Chamas de fé

Por Vanessa Brunt

As cores e os famosos três nós esvaecem em meio ao fogo. A fumaça é feita ali, na frente da igreja que, a cada dia, aparenta ficar mais colorida. Aparenta. As chamas são os novos destinos de um dos amuletos e souvenirs mais típicos de Salvador. Para alguns, é um ato purificante que inova a maneira de conceber os desejos; para outros, uma ação desrespeitosa.

Muito comum de ser vista atada em pulsos e tornozelos, a fita do Senhor do Bonfim passou a ser, nos últimos cinco anos, amarrada também nos portões da área que a batiza. E, após o costume, uma maneira alternativa de lidar com os itens foi empregada pela própria Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Desde 2012, todo mês de janeiro, a cada segunda sexta-feira de um novo ano – um dia após a Lavagem do Bonfim –, as fitas colocadas no gradil durante o ano anterior são queimadas, com apoio e colaboração da própria instituição e dos ambulantes do local, os quais as cortam regularmente.

A contrariedade surge, no entanto, por conta dos princípios da crença popular, a qual carrega a noção de que os desejos feitos através dos três nós, somente serão realizados quando a fita for, espontaneamente, rompida. Desde a evolução após 1809, quando criadas por iniciativa de Manuel Antonio da Silva Servo, tesoureiro da Irmandade do Senhor do Bonfim, a prática é seguida. Assim, nem todos aqueles que acreditam no simbolismo do objeto ficaram satisfeitos com a revelação.

O mineiro Renan Caetano, de 24 anos, estava amarrando duas fitinhas no portão da Igreja e demonstrou aborrecimento ao saber do fato. “Cheguei aqui sabendo da história das fitinhas e o que todos disseram para mim é que o que não se pode fazer no braço é cortar. Isso surgiu de crenças e compreensões sociais e aí vem a Igreja e faz, por questões claramente mercadológicas, justamente o que não pode ser feito com essas fitas que guardam os pedidos?”, questionou, retirando suas fitas do gradil.

No momento da cremação, duas urnas são colocadas: uma para pedidos e outra para as fitinhas que são retiradas do gradil durante o ano. Os pedidos feitos em papéis e as fitinhas são queimados juntos em churrasqueiras. Foto: Marcia Lemos

Já Jéssica Volponi, que estava o acompanhando, enxergou a situação de maneira diferenciada. “Acho que esse ato de queimar, acaba sendo uma maneira de impulsionar essa energia que aqui seria menos acelerada. Vejo como uma forma de renovar isso e de encontrar outro jeito de aderir essa fé”, afirmou a mineira de 26 anos, entendendo que o desgaste das fitas no corpo acaba sendo mais veloz do que nos portões da igreja.

Para o paulista Leonardo Satto, 27, a cremação é um desrespeito. “Essa questão da fita se soltar sozinha tem toda a representação de uma energia que foi canalizada. Acho que cortar é uma maneira de desfazer esse processo de canalização. E acho que queimar, além de cortar, é algo que também desfaz da energia. Cremamos algo quando morre, não para”, analisou.

Distintamente, a soteropolitana Ninfa Mattos, 49, mostrou empolgação ao saber das queimas. “Enxergo isso de queimar como uma oferenda. Então não acho que afeta em nada nos pedidos, talvez só ajude ainda mais. É só uma outra forma de chamar essa energia”, acredita Ninfa, que afirmou querer acompanhar a cremação.

A também mineira Fátima Collengue, foi mais uma turista que desistiu de amarrar as fitas após saber da cremação, por enxergar prioridade no lado mercadológico. “O mercado acima da fé é algo absurdo. Tem que deixar que a natureza tome conta disso. Essa nova forma de lidar é algo criado claramente pensando nas vendas. Poderiam depois fazer uma limpeza das que caíram ou das que já estavam pelo menos um pouco lascadas, mas se não é assim que funciona, acho errado”, opinou.

EXPLICAÇÕES

Apesar da revelação enfurecer alguns fiéis, o Reitor da Basílica Santuário do Senhor do Bonfim há oito anos, padre Edson Menezes da Silva, defende a nova prática e destaca a sacralidade dela. “As pessoas acreditam que dando os três nós, atraem uma energia para que alguma solução venha, acatando os seus pedidos. É uma forma de acreditar em milagres. É, portanto, a fé que proporciona que se alcance o que deseja, então nós respeitamos o gesto de que amarrem aqui na frente da Igreja e não somente no próprio corpo”, garante.

O clérigo explica que os cortes são feitos durante todo o ano, a cada momento em que os ambulantes encontram o espaço cheio, mas a cremação é feita apenas em um dia, com acompanhamento de uma cerimônia especial. “Precisamos de mais espaço para que novas fitas sejam amarradas e, por conta disso, acabamos criando uma outra forma de abraçar essa fé. O momento de cremação é, para nós, um outro jeito de fazer jus aos pedidos”.

