Por Vanessa Brunt
Um dos sambistas mais renomados do país, conhecido como compositor-cronista de Salvador, continua retratando a cidade através das letras que cantarola. Aos 95 anos, Riachão, que teve várias das suas músicas interpretadas por cantores nacionais, como Cássia Eller, e foi autor da famosa Cada Macaco no Seu Galho, gravada por Caetano Veloso e Gilberto Gil, prossegue apaixonado pelo cantar e pelos cantos e encantos soteropolitanos.
Suas mais de 500 músicas retratam episódios, figuras e locais do cotidiano em Salvador. Através delas, é possível pincelar partes da história da cidade. O compositor, que vivia desvendando a capital a pé, agora a investiga através dos comentários que escuta e dos passeios que faz de carro. Mesmo sem conseguir mover as pernas com normalidade, por conta da idade, Riachão não perde o bom humor ou o olhar detalhista e reafirma o desejo de gravar diversas das canções que ainda não lançou.
Com o costume de não anotar as letras ou as melodias criadas, o cantor perdeu algumas das suas canções, mas afirma que, por vezes, ressurgem na memória. Em 2013, lançou o disco Mundão de Ouro, reunindo alguns dos lembretes obtidos. “E agora, como é que é? / Amor não tem idade / Seja o que Deus quiser”, afirma o baiano na letra de Valdinéia. Se o amor não tem idade, para Riachão, a música também não tem.
Sentado com um sorriso no sofá da sua casa, no Garcia, ouvindo samba, cantando com empolgação e mexendo o tronco de um lado para o outro, Riachão recebeu o CORREIO de Futuro com a sua famosa toalhinha pendurada no pescoço. “Ele ouve música o dia inteiro”, afirma a neta Geisivane. Durante o bate-papo, ao ver alguém com a mão no queixo, o compositor declamava, cantarolando: “tira! Tira essa mão! Cara de tristeza aqui não! Tudo tem dois lados, mas o melhor deles é sempre o de sambar. As coisas se explicam, mas só para quem quer e entende que é melhor cantar”. Confira:

O senhor já afirmou que o mundo é mais bom do que ruim, mas o que tem faltado é amor. Falta amor em Salvador?
Um radialista me perguntou uma vez o que eu achava atualmente sobre a humanidade, e foi então quando dei esta resposta. Porque hoje o que está aí de tristeza é falta de amor, mas não generalizo. Ainda tem muita gente boa no mundo, mas as pessoas que acabam indo para caminhos negativos, geralmente acabam assim por conta da falta de amor que, às vezes, as boas pessoas acabam negligenciando, deixando de dar como poderiam ou deveriam, por uma insegurança que hoje vejo mais instalada do que antigamente. É um ciclo venenoso o de se permitir endurecer, isso é o que alimenta o que vemos hoje de absurdo. A falta de amor e de respeito está aí, piorando pelo mundo, com tudo sendo mais banalizado. A gente vem sem nada, a gente tem que construir, e fico triste de ver pessoas só olhando para os lados ruins das coisas as vezes, sem lembrar que sempre existem os dois lados. Quando vejo falta de agradecimento ao que se tem, é o que mais me deixa triste.
Mas em relação a Salvador, só tenho a dizer que é um lugar que continua alimentando a minha esperança. A nossa cidade mudou, mas mudou assim como o mundo inteiro. Hoje é mais violenta, vejo mais falta de consideração entre as pessoas, menos conexão presencial. Mas continua tendo muita alegria, continua sendo um lugar cheio de gente espontânea, de gente que chega e logo está compartilhando sobre a vida e dando as mãos. Essa forma de lidar com o outro quando acaba de conhecer, essa maneira aberta, receptiva, que sempre conta com a esperança, é algo que vejo tanto por aqui, e isso é muito importante. O povo baiano não desiste de andar, de sentir a intimidade com os cantos, de desvendar. Sempre arranjamos um jeito de fazer festa, de trazer uma sensação de segurança e de saber unir isso com muito trabalho no dia a dia, sem preguiça. Todos os locais têm pessoas assim, mas gosto de ver quando chegam aqui e comentam que sentem isso com maior grau.
O que é fundamental e falta aqui na cidade?
Acho que é um trabalho mais humanizado. Passei muito mal em uma festa que fui e, desde então, não consegui mais andar como antes. Neste dia, estava muito mal, claramente precisando de um atendimento de emergência, porque o risco era de que tivesse um treco. Na verdade, já estava tendo. Me levaram para um hospital particular e, só porque eu não tinha um plano de saúde na hora, ninguém se prestava a atender, a ajudar outro ser humano para depois cobrar. Podiam deixar claro que iriam precisar cobrar depois, mas não, eles não atenderam. Ninguém sabia se de lá para um hospital público eu aguentaria e, mesmo assim, os médicos não atendiam, colocando o dinheiro ou até a burocracia e as leis absurdas acima de um momento de humanidade. Se aquele era o hospital mais perto… Qual o problema? Falta de amor! Falta isso no hospital público também e em muitos cantos. A minha crítica construtiva é a de humanizar mais os atendimentos, os códigos de ética.
