemporâneo de Gilberto Gil, certamente o artista não teria dúvidas sobre a identidade da “garota do barulho”, musa da música Tradição, que canta o bairro na década de 50. Fernando daria a ficha completa.

O bairro do homem dos contatos está remendado a muitos outros lugares: Macaúbas, Lanat, Pela Porco, Santo Antônio… As terras pertenciam a Luiz Barbalho Bezerra, militar pernambucano que lutou na defesa contra os holandeses. O lugar foi um dos palcos de batalha pela Independência do Brasil na Bahia e no forte do século XVIII, que recebe o mesmo nome do bairro, a primeira bandeira do país independente foi hasteada.

 

♪ Conheci uma garota que era do Barbalho, uma garota do barulho…

 

No fim da década de 70, Gilberto Gil compôs Tradição, com lentes voltadas para duas décadas antes do seu lançamento. Os personagens da canção, que eram reais, faziam parte do imaginário do cantor durante a juventude. “Conheci uma garota que era do Barbalho, uma garota do barulho”, é a frase que abre a música, lançada no álbum Realce, de 1979. Segundo o artista, ele era quase menino, aos 12 ou 13, quando se apaixonou pela tal garota, de 17 ou 18 anos, que chamava a atenção no bairro e dele, em especial. “Era meu desejo sexual”, revela ao jornalista Carlos Rennó no livro “Gilberto Gil – Todas as Letras” (1996). Hoje, seis décadas depois da vivência do Gil adolescente, muitas “garotas” ainda continuam fazendo barulho no bairro do Centro Histórico de Salvador.

 

Foto: Heitor Oliveira

Tal mãe, tal filha

Elisabete. Em 2002, então com 14 anos, Elisabete Monteiro teve as primeiras experiências de porra-louquice. “Daria para escrever um livro, ‘Aos 14’”, confessou, aos risos, fazendo referência a um famoso filme sobre adolescentes rebeldes. Nesse período, fez o primeiro piercing, a primeira tatuagem e arranjou o primeiro namorado. No ano seguinte, se tornou body piercer em um estúdio. “Só botava em conhecidos, porque era ‘de menor’. Cheguei a furar umas 50 pessoas”, contou a estudante de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia. Boa parte delas, influenciadas pela própria Elisabete, que fazia o tipo popular. Ela era aquela que pulava o muro da Escola Divino Mestre para beber no fundo da Paróquia do Santo Antônio. A bebida queridinha também carregava nome de santo: São Jorge. Hoje, aos 28, atrai admiradores pelo mesmo motivo: não está nem aí para nada e inclusive já foi paquerada com a música de Gil. O seu Instagram, com mais de 2 mil seguidores, mensalmente tem um nude postado, o que deixa cabisbaixa a sua mãe. “Não acho legal, as pessoas são maldosas”, disse Rosana, enquanto olhava fixamente para os olhos da filha, provavelmente na esperança de fazê-la mudar de ideia. A sua mãe, apesar de ser contra os nudes, não tem maiores reclamações sobre as cinco grandes tatuagens e os três piercings na sua cria. Ela, inclusive, foi quem colocou a filha no caminho do barulho. “Minha mãe me levou para os meus primeiros shows. Vi com ela Novos Baianos”.

Rosana. “Mãe, lembra daquele dia em que vimos um disco voador ali?”, apontou Elisabete para o crepúsculo que pintava o céu no Largo do Santo Antônio. Rosana Maria de Santana, 54, lembrava. “Sim, os extraterrestres. Eles são nossos irmãos”, confirma. Tirando a violência, não há mais nada que lhe desperte descrença nesse mundo. Já teve contato com gnomos, duendes e até com as águas. Águas da Lagoa do Abaeté, diga-se de passagem. Foi lá onde, na década de 80, construiu um barraco de madeirite e foi morar sozinha, a convite da própria lagoa escura arrodeada de areia branca. “Eu fui conhecer a lagoa e ela me fez um chamado. ‘Você vai morar aqui’”. Por influência de uma amiga, no mesmo período acabou ingressando no curso de Farmácia da UFBA. Hoje, farmacêutica, carrega uma contradição: dificilmente deixa um medicamento de laboratório entrar na sua casa. A energia das plantas, a homeopatia e a espiritualidade cuidam de tudo. No meio disso, a mulher de cabelos escorridos, com mechas brancas, que carrega uma feição indígena, também é uma colecionadora de vivências efêmeras. Já foi da turma do bodyboard, stand up paddle, slackline e atualmente está construindo um tambor xamânico. “No final, não dou sequência a nada, o que gosto mesmo é de fazer coisas de jovem”.

 

Foto: Gabriel Soares


Vovó do barulho

Joaninha. Escanteio, pênalti, impedimento, tiro de meta são termos comuns para quem se interessa por futebol. A aposentada Joaninha gosta muito de ver jogos em estádio, mas desconhece o significado da maioria dessas expressões e inclusive teve dificuldade em entender a lógica do ‘gol’. “Uma vez que fui ao Barradão com o meu filho, o Bahia fez um gol e eu comemorei igual a uma maluca, com a mão na cabeça”, lembra. A ocasião era um Ba-Vi e Célia estava na torcida do Vitória, a qual ela acompanha há três anos com frequência. Joaninha ou Célia? De batismo é Maria Joana Jesus Santana, mas ela tem um nome em cada canto: Veia, Célia, Iá, Bia, Joaninha. “Mas eu não faço nada de errado”, diz, ao justificar o motivo de tantos codinomes. Além de ser uma fiel seguidora do Leão, ela também bate ponto nos shows de Tatau, outro rubro-negro. Não à toa, já é conhecida dele e tem lugar garantido no palco. “Se um dia ele não me chamar, ficarei magoada”. Joaninha, 76 anos, não abre mão de fazer bagunça: virou a noite no último Carnaval e só chegou depois de o sol raiar, preocupando a filha; já subiu em árvore para ver Ivete e gosta de ficar “no meio da putaria” quando vai ao Barradão. “É claro que eu sou do barulho”, garante.

 


Os 50’s que Gil viu

“No tempo em que o Centro Histórico era realmente o centro da cidade…”, poderia cantar Gil, se Tradição fosse escrita hoje, com os olhos para os anos 50. Centro econômico, social e cultural da década, o local era o quintal do artista, que vivia no Santo Antônio Além do Carmo quando adolescente. Relembrando as histórias narradas nos versos da canção, especialistas e personagens que viveram no período comentam o que era a tradição.

♪ (…) Namorava um rapaz que era muito inteligente, um rapaz muito diferente, inteligente no jeito de pongar no bonde (…) E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde

 

Foto: William Janssen / Samsung museum


Quando Gil era garoto, os bondes ainda predominavam em Salvador. A sua eletrificação havia se dado há cinco décadas, em 1897. Antes disso, os veículos eram movidos a tração animal e se chamavam “bondes de burro”. Com a segunda linha de bondes elétricos do Brasil, a capital baiana teve o chão coberto de trilhos que estavam presentes da Cidade Baixa à Alta. Em meados da década de 50, porém, a qualidade dos serviços não era boa e o prefeito Hélio Machado decidiu encampar a Companhia Circular Carris da Bahia, criando o Serviço Municipal de Transporte Coletivo (SMTC). A retomada do serviço pelo Poder Público não teve sucesso e aos poucos os bondes pararam de rodar. A desativação total se deu pouco tempo depois, nos anos 60, durante o governo do prefeito Heitor Dias.

Sabino Braga, 70, é um ex-pongador de bonde. “Os bondes saíam da Praça da Sé e quando passavam pelo Santo Antônio, antes de chegar ao ponto, pulávamos pra dentro. Os motorneiros ficavam brigando por causa da bagunça e tínhamos que correr pra eles não irem atrás. A nossa brincadeira era saltar antes antes do cobrador chegar, e aí era o momento de despongar”, lembra o aposentado, mestre auto-credenciado na arte de saltar desses veículos em movimento. “Despongar é o pior. Você tem que ter equilíbrio, precisa correr compassado. No meio disso tudo, ainda tinha espaço para competição: pegar na Rua Direita e descer na Marchantes, pra ver quem era o mais rápido e saltava mais vezes do bonde”, conta.  

Foto: Reprodução


♪ De camisa aberta e certa calça americana, arranjada de contrabando

O sonho de consumo dos garotões da época eram as calças das marcas Lee e Levi’s. O único problema era que o desejo não se realizava com tanta facilidade. As roupas eram produzidas no exterior e o Brasil tinha taxas altíssimas que intimidavam o mercado, fazendo com que a mercadoria sequer ousasse atravessar legalmente a fronteira. Para ficar na moda, portanto, existiam duas opções: aproveitar a viagem internacional e fazer a compra, ou pegar na mão dos atravessadores, que vendiam a mercadoria de forma ilegal, conseguida com viajantes que chegavam de navio no Porto de Salvador. “As calças podiam custar o equivalente a 200 reais hoje, e sequer precisavam ser originais. O importante era mostrar o selo da marca”, comenta Raimundo Torres, consultor em economia exterior.


♪ No tempo que Lessa era goleiro do Bahia, u
m goleiro, uma garantia…

Entre 1947 e 1955, a defesa do Bahia teve o posto ocupado pela mesma pessoa: Walter Lessa. O goleiro magrelo, que nasceu lá em Recife, Pernambuco, saltava como ninguém e não deixava (quase) nada passar – apesar de ter dado zebra e perdido os dois primeiros jogos com a camisa tricolor. “Lessa, 1,77m e apenas 60kg, ‘orelhas de abano’ e com seu indefectível gorro lembrava os filmes de terror em que Boris Karloff ou Bella Lugosi eram os artistas principais”, descreve Nestor Mendes Jr no livro Esporte Clube da Felicidade: Bahia. Apesar da sua estranheza estética, de uma coisa não se pode reclamar: Gil estava certo quando disse que ele era uma garantia.

♪ No tempo que preto não entrava no Bahiano, nem pela porta da cozinha…

Foto: Reprodução

Naquela manhã de segunda, o clube não estava movimentado, apenas uma das quadras de tênis estava ocupada. Dois jogadores faziam acrobacias para sustentar a bola verde cana no ar. Um, negro; o outro, branco. Esse, aluno; aquele, professor. Completando o seu centenário, hoje o Clube Bahiano de Tênis tem negro entrando pela porta da frente. Em algum momento não foi assim?

