Por Renata Drews
Toda quarta-feira, na hora do almoço, o burburinho começa num beco oculto, uma quebrada que deságua na Via Expressa Baía de Todos-os-Santos, avenida que corta dezenas de localidades da periferia de Salvador. Com espaço para transitar apenas um carro por vez, a rua sempre congestiona neste mesmo dia e horário.
O motivo do aperto é o cozido do Bar da Dida, que tem como cliente frequente Compadre Washington. “Sempre que tenho oportunidade, vou lá”, confessa o integrante do É o Tchan. Ele e Beto Jamaica doaram a voz para musicar o Beco do Cirilo na quase homônima Beco do Siri, sucesso de 2002, composto por Nêgo Júlio e Domingos Sérgio.

Na Rua 23 de Fevereiro, o Recanto do Jaguar prepara 15 quilos de cabeça de peixe toda quarta-feira
Numa cidade com 163 bairros, os melhores temperos não estão de bobeira por aí e nem são encontrados facilmente. Não adianta: se a gente sair perguntando onde sai uma boa feijoada ou uma boa moqueca, a resposta incluirá sempre becos e ruelas de bairros periféricos.
De boca em boca e de beco em beco, divulgam a notícia do cozido da Dida, na Caixa D’Água. Vem gente de tudo quanto é canto. Mas não só ele. E a farofa pernambucana de Rosinha, na estreita Ladeira do Paiva? Basta sentir o cheiro para a rua toda bater na sua porta. Não é restaurante. A galera fila o rango no queixão.
Tem também a feijoada de Patrícia, servida em meio a um vai e vem no Vale das Pedrinhas. Além da moqueca de Suzana, às vezes arraia, às vezes guaricema ou cabeçudo, sempre com vista para o mar da Avenida Contorno.
E que tal o escaldado de cabeça de peixe do Recanto do Jaguar, numa transversal da Avenida Garibaldi? Antes mesmo de entrar na Rua 23 de Fevereiro, já se sente o cheiro do prato servido como cortesia da casa.

No Beco do Cirilo, o Bar da Dida põe regra: som de carro é proibido
São estas e outras delícias caseiras que encantam a cidade e fazem muitos se deslocarem só para provar. Com a missão de encontrá-los, visitamos diversos cantos de Salvador e, provando uma a uma, pudemos confirmar: escondido é mais gostoso.
A rua José Mariz Pinto, na Caixa D’Água pode até ser pouco conhecida, mas está longe de ser “ordinária”. Não conhece? Sabe de nada, inocente! Frequentemente, a viela é visitada por Compadre Washington, cliente regular de Dida, que prepara uma especialidade por dia, de terça a domingo. Diferente do que diz a letra da música, não é a “moqueca de siri que eles tanto comiam”.
“Mocotó, rabada, feijoada, tudo isso eu como. Eu gosto é de comida que dá sustância”, conta o parceiro de Beto Jamaica, com dificuldade para escolher qual o seu prato preferido no bar principal do Beco do Cirilo. Sobre a canção, ele opina: “Não sei qual foi a intenção dos compositores, mas acho que era para brincar com uma moqueca de siri e o nome do beco, que são parecidos”.

O cozido de Dida é a especialidade da quarta-feira
Moradora da localidade há três décadas, a cozinheira Dida, de 51 anos, todo dia faz tudo sempre igual. Desde 1999, quando abriu seu boteco, ela acorda às 5h da manhã. “Cozinhar para mim é tudo, eu amo!”, revela. Dia de quarta-feira, ela sai da cama com uma missão especial: botar no fogo o cozido que será servido às 11h30. É ela quem prepara sozinha o prato especial do dia, com a contribuição das suas seis ajudantes nos trabalhos de limpeza e atendimento.
As seis panelas de verduras e duas de carne atraem clientela de vários bairros, de Pernambués ao Itaigara. Quem não come na hora, leva uma quentinha. “Vem gente de vários lugares! Vem até policial, bombeiro e o pessoal da prefeitura. Já me ligam logo cedo para reservar a comida, aí depois buscam as marmitas”, conta Kinho Elite, 32, que trabalha no Bar da Dida há 17 anos.
Ao meio-dia, as mesas distribuídas pela calçada do outro lado da rua, aos poucos, começam a ser ocupadas. Para servir os visitantes à espera do cozido, Dona Graça e outras cinco ajudantes têm de cruzar as calçadas de um lado a outro. Quando dá 13h, o beco engarrafa. São quatro carros no passeio esquerdo, seis estacionados à direita e outros cinco automóveis que tentam adentrar a rua de mão única.
As porções do cozido são servidas em tamanho pequeno, para duas pessoas (R$ 18) e grande, para três (R$ 28). Mas tem que chegar cedo. “Às vezes, 14h já não tem mais nada”, conta Dona Dida, orgulhosa do sucesso da iguaria de toda quarta-feira.
Para os amantes de feijoada, sábado a partir das 12h, e domingo às 7h, são os dias reservados para este típico prato brasileiro. Segundo ela, são 11 panelas e mais de 30 quilos.“Feijão meu vai pro Rio de Janeiro. Eu congelo e levam!”, conta Dida, contente pela proeza de exportar seu tempero para o estado carioca.