O senhor acha que Salvador ainda é ‘a cidade da música’?
Salvador é e continua sendo a cidade da música, sem dúvidas. A espontaneidade que temos como soteropolitanos, a necessidade de chegar junto, de expelir sensações e criar novas, é algo muito presente e natural. Dizem que “falamos cantando” e é verdade, mas não só pelo som que fazemos, é uma união da nossa essência, do fulgor que a maior parte do nosso povo carrega. As músicas daqui são tão ecléticas, por mais que, de fora, conheçam poucos dos nossos estilos.
Falando mais especificamente, há muitos anos atrás houve uma polêmica no Rio de Janeiro para saber onde nasceu o samba. Então o Rio preparou uma equipe de imprensa e mandou para a Bahia, para encontrar aqui, artistas que pudessem responder sobre essa questão. Foram procurados Riachão e Batatinha. Então marcaram o dia do encontro. Chegou no dia e primeiro Batatinha respondeu. Lembro-me bem. Ele disse assim: “Quando eu me entendi, o samba estava vindo do Rio de Janeiro”. Aí para a imprensa do Rio caiu bem, porque, obviamente, eles queriam confirmar que o samba veio de lá. Quando terminou a parte dele, chegou a minha. Então eu convidei um violeiro e respondi: “Digo, com toda a certeza, que o samba nasceu na Bahia. Por quê? Porque o Brasil nasceu na Bahia. E quem trouxe o samba? Os africanos. Os escravos. E o samba de roda, o samba de chula, é o pai de todos os sambas. O samba de chula foi o pioneiro do ritmo que gerou essa forma de liberar tantas letras, tantas emoções”. Assim que acabei de falar isso, eu cantei um samba de chula com o violeiro, para representar o que eu estava falando. Então eu disse “É esse samba que é o pai de todos, é o samba trazido dos africanos. Africanos que foram trazidos por Portugal, causando ainda mais essa mistura que somos. Na senzala, a brincadeira dos escravos era essa, e ela continuou sendo a nossa, porque a Bahia é séria sim, mas sempre sabendo sorrir”. E então, a imprensa daqui me prestigiou pela resposta sincera que dei.
A cidade, em geral, é a mesma que te inspirava?
Salvador mudou, porque evoluiu. O problema é que “nêgo” às vezes vai a pé e chega mais rápido, só que esse ‘a pé’ não tem tanta estrutura e nem segurança para acontecer. “Tô” vendo que o metrô foi feito e está encaminhando, tomara que essas ajudas aconteçam com mais eficácia. A cidade continua tendo a essência alegre e isso é o que mais me inspira. Fico inspirado quando ando de carro pela cidade, olhando. Mas hoje não saio por aí andando como antes. E sinto saudade disso. Vivo e sinto Salvador de uma maneira diferente, mas sei que existem possibilidades, locais que estão sendo revitalizados para que possamos curtir Salvador a pé, como é o caso da Barra.
E o Garcia? Continua sendo uma inspiração?
Aqui no Garcia era tudo roça. Meu pai plantava aqui mesmo. Neste terreno era tudo mato e terra, até lá frente, onde hoje é rua, e antes era tudo estreito, só dava para passar uma carroça. Eu sinto muita saudade e em alguns dias eu choro, porque tudo isso me lembrava da minha infância e da minha família, as lágrimas surgem nos olhos por saber que tudo o que era mais próximo daquela época se foi. Depois da morte do meu pai tudo se modificou, olho hoje para esse lugar, para o bairro, e vejo que tudo está ocupado de maneiras diferentes, estão desmatando cada vez mais e sem os cuidados devidos. Agora são casas e prédios aparecendo descontroladamente. Aqui foi onde nasci, cresci, e quero continuar tendo esse contato ativo com o lugar acima de tudo. Mas não posso deixar de observar os lados positivos dessas mudanças. A mobilidade melhorou muito. Se antes não tinha espaço sequer para um cavalo passar direito, hoje vemos os carros. O que me entristece é o verde sendo acabado, essa falta equilíbrio, mas o resto é muito bom. Hoje é mais bonito, mais confortável.
O que era ser malandro em Salvador? Esse tipo de malandro ainda existe?
No Rio de Janeiro, já houve uma polêmica por condenarem a palavra “malandro”, por isso gosto de esclarecer esta questão. O malandro é aquele que tem alegria no coração, que é ativo, que samba, joga capoeira, faz a alegria para o povo por viver e não apenas sobreviver, por saber enxergar as coisas não só para si, mas pensando no respeito, nos outros. O malandro é observador, quer desvendar os cantos e as pessoas. O malandro tem malicias por acumular experiências detalhadas, e utiliza essa malicias para viver mais e lançar o bem por aí, sendo sagaz. O malandro de hoje pode ainda ser bem semelhante ao de antigamente, porque a essência não muda apenas por detalhes externos. Quem quer ter um estilo de vida mais ativo e curioso, vai ter.