Gil cantou que sim, Waldir diz que não. Waldir Figueiredo é um senhor de 92 anos que há 66 trabalha no clube como gerente. Ele, que se diz mulato, é enfático ao afirmar que “tudo isso de preto não entrar no Bahiano é um folclore”. Segundo o senhor de olhos verdes, o que sempre existiu foi uma questão de “qualidade social”. É muito simples entender: se você carregava sobrenomes como Catarino, Correia Ribeiro ou Gordilho, o passe já estava garantido. “Bahiano era tradição”, reitera. Hoje, seis décadas depois, o que vale mais é o poder aquisitivo. Mas se preto quiser entrar, ele entra. Basta ter uma gorda conta bancária.

♪  Indo do bairro pra cidade. Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro, pra onde todo mundo ia todo dia, todo dia, todo santo dia…

 

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

“O Largo do Terreiro era o coqueluche”, disse com voz saudosista o Porfírio Amoedo, 84, proprietário do bar Cruz do Pascoal, no Santo Antônio. Coqueluche é uma expressão da época que fazia referência à doença infectocontagiosa e quer dizer “o que se pega em todo mundo, modismo”. Essa era uma boa definição para o Largo do Terreiro, o Terreiro de Jesus. O local era o centro da cidade e agitava a Salvador da década de 50. Magazine Duas Américas, primeira loja de departamento da Bahia e a primeira com escada rolantes da cidade; Sloper, loja voltada para o público feminino; o Bar Cacique e a Pastelaria Peres eram só alguns dos locais que atraíam a juventude. “O Terreiro de Jesus era o largo da Faculdade de Medicina, da Catedral Basílica, da Academia de Letras. Era um largo da elite, de intelectualidade e juventude. Como tinha faculdade, tinham estudantes. No intervalo de aula iam se divertir, era um ponto fervilhante”, diz o urbanista e historiador Chico Senna, 64.

♪ No tempo quem governava era Antônio Balbino, no tempo que eu era menino…

Antônio Balbino foi governador da Bahia entre 1955 e 1959. O maior marco do seu governo foi a construção do Teatro Castro Alves. Uma semana antes da inauguração, porém, o teatro sofreu um incêndio e só pode ter as portas abertas em 1967, durante o mandato de Lomanto Júnior. Enquanto o TCA se recuperava, “alguns espetáculos já contratados acabaram sendo no Instituto Central de Educação Isaías Alves Geral (ICEIA), do Barbalho”, comenta o pesquisador Nelson Cadena. “Nesse teatro, também ensaiavam os grandes artistas baianos”, completa.

 

 

 

 

 

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Eu sou negão http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/eu-sou-negao/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/eu-sou-negao/#respond Thu, 15 Dec 2016 20:12:53 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2343 […]]]> Por Heitor Oliveira

Quando alguém fala o termo “negão”, é comum que muitas ideias e fantasias  passem pela cabeça de muita gente. A figura do negão que povoa o imaginário como um símbolo sexual é conhecida, mas, claro: não representa nem traduz os negros. Para  Gerônimo, cuja música  inspira esta fotorreportagem, ser negão é trazer consigo “toda sua beleza, com toda a sua arte, com toda a sua religião”.

                           

Para entender um pouco mais sobre o assunto, o CORREIO de Futuro ouviu representantes da negritude que se destacam em diversas  áreas. Eles transcendem estereótipos. A partir de  suas convicções e experiências de vida,  contam o que é ser negro ne como enfrentar o racismo. Cada um a seu modo,  eles militam diariamente para combater o preconceito.

Nas vozes de um vereador, um poeta, um estudante universitário e um rapper, a reportagem explora diferentes olhares sobre formas de enfrentamento da discriminação e  o senso de comunidade cada vez mais fortalecido entre os negros que vivem na capital baiana.

Silvio Humberto
SÍLVIO HUMBERTO, 53 ANOS, VEREADOR: “Você tem que ser feliz, trabalhar e fazer política. Eu consegui fazer isso. E entrar na carreira de vereador foi uma consequência de um esgotamento de uma visão de fazer política. Desde os 18 anos venho na militância do movimento negro e aprendendo nessa trajetória que você não tem saídas individuais quando você enfrenta algo tão complexo como o racismo. Coletivamente, nós vamos muito longe e individualmente você faz o que é possível. Então você precisa fazer disputa política para ampliar os espaços, para que o esforço individual se materialize”.

Vereador da Câmara Municipal de Salvador pelo PSB,  eleito em 2016 para o segundo mandato, Sílvio Humberto, 53,  é diretor fundador do Instituto Cultural Beneficente Steve Biko, que há 24 anos abriga um curso pré-vestibular voltado para os jovens negros, onde além das disciplinas comuns, há aulas voltadas para cultura e consciência negra, assim  os jovens  que entram na universidade têm “outra cabeça, e vão enfrentar outros obstáculos”. “Eu sou daqueles que o sistema disse ‘ o cara se esforçou, teve boa educação’ mas eu também virei um ponto de inflexão”, reflete, “eu olhava para os meus pares e via onde eles estavam”.

Doutor em Economia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Sílvio afirma que o racismo “é anti-econômico”. “Por que as mulheres levaram um bom tempo não tendo maquiagem específica para as peles se as peles são diferentes? O problema não era a técnica. Se o padrão funciona, se quem está lá não reclama, eu vou produzir no padrão. Quando você não reconhece a especificidade desse mercado, você, por exemplo, não reconhece pessoas negras como modelos e deixa de gerar trabalho e renda”. Segundo ele, se há uma “consciência” das pessoas que começam a questionar,  o mercado “começa a lembrar que tem uma pele negra que é diferente da branca”.

2
JACK NASCIMENTO, 29, DJ: “O tempo de ficar acuado sem questionar  já passou. Hoje nós sabemos que nossos lugares são iguais aos de todo mundo”.
Preconceito

“Quando você entra numa loja de shopping, a primeira pessoa que eles desconfiam é o negro, trabalho em loja, vejo isso”, afirma Jackson Diego Nascimento Paula,29. “Quando nós fazemos uma coisa, não podemos fazer o básico. Para eles não é suficiente, a gente tem que mostrar que merece aquele lugar”. Além do trabalho na livraria de um shopping, Jack Nascimento cursa o 7º semestre de design na Uneb. Para ele, se aceitar como negro é um processo difícil. “Somos constantemente ensinados que somos inferiores. Já me disseram que eu nunca seria ninguém na vida, ia trabalhar como burro de carga porque eu não tinha intelecto para isso”. Vindo da periferia do município de Catieté, a 645km de Salvador, Jack é o primeiro de sua casa a fazer universidade.

DJ

Se de manhã o trabalho é duro, à noite também, mas é mais divertido. Jack é DJ e também atua na organização da primeira festa voltada para o público negro e LGBT de Salvador, a Batekoo, que definiu como um “porto seguro”, um lugar onde as pessoas não serão julgadas.

Mr Armeng
MR. ARMENG, 33, RAPPER: “Eu fiquei um tempo parado porque eu queria fazer um som que fosse a cara de Salvador, sempre gostei de ter o nosso pertencimento, que tenha o suingue, o nosso vocabulário, que fale da nossa cultura, da identidade. Ser negro é resistir, é quebrar barreiras, é aceitar desafios, é ter a resistência na ponta do pé, na ponta da língua, nas nossas atitudes. Aqui é uma cidade negra, e a gente precisa mostrar que precisamos ser respeitados, que essa ela precisa amar a gente, que ela precisa valorizar tudo que nosso povo fez por essa cidade, porque sem os negros Salvador não era nada”.

Identidade

“Sempre convivi com cultura negra, mas quando criança passava despercebido”. Ao pensar em negritude, Mauricio dos Santos Souza, 33, lembra dos quadros que seu pai, o cantor Guiguio do Ilê, trazia dos Estados Unidos. “Tinha Marvin Gaye, The Jacksons 5, eu não conhecia”. Podia ter ido para a música afro, mas o que me tocou foi o hip-hop; dentro da cultura negra me identifico com isso”.

Hip-hop

“Quando estudei no Manoel Novaes, escola envolvida com música, a professora me disse ‘pare, você não serve para cantar’, achei que nunca seria da música, e o hip-hop me disse ‘não, cara, você pode rimar’”. Em 2006, Maurício saiu do emprego como frentista e usou a recisão para investir na música. Comprou equipamento e montou o Freedom Soul, estúdio focado em rap que em 2016 faz dez anos. Em 2013, ele venceu o concurso Breakout Brasil, que lhe rendeu contrato com a Sony Music e visibilidade.
Pertencimento
Para Armeng, a periferia é cercada de maus exemplos, por isso é importante continuar na comunidade. “Eles podem olhar e dizer ‘ esse representa’.

Sandro Sussuarana

SANDRO SUSSUARANA, 28, PRODUTOR CULTURAL: “O mais importante é compreender que você é lindo. Que a sua estética é maravilhosa, seu crespo é maravilhoso, é olhar no espelho e dizer ‘caraca! Hoje eu acordei mais bonito que ontem e com certeza menos bonito que amanhã’. É fazer um exercício de autoestima diário para que nada de fora possa mudar esse seu pensamento ou te colocar para baixo.”

Jornada Tripla

Pela manhã, Sandro Ribeiro dos Santos, 28, estagia numa empresa de engenharia, e à noite estuda serviço social na Fundação Visconde de Cairu. Entre as aulas e o trabalho, Sandro equilibra as atividades de membro fundador do grupo Ágape, coletivo que organiza o Sarau da Onça, acontece no bairro de Sussuarana. Há cinco anos, o projeto sem fins lucrativos traz músicos, poetas e outros artistas para estimular no público o senso crítico e a consciência negra. “É mostrar para essa geração pós-eu que é possível a gente alcance destaque positivo, seja dentro da mídia ou fora dela”, afirma.

