Por Maryanna Nascimento
Não fazia tanto calor naquela tarde mas Fernando me recebeu sem camisa, esbanjando o físico de ex-Rei Momo que não perdeu a majestade e continua conservando mais de cem quilos. Sem titubear, pegou o telefone e ligou insistentemente para três ou quatro mulheres. Uma delas era Elisabete, que ficou encucada com a chamada e não demorou a chegar. “Bete, venha aqui em casa agora. Tenho uma amiga que precisa muito falar com você”. Fernando Antônio Reis, 38, é assim: um fixer, aquela pessoa que assume o papel de guia e conhece cada beco e pessoa do local. Nesse caso, o Barbalho. Se o vendedor fosse contemporâneo de Gilberto Gil, certamente o artista não teria dúvidas sobre a identidade da “garota do barulho”, musa da música Tradição, que canta o bairro na década de 50. Fernando daria a ficha completa.
O bairro do homem dos contatos está remendado a muitos outros lugares: Macaúbas, Lanat, Pela Porco, Santo Antônio… As terras pertenciam a Luiz Barbalho Bezerra, militar pernambucano que lutou na defesa contra os holandeses. O lugar foi um dos palcos de batalha pela Independência do Brasil na Bahia e no forte do século XVIII, que recebe o mesmo nome do bairro, a primeira bandeira do país independente foi hasteada.
No fim da década de 70, Gilberto Gil compôs Tradição, com lentes voltadas para duas décadas antes do seu lançamento. Os personagens da canção, que eram reais, faziam parte do imaginário do cantor durante a juventude. “Conheci uma garota que era do Barbalho, uma garota do barulho”, é a frase que abre a música, lançada no álbum Realce, de 1979. Segundo o artista, ele era quase menino, aos 12 ou 13, quando se apaixonou pela tal garota, de 17 ou 18 anos, que chamava a atenção no bairro e dele, em especial. “Era meu desejo sexual”, revela ao jornalista Carlos Rennó no livro “Gilberto Gil – Todas as Letras” (1996). Hoje, seis décadas depois da vivência do Gil adolescente, muitas “garotas” ainda continuam fazendo barulho no bairro do Centro Histórico de Salvador.

Foto: Heitor Oliveira
Elisabete. Em 2002, então com 14 anos, Elisabete Monteiro teve as primeiras experiências de porra-louquice. “Daria para escrever um livro, ‘Aos 14’”, confessou, aos risos, fazendo referência a um famoso filme sobre adolescentes rebeldes. Nesse período, fez o primeiro piercing, a primeira tatuagem e arranjou o primeiro namorado. No ano seguinte, se tornou body piercer em um estúdio. “Só botava em conhecidos, porque era ‘de menor’. Cheguei a furar umas 50 pessoas”, contou a estudante de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia. Boa parte delas, influenciadas pela própria Elisabete, que fazia o tipo popular. Ela era aquela que pulava o muro da Escola Divino Mestre para beber no fundo da Paróquia do Santo Antônio. A bebida queridinha também carregava nome de santo: São Jorge. Hoje, aos 28, atrai admiradores pelo mesmo motivo: não está nem aí para nada e inclusive já foi paquerada com a música de Gil. O seu Instagram, com mais de 2 mil seguidores, mensalmente tem um nude postado, o que deixa cabisbaixa a sua mãe. “Não acho legal, as pessoas são maldosas”, disse Rosana, enquanto olhava fixamente para os olhos da filha, provavelmente na esperança de fazê-la mudar de ideia. A sua mãe, apesar de ser contra os nudes, não tem maiores reclamações sobre as cinco grandes tatuagens e os três piercings na sua cria. Ela, inclusive, foi quem colocou a filha no caminho do barulho. “Minha mãe me levou para os meus primeiros shows. Vi com ela Novos Baianos”.
Rosana. “Mãe, lembra daquele dia em que vimos um disco voador ali?”, apontou Elisabete para o crepúsculo que pintava o céu no Largo do Santo Antônio. Rosana Maria de Santana, 54, lembrava. “Sim, os extraterrestres. Eles são nossos irmãos”, confirma. Tirando a violência, não há mais nada que lhe desperte descrença nesse mundo. Já teve contato com gnomos, duendes e até com as águas. Águas da Lagoa do Abaeté, diga-se de passagem. Foi lá onde, na década de 80, construiu um barraco de madeirite e foi morar sozinha, a convite da própria lagoa escura arrodeada de areia branca. “Eu fui conhecer a lagoa e ela me fez um chamado. ‘Você vai morar aqui’”. Por influência de uma amiga, no mesmo período acabou ingressando no curso de Farmácia da UFBA. Hoje, farmacêutica, carrega uma contradição: dificilmente deixa um medicamento de laboratório entrar na sua casa. A energia das plantas, a homeopatia e a espiritualidade cuidam de tudo. No meio disso, a mulher de cabelos escorridos, com mechas brancas, que carrega uma feição indígena, também é uma colecionadora de vivências efêmeras. Já foi da turma do bodyboard, stand up paddle, slackline e atualmente está construindo um tambor xamânico. “No final, não dou sequência a nada, o que gosto mesmo é de fazer coisas de jovem”.