Uma mistura de cuscuz de farinha de milho, bacon, carne de sertão, calabresa, paio e demais temperos, com direito a feijão fradinho para acompanhar. “É prática, barata e gostosa”, conta Rosinha Chagas de Souza, 56, orgulhosa da farofa pernambucana que prepara desde pequena, quitute ensinado pelo pai, natural de Pernambuco.
Mesmo sem restaurante, sem vender e sem divulgação, o prato faz sucesso. A fama e o cheiro espalham-se e atraem os vizinhos, amigos e os “moleques”, como a senhora pequena e festeira chama os netos e sobrinhos, que batem na sua porta para pedir um pouco da famosa farofa. É na Ladeira do Paiva, estreito onde passam no máximo duas pessoas lado a lado, que a soteropolitana Rosinha dá vida ao petisco.
Antiga proprietária de um restaurante de comida baiana, ela explica que atualmente só cozinha para consumo próprio. “Agora é para mim, meu marido e meus filhos. Mas toda vez que faço, a casa enche! Adoro quando o povo vem pra cá. Quem não gosta é o meu marido que fica trancado em casa”.
A farofa ficou conhecida quando ela, seus filhos e alguns vizinhos montaram a banda Manos do Samba. Enquanto a garotada tocava madrugada a dentro, Rosinha cozinhava. “Essa farofa ficou famosa por causa da molequeira na minha porta. Era só bagunça. Eu amanhecia o dia fazendo comida e os meninos tocando”, diz Rosinha.
“Na banda eu não fazia nada, só bebia e sambava. Sempre curti a vida assim. Tenho pouco mas sei curtir, e sei cozinhar também!”, exclama a dona de casa com riso solto. E foi assim que virou tradição. A delícia caseira não pode ser servida sem o lendário samba de Rosinha: quase uma dança de benção ao alimento. “Eu caio na gandaia, eu sambo, eu brinco, eu danço”, arremata, cheia de vida e tempero.
Entre paredes grafitadas e escadarias da Comunidade Solar do Unhão, na Avenida Contorno, esconde-se o tempero de Dona Suzana, uma senhora baixinha e risonha de 60 anos. Para chegar lá, prepare o pulmão: é uma jornada de degraus pela frente. Apesar de pouco conhecido, o caminho é fácil e não é perigoso, como muitos podem pensar.

Dona Suzana com sorriso no rosto e com orgulho do que faz
À esquerda, depois do portão do Museu de Arte Moderna (MAM), na Rua Desembargador Castelo Branco, basta perguntar pela moqueca da Suzana. Um simpático morador ensina: “Desce aquela escadaria ali e segue direto. Tá vendo? Quando chegar lá na frente você pergunta de novo, mas é só virar à direita num bequinho”.
Na descida íngreme, a vista da Baía de Todos-os-Santos força uma pausa para apreciar o mar e recuperar o fôlego. Digno: a composição das casas decrescentes amontoadas junto ao mar formam um cartão postal. Ao chegar no destino, o esforço é recompensado: comer a moqueca caseira de peixe fresco, às vezes guaricema, cabeçudo ou arraia, servida a partir de meio-dia com porções de arroz, pirão, feijão fradinho e pimenta para acompanhar. O prato é R$ 15 por pessoa.
Constantemente aparecem turistas procurando pela moqueca. “Oxe! Já veio muito gringo aqui. Francês, italiano, da Holanda, de vários países”, conta Rita de Cássia, 33, sobrinha da dona do tempero. Também tem opção vegetariana: moqueca de soja com verduras, azeite doce e de dendê, além de banana da terra coberta com ovo.
É só chegar e pedir, garante Suzana de Almeida Sapucaia. Ela abre o espaço às 7h, quando acorda, mas os clientes costumam aparecer por volta do meio-dia. “Todos os dias, de domingo a feriado, chovendo ou fazendo sol, eu estou aqui”. Mas o ideal é ligar antes para avisar e garantir o pescado com dendê, preparado em dez minutos.
“Aqui é pequenininho, às vezes minha cunhada me dá um espacinho dela e boto três mesas. Aí, já dão mais de 30 pessoas. O pessoal senta até no chão”. Assim, como coração de mãe, Dona Suzana sempre aperta para caber mais um no estreito de dois metros de largura e dez metros de extensão até a casa da sua cunhada, Mary Cristina.
De frente para as águas azuis, o beco é a moradia da cozinheira há 40 anos. Em 2013, passou a ser também local do trabalho. “Cozinhar é maravilhoso”. A placa branca em letras vermelhas pendurada na porta, revela: Ré-Restaurante Dona Suzana, que ironiza sua própria gagueira. Ela não se importa. Leva tudo na brincadeira: “Eu falo assim porque eu sou gaga, eu puxo na fala”. E é deste modo que Dona Suzana leva a vida. Com sorriso no rosto, trabalhando todos os dias e, se puder, tomando uma dose de caninha 51.
“É aqui mesmo?”, estranha Romenil Santos, motorista do CORREIO, momentos antes de baixar a janela do carro e entender que estava no lugar certo. O aroma exalado bastou para a convicção. “Está cheirando, deve estar bom!”, disse, entusiasmado, antes de dar marcha a ré. Não é possível entrar de carro na Rua 23 de Fevereiro, que tem cerca de quatro metros de largura e fica escondida em meio a Avenida Anita Garibaldi.
Quem imaginaria que nela, toda quarta-feira, a partir das 19h, um banquete de 15 quilos de cabeça de peixe é servido de graça? Em uma cozinha de aproximadamente um metro quadrado e equipada com um fogão industrial de duas bocas, uma fritadeira e uma pia, o pescado ganha sabor através das mãos do gastrônomo Jaguaraci Moura Nengo, 35. Para preparar o prato, ele utiliza corvina, badejo ou pescada amarela.