Poesia

Embora não viva de sua poesia, Sandro colhe diariamente os frutos do trabalho na forma de convites para se apresentar, junto ao grupo Ágape, em diversos eventos, escolas e instituições, e até já viajou para outras cidades da Bahia e do Brasil para apresentar seu trabalho.
Em 2014, ele organizou os livros “O Diferencial da Favela – Poesias quebradas de quebrada”, que reúne poemas de 50 autores de Salvador, e “A poesia cria asas”, do grupo Ágape. Mais que um título, a frase representa a convicção do poeta no poder das palavras.
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Peça (de) proteção http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/peca-de-protecao/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/peca-de-protecao/#respond Thu, 15 Dec 2016 20:10:10 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2338 […]]]> Por Maryanna Nascimento

Por volta do século XVIII, João da Silva foi preso sob a acusação de carregar uma bolsinha de couro com objetos furtados da Igreja. Dentro da bolsa, havia uma hóstia consagrada, uma oração e pequenos pedaços de pedra d’ara. Os símbolos, considerados protetivos pelo escravo, eram apenas uma parte dos muitos elementos que se incluíam no patuá. O amuleto, hoje associado à cultura baiana, já guardou de búzio a trechos do Alcorão.

Iniciada no candomblé e atenta às questões culturais da cidade, a cantora Mariene de Castro traduz na canção Eu Carrego Patuá o tanto de fé que cabe em uma bolsa tão pequena: “Acima de todas as crenças, ela representa uma proteção, a fé que move montanhas, independe de credo ou religião”, resume. Não fosse pela presença dos africanos no Brasil colonial, talvez o amuleto não inspirasse a música cantada por Mariene e outras composições presentes na música baiana.

Provavelmente a origem da bolsinha, aqui na Bahia, está entre os povos islamizados que chegaram por volta do século XIX. Os amuletos traziam passagens do Alcorão e atraíam os demais africanos, seduzidos pelo poder da cultura escrita e da proteção espiritual. Por outro lado, “o amuleto usado no Brasil nos séculos XVII e XVIII representava a circularidade de ideias, religiões, costumes e pessoas que transitavam por diferentes sociedades Atlânticas”, afirma Vanicléia Santos, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de tese sobre o assunto. Ele se refere às sociedaes que se criaram em torno do trânsito de escravos entre continentes.

 

Aos poucos, a bolsa também se apropriou de elementos cristãos. Segundo Vanicléia, o amuleto podia trazer hóstias, orações e pedaços de pedra d’ara – pedra benta usada durante a missa para colocar o cálice e a patena com a hóstia. Ou ainda, elementos da natureza, como alho, enxofre e pedacinhos de ossos de animais.

Defesa

Independente das muitas ressignificações, uma coisa é certa: o patuá nunca deixou de ser símbolo de defesa e resistência. E teve papel importante, por exemplo, no século XIX, entre os participantes da Revolta dos Malês, rebelião na qual os negros lutavam pelo fim da escravidão e dos maus tratos. “Os amuletos foram um dos elementos mais importantes porque tinham a função de proteger o corpo”, ressalta Vanicléia. Durante a revolta, os malês carregavam as bolsinhas em volta do pescoço e nos bolsos. Os amuletos eram confeccionados por mestres muçulmanos que tinham a certeza da vitória.

Há 181 anos do levante, o objeto de resistência é usado para fins bem mais amenos. É vendido, por exemplo, como lembrancinha da Bahia, por pessoas como Neuza, 67 anos. Católica, ela vende o amuleto há mais de 40 anos, mas jura de pé junto que nunca entrou em um terreiro de candomblé. “Eu aprendi a fazer mas não tenho nenhuma relação com o candomblé”, confessa. Ela sequer conhece a história do objeto que a ajuda financeiramente. A única informação que guarda é a cor dos orixás, que usa para fazer a bolsinha, e um ou outro amuleto historicamente usado, como búzio e figa.

Com axé

Para o babalorixá Anderson Argôlo, do terreiro Ilê Axé Alá Obatalandê, comprar o amuleto é recebê-lo sem encanto. “O patuá é uma insígnia, um elemento que vai gerar energia e que deve ser feito dentro de um processo de axé. É preciso ter conhecimento para que essa força seja transmitida”, afirma.

Já pai Paulinho de Ogum Xoroquê, liderança do terreiro de umbanda Ilê Axé Ogum-Já, em Porto Alegre, não vê problema em comprar o amuleto. No entanto, ressalta, é importante que “o amuleto passe pelo ritual e que a pessoa esteja envolvida na preparação”, para gerar mais responsabilidade e compromisso.

O ritual a que Pai Paulinho se refere não é o mesmo para a umbanda e para o candomblé. Além do mediador, muda também o modo de fazer. Na primeira, a entidade incorporando o Preto Velho utiliza elementos que dão lugar ao sincretismo: “oração católica, figa, pimenta e moeda”. Uma oração envolvendo santos e orixás é o passo final para que o amuleto receba o axé. Já no candomblé, diz Anderson, o amuleto varia de pessoa para pessoa e os elementos utilizados serão definidos a partir disso. “No terreiro, jogamos os búzios e através das entidade do segredo, Ifá e Orunmila, o orixá será consultado e dirá qual vai ser a necessidade da pessoa”, explica.

 

EU CARREGO PATUÁ

 

Foto: Gabriel Soares

 

Fábio Fernandes Souza, 36 “Ganhei de uma entidade chamada Marujo. É um patuá de defesa, de proteção, que livra de energia negativa e inveja. Com ele eu realmente me sinto protegido. Certa vez eu estava em um estacionamento e houve um assalto. O homem roubou todos em volta, menos a mim. Quando eu percebi o assalto, estava com o meu patuá e pedi que ele não me enxergasse e o assaltante realmente não me viu. Eu sei que existe uma força maior do que eu, que intercede por mim. O patuá é uma das consagrações disso.”

 

 

Foto: Heitor Oliveira

 

 

Julliane Naiara da Silva, 27 “Para mim, ele significa sorte na essência. A propriedade espiritual que emana desse simples amuleto provoca a esperança do dia melhor. Ele é prosperidade, não apenas relacionado a dinheiro. Mas é certo: não me falta uma moeda. E o engraçado é que como ele sempre fica na carteira, é comum cair quando eu estou no caixa para pagar. As pessoas ficam olhando e eu penso ‘volta pra carteira, patuá’. (risos) Como filha de Iansã, ele reforça o meu amor e acalenta o meu coração.”

 

 

Foto: Gabriel Soares

 

Fábio Francisco de Oliveira Santos, 32 “Há três anos eu estava com um amigo e sofri um acidente. Um rapaz alcoolizado veio na contramão e bateu de frente com o carro. Os dois veículos ficaram em estado de Perda Total e só tivemos ferimentos leves. Dos meus pertences, muita coisa foi perdida com o impacto, mas uma parte do patuá continuou comigo, o Oxossi. Diante da gravidade do acidente, ter sido livrado foi uma proteção do patuá.”

 

 

Foto: Heitor Oliveira

 

Jéssica Greice, 25 “Sempre carrego o meu patuá na carteira. Todos eles têm função de proteção e por isso levo o meu para todos os lugares. Além disso, o amuleto me traz prosperidade. Nunca fico sem dinheiro, pelo menos 2 reais na carteira sempre vai ter. Ele sempre provém algo pra mim, seja financeiramente, abrindo caminhos, com o trabalho. O certo é que nunca falta nada, seja material ou espiritual.”

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Escondido é mais gostoso http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/escondido-e-mais-gostoso/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/escondido-e-mais-gostoso/#respond Fri, 16 Dec 2016 20:24:43 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2595 […]]]> Por Renata Drews

Toda quarta-feira, na hora do almoço, o burburinho começa num beco oculto, uma quebrada que deságua na Via Expressa Baía de Todos-os-Santos, avenida que corta dezenas de localidades da periferia de Salvador. Com espaço para transitar apenas um carro por vez, a rua sempre congestiona neste mesmo dia e horário.

O motivo do aperto é o cozido do Bar da Dida, que tem como cliente frequente Compadre Washington. “Sempre que tenho oportunidade, vou lá”, confessa o integrante do É o Tchan. Ele e Beto Jamaica doaram a voz para musicar o Beco do Cirilo na quase homônima Beco do Siri, sucesso de 2002, composto por Nêgo Júlio e Domingos Sérgio.

Na Rua 23 de Fevereiro, o Recanto do Jaguar prepara 15 quilos de cabeça de peixe toda quarta-feira

Numa cidade com 163 bairros, os melhores temperos não estão de bobeira por aí e nem são encontrados facilmente. Não adianta: se a gente sair perguntando onde sai uma boa feijoada ou uma boa moqueca, a resposta incluirá sempre becos e ruelas de bairros periféricos.

De boca em boca e de beco em beco, divulgam a notícia do cozido da Dida, na Caixa D’Água. Vem gente de tudo quanto é canto. Mas não só ele. E a farofa pernambucana de Rosinha, na estreita Ladeira do Paiva? Basta sentir o cheiro para a rua toda bater na sua porta. Não é restaurante. A galera fila o rango no queixão.

Tem também a feijoada de Patrícia, servida em meio a um vai e vem no Vale das Pedrinhas. Além da moqueca de Suzana, às vezes arraia, às vezes guaricema ou cabeçudo, sempre com vista para o mar da Avenida Contorno.

E que tal o escaldado de cabeça de peixe do Recanto do Jaguar, numa transversal da Avenida Garibaldi? Antes mesmo de entrar na Rua 23 de Fevereiro, já se sente o cheiro do prato servido como cortesia da casa.

No Beco do Cirilo, o Bar da Dida põe regra: som de carro é proibido

São estas e outras delícias caseiras que encantam a cidade e fazem muitos se deslocarem só para provar. Com a missão de encontrá-los, visitamos diversos cantos de Salvador e, provando uma a uma, pudemos confirmar: escondido é mais gostoso.

 

Sabe de nada, inocente!

A rua José Mariz Pinto, na Caixa D’Água pode até ser pouco conhecida, mas está longe de ser “ordinária”. Não conhece? Sabe de nada, inocente! Frequentemente, a viela é visitada por Compadre Washington, cliente regular de Dida, que prepara uma especialidade por dia, de terça a domingo. Diferente do que diz a letra da música, não é a “moqueca de siri que eles tanto comiam”.

“Mocotó, rabada, feijoada, tudo isso eu como. Eu gosto é de comida que dá sustância”, conta o parceiro de Beto Jamaica, com dificuldade para escolher qual o seu prato preferido no bar principal do Beco do Cirilo. Sobre a canção, ele opina: “Não sei qual foi a intenção dos compositores, mas acho que era para brincar com uma moqueca de siri e o nome do beco, que são parecidos”.