Padre Edson Menezes com ambulantes, organizadores à frente do processo dos cortes e queimas das fitinhas. Foto: Vanessa Brunt

E há uma outra justificativa para a queima: segurança. De acordo com o diácono Manoel Pedro Matias da Silva, quando as fitas iniciam o ressecamento em contato com o gradil e sob o sol quente, elas ficam propícias a entrarem em combustão. O engenheiro químico e professor  Henrique Delgado confirma.

“É possível que, quando elas estão em um maior ponto de desgaste, o contato constante com o sol provoque o processo de combustão”, explica, tranquilizando aqueles que carregam a fita no pulso ou no tornozelo. “No corpo, pelo objeto não ficar no sol, parado por muito tempo em uma mesma posição, seria basicamente impossível de entrar em um processo de combustão”, garante.

O professor, especialista em educação ambiental, no entanto, defende um outro destino para as faixas, que atualmente são produzidas em São Paulo. “Elas são recicláveis, como todo material feito de poliéster. As garrafas PET, por exemplo, são feitas do mesmo material, então tudo o que pode ser feito com as garrafas, poderia ser também aproveitado com a reciclagem das fitinhas”, diz Delgado, que pondera, porém, a celeuma religiosa que a reciclagem poderia causar.

 PROCESSO

Para o padre Edson Menezes todo o processo que envolve a cremação, com participação ativa dos ambulantes, se tornou também uma tradição.  “Há 5 anos, na primeira sexta-feira de janeiro, sempre colocamos na frente da Igreja algumas urnas para que as pessoas possam colocar papéis com metas e pedidos escritos. Na segunda sexta-feira, quando ocorre a cerimônia, as pessoas que quiserem, podem adquirir novas fitinhas para que sejam cremadas também”.             

No entanto, a nova prática ainda não possui uma organização tão definida. As fitas mais desgastadas são cortadas pelos ambulantes no decorrer do ano, sem uma periodicidade clara, e entregues para a Igreja, que as guarda em sacos plásticos, acumulando os recebimentos até a data da nova cremação. Às vésperas da queima, todas as acumuladas e as que ainda restavam no gradil são reunidas.    

“Eu também coloco, principalmente no gradil”, diz o padre Edson Menezes. Foto: Vanessa Brunt

Personagens ativos de todo o processo, os ambulantes aprovam a cremação, garantindo cuidado com as fitas e o respeito à fé.  O movimento das fitinhas é maior dia de sexta e domingo, então costumamos nas quintas-feiras procurar as que estão ficando mais desgastadas aqui no gradil para cortar. A gente tira e dá para a Igreja”, revela Jorge Conceição, há 40 anos trabalhando na Colina Sagrada. “Confiamos que eles guardam as fitas direito lá. Eles colocam depois as caixas aqui na frente e nós participamos do processo da queima”, diz o ambulante que integra o processo de cremação há quatro anos.

O colega Everaldo do Vale, há 47 anos no Bonfim vendendo fitas, terços e escapulários, enche os olhos de lágrimas ao falar do momento da queima. “É emocionante. Purifica a todos nós e realmente pode ajudar mais nos pedidos feitos. É outra maneira de lidar com a fé e penso que os santos devem também se emocionar ao terem as pessoas juntas, unindo seus desejos e transmitindo coisas boas”, defende. “É tão bonito quanto uma missa, é um momento de fé para novas portas se abrirem. A fumaça subindo me dá uma paz”, lembra o ambulante, com as pálpebras apertadas e braços levantados para o céu.

Ele, porém, não deixa de citar a vantagem que as queimas acabam gerando para as vendas. “Quando o gradil fica muito cheio, não tem espaço para as pessoas colocarem as fitas. Muitos desistem de comprar. Então, quanto mais vazio, melhor para os vendedores”. Conceição concorda com o colega. “Acho isso bom para nós, ambulantes, porque quanto mais tem espaço aí na frente, mais estimula o povo a comprar para preencher. No braço, eles têm que esperar cair para voltar”, diz o comerciante que vende as fitinhas pelo valor padrão de R$ 0,30 cada.

A dona da barraca de doces Yulmara Alves, que trabalha na frente da Igreja há 45 anos, também defende a cremação. “As fitas teriam que ser removidas de qualquer jeito, até para que o local possa ser higienizado. A Igreja poderia apenas cortar e jogar fora, mas eles fazem um processo de renovação ao queimarem. Acho que isso atrai boas energias, principalmente, pelo momento da oração que ocorre antes de cremar as fitas”, opina, apertando o punho com duas fitinhas do Senhor do Bonfim entre os dedos. “A fé de chegar ali e amarrar é, para mim, o que mais vale mais, e creio que os bons espíritos também vejam assim. O que mais importa é o ato de acreditar e a conexão entre as pessoas que chegam na hora da cremação. Acho que isso ajuda também para que as energias negativas possam ser retiradas”.