“É pequeno, mas consigo fazer tudo neste espaço. Todos os tipos de tira-gosto e todos os tipos de prato quente. Sarapatel, mocotó, feijoada, rabada: é tudo preparado aqui!”, reitera o chefe de cozinha Nengo, como é conhecido na vizinhança onde nasceu e mora até hoje.
O prato individual, cortesia da casa para quem consome no Recanto do Jaguar, inclui quiabo, chuchu, repolho, abóbora e escaldado, um pirão feito com o caldo da cabeça de peixe. Repetir o prato é permitido. “Todos me pedem bis”, conta entre gargalhadas, Nengo. Cliente fiel, a vizinha Rita dos Santos confirma o sucesso: “Toda quarta aqui é uma festa! Ele dá janta a gente, saímos de barriga cheia”.
O quiosque, à esquerda logo na entrada do estreito, passou a ser alugado por ele há dois anos, mas existe há mais de três décadas. “Essa barraquinha era de madeira e eu reformei com gesso acartonado e piso, para ficar higiênica”. Mesmo pequeno, o espaço ainda conta com um banheiro nos fundos, um atrativo a mais. “Você já foi no meu banheiro? Depois dá uma olhada!”, disse, querendo impressionar.
Domingo, 6h45 da manhã. Enquanto uns dormem, Ana Patrícia Moreira, 36, já esquentou a feijoada, preparada às 18h de sábado, e está pronta para servi-la. Seu marido Alexsandro Batista Teixeira, 36, está preparado para o pique matinal e habitual dos domingos, e o tio Luiz Augusto Conceição, 50, já abriu o bar.

Em frente ao Bar do Luiz, os fregueses de Patrícia com os pratos vazios e sorriso no rosto
Às 7h da manhã, enquanto uns continuam na cama, alguns saem da balada, outros se preparam para o baba de mais tarde e outros, como de costume, se levantam e vão para frente de casa. O que essas pessoas têm em comum é o destino: comer a feijoada de Patrícia na Rua Gilberto Maltez, no Vale das Pedrinhas. Se é uma comida forte para o café da manhã, pouco importa.
Esta é a clientela do trio, que tem uma parceria há um ano e três meses. Luiz vende bebidas no ponto que mantém há 30 anos, e o casal serve as comidas em um outro local, ainda ali na mesma rua, mas há 10 metros de distância. Dois espaços, duas cozinhas e um serviço que deve ser ímpar: comer e beber.
“Eu nem posso botar no fogo cedo, se não o pessoal sente logo o cheiro e pede”, diz Patrícia, que, às vezes, tem de convencer os adiantados e esfomeados de que o seu feijão só sai 7h em ponto. Nenhum minuto antes e nem depois. Despachar de currute, como ela diz, vai contra os seus princípios como cozinheira.
E no vai e vem, pra lá e pra cá, Alexsandro vai servindo os fregueses num ritmo frenético já às 8h. Este é o horário de pico, segundo ele.

Na Rua Gilberto Maltez é assim: feijoada e gelada já às 8h da manhã de domingo
Patrícia começa a dar vida ao prato sábado à noite, e conta que se iniciar o preparo antes, os vizinhos sentem o cheiro e pedem um pouco. Mas não adianta bater o queixão, é só no domingo. O prato custa R$ 15 a porção pequena, R$ 25 a porção média e R$ 35 a porção grande, que serve cinco pessoas.
O movimento do negócio sobe e desce. “Às vezes procuro até faxina ou algum outro bico quando aqui fica fraco. Eu também faço doces e salgados”, conta ela, mãe de Ana Sophia, de 2 anos, e de Kaio, de 13 anos. Mesmo assim, desde que ela e o tio uniram forças para montar a parceria, a clientela cresceu e o lucro de Luiz também.
Bendito: o tempero da evangélica é multiplicador. “Deus me deu o dom do paladar. Tudo o que eu experimento eu vou multiplicando. Nasci com esse dom de cozinhar, e eu amo!”, conta Patrícia. Ela diz que prova qualquer prato e já sabe como fazer. Muda uma coisa ou outra e melhora a receita. E quando vem os pratos limpos, se orgulha. “Aí eu vejo que estava bom mesmo. E como vem! É difícil você ver eu jogar comida fora”.