O cozido de Dida é a especialidade da quarta-feira

Moradora da localidade há três décadas, a cozinheira Dida, de 51 anos, todo dia faz tudo sempre igual. Desde 1999, quando abriu seu boteco, ela acorda às 5h da manhã. “Cozinhar para mim é tudo, eu amo!”, revela. Dia de quarta-feira, ela sai da cama com uma missão especial: botar no fogo o cozido que será servido às 11h30. É ela quem prepara sozinha o prato especial do dia, com a contribuição das suas seis ajudantes nos trabalhos de limpeza e atendimento.

As seis panelas de verduras e duas de carne atraem clientela de vários bairros, de Pernambués ao Itaigara. Quem não come na hora, leva uma quentinha. “Vem gente de vários lugares! Vem até policial, bombeiro e o pessoal da prefeitura. Já me ligam logo cedo para reservar a comida, aí depois buscam as marmitas”, conta Kinho Elite, 32, que trabalha no Bar da Dida há 17 anos.

Ao meio-dia, as mesas distribuídas pela calçada do outro lado da rua, aos poucos, começam a ser ocupadas. Para servir os visitantes à espera do cozido, Dona Graça e outras cinco ajudantes têm de cruzar as calçadas de um lado a outro. Quando dá 13h, o beco engarrafa. São quatro carros no passeio esquerdo, seis estacionados à direita e outros cinco automóveis que tentam adentrar a rua de mão única.

As porções do cozido são servidas em tamanho pequeno, para duas pessoas (R$ 18) e grande, para três (R$ 28). Mas tem que chegar cedo. “Às vezes, 14h já não tem mais nada”, conta Dona Dida, orgulhosa do sucesso da iguaria de toda quarta-feira.

Para os amantes de feijoada, sábado a partir das 12h, e domingo às 7h, são os dias reservados para este típico prato brasileiro. Segundo ela, são 11 panelas e mais de 30 quilos.“Feijão meu vai pro Rio de Janeiro. Eu congelo e levam!”, conta Dida, contente pela proeza de exportar seu tempero para o estado carioca.

Prática, barata e gostosa

Uma mistura de cuscuz de farinha de milho, bacon, carne de sertão, calabresa, paio e demais temperos, com direito a feijão fradinho para acompanhar. “É prática, barata e gostosa”, conta Rosinha Chagas de Souza, 56, orgulhosa da farofa pernambucana que prepara desde pequena, quitute ensinado pelo pai, natural de Pernambuco.

Mesmo sem restaurante, sem vender e sem divulgação, o prato faz sucesso. A fama e o cheiro espalham-se e atraem os vizinhos, amigos e os “moleques”, como a senhora pequena e festeira chama os netos e sobrinhos, que batem na sua porta para pedir um pouco da famosa farofa. É na Ladeira do Paiva, estreito onde passam no máximo duas pessoas lado a lado, que a soteropolitana Rosinha dá vida ao petisco.

Antiga proprietária de um restaurante de comida baiana, ela explica que atualmente só cozinha para consumo próprio. “Agora é para mim, meu marido e meus filhos. Mas toda vez que faço, a casa enche! Adoro quando o povo vem pra cá. Quem não gosta é o meu marido que fica trancado em casa”.

A farofa ficou conhecida quando ela, seus filhos e alguns vizinhos montaram a banda Manos do Samba. Enquanto a garotada tocava madrugada a dentro, Rosinha cozinhava. “Essa farofa ficou famosa por causa da molequeira na minha porta. Era só bagunça. Eu amanhecia o dia fazendo comida e os meninos tocando”, diz Rosinha.

“Na banda eu não fazia nada, só bebia e sambava. Sempre curti a vida assim. Tenho pouco mas sei curtir, e sei cozinhar também!”, exclama a dona de casa com riso solto. E foi assim que virou tradição. A delícia caseira não pode ser servida sem o lendário samba de Rosinha: quase uma dança de benção ao alimento. “Eu caio na gandaia, eu sambo, eu brinco, eu danço”, arremata, cheia de vida e tempero.

De-delícia de moqueca

Entre paredes grafitadas e escadarias da Comunidade Solar do Unhão, na Avenida Contorno, esconde-se o tempero de Dona Suzana, uma senhora baixinha e risonha de 60 anos. Para chegar lá, prepare o pulmão: é uma jornada de degraus pela frente. Apesar de pouco conhecido, o caminho é fácil e não é perigoso, como muitos podem pensar.

Dona Suzana com sorriso no rosto e com orgulho do que faz

À esquerda, depois do portão do Museu de Arte Moderna (MAM), na Rua Desembargador Castelo Branco, basta perguntar pela moqueca da Suzana. Um simpático morador ensina: “Desce aquela escadaria ali e segue direto. Tá vendo? Quando chegar lá na frente você pergunta de novo, mas é só virar à direita num bequinho”.

Na descida íngreme, a vista da Baía de Todos-os-Santos força uma pausa para apreciar o mar e recuperar o fôlego. Digno: a composição das casas decrescentes amontoadas junto ao mar formam um cartão postal. Ao chegar no destino, o esforço é recompensado: comer a moqueca caseira de peixe fresco, às vezes guaricema, cabeçudo ou arraia, servida a partir de meio-dia com porções de arroz, pirão, feijão fradinho e pimenta para acompanhar. O prato é R$ 15 por pessoa.

Constantemente aparecem turistas procurando pela moqueca. “Oxe! Já veio muito gringo aqui. Francês, italiano, da Holanda, de vários países”, conta Rita de Cássia, 33, sobrinha da dona do tempero. Também tem opção vegetariana: moqueca de soja com verduras, azeite doce e de dendê, além de banana da terra coberta com ovo.

É só chegar e pedir, garante Suzana de Almeida Sapucaia. Ela abre o espaço às 7h, quando acorda, mas os clientes costumam aparecer por volta do meio-dia. “Todos os dias, de domingo a feriado, chovendo ou fazendo sol, eu estou aqui”. Mas o ideal é ligar antes para avisar e garantir o pescado com dendê, preparado em dez minutos.

“Aqui é pequenininho, às vezes minha cunhada me dá um espacinho dela e boto três mesas. Aí, já dão mais de 30 pessoas. O pessoal senta até no chão”. Assim, como coração de mãe, Dona Suzana sempre aperta para caber mais um no estreito de dois metros de largura e dez metros de extensão até a casa da sua cunhada, Mary Cristina.

De frente para as águas azuis, o beco é a moradia da cozinheira há 40 anos. Em 2013, passou a ser também local do trabalho. “Cozinhar é maravilhoso”. A placa branca em letras vermelhas pendurada na porta, revela: Ré-Restaurante Dona Suzana, que ironiza sua própria gagueira. Ela não se importa. Leva tudo na brincadeira: “Eu falo assim porque eu sou gaga, eu puxo na fala”. E é deste modo que Dona Suzana leva a vida. Com sorriso no rosto, trabalhando todos os dias e, se puder, tomando uma dose de caninha 51.

Banquete 0800

“É aqui mesmo?”,  estranha Romenil Santos, motorista do CORREIO, momentos antes de baixar a janela do carro e entender que estava no lugar certo. O aroma exalado bastou para a convicção. “Está cheirando, deve estar bom!”, disse, entusiasmado, antes de dar marcha a ré. Não é possível entrar de carro na Rua 23 de Fevereiro, que tem cerca de quatro metros de largura e fica escondida em meio a Avenida Anita Garibaldi.

Quem imaginaria que nela, toda quarta-feira, a partir das 19h, um banquete de 15 quilos de cabeça de peixe é servido de graça? Em uma cozinha de aproximadamente um metro quadrado e equipada com um fogão industrial de duas bocas, uma fritadeira e uma pia, o pescado ganha sabor através das mãos do gastrônomo Jaguaraci Moura Nengo, 35. Para preparar o prato, ele utiliza corvina, badejo ou pescada amarela.

“É pequeno, mas consigo fazer tudo neste espaço. Todos os tipos de tira-gosto e todos os tipos de prato quente. Sarapatel, mocotó, feijoada, rabada: é tudo preparado aqui!”, reitera o chefe de cozinha Nengo, como é conhecido na vizinhança onde nasceu e mora até hoje.

O prato individual, cortesia da casa para quem consome no Recanto do Jaguar, inclui quiabo, chuchu, repolho, abóbora e escaldado, um pirão feito com o caldo da cabeça de peixe. Repetir o prato é permitido. “Todos me pedem bis”, conta entre gargalhadas, Nengo. Cliente fiel, a vizinha Rita dos Santos confirma o sucesso: “Toda quarta aqui é uma festa! Ele dá janta a gente, saímos de barriga cheia”.  

O quiosque, à esquerda logo na entrada do estreito, passou a ser alugado por ele há dois anos, mas existe há mais de três décadas. “Essa barraquinha era de madeira e eu reformei com gesso acartonado e piso, para ficar higiênica”. Mesmo pequeno, o espaço ainda conta com um banheiro nos fundos, um atrativo a mais. “Você já foi no meu banheiro? Depois dá uma olhada!”, disse, querendo impressionar.

Vai e vem

Domingo, 6h45 da manhã. Enquanto uns dormem, Ana Patrícia Moreira, 36, já esquentou a feijoada, preparada às 18h de sábado, e está pronta para servi-la. Seu marido Alexsandro Batista Teixeira, 36, está preparado para o pique matinal e habitual dos domingos, e o tio Luiz Augusto Conceição, 50, já abriu o bar.

Em frente ao Bar do Luiz, os fregueses de Patrícia com os pratos vazios e sorriso no rosto

Às 7h da manhã, enquanto uns continuam na cama, alguns saem da balada, outros se preparam para o baba de mais tarde e outros, como de costume, se levantam e vão para frente de casa. O que essas pessoas têm em comum é o destino: comer a feijoada de Patrícia na Rua Gilberto Maltez, no Vale das Pedrinhas. Se é uma comida forte para o café da manhã, pouco importa.

Esta é a clientela do trio, que tem uma parceria há um ano e três meses. Luiz vende bebidas no ponto que mantém há 30 anos, e o casal serve as comidas em um outro local, ainda ali na mesma rua, mas há 10 metros de distância. Dois espaços, duas cozinhas e um serviço que deve ser ímpar: comer e beber.