O senhor já admitiu que não gosta da letra da música “Vá Morar com o Diabo”, que foi gravada por Cássia Eller. Por que esse desgosto?
Foi o seguinte, lá no Rio de Janeiro, meu grande amigo Jô Soares virou para mim e disse: “Riachão, gosto muito de você, as mulheres também gostam muito de você e sei que você trata as mulheres com carinho. Então gostaria de saber o motivo do nome da música ‘Vá morar com o diabo’. Por que mandar uma mulher morar com o diabo?”. A música na época estava no sucesso. E, ora, se as mulheres devem ser tratadas com carinho e respeito tanto quanto qualquer homem e ser humano, como posso mandar uma mulher ir morar com o diabo? A letra maltrata as mulheres, e por isso não gosto. Essa música não nasceu de algo que ocorreu diretamente comigo. Ela surgiu a partir da inspiração que veio em uma conversa que tive com um amigo. Ele estava reclamando em um bar, falando que a mulher dele não queria fazer nada e disse “ela que vá morar com o diabo!”, mas depois me arrependi de ter lançado algo tão grosseiro. Naquela época a mulher ainda era vista como quem deveria cuidar da casa, existia tanta imposição ruim. Hoje, ainda bem, cada um escolhe o que deseja fazer e as pessoas dividem as responsabilidades. Todos temos as mesmas capacidades. Se a mulher deseja cuidar somente da casa, maravilha. Mas, se não, maravilha também. Fico feliz de ver tantas mulheres em novos cargos em Salvador e triste por ter alimentado esse estereótipo na letra.
Salvador é também um local repleto de religiosidades. O senhor acha que, hoje, existe respeito a essa diversidade?
Reparo cada vez mais respeito de uma pessoa para outra em relação a essas escolhas religiosas, ao que o outro tem como crença; mas é triste ver quando existe guerra em que um só quer falar e não ouvir. Eu sou católico, acredito em Deus e cuido da minha parte, mas também não sou fanático por conta de alguns detalhes ainda exagerados dentro das igrejas, mas sei também que muita coisa tem melhorado. O sincretismo em Salvador é uma coisa linda de ver, a mistura das nossas crenças é algo realmente singular e que vemos com força em amuletos e outros detalhes, como é o caso da fitinha do Senhor do Bonfim. A Bahia vive em liberdade e, em geral, Salvador enxerga a mistura como próspera. Candomblé, espiritismo, catolicismo, os crentes, todos acabam, muitas vezes, se complementando e dando luz uns aos outros. Contanto que haja respeito e vontade de ajudar, isso será algo belo e nos beneficiará. Já que um saber e um crer sempre pode ser porta para que outro saber e crer ganhe mais de si. O nosso povo, em geral, leva muito isso em consideração. A religião principal da nossa cidade é a natureza, é o acreditar em algo maior. Contemplar isso na energia, no sol, na lua, nas estrelas. Cada um desses detalhes nos liberta para que misturemos crenças buscando entender as nossas ânsias. Somos um povo que abraça.
Após o acidente que aconteceu com a sua família, quais as reflexões mais profundas que o senhor pôde ter?
Tudo tem uma razão.
Nas viagens, o que mais sentia falta daqui?
Apertava saudade de tudo. Principalmente das comidas típicas, como de um bom caruru e de conversar na praça com desconhecidos que acabam, em geral, conversando de volta e não olhando torto como acontece em maiores casos em outros locais.
Pretende gravar um novo disco?
Quero gravar várias das músicas que lembro às vezes. Quero ainda gravar várias das que tenho. De 2007 (época em que surgiu o problema na perna) pra cá eu não tenho gravado novas canções, mas tudo o que acontece comigo pode virar música, Deus acaba trazendo novas composições.
Como o senhor vê as oportunidades hoje para a música na capital baiana?
Salvador sempre incentiva a arte, sempre tem nas favelas projetos incríveis acontecendo e fora delas também. É assim em qualquer canto. A arte nasce e é regada em diversos locais, agregando oportunidades. São escolas, são concursos, são novos programas de apoio. Basta buscar e ir na atitude de ficar no meio disso e bater nas portas. Além disso, você pode criar o seu próprio projeto, levar para o governo, divulgar e sempre existirá gente para impulsionar. A veia da expressão, do sentir calorosamente, corre aqui. Tem que pesquisar, usar a tecnologia para isso, mas os pés também. Correr atrás da mesma maneira que antigamente é fundamental. Aconselho a todos que pesquisem, mas que cheguem pessoalmente nos locais, não esquecendo de “meter as caras”. Aqui e em qualquer lugar, chegar e olhar nos olhos é mais impactante, ainda mais nos dias de hoje, em que o esforço de mexer o corpo fica em segundo plano.