Foto: Gabriel Soares
Joaninha. Escanteio, pênalti, impedimento, tiro de meta são termos comuns para quem se interessa por futebol. A aposentada Joaninha gosta muito de ver jogos em estádio, mas desconhece o significado da maioria dessas expressões e inclusive teve dificuldade em entender a lógica do ‘gol’. “Uma vez que fui ao Barradão com o meu filho, o Bahia fez um gol e eu comemorei igual a uma maluca, com a mão na cabeça”, lembra. A ocasião era um Ba-Vi e Célia estava na torcida do Vitória, a qual ela acompanha há três anos com frequência. Joaninha ou Célia? De batismo é Maria Joana Jesus Santana, mas ela tem um nome em cada canto: Veia, Célia, Iá, Bia, Joaninha. “Mas eu não faço nada de errado”, diz, ao justificar o motivo de tantos codinomes. Além de ser uma fiel seguidora do Leão, ela também bate ponto nos shows de Tatau, outro rubro-negro. Não à toa, já é conhecida dele e tem lugar garantido no palco. “Se um dia ele não me chamar, ficarei magoada”. Joaninha, 76 anos, não abre mão de fazer bagunça: virou a noite no último Carnaval e só chegou depois de o sol raiar, preocupando a filha; já subiu em árvore para ver Ivete e gosta de ficar “no meio da putaria” quando vai ao Barradão. “É claro que eu sou do barulho”, garante.
“No tempo em que o Centro Histórico era realmente o centro da cidade…”, poderia cantar Gil, se Tradição fosse escrita hoje, com os olhos para os anos 50. Centro econômico, social e cultural da década, o local era o quintal do artista, que vivia no Santo Antônio Além do Carmo quando adolescente. Relembrando as histórias narradas nos versos da canção, especialistas e personagens que viveram no período comentam o que era a tradição.
♪ (…) Namorava um rapaz que era muito inteligente, um rapaz muito diferente, inteligente no jeito de pongar no bonde (…) E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde

Foto: William Janssen / Samsung museum
Quando Gil era garoto, os bondes ainda predominavam em Salvador. A sua eletrificação havia se dado há cinco décadas, em 1897. Antes disso, os veículos eram movidos a tração animal e se chamavam “bondes de burro”. Com a segunda linha de bondes elétricos do Brasil, a capital baiana teve o chão coberto de trilhos que estavam presentes da Cidade Baixa à Alta. Em meados da década de 50, porém, a qualidade dos serviços não era boa e o prefeito Hélio Machado decidiu encampar a Companhia Circular Carris da Bahia, criando o Serviço Municipal de Transporte Coletivo (SMTC). A retomada do serviço pelo Poder Público não teve sucesso e aos poucos os bondes pararam de rodar. A desativação total se deu pouco tempo depois, nos anos 60, durante o governo do prefeito Heitor Dias.
Sabino Braga, 70, é um ex-pongador de bonde. “Os bondes saíam da Praça da Sé e quando passavam pelo Santo Antônio, antes de chegar ao ponto, pulávamos pra dentro. Os motorneiros ficavam brigando por causa da bagunça e tínhamos que correr pra eles não irem atrás. A nossa brincadeira era saltar antes antes do cobrador chegar, e aí era o momento de despongar”, lembra o aposentado, mestre auto-credenciado na arte de saltar desses veículos em movimento. “Despongar é o pior. Você tem que ter equilíbrio, precisa correr compassado. No meio disso tudo, ainda tinha espaço para competição: pegar na Rua Direita e descer na Marchantes, pra ver quem era o mais rápido e saltava mais vezes do bonde”, conta.