“Eu nem posso botar no fogo cedo, se não o pessoal sente logo o cheiro e pede”, diz Patrícia, que, às vezes, tem de convencer os adiantados e esfomeados de que o seu feijão só sai 7h em ponto. Nenhum minuto antes e nem depois. Despachar de currute, como ela diz, vai contra os seus princípios como cozinheira.

E no vai e vem, pra lá e pra cá, Alexsandro vai servindo os fregueses num ritmo frenético já às 8h. Este é o horário de pico, segundo ele.

Na Rua Gilberto Maltez é assim: feijoada e gelada já às 8h da manhã de domingo

Patrícia começa a dar vida ao prato sábado à noite, e conta que se iniciar o preparo antes, os vizinhos sentem o cheiro e pedem um pouco. Mas não adianta bater o queixão, é só no domingo. O prato custa R$ 15 a porção pequena, R$ 25 a porção média e R$ 35 a porção grande, que serve cinco pessoas.

O movimento do negócio sobe e desce. “Às vezes procuro até faxina ou algum outro bico quando aqui fica fraco. Eu também faço doces e salgados”, conta ela, mãe de Ana Sophia, de 2 anos, e de Kaio, de 13 anos. Mesmo assim, desde que ela e o tio uniram forças para montar a parceria, a clientela cresceu e o lucro de Luiz também.

Bendito: o tempero da evangélica é multiplicador. “Deus me deu o dom do paladar. Tudo o que eu experimento eu vou multiplicando. Nasci com esse dom de cozinhar, e eu amo!”, conta Patrícia. Ela diz que prova qualquer prato e já sabe como fazer. Muda uma coisa ou outra e melhora a receita. E quando vem os pratos limpos, se orgulha. “Aí eu vejo que estava bom mesmo. E como vem! É difícil você ver eu jogar comida fora”.

 

 

Confira a playlist dos sabores escondidos:

 

 

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Herdeiras de Tia Ciata http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/herdeiras-de-tia-ciata/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/herdeiras-de-tia-ciata/#respond Wed, 14 Dec 2016 21:04:22 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2230 […]]]> Por Uilson Campos

Cheias de graça, as saias coloridas dominam o centro de animadas rodas desde as origens do samba. E, com o passar do tempo, suas donas foram também assumindo as funções de compositoras, intérpretes e instrumentistas. As sambadeiras sempre estiveram em posição destacada, seja no passo miudinho do samba clássico ou no movimento ligeiro das saias no samba de roda. O cantor e compositor Roberto Mendes sabe bem disso. Ele conta que a origem da participação da mulher no movimento do samba surge com a chula, em meados do século XIX, como resultado do encontro da viola portuguesa e do batuque dos negros sudaneses, tendo seu berço no Recôncavo baiano.

“O homem começava cantando, enaltecendo a beleza da mulher, que só entrava na roda para dançar”, diz. Ele explica que a chula começa a se caracterizar como samba quando deixa de ser uma manifestação restrita às festividades dos negros escravizados e começa a se popularizar em outros círculos. Um marco desse momento foi quando  Tia Ciata, negra, mãe-de-santo de Santo Amaro,  foge para o Rio de Janeiro, em 1876, por perseguição religiosa, levando suas festas em celebração aos orixás para bairros populares do Rio.

A partir daí, as mulheres assumiram condição de comando, como comenta a pesquisadora, cantora e compositora Juliana Ribeiro: “A mulher geria a casa, preparava o local, fazia a comida, elementos que estavam no contexto da festa, e sem os quais não tinha como o samba acontecer”.

Para Marilda Santana, cantora e pesquisadora, o protagonismo feminino no ritmo sempre representou mais do que a sensualidade na dança: “Os lugares assumidos pela mulher no samba, na perspectiva patriarcal, estão unicamente ligados aos requebros e meneios. Mas, em sua origem, o movimento sempre contou com a contribuição das mulheres, negras em particular.”

Inspirado na música Vovó no Samba, do álbum Na Cabeça e na Cintura (1996) do É o Tchan, o CORREIO de Futuro foi buscar histórias de sambadeiras da Bahia que, assim como a vovó do Tchan, tomam conta de todos os batuques.

 

Em dias nublados, o canto de Maria de Xindó era convocado para espantar a chuva. | Foto: Heitor Oliveira.


Maria de Xindó, 70 anos
NA FAMÍLIA XINDÓ REQUEBRADO É VOCAÇÃO

No dia em que a pequena Alana, 4, resolveu acompanhar a avó, Maria da Paixão, 70, conhecida como dona Maria de Xindó, em uma roda de samba, foi como uma identificação cármica. Assim como a matriarca da família, Alana reconheceu cedo a paixão pelo samba. Logo nos primeiros ensaios recebeu, como presente de outras sambadeiras, o vestido, o turbante e as sandálias. É de se imaginar, porém,  a surpresa de dona Maria da Paixão ao ouvir a resposta de sua neta, após um visitante perguntar pelo nome da pequena iniciante no samba. “Me chamo Alana de Xindó!”, disse ela, orgulhosa.

Xindó era como as pessoas chamavam a bisavó de Alana, e de quem dona Maria herdou não só o apelido, como também a profissão. Após ter ficado viúva, quando tinha 41 anos, dona Maria de Xindó encontrou no trabalho de lavadeira o meio para pagar as despesas da casa: “Lavei muita roupa de ganho na beira do Abaeté. Era daqui que tirava meu trocado. Lavando e sambando, na chuva e no sol, não tinha tempo ruim”.

Assim como a obrigação no trabalho de lavadeira, a diversão em celebrar o samba também era um aspecto marcante na família de dona Maria de Xindó. Na infância, ela recorda das rodas de samba em que enquanto seu pai tocava o pandeiro, sua mãe o acompanhava com o prato. “Minha mãe sempre dizia que a festa não começava enquanto meu pai não chegasse. O canto preferido dele era o Samba da Lavadeira. Não tinha festa que ele chegasse que ele não cantasse essa música”, diz.

E foi com esse canto que, anos mais tarde, a lavadeira passaria a ser referência entre as colegas de ofício. Para aquelas mulheres que dependiam do sol para secar as roupas dos clientes, chuva era sinônimo de dia sem dinheiro. Nesses momentos, a solução entre as lavadeiras era recorrer ao legado deixado para a herdeira de Xindó.   “Quando o tempo estava nublado, as colegas gritavam: ‘Maria, cante aquele samba, minha filha’. Tinha dias que eu cantava, meu irmão, o sol abria, e a gente saia satisfeita. Mas tinha dia que caia uma chuva, que não tinha jeito, então a gente voltava para casa  (risos). Mas voltava alegre, de qualquer forma, porque nosso ganho era aquele”, explica dona Maria.

 

♪ Ô lavadeira que lava no areal / Ô lavadeira que lava no areal / Faz sol meu Deus pra lavadeira lavar

Embora dona Maria, em tom saudosista, lamente o fim das lavadeiras ‘de ganho’ às margens do Abaeté, essa jamais foi uma tradição que ela desejaria para o destino de sua neta, Alana. Já o orgulho em ver a pequena Xindó levando adiante a vocação familiar pelo samba, ela não esconde: “É muito gratificante ver o samba passado de geração para geração. Quero que ela estude, se esclareça, e se ela quiser seguir essa tradição, vamos dar todo apoio”.

 

Em meio à rotina de trabalho em uma fábrica de charutos, Dalva Damiana criou um grupo de samba. | Foto: Camilla Souza.

Dalva Damiana, 89 anos
A SABEDORIA DE UMA DOUTORA EM SAMBA“A tábua que a gente fazia o charuto era o meu caderno. As madeirinhas para esticar a folha do fumo eram minhas borrachas. A faca, minha caneta. O caco de colocar o grude, meu tinteiro”.  Quando ingressou na fábrica de charutos Suerdieck, em Cachoeira, na década de 40 do século passado, dona Dalva Damiana, 89, mal sabia que, com apenas a segunda série do Ensino Fundamental, chegaria ao título de doutora. O diploma entregue pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em 2012, na modalidade Honoris Causa (honraria concedida pela notoriedade de alguém em sua área de atuação), seria conquistado, porém, não pela sua habilidade de fazer charutos. Hoje, dona Dalva Damiana é uma doutora do samba.

Na infância, a pequena Dalva dividia seu tempo entre ajudar nos serviços de sua avó, lavadeira no Caquende (bairro de Cachoeira) e as brincadeiras com as bonecas feitas por ela mesma com pedaços de pau e papel. Na imaginação da menina, um ritmo dava vida às suas criaturas. “Eu gostava de fazer o sambinha com minhas bonecas. Fazia até o terno de reis. Elas cantavam, sambavam, davam umbigada”, recorda a charuteira aposentada.

Irmã mais velha em uma família com 9 filhos, Dalva se viu, precocemente, na necessidade de contribuir com a renda da família. A “ansiedade”, como ela afirma hoje, a levou, aos 14 anos, para a porta de uma fábrica de charutos, onde sua mãe já trabalhava, em busca de emprego. Por ser menor de idade, porém, recebeu de cara uma negativa: “Quando eu vi várias pessoas sendo contratadas e eu não, eu danei para chorar. Eu tinha vontade de ajudar meus pais a criar meus irmãos. Eu estava forte, criada. Depois de um tempo, o mestre chamou minha mãe e eles deram um jeito, ‘aumentando minha idade’ para me contratar”.

Depois de verdadeiramente adulta, foi convidada a trabalhar em outra fábrica de charutos, a Suerdieck.  Superados os anos anteriores, em que a tensão na possibilidade de perder o emprego acompanhava a jovem Dalva, agora sua mente conseguia encontrar momentos para escapar da metódica realidade na fábrica. Naquele ambiente repleto de mulheres, ressurgia a Dalva que fazia bonecas sambarem.

Logo a charuteira começou a introduzir o samba em meio ao ofício seu e de suas colegas. “A gente ficava olhando para a gerência e, quando o chefe virava as costas, a gente cochichava uma com a outra e começava a batucar na banca”. Não tinha situação que Dalva não transformasse em música. O primeiro samba composto por ela surgiu de um constrangimento.  “Uma colega nossa todos os dias levava merenda. Um dia ela levou jiló. Eu olhei assim e pensei comigo: ‘de amargura já basta a que eu passo na vida’.  Naquele dia eu nem tinha tomado café em casa, tinha deixado meus filhos sem nada para comer. Na hora que ela dividiu o jiló, todo mundo pegou um pedaço. Quando chegou a minha vez, eu disse que não queria, mas ela fazia questão que eu aceitasse. Então eu tomei o jiló, joguei na boca e naquela hora saiu meu primeiro samba.

 

♪ Venha cá como quiser, ô, jiló / Como quiser venha cá, ô, jiló / Plantei jiló, não pegou /
A chuva caiu, rebentou / Eu cortei miudinho, botei na panela / Pensei que era jiló, não é jiló, é berinjela

 

Daí em diante o Samba da Suerdieck foi ganhando espaço, tomou as ruas de Cachoeira e serviu  de inspiração para outros grupos no Recôncavo. O grupo de dona Dalva passou a se apresentar nas principais festividades locais e, com o tempo, as sambadeiras que no começo eram discriminadas pelo trabalho como charuteiras, hoje são abraçadas onde chegam. Com olhar intimidado, e afirmando não saber o que ela pode oferecer em troca do reconhecimento alcançado, Dalva Damiana, doutora no samba, talvez não mensure a maior de suas contribuições: provou que o samba pode ser o escape nos momentos mais amargos.

Nem as chineladas que recebia ao chegar das festas quando jovem a fez desistir do samba. | Foto: Heitor Oliveira

Maria da Graça, 71 anos

SAMBADEIRA ESPIVITADA, GOSTA DE GAIATICE

Quem via dona Maria da Graça Anunciação Nascimento, 71, disciplinada e pouco expressiva, participando de um grupo de convivência que reunia senhorinhas para cantar em um coral de Salvador, talvez estranhasse o comportamento da vovó que sempre foi conhecida por roubar a cena nos salões de dança e blocos em que participava. A rigidez exigida às integrantes do coral não deixava dona Maria da Graça nada à vontade. “A maestrina tinha uma austeridade implacável. Como eu gostava de fazer minhas gaiatices, ela ficava me apontando, me chamando atenção. Ela exigia postura e a gente não podia nem rir!”, relembra Graça, demonstrando a posição de coluna ereta que elas tinham que manter ao segurar o classificador com as letras que cantavam.

A situação mudou com a chegada de uma professora de música que apareceu para colaborar com o grupo, mas logo viu algo diferente nas meninas. “O coral era muito paradinho, as senhoras não podiam dançar, mas de vez em quando uma mexia um pezinho, dava uma balançada, então eu percebi: ‘aí tem samba!’”, conta Maria José Lúcio, conhecida como dona Mazé, que arrastou as vovós do coral paradinho e formou o grupo Vivavós, que desde 2004 se reúne semanalmente em encontros regidos pelo samba.

A maestrina, durona, porém, não foi a primeira a tentar controlar Maria da Graça. Na juventude, o que não lhe faltou foram fiscais tentando “por as rédeas” em seu jeito espevitado.  Morando com mãe e pai, era sua avó, que vivia junto com a família, porém, a mais rígida com a menina. “Minha avó era muito possessiva e eu era muito ousada. Das três irmãs, eu era a mais atrevida, a mais fagueira. Eu sempre gostei de dar minhas escapulidas. Aqui no Garcia, há 50 anos, eu saia nos blocos de Carnaval. Teve um ano que eu saí acompanhando um bloco com uma amiga ‘boa de perna’, e não disse nada em casa. Quando eu cheguei, o ‘couro’ comeu! Mas eu não estava nem aí, já tinha aproveitado mesmo (risos)”, conta dona Graça, que ainda lembra das colheres de pau, vassouras e cintos que sua avó lhe atirava ao chegar em casa após as festas.

Na vida profissional, Graça também encontrou pessoas que não souberam lidar com seu jeito extrovertido. Professora em um colégio religioso, era nos eventos que ela quebrava o clima rigoroso da instituição. “Teve uma festa em que o padre (diretor da escola) pediu para morrer quando me viu toda vestida de baiana no meio dos meninos. Ele ficava ‘fungando’ de tanto nervoso. Depois, a coordenadora me levava na sala dela para chamar minha atenção, ela dizia que eu estava extrapolando. Eu respondia que meu jeito era aquele e era assim que os alunos gostavam”, relembra.

Atualmente, a vovó, que não aguenta ficar parada quando ouve o samba Chiclete com Banana, de Jackson do Pandeiro (1919 – 1982), faz aula de dança de segunda à sexta.  Ela garante não saber o que é mau humor em sua vida e reconhece no samba o lugar para espalhar toda a sua vivacidade, por vezes contida: “É o ritmo que está em nossas origens.  Aqui eu posso requebrar, cantar… Pegamos o microfone e roubamos a cena”.

 

♪Eu só boto bebop no meu samba / Quando Tio Sam tocar um tamborim / Quando ele pegar /
No pandeiro e no zabumba / Quando ele aprender / Que o samba não é rumba…

 

“Todo mundo tem o direito de ser feliz!” | Foto: Heitor Oliveira.


Teresa Conceição, 64 anos
TODA BOA E SÓ GOSTA DE NOVINHOS

Quando perguntam qual samba faz dona Teresa Conceição, 64 anos, se recordar de sua juventude, no bairro de Itapuã, ela não titubeia.  Na letra de Pé de Lima, Pé de Limão, um apaixonado insiste em afirmar ser dono de um certo amor, mesmo que lhe digam reiteradas vezes que este não a pertence. A música trata de um assunto bem recorrente na vida da sambadeira de jeito faceiro e voz firme: as artimanhas do coração. Dona Tereza não esconde de ninguém seu atual relacionamento com um rapaz 36 anos mais jovem. Um “novinho”, como ela diz. “Tô com um (namorado) de 29 anos e me divertindo bastante. Ele tá todo apaixonado. Quem não pode se apaixonar sou eu, né? Porque aí é prejuízo! Aí eu vou sofrer”, comenta ela, toda sorridente.

Mas, nem sempre dona Tereza teve essa liberdade para o amor.  Começou a namorar com 18 anos e se casou quatro anos depois com um jogador de futebol, sem gostar dele, como ela ressalta, apenas para se ver livre da mãe, que a restringia dos prazeres da juventude. “A gente só podia sambar dentro de casa. Tinha festa na frente da Igreja todo ano, mas minha mãe não deixava a gente vir participar de nada”, lembra Teresa, que recorda até das restrições nas roupas que ela e as irmãs tinham que usar: vestidos franzidos no meio, sem nenhum detalhe mais caprichoso. Apenas “o buraco para colocar a cabeça e os outros para meter o braço”.

O primeiro casamento terminou após uma traição do marido. Dona Teresa colocou o jogador para fora de casa e seguiu a vida criando os três filhos desse primeiro casamento: “Daí em diante eu fiquei desquitada, virei dona de minha vida e passei a fazer o que queria. Conheci outra pessoa, tive mais um filho, mas esse outro casamento não deu certo também, aí me separei”.

♪ Pé de lima, pé de limão, / o amor é meu, tá dizendo que não / pé de lima, pé de limão / tá dizendo que não, tá dizendo que não

Após a segunda decepção amorosa, se enganou quem pensava que ela iria se aquietar. Como na música, Teresa é insistente no amor. “Claro que tive outros relacionamentos depois. Não para morar em casa, né? Tenho 64 anos, mas tô ficando com um novinho. Tem isso não. São eles que me querem. Se o gatinho me quer, alguma coisa ele viu em mim”, diz. Ela conta que é no samba onde os cortejos em resposta ao seu requebrado são mais frequentes.  “Eu toda inteira, passo toda boa me mexendo, o cara vem atrás de mim, eu vou dizer que não quero? Eu tô maluca, é? (risos). Eu tô viva!”, confessa.

Os filhos apoiam os relacionamentos e tratam bem o atual namorado da mãe. E ai deles se não tratarem! “Quem pariu meus filhos foi eu, não eles que me pariram. Eu fico chateada com algumas amigas que eu tenho que se separam ou ficam viúvas e não podem ter outro homem porque os filhos não querem. Isso não existe! Todo mundo tem o direito de ser feliz”, revela a sambadeira, que não gosta de se meter na vida dos filhos justamente para que eles não deem pitaco nas decisões dela.

Com preferência declarada pelos homens mais jovens, os comentários sobre Teresa acabam sempre aparecendo. “Aqui em Itapuã, várias pessoas me criticam porque eu só pego novinho. Eu não gosto de velho! Eu tenho direito de escolher, a vida é minha, ou não? Eu vou pegar uma coisa que eu não gosto? Se for assim, melhor ficar sozinha. Se os velhos não gostam de mulher velha, por que eu vou gostar deles?”, questiona dona Teresa, que não se aborrece com as críticas e prefere dar a resposta com seu requebrado.

 

Prestes a chegar aos 80 anos, ela não tem dúvida: a velhice é uma glória. | Foto: Heitor Oliveira.


Nicinha, 79 anos

SENHORA DO TEMPO EM ITAPUÃPara dona Eunice Jorge dos Santos, mais conhecida como Nicinha, “samba não é molequeira”. Com 79 anos, ela é a primeira a chegar para os ensaios e apresentações do grupo em que participa. Cuidadosa, não esquece de nenhum detalhe do figurino que se orgulha em usar. Sandálias de couro, vestido florido, turbante cuidadosamente amarrado. Anéis, pulseiras, colares. Em seu cantinho, vagarosamente, ela vai se produzindo sozinha. “Ela estava no médico, mas fez questão de vir hoje. Chegou cedo e foi se arrumar. O tempo dela é outro e respeitamos isso”, conta Salviano FIlho, produtor artístico do grupo Ganhadeiras de Itapuã, que se reúne semanalmente na Casa da Música, às margens da Lagoa do Abaeté.

Filha de um caminhoneiro com uma cozinheira, dona Nicinha cresceu no bairro da Liberdade, com os pais e mais nove irmãos. Com outros relacionamentos, seu pai chegou a ter mais de 40 filhos –  muitos desses ela só chegou a conhecer no dia da morte dele.  Foi em Itapuã, porém, onde Nicinha e as amigas viveram os momentos mais marcantes da juventude. “A gente vinha participar dos blocos que tinham em Itapuã. Naquela época não tinha perigo nenhum”, lembra.A ligação com o bairro a fez construir uma casa e se mudar para lá, em 1969.

Separada do marido e com duas filhas, passou a sustentar a família atuando como costureira, numa época em que mulher não trabalhava fora de casa e empoderamento feminino não era tema a ser sequer discutido. Enquanto exercia a função de cortar, alinhavar e costurar os tecidos, que mal cabiam em sua pequena casa, era possível ouvi-la cantarolando músicas de Linda Batista (1919-1988) e Dalva de Oliveira (1917-1972), artistas que ela admirava. O sonho antigo de se tornar cantora não a abandonava Nicinha. A oportunidade surgiu quando um conhecido da família a convidou para participar de um grupo de samba. “Antes eu só gostava de cantar música romântica. Aí o irmão do meu genro formou um grupo chamado Raízes. Eu disse: ‘Mas vocês tocam samba, e eu só sei seresta!’ Com o tempo, fui acostumando com o samba e até aprendi a tocar maracas”, conta. Daí em diante, não tinha roda de samba no bairro em que Dona Nicinha não estivesse presente.

A sambadeira sempre guardou recordações da mãe que cozinhava e vendia quitutes nas festas. Foi com ela que Dona Nicinha aprendeu a fazer a moqueca de folha. Peixe temperado com pimenta e assado na palha de licuri. Provavelmente, por essa razão que o samba que a faz relembrar o passado trate exatamente do ofício da mãe. Entre suas canções prediletas está Anúncio, interpretada por Jorge Veiga (1910 – 1979).

♪ Precisa-se de uma cozinheira / Que saiba cozinhar com perfeição / Que seja um tipo de mulher perfeita / E o corpo em forma de violão

Prestes a chegar aos 80 anos, dona Nicinha afirma que nunca imaginava ter tanta disposição quando estivesse nessa idade: “Para mim, a velhice é uma glória.  Na juventude a gente pensava que com 50 anos a pessoa estaria velha. Eu achava que com essa idade eu já estaria bem acabada. Mas o samba ajuda em minha saúde. Quero viver bem mais”.

E afinal, tamanho tempo destinado a produzir-se antes das apresentações seria um sinal de vaidade? Com voz mansa, dona Nicinha, para quem o tempo segue o ritmo desapressado de seus passos, ri e esclarece: “Não é isso. Chego mais cedo porque eu me preocupo com o grupo e não gosto de me atrasar”.

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Gerações travestis http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/geracoes-travestis/ http://blogs.correio24horas.com.br/emcantos/geracoes-travestis/#respond Wed, 14 Dec 2016 20:50:54 +0000 http://www.correio24horas.com.br/blogs/emcantos/?p=2241 […]]]> Por  Jordan Dafné

Com lápis e giz, boca e nariz, chão, salto e triz, Caetano Veloso descreveu a vivência de três travestis soteropolitanas que se vendiam na praça. Ao mesmo tempo que a canção resgata a realidade das travestis na década de 70, época em que a prostituição se firmava como principal meio de sobrevivência dessas pessoas, ela revela um contraste com a vida das travestis na modernidade. De 1970 a 2016 o que mudou? Quem é que diz? Quem é feliz? Quem passa?

As cinzas de Marta

Nascida em 1956, em uma casa no Pelourinho, a estadia de Martinha perto de sua família não durou muito. Aos 7 anos, vestia-se com trajes ditos femininos e aproveitava seu cabelo liso para simular franjas e tocá-lo delicadamente, como as mulheres faziam. Enquanto a prática era entendida pelo pai de forma indiferente, na mãe despertava uma fúria intensa: “Prefiro ter filho bandido a ter filho pederasta”, ela dizia.

Na escola, a direção não permitia que um garoto com comportamento tão feminino permanecesse frequentando as aulas, pois seria uma “influência negativa”. Com esse argumento, Marta foi expulsa do Colégio Azevedo Fernandes, também no Pelourinho, e não desejou nunca mais estar em um lugar onde não poderia ser ela mesma.

Os terrores de casa ficavam mais intensos, as ofensas se transformavam em ameaças cruéis. A jovem Martinha dormia com medo de ser atacada por uma injeção de estricnina (veneno para rato), como sua mãe lhe prometia repetidamente. A angústia do ambiente doméstico fez com que, aos 12 anos, Marta saísse de casa e fosse tentar a vida nas ruas.

Martinha, 60 anos, sobreviveu a ditadura militar e ao preconceito nos 80.

Sem opção, procurou emprego em casas de família, mas a humilhação parecia lhe perseguir. Era obrigada a levantar de madrugada para preparar o café,  sendo o tempo inteiro desmoralizada pela sua condição de travesti. Revoltada, Marta retornou para as ruas a procura de algum destino.

A solução foi encontrada nos prostíbulos da Ladeira do Mijo, no Centro Histórico. Lá, ela se abrigava junto a outras travestis e foi introduzida na prostituição. O primeiro cliente era um doutor muito rico que atendia no último andar do edifício A Tarde. Sem qualquer apreensão, Martinha entrou na sala que ficava em um dos últimos andares do prédio. Foi tratada de forma indiferente. Não havia espaço para qualquer conversa. Sem perder tempo, se aproximou daquele corpo que aparentava ter cerca de 40 anos e fez o seu trabalho.

Com a instituição do regime militar em 1964, a lógica policial passava a ser pautada no que era considerado como bons costumes sociais. Nem as travestis, nem a prostituição encontravam-se enquadradas nisso. Durante a ditadura, uma onda de caça às travestis tinha sido iniciada.

Pega pela polícia mais de 200 vezes, Marta era obrigada a fazer serviços de limpeza nas celas da Delegacia de Jogos e Costumes, no Centro Histórico. Tinha que tirar toda a maquiagem e voltar para casa “feito homem”. 

Com hematomas na cabeça e na perna, o corpo de Martinha guarda até hoje as cicatrizes da tortura policial. As palavras proclamadas ainda soam em nos ouvidos de Martinha: “Você é viado! Já viu viado ter vez? Vocês levantam falsa bandeira!”, gritavam os militares.

Após o final da ditadura, o sol da democracia não brilhou tão forte para o público LGBT. O início da década de 80 estava marcado pela descoberta da AIDS, que no momento era conhecida como peste gay. Martinha relata que não podia andar tranquilamente nos lugares públicos sem que as pessoas começassem a gritar “AIDS” histericamente ou pegar ônibus cheios sem ser expulsa.

O temor do HIV foi utilizado também como uma nova forma de proteção. Toda vez que alguém tentava agredir as travestis elas mordiam giletes escondidas na boca e sangravam demasiadamente. O medo do “sangue contaminado” desesperava os agressores e fazia com que eles fugissem.

Para concretizar o desejo da casa própria, Martinha dobrou seu turno de prostituição. Do dinheiro, só era retirado a quantia necessária para comer e pagar a moradia, todo o resto ficava escondido dentro do colchão onde dormia. Depois de anos de arrecadação, Marta desviou dos caminhos cantados por Caetano Veloso e ao invés de brilhar em Paris, viajou para a Itália, onde sobreviveu também por meio da prostituição.

A vida na Itália permitiu que ela juntasse muito dinheiro dentro do seu colchão, somando assim  R$ 14 mil. Toda a grana foi empregada na compra de um casarão na Baixa dos Sapateiros, onde Martinha viveu tranquilamente por 20 anos e abrigou idosos e outras travestis, um pequeno pensionato. Na noite do dia 9 de setembro de 2013, dois homens estranhos bateram à porta do casarão de Martinha solicitando um quarto. Inconformados, um dos homens declarou: “ Não tem vaga, não, viado. Vou te mandar um doce!”.

Logo em seguida, o casarão foi atacado com uma bomba molotov (mistura de substâncias químicas inflamáveis) que espalhou chamas por todas as partes. Martinha e seus hóspedes fugiram pela janela. O corpo de bombeiros chegou ao local sem água e solicitou o auxílio de carro pipa de Lauro de Freitas. A distância fez com que o casarão fosse consumido pelas chamas por inteiro.

Sem saber para onde ir, Martinha dormiu por semanas nos escombros da sua casa, até que conseguiu um auxílio moradia através do governo. Atualmente vive de aluguel na Fazenda Grande do Retiro, mas sonha com a recuperação da casa.

Com uma mente atormentada por pensamentos suicidas e uma vida danificada pela discriminação, Marta Maria de Sá declara em alto e bom som: “Eu não sou nem nunca fui uma cidadã. Estou apenas vegetando nesse mundo, esperando a morte. Isso é o que fizeram comigo”.

A integridade de Tanucha

Trajando saia longa e regata básica, complementadas com argolas douradas, óculos de sol na cabeça e maquiagem leve, Tanucha Taylor, travesti de 40 anos, afirma que tem bom gosto na hora de se vestir. “O meu estilo é o bom senso, cada ocasião pede uma roupa específica. Posso ser simples, e também posso ser luxuosa”.

Respeitar as regras, sejam elas de moda, sociais ou institucionais é um dos princípios de Tanucha. O entendimento de que pertencia a uma minoria social, foi a principal motivação para que ela tentasse sempre andar na linha. Entende que para ser respeitada é necessário se dar ao respeito e também respeitar os outros.

Ao andar nas ruas, Tanucha relata que não sofre mais com piadinhas ou olhares de desprezo. Suas conquistas impõem respeito onde quer que ela vá. Ressalta que, se um dia acontecer, tem fundamento e experiência para por cada um em seu devido lugar. “Se falam por trás de mim, é porque me respeitam na minha frente”, afirma.

Tanucha Taylor, 40 anos, impõe respeito por onde passa.


Tanucha sempre acreditou no poder da educação, isso fez com que ela permanecesse na escola até o último ano do ensino médio. Mesmo com apenas 14 anos, quando saiu da casa dos pais, no interior do estado, em Ipirá, para desbravar a capital baiana, não deixou de investir nos estudos.

Formou-se no colégio estadual Severino Vieira, no bairro de Nazaré. Seu jeito feminino chamava a atenção e provocava piadas entre os colegas, mas Tanucha tinha muita certeza do que era, e a plena consciência de que não havia nada de errado naquilo. “Eu nunca fui muito de olhar para os lados. Sempre fui de olhar para a frente e fazer aquilo que aquilo que eu desejava”, ressalta. 

Na capital, Tanucha se hospedou na Associação dos Estudantes Ipiraenses (Aeipi), com cerca de 50 pessoas. Certa noite, ao voltar da Caverna, boate que frequentava na rua Carlos Gomes, se deparou com um dos estudantes da associação dormindo despido em sua cama. Enquanto tentava acordar o garoto, ele levantou gritando e anunciando que Tanucha estava tentando abusá-lo.

“Eu fui vítima de uma armação por parte de pessoas que moravam dentro da república exatamente pela questão do preconceito. Eles planejaram uma situação que nunca foi real”

Tanucha foi julgada em uma assembleia com os dirigentes do local, que eram os próprios estudantes. Na ocasião, foi dado um prazo de um mês para que ela encontrasse um novo lugar para morar. O dinheiro que a jovem recebia da mãe era muito pouco para pagar um aluguel. A única opção era enfrentar o mercado profissional, restrito para travestis na época. Com esforço, conseguiu trabalho em casas de família e alugar um quarto próximo à estação da Lapa.

 A ambição lhe levou a uma lembrança da infância, onde costumava ir até aos salões de beleza e ajudar lavando cabelos. Apoiada nisso, ela buscou um curso de cabeleireira, que pagou com a ajuda de amigos. Com dois meses de curso ela conseguiu um emprego de carteira assinada no salão Charmant Penteados, em Ondina. Por lá permaneceu por dois anos, e, aos 18, foi contratada para trabalhar em um salão ainda maior, o Instituto de Beleza Novos e Velhos.

 Apesar da ajuda que o trabalho nos salões de Ipirá havia dado para Tanucha permanecer na cidade, na infância, o ato não era bem visto nem pela mãe, dona de casa, nem pelo pai, caminhoneiro de mente conservadora. Taylor expressava sua vontade de se livrar do disfarce masculino em um diário. As confissões foram posteriormente lidas por uma tia e reveladas para a mãe, que condenava o ato por medo dos problemas que a filha poderia enfrentar diante de uma sociedade tão preconceituosa.

As conquistas de Tanucha foram fundamentais para desconstruir esse paradigma do pai. Atualmente, ele respeita a identidade de gênero de qualquer pessoa e se refere a Tanucha orgulhosamente. “Essa é a minha filha!”, afirma diante dos amigos. A mãe faleceu há 16 anos e levou com ela parte de quem Tanucha é. “Eu posso conquistar tudo nessa vida, mas nunca me sentirei totalmente completa sem ela aqui do meu lado. É uma das perdas mais tristes de toda a minha história”, contou.

Tanucha decidiu expandir seus horizontes e viajar para a Itália. Morou por 15 anos no país e conquistou a cidadania italiana, da qual se honra muito. Muito vaidosa, aproveitou sua estadia na Europa e fez aplicação de silicone nos seios e na bunda, que as deixaram extremamente satisfeita. Quando retornou para o Brasil, foi para São Paulo e realizou uma cirurgia plástica de feminização, na qual raspou o pomo de adão e afinou o rosto. Uma das suas referências foi a atriz Elizabeth Taylor, famosa nos anos 50 pela sua beleza considerada estonteante, e de quem Tanucha retirou a inspiração para seu segundo nome.

A integridade permanece como o princípio norteador de Tanucha Taylor. Viver na tentativa de ser alguém melhor é sua principal forma de ativismo. É a sua reivindicação por uma humanidade, que embora ela sempre tenha reconhecido em si mesma, a sociedade lhe negou.

A aceitação de Mahylle

Bermudão, camisa de botão e sapatênis de cores escuras são tudo o que Mahylle, auxiliar administrativa de 20 anos, repudiou durante sua infância e boa parte da adolescência. Mahylle se livrou dos padrões masculinos e se mostrou como mulher ao mundo aos 18 anos. Antes disso, vestia-se “como homem” dentro de casa, para que os pais não percebessem, mas fugia para casa dos amigos onde finalmente poderia ser o que ela realmente sempre quis.

As roupas masculinas aprisionavam o corpo da jovem travesti, e apesar de já se reconhecer com essa identidade desde sempre, o medo da reação da sociedade e da família, a impediram de expressar livremente o seu gênero.

Mahylle, 20 anos, desconstrói preconceitos de forma didática.

Mahylle completou o ensino médio aos 17 anos no Colégio Estadual Luiz Tarquínio, no bairro da Boa Viagem. As piadas entre os garotos da escola eram inevitáveis; apelidos como bichinha e baitola eram tão frequentes que com o tempo se tornaram indiferentes. No entanto, seus amigos e professores jamais permitiam que a violência se prolongasse. “Meus professores eram maravilhosos. Jamais deixavam que me diminuíssem na frente de qualquer um deles. Ensinaram a muita gente que elas tinham a obrigação de me respeitar”, contou.  

A partir dos 18, a primeira transformação foi deixar o cabelo crescer, causando estranhamento na mãe que começava a se preocupar com o mercado de trabalho e com os comentários da vizinhança. “Vai sair desse jeito? Vão pensar o que sobre você?”, “Não vai cortar esse cabelo, não? ”, retrucava.

Por ser uma das poucas travestis que saiam à luz do dia no bairro de Pernambués, Mahyelle afirma que não olhavam para ela como se fosse um ser humano, mas sim como uma criatura estranha. Isso despertou nela uma enorme fúria, que posteriormente transformou-se em mecanismo de defesa.

A partir daí, nenhum comentário passava despercebido por ela, qualquer piadinha era retrucada com discursos empoderados. Discussões na rua tornaram-se parte do cotidiano da travesti, deixando-a ainda mais vulnerável a ataques transfóbicos, pois toda vez que aumentava o tom de voz para discutir com alguém corria o risco de apanhar.

Foi então que Mahyelle conheceu Tuka Perez,32, outra travesti do bairro de Pernambués que lidera o projeto pró LGBT do bairro, chamado Linha de Frente. Tuka a ensinou como lidar com as situações de preconceito no dia a dia de forma politizada, esclareceu conceitos, elencou os perigos e mostrou que reagir de forma combativa nem sempre era o melhor caminho.

Tendo um melhor conhecimento da causa, Mahyelle sentava lado a lado com a mãe na cama do quarto e contava que não se tratava de algo que ela escolheu, que somente com aquele cabelo, com aquela roupa, ela poderia ser feliz. A mãe percebia que mesmo se vestindo daquele jeito Mahylle permanecia estudando e sendo uma pessoa com bons princípios, nada mudaria.

O irmão sempre mostrou-se de braços erguidos para a causa de Mahyelle, referindo-se a ela pelo seu nome social, mesmo quando ninguém o fazia. O pai também reage positivamente, tudo graças aos esclarecimentos da própria filha. Hoje, os três vivem juntos e respeitam as formas de vida um do outro.

Diferente da realidade narrada por Caetano, a jovem nunca precisou se prostituir. Ao terminar o ensino médio ingressou no programa Adolescente Aprendiz, onde era a única travesti competindo por uma vaga de auxiliar administrativa  em uma faculdade particular de Salvador. Ela conquistou a vaga e ingressou no mercado de trabalho. No entanto, a convivência não era plenamente harmoniosa.

Uma das coordenadoras do trabalho de Mahylle se recusava a chamá-la pelo seu nome social, causando constrangimentos. Certo dia Mahylle parou de atender pelo nome civil e respondia apenas aqueles que a chamassem pelo nome social, fazendo assim com a própria coordenadora percebesse seu equívoco.

Neste ano, Mahylle ingressou no curso de contabilidade na Faculdade de Ciências Gerenciais da Bahia. Apesar de amar números, desistiu de concluir para ingressar no curso de moda a partir de 2017, outra grande paixão.

“Me orgulho muito dos meus méritos acadêmicos, mas ainda fico muito angustiada com o fato de que para uma travesti ser respeitada, ela precisa de conquistas intelectuais. Na mente das pessoas, nossa mera existência não nos faz dignas de respeito”

Atualmente, Mahylle trabalha no Centro Municipal de Referência LGBT, no Rio Vermelho e vive as alegrias de um relacionamento amoroso ao lado de Uriel Henriquez,um homem trans. A única coisa que ainda assombra a mente da jovem auxiliar administrativa é o regresso das ideias e do respeito, pois segundo a mesma, este é o medo da invalidação do sofrimento e da luta que travestis e transexuais cravaram no passado para que ela esteja aqui hoje.

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ENTENDA AS DIFERENÇAS:

Identidade de gênero: É a identificação que cada pessoa tem com o gênero feminino, masculino, ou de uma combinação entre os dois. Nem sempre corresponde ao sexo atribuído durante o nascimento e por isso pode agregar modificações corporais, trejeitos e vestimentas comuns ao sexo oposto.

Orientação sexual: Diz respeito a atração sexual e afetiva que uma pessoa pode ter pelo mesmo gênero (homossexual), pelo gênero oposto (heterossexual), por mais de um gênero (bissexual), por nenhum deles (assexuados) ou outras denominações.

Transexual: É a pessoa cuja a identidade de gênero não corresponde ao sexo designado no nascimento. Exemplo: alguém que, ao nascer, foi designado  como sendo pertencente ao sexo masculino por questões biológicas visuais, mas que se entende como pertencente ao feminino. Algumas pessoas trans expressam a necessidade de modificarem seus corpos através de procedimentos médico-cirúrgicos para se adequarem ao gênero do qual se identifica. Porém, há pessoas que são trans que não passaram por nenhum procedimento.

Travesti: Pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico. Exemplo: alguém que nasce com características biológicas atribuídas ao masculino, mas que se identifica com os comportamentos femininos. Algumas travestis modificam seus corpos com cirurgias, mas não é uma regra. Diferentemente das transexuais, as travestis não desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual (mudança de órgão genital).

Transgênero: Além de incluir as pessoas que não se identificam com o sexo biológico, engloba também as pessoas que transitam  entre os gêneros e não se definem unicamente como femininas ou masculinas.

Transformista: Indivíduo que se veste com roupas do gênero oposto movido por questões artísticas.

Androginia: Termo genérico usado para descrever qualquer indivíduo que assuma postura social, especialmente a relacionada à vestimenta, comum a ambos os gêneros.

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