Foto: Reprodução
♪ De camisa aberta e certa calça americana, arranjada de contrabando
O sonho de consumo dos garotões da época eram as calças das marcas Lee e Levi’s. O único problema era que o desejo não se realizava com tanta facilidade. As roupas eram produzidas no exterior e o Brasil tinha taxas altíssimas que intimidavam o mercado, fazendo com que a mercadoria sequer ousasse atravessar legalmente a fronteira. Para ficar na moda, portanto, existiam duas opções: aproveitar a viagem internacional e fazer a compra, ou pegar na mão dos atravessadores, que vendiam a mercadoria de forma ilegal, conseguida com viajantes que chegavam de navio no Porto de Salvador. “As calças podiam custar o equivalente a 200 reais hoje, e sequer precisavam ser originais. O importante era mostrar o selo da marca”, comenta Raimundo Torres, consultor em economia exterior.

♪ No tempo que Lessa era goleiro do Bahia, um goleiro, uma garantia…
Entre 1947 e 1955, a defesa do Bahia teve o posto ocupado pela mesma pessoa: Walter Lessa. O goleiro magrelo, que nasceu lá em Recife, Pernambuco, saltava como ninguém e não deixava (quase) nada passar – apesar de ter dado zebra e perdido os dois primeiros jogos com a camisa tricolor. “Lessa, 1,77m e apenas 60kg, ‘orelhas de abano’ e com seu indefectível gorro lembrava os filmes de terror em que Boris Karloff ou Bella Lugosi eram os artistas principais”, descreve Nestor Mendes Jr no livro Esporte Clube da Felicidade: Bahia. Apesar da sua estranheza estética, de uma coisa não se pode reclamar: Gil estava certo quando disse que ele era uma garantia.
♪ No tempo que preto não entrava no Bahiano, nem pela porta da cozinha…

Foto: Reprodução
Naquela manhã de segunda, o clube não estava movimentado, apenas uma das quadras de tênis estava ocupada. Dois jogadores faziam acrobacias para sustentar a bola verde cana no ar. Um, negro; o outro, branco. Esse, aluno; aquele, professor. Completando o seu centenário, hoje o Clube Bahiano de Tênis tem negro entrando pela porta da frente. Em algum momento não foi assim?
Gil cantou que sim, Waldir diz que não. Waldir Figueiredo é um senhor de 92 anos que há 66 trabalha no clube como gerente. Ele, que se diz mulato, é enfático ao afirmar que “tudo isso de preto não entrar no Bahiano é um folclore”. Segundo o senhor de olhos verdes, o que sempre existiu foi uma questão de “qualidade social”. É muito simples entender: se você carregava sobrenomes como Catarino, Correia Ribeiro ou Gordilho, o passe já estava garantido. “Bahiano era tradição”, reitera. Hoje, seis décadas depois, o que vale mais é o poder aquisitivo. Mas se preto quiser entrar, ele entra. Basta ter uma gorda conta bancária.
♪ Indo do bairro pra cidade. Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro, pra onde todo mundo ia todo dia, todo dia, todo santo dia…

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução
“O Largo do Terreiro era o coqueluche”, disse com voz saudosista o Porfírio Amoedo, 84, proprietário do bar Cruz do Pascoal, no Santo Antônio. Coqueluche é uma expressão da época que fazia referência à doença infectocontagiosa e quer dizer “o que se pega em todo mundo, modismo”. Essa era uma boa definição para o Largo do Terreiro, o Terreiro de Jesus. O local era o centro da cidade e agitava a Salvador da década de 50. Magazine Duas Américas, primeira loja de departamento da Bahia e a primeira com escada rolantes da cidade; Sloper, loja voltada para o público feminino; o Bar Cacique e a Pastelaria Peres eram só alguns dos locais que atraíam a juventude. “O Terreiro de Jesus era o largo da Faculdade de Medicina, da Catedral Basílica, da Academia de Letras. Era um largo da elite, de intelectualidade e juventude. Como tinha faculdade, tinham estudantes. No intervalo de aula iam se divertir, era um ponto fervilhante”, diz o urbanista e historiador Chico Senna, 64.
♪ No tempo quem governava era Antônio Balbino, no tempo que eu era menino…
Antônio Balbino foi governador da Bahia entre 1955 e 1959. O maior marco do seu governo foi a construção do Teatro Castro Alves. Uma semana antes da inauguração, porém, o teatro sofreu um incêndio e só pode ter as portas abertas em 1967, durante o mandato de Lomanto Júnior. Enquanto o TCA se recuperava, “alguns espetáculos já contratados acabaram sendo no Instituto Central de Educação Isaías Alves Geral (ICEIA), do Barbalho”, comenta o pesquisador Nelson Cadena. “Nesse teatro, também ensaiavam os grandes artistas baianos”